O Plebeu

Capítulo Cinco

Sasuke

Eu não consegui nem pensar em dormir naquela noite. O meu sono foi completamente roubado. A minha mente não parava um segundo sequer de relembrar os eventos de horas antes – que, de tanto se repetirem, pareciam ter acontecido meses atrás. Eu me esforçava ao máximo para pensar em outra coisa, como na montanha de matéria que eu tinha que estudar para a prova de Álgebra ou o jogo de futebol estudantil da próxima semana, mas esses pensamentos não duravam mais do que um milésimo de segundo. A minha mente sempre voltava para o rosto de Sakura, imóvel, olhos arregalados, esparramada no chão.

O meu estômago se embrulhava a ponto de querer me fazer vomitar só de pensar no que aconteceu naquela cozinha. As mãos daquele desgraçado na pele branca dela, as lágrimas que escorriam pela bochecha dela, os gritos de socorro, a imagem dele levantando as calças... Merda. Merda, merda, merda. Eu precisava desesperadamente assassinar alguém, e esse alguém em específico provavelmente estava deitado na sua cama que deveria valer mais do que os meus pais tinham no banco, a poucos metros de Sakura – e dormindo ao lado da mãe dela.

Ela não merecia isso. Por mais que eu a odiasse e tivesse gostado de vê-la se ferrando por causa do cigarro, eu nunca na minha vida desejaria isso a ela. Eu não era tão filho da puta assim.

Eu olhei as horas na tela do meu celular. Quase sete da manhã. Eu não tinha nem pensado em chegar perto de dormir. Eu suspirei, passei uma mão pelo cabelo e fechei os olhos.

Eu me perguntava o quê Sakura estaria fazendo agora. Como ela estaria lidando com isso? Estaria ela chorando? Muito provavelmente. Ela gostava de se fazer de durona e indestrutível na frente dos outros, mas ela com certeza teria problemas mentais se não fosse afetada por isso. Céus, até eu que me mantive o mais distante possível dela estava extremamente inquieto, ela deveria estar no mínimo um milhão de vezes pior do que eu.

Teria ela procurado alguma ajuda? Ela deveria contar para a mãe dela. Eu sabia que muitas vítimas... disso... gostam de manter isso para si mesmas, mas eu torcia internamente para que Sakura fosse uma exceção. Ela não deveria passar por isso sozinha e, além disso, deveria avisar para a mãe dela o tipo de pessoa com quem ela se casou. Tomara que ela denuncie o desgraçado. Eu não hesitaria por nada se ela quisesse que eu testemunhasse a favor dela.

Eu estava perdido nos meus pensamentos – Sakura, Sakura e Sakura – quando a porta do meu quarto se abriu com um estrondo. Eu imediatamente me sentei na cama tanto de susto quanto em alerta.

"O que foi que você fez?" o meu pai rugiu por entre os dentes. A boca dele espumava em fúria.

Merda. Sete horas da manhã era cedo demais para encarar a ira do meu pai. Eu não sabia se era o meu cérebro cansado ou se o meu pai realmente não estava fazendo sentido, mas eu não fazia ideia do que ele estava falando. Porém, dizer que eu não estava entendendo não era uma opção ali. Só faria ele ficar mais nervoso. Por isso, eu esperei que ele continuasse.

"O Sr. Matsumoto está te chamando para uma conversa em particular no escritório dele," ele disse, dando um passo para dentro do meu quarto e na minha direção. "Que merda você fez, seu moleque? Huh?"

"Eu não fiz nada." Apesar de ser a verdade aquilo provavelmente não era a melhor coisa a se dizer, mas foi o que acabou saindo da minha boca.

"Nada? Você acha que eu sou um idiota?" ele gritou. A minha mãe, alarmada, apareceu na porta do quarto tão confusa quanto eu. Eu me sentei na beirada da cama, colocando os meus pés no chão. "Você acha que o Sr. Matsumoto iria te chamar para o escritório dele se você não tivesse feito nada? E ele disse que era urgente!" O meu pai me pegou pela gola da camisa e me colocou de pé. "Fale logo o que fez, moleque! Eu vou te matar antes mesmo de o Sr. Matsumoto poder falar com você –"

"Fugaku, pare com isso!" A minha mãe tentou se colocar entre o meu pai e eu, mas ele era mais forte do que ela e não diminuiu a intensidade do seu aperto na minha blusa quando ela agarrou o antebraço dele em desespero. "Ele não fez nada!"

Há anos eu já não conseguia ficar com medo do meu pai. Depois de conviver toda a minha vida com as mudanças bruscas de humor dele era de se esperar que eu me adaptasse. Eu já sabia o que o deixava com raiva e o que fazer caso ele ficasse – como agora. O melhor seria ficar calado e deixar que ele gritasse o que quer que queria gritar comigo, sem interferir, sem contrariar. Ele queria achar que eu fiz alguma coisa, que ache. Os meus apelos nunca mudariam a opinião de um cabeça dura como ele.

Além disso, com dezessete anos, eu era mais alto e mais forte do que ele. Os anos de futebol americano me deram alguns músculos que me colocavam em vantagem em relação ao meu pai. Eu não era mais aquele garotinho franzino que se acuava quando ele decidia que queria descontar em mim qualquer frustração dele. Eu o olhava de cima para baixo e não mais de baixo para cima.

Olhando-o nos olhos com uma calma e indiferença que, eu sabia, iriam irritá-lo, eu tirei as mãos do meu pai da minha blusa. "Eu vou trocar de roupa e ver o que ele quer."

Ao contrário do que eu esperava, a minha falta de reação pareceu irritar ainda mais o meu pai. Os olhos dele se estreitaram e as suas mãos se fecharam em punhos ao seu lado. A minha mãe, sentindo a raiva que emanava do meu pai, me abraçou. Ela estava pronta para me proteger caso ele atacasse, mas eu jamais deixaria que ela se machucasse – principalmente assim. Eu me desprendi dela e a posicionei atrás de mim.

"Eu preciso me arrumar antes de ver o que ele quer." Aquilo era a minha maneira educada de colocá-lo para fora do meu quarto.

O meu pai me encarou por alguns segundos. Ele ainda não sabia o que fazer com a minha calma. Estava acostumado com as minhas lágrimas e Itachi para me defender sempre que ficava bravo comigo. Mas, nos últimos anos, as coisas haviam mudado, e ele parecia ainda procurar por uma maneira de me afetar.

"Se a merda que você tiver feito nos demitir, eu te mato!" ele gritou antes de sair do meu quarto, pisando forte e batendo a porta com o mesmo estrondo com que a abriu.

A minha mãe soltou um suspirou aliviado atrás de mim. Eu encarei o rosto dela. Os olhos dela estavam cheios d'água, como sempre ficavam quando eu e o meu pai brigávamos. A minha irritação com o meu pai aumentou. Eu detestava vê-la assim, e a culpa era toda dele.

"Está tudo bem, mãe," eu tentei tranquiliza-la, abraçando-a e dando um beijo no topo da sua cabeça.

Ela fungou e limpou uma lágrima que escapou. Merda. Duas mulheres chorando na minha frente em um espaço de 24 horas. Aquele estava caminhando para ser um dos piores finais de semana da história.

"Filho, eu sei que você não fez nada. Eu acredito em você," ela me disse com uma voz ainda triste. O voto de confiança dela era tudo o que eu precisava. "Mas, o que o Sr. Matsumoto poderia querer com você? Aconteceu alguma coisa no colégio?"

"Eu não sei."

A verdade era que eu tinha uma ideia do que ele realmente queria comigo. Não podia ser coincidência que ele estivesse me intimando para o escritório dele em um domingo às sete da manhã com urgência poucas horas depois de eu tê-lo pego no flagra molestando a sua enteada. Além disso, eu não tinha feito absolutamente nada de nunca havia exigido a minha presença. O fato de isso acontecer em um domingo, quando eu e os meus pais teoricamente tínhamos folga de qualquer atividade na mansão, deixava tudo aqui ainda mais estranho.

Ele só podia estar querendo conversar sobre o que aconteceu na noite anterior. Entretanto, eu não sabia se eu estava preparado para isso. Eu estava cansado de ter passado a noite em claro, acumulando o meu ódio por ele. Eu ainda não tinha certeza de como reagiria se o visse, especialmente se ficarmos sozinhos em um espaço confinado. As imagens de Sakura, indefesa e machucada, ainda estavam vivas demais na minha mente, e ainda incitavam coisas estranhas dentro de mim que eu não conseguia controlar.

Mas, eu não tinha outra opção senão acatar com a ordem do patrão. Se eu recusasse – por mais que essa fosse a decisão mais sensata naquele momento, considerando as circunstâncias – eu poderia estar colocando em risco não só o emprego dos meus pais como também a minha bolsa no Saint Bernard. Eu sabia como o desgraçado do Matsumoto era ignorante e duro com os seus empregados. Ele não tinha respeito nenhum por eles e agia como um ditador. A minha mãe me disse que só continuava trabalhando com ele por causa da mãe de Sakura, por elas serem muito amigas.

Eu não sabia do que eu era capaz quando eu o visse, mas eu tinha que vê-lo. Não podia colocar o emprego dos meus pais em jogo só porque eu ainda não tinha controle sobre o meu ódio por Matsumoto. Eu tentaria me comportar.

Tentaria.

"Eu vou sair para deixar você trocar de roupa," a minha mãe disse, me dando um sorriso triste.

"Não. Fique aqui." Eu iria mantê-la ao alcance dos meus olhos naquele momento. O meu pai estava com raiva demais, e eu não confiava nele para ficar perto da minha mãe. Ela tentaria acalmá-lo, o que o deixaria ainda mais irado, e eu não queria deixa-la sozinha com ele caso isso acontecesse. Eu não iria cometer o mesmo erro duas vezes.

Ela se sentou na cama enquanto eu colocava uma calça jeans e uma camisa preta. Eu não me importava de ficar seminu na frente dela. Ela era a minha mãe. Já tinha me visto em estados muito piores e mais embaraçosos do que isso. Além disso, se me ver quase pelado era um sacrifício para que ela ficasse longe do meu, eu o faria sem pestanejar.

"Você acha que tem algo a ver com a sua discussão com Sakura ontem?" ela indagou quando eu terminei.

Eu odiava mentir para ela, mas não podia dizer que, sim, tinha algo a ver com a minha discussão com Sakura. Afinal, foi por causa da nossa briga que eu tive que voltar para a cozinha e me deparar com o padrasto nojento dela em cima dela. Mas eu não podia dizer isso para a minha mãe. Não podia dizer isso para ninguém, não sem antes conversar com Sakura e ter a autorização dela para isso.

Para a minha mãe, eu demorei para voltar para casa ontem à noite porque eu e Sakura tínhamos conversado e reconciliado. Ela ficou satisfeita demais em nos ver em paz para fazer mais perguntas. Eu tinha voltado para casa sem camisa, e justamente para evitar que ela desconfiasse de qualquer coisa, entrei em casa pela janela do meu quarto e recoloquei uma blusa parecida com a que eu tinha deixado com Sakura. Por sorte ela não percebeu. Estava feliz demais por achar que eu e Sakura éramos amigos novamente – o que, na verdade, estava longe de acontecer.

Eu suspirei e passei uma mão pelo cabelo. "Eu não sei. Não faço ideia do que ele quer comigo." Ela assentiu, mas não parecia convencida. Ainda estava preocupada. Eu fui até ela e peguei uma das suas mãos. "Mãe, pare de se preocupar. Eu não fiz nada de errado. Vai ficar tudo bem. Ele provavelmente quer que eu faça algum serviço ou algo assim." Eu sabia que a possibilidade de ser verdade o que eu disse era remota, mas eu esperava que fosse o bastante para tranquiliza-la um pouco.

"Tudo bem, filho. Eu acredito em você."

Xxxx

Eu hesitei antes de bater na porta do escritório do Sr. Matsumoto. Eu nunca estive lá dentro e, sinceramente, esperava nunca estar. Eu sabia que ele era um filho da puta antes mesmo de ver o que vi ontem à noite. Eu detestava a maneira como ele tratava os empregados, e só isso já era o suficiente para me fazer desgostar dele. O que aconteceu ontem apenas elevou o nível do meu desgosto para algo quase sobrenatural. Parecia que o meu nojo por ele não cabia no meu corpo.

Eu bati. Exatos três segundos depois eu ouvi a voz dele do outro lado me dando permissão para entrar.

"Ah, Sasuke Uchiha. Que bom que está aqui." Ele me recebeu com um sorriso nervoso que eu não retribuí. Ao invés disso eu fechei ainda mais a minha cara. Eu queria quebrar todos os dentes daquele sorriso. "Por favor, feche a porta."

Eu fiz o que ele pediu e andei até para de frente para a escrivaninha dele. Ele estava sentado em uma cadeira grande do outro lado. Parecia nervoso, inquieto. Eu vi um charuto apagado em cima da mesa.

Eu esperei que ele começasse a conversar. Entretanto, o meu cansaço encurtou consideravelmente a minha paciência, e eu disse: "Mandou me chamar?" Eu deveria acrescentar um "senhor", mas o pouco de respeito que eu tinha por ele já não existia mais e eu não me vi mais na obrigação de reconhecer a posição dele na hierarquia. Do meu ponto de vista ele passou a ser um verme asqueroso, e era assim que eu o trataria – ou melhor, queria tratar, mas não podia sem colocar o emprego dos meus pais na linha.

"Sim, mandei," ele enfim respondeu, ainda com um sorriso. "Como você está, garoto?"

Ele só podia estar de brincadeira comigo. Ele achava que eu fui até a porra do escritório dele às sete da manhã da porra de um domingo para conversar fiado como se fôssemos grandes amigos? Ele provavelmente nem sabia da minha existência antes da noite anterior e agora queria saber como eu estava?

Eu estou nauseado de ter que dividir o mesmo aposento que você.

Eu tive que engolir sem seco para engolir aquelas palavras.

Quando eu não disse nada, ele suspirou e esfregou uma mão no rosto.

"Eu acho que você sabe por que está aqui."

As minhas suspeitas estavam corretas. Ele realmente queria falar do crime que cometeu. A raiva que eu tentava controlar desde que bati na porta ferveu o meu sangue. Eu tive que enfiar as mãos nos bolsos da calça e fechá-las para me impedir de fazer uma besteira.

Eu continuei calado. Não sabia o que podia sair da minha boca se me desse uma brecha.

"Eu sei que você sabe o que aconteceu ontem à noite," ele esclareceu, como se eu fosse a porra de um idiota que não tivesse entendido o que ele disse na primeira vez. Filho da puta desgraçado.

Eu continuei sem dizer nada.

Ele se empertigou na cadeira, colocou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos. Parecia prestes a fazer um negócio. "Eu te chamei até aqui para me certificar de que você é um garoto tão inteligente quanto a minha esposa diz que é." Confesso que fiquei levemente surpreso com aquela declaração. "Eu não preciso te lembrar o que o seu silêncio vale, não é, garoto?"

O meu estômago se revirou. O nojo que eu sentia daquele homem estava atingindo níveis que eu nunca achei que fossem possíveis. Eu respirei pelo nariz. Mantenha o controle, Sasuke.

Eu o encarei diretamente nos olhos. Não iria demonstrar fraquezas na frente dele.

"Eu te aconselho fortemente a ficar tão calado quanto está agora. Se eu souber que você abriu o bico para quem quer que seja os seus pais vão para o olho da rua e eu te garanto que eles nunca mais conseguirão qualquer emprego neste país. Eu não estou exagerando. Tenho os meus contatos que tornarão isso possível, mas não é isso que queremos. Concorda comigo?"

Eu merecia um Nobel da Paz por me conter. Eu não sei de onde eu tirei forças para não voar no pescoço daquele desgraçado naquele exato momento, que se fodam as consequências. Ele ousava ameaçar os meus pais bem na minha frente, olhando nos meus olhos, como se fosse eu o errado naquela história.

"A universidade que você tanto quer – Yale, não é mesmo?" Ele verificou aquela informação em um dos papeis espalhados pela mesa. Algo me dizia que a minha vida inteira estava espalhada ali. Não havia outro jeito de ele saber do meu desejo de ir para Yale sem que ele de alguma forma tenha fuçado a minha vida. Eu certamente não tinha dito porra nenhuma para ele.

"Se uma palavra sair da sua boca... Pode se esquecer dela. Nem ela nem nenhuma outra universidade nesse planeta abrirá as portas para você nem se você quiser ser um zelador de merda. Você será só mais um ninguém nesse mundo – você e os seus pais, está me ouvindo?"

Eu estava ouvindo. Estava ouvindo e pronto para mata-lo.

"Eu te fiz a porra de uma pergunta, garoto!" ele gritou e se levantou, espalmando as mãos na mesa. Se quer me assustar, é melhor fazer um trabalho melhor, seu filho da puta. "Você é mudo ou está se fazendo de idiota? Eu perguntei se você ouviu o que eu disse!"

Eu engoli em seco – não por nervosismo, mas para deixar as palavras dentro da minha boca. "Perfeitamente."

"Ótimo." Ele voltou a se sentar. Ele não parecia ótimo. O rosto dele ainda mostrava sinais de raiva. "Fico feliz que tenha captado a mensagem. Por um instante eu achei que você não estivesse entendo o que eu estava dizendo – mas isso não seria um problema. Eu tenho um método de comunicação que qualquer pessoa entenderia."

E ele tirou uma arma da gaveta.

Putamerda. O desgraçado tinha uma arma. Eu estava sozinho dentro do escritório de um homem que tinha a porra de uma arma.

Aquela foi a primeira vez que eu realmente fiquei com medo. Eu não duvidava que ele fosse capaz de usá-la. Se a mente dele era distorcida o suficiente para assediar sexualmente a sua enteada dentro da própria casa, nada o impediria de matar o mero filho de um dos empregados para evitar que o seu segredo saísse.

Ele colocou a arma na mesa, mas não tirou a mão dela.

Xxxxxx

Sakura

Fiquei surpresa ao olhar para as portas de vidro da minha varanda e ver fracos raios de sol passando por elas. Como já poderia ser de manhã? Eu me lembrava de ter me deitado poucos minutos, no máximo uma hora, atrás. O tempo não poderia ter passado tão depressa assim. Peguei o meu relógio – que ficou ao meu lado na cama, pronto para ser usado caso eu precisasse fazer uma ligação de emergência – e vi que já passava das sete da manhã. A última vez que eu verifiquei as horas não era nem uma da manhã.

Eu me sentei na cama, exausta de tudo. Do que tinha acontecido na noite anterior, dos meus pensamentos, do ódio que estava me consumindo, além do cansaço físico. Eu não tinha conseguido dormir – e suspeitava que essa noite não seria a primeira a ser passada em claro. Como eu poderia pensar em fechar os olhos quando o homem mais detestável e nojento que já passou pela minha vida dormia no mesmo andar que eu?

Eu me levantei para ir ao banheiro e me senti tonta, fraca. Não era difícil deduzir o porquê. Eu tinha passado a noite toda em claro sem comer nem beber absolutamente nada. Eu não tinha coragem de sair do meu quarto sozinha no escuro para pegar qualquer coisa na geladeira. Além disso, o que quer que me restava de comida no estômago do jantar de muitas horas atrás já tinha sido expelido sob a forma de vômito diversas vezes. Isso sempre acontecia quando eu me lembrava daquele desgraçado.

Eu precisava comer alguma coisa. Sentia que poderia desmaiar a qualquer momento caso arriscasse ficar mais tempo sem comer. Eu olhei para o relógio do meu celular mais uma vez. Eram mesmo sete da manhã de um domingo. Ninguém naquela casa costumava acordar esse horário nesse dia. Todos costumava aproveitar a folga para dormir até tarde. Como eu sempre saía aos sábados à noite – e ontem foi uma exceção que obviamente não deu certo – eu também demorava para acordar aos domingos.

Portanto, não deveria ter ninguém acordado naquela hora. Talvez fosse seguro eu me aventurar pela casa em busca de qualquer coisa para acalmar o meu estômago vazio.

Eu olhei para a minha escrivaninha e vi uma tesoura. Eu me sentia corajosa o suficiente para fazer uma rápida viagem até a cozinha, mas não o faria sozinha. Não de novo. Eu não poderia cometer o mesmo erro outra vez – não agora que eu sabia do que aquele crápula era capaz. Com uma mão trêmula eu peguei e tesoura e saí do quarto.

Eu desci as escadas lentamente, atenta a qualquer barulho – a qualquer coisa que indicasse que eu não estava sozinha. Entretanto, eu não me senti nem um pouco aliviada por encontrar apenas o silêncio; pelo contrário, fiquei ainda mais nervosa. E se ele aparecesse de repente e me assustasse a ponto de eu demorar demais para reagir? E se ele soubesse que eu não estava no quarto e que estava sozinha, andando por aquela casa enorme? Eu apertei os meus dedos ao redor da tesoura e continuei.

Todos os meus músculos ficaram tensos quando ouvi sons vindos da cozinha. Era uma voz – ou melhor, duas. Parecia que elas estavam conversando entre si. Eu engoli em seco enquanto uma gota de suor escorria pelas minhas costas. Matsumoto já estava acordado? Não era possível. Por favor, Deus, faça com que isso não seja possível. Eu precisava muito comer alguma coisa – e em hipótese alguma eu entraria naquela cozinha ou em qualquer lugar que aquele filho da puta estivesse.

Eu segurei a tesoura com mais firmeza e, como nos filmes de suspensa, colei as minhas costas na parede ao lado da portada cozinha, respirei fundo e rapidamente inclinei a cabeça para ver quem é que estava lá dentro.

Qual não foi a minha surpresa ao ver o casal Uchiha.

"Mikoto?" eu a chamei, confusa. O que, diabos, eles estavam fazendo ali – e parecendo extremamente nervosos? Aquele deveria ser o dia de folga deles. Teria alguma coisa acontecido com Sasuke? O meu coração pulou uma batida só de pensar nessa possibilidade.

Ela ergueu a cabeça e me encarou tão surpresa quanto eu estava. Fugaku não esboçou reação nenhuma.

"Sakura, querida, o que você está fazendo aqui a essa hora? Eu não me lembro de ter te visto acordar tão cedo em um final de – o que aconteceu com o seu rosto?"

Merda. Eu havia me esquecido dos hematomas no meu olho e lábio deixados pelo filho da puta. Eu evitei olhar no espelho durante toda a noite – eu tinha ânsia de vômito toda vez que olhava – mas eu sabia que o meu rosto não deveria estar nada bonito, especialmente se considerarmos o cansaço que, eu sabia, também estava transparente.

"Eu, hum, caí no banheiro," foi o que eu disse. Tive tempo durante as horas que fiquei acordada para formular uma desculpa para aqueles machucados. Aquela parecia ser a menos absurda que eu pude pensar. "Escorreguei no sabonete."

"Oh, querida, alguém te ajudou? Você não acha que deveria ir a um hospital? Cair no banheiro pode ser muito perigoso." Mikoto apareceu na minha frente com um semblante de preocupação. Ela parecia genuinamente aflita de me ver assim – não parecia, mas estava. Eu conhecia aquela mulher há anos. Era praticamente família. E eu sabia do coração mole dela. Com toda a certeza ela estava realmente preocupada em me ver machucada.

Por um breve instante eu pensei em contar tudo a ela. Ela era a pessoa mais confiável que eu conhecia e eu sabia que ela poderia me ajudar. Eu sempre me apegava às palavras dela quando precisava de algum conselho. Foi isso o que ela fez quando o meu pai morreu. Ficou ao meu lado quando eu mais precisei de alguém enquanto a minha mãe saía a procura de um marido novo.

Mas algo me impediu. As palavras que eu formulei na minha cabeça não passaram pela minha garganta. Naquele momento eu não sabia por quê.

"Não, eu... Eu estou bem. De verdade. Não precisa se preocupar." Eu tentei sorrir da forma mais verdadeira possível, mas eu não consegui – primeiro porque o meu lábio doía como nunca, e segundo, porque eu não tinha motivos para sorrir. "O que vocês estão fazendo aqui?"

Eu olhei para Fugaku. Ele não pareceu nem um pouco afetado pelos meus machucados.

"Por que você está segurando essa tesoura?" Mikoto me perguntou e, dessa vez, eu não tinha uma desculpa pronta. Eu não podia dizer que estava me defendendo de um ataque em potencial do meu padrasto. Eu queria dizer, mas, novamente, a minha garganta se fechou e as palavras que eu realmente queria dizer não saíram.

Eu tinha que pensar rápido, ou eles desconfiariam. Fugaku já me olhava com uma cara estranha. Eu definitivamente não gostava daquele homem, e eu tinha quase certeza de que o sentimento era recíproco.

"Eu estava precisando de uma tesoura para uma coisa do, hum, colégio, e achei essa aqui embaixo," foi o que eu disse. Eu não procurei explicar aonde exatamente aqui embaixo – até porque eu não consegui pensar em tantos detalhes assim em dois segundos, especialmente no estado em que eu estava. "Eu pensei em passar aqui na cozinha para pegar um copo de leite antes de voltar."

"Você estudando em pleno domingo de manhã? Hoje realmente é um dia estranho."

"Como assim 'estranho'?" O meu coração gelou. O que poderia ter acontecido em um domingo às sete da manhã para que Mikoto já classificasse aquele dia como estranho? Não era possível que já tinha dado tempo de acontecer alguma coisa. Será que ela desconfiava de algo da noite anterior? Será que Sasuke falou alguma coisa que a deixou com a pulga atrás da orelha?

Eu não duvidava que ele fosse capaz de fazer isso. Afinal, ele já tinha aberto aquela boca maldita para me dedurar outras vezes – ah, não, eu tinha me esquecido. Provavelmente não foi ele quem falou do cigarro para o escroto do Matsumoto – mas isso não importava agora. Ele me odiava e podia muito bem contar para mais alguém o que tinha acontecido só pelo prazer de me ferrar.

Ela e Fugaku trocaram mais um olhar. Mikoto se preparou para falar alguma coisa quando foi interrompida pelo seu amigável marido.

"Não fale nada," foi o que o Uchiha mais velho disse subitamente. O tom de voz dele fazia um calafrio descer pela minha espinha.

"Fugaku, talvez ela saiba de alguma coisa!" ela protestou.

"Alguma coisa sobre o quê?"

A minha pergunta foi ignorada. "Ele já deve estar voltando," Fugaku argumentou. Eu franzi o cenho em confusão. Do que eles estão falando?

"Eu não consigo esperar, Fugaku! Eu acho que o meu coração vai explodir se mais um minuto se passar e eu não souber o que está acontecendo!" Ela se virou para mim enquanto o seu marido suspirava em derrota. "Sakura, querida, você sabe o que o seu padrasto poderia querer com Sasuke? Sabe se há algo de errado no colégio ou... ou se ele fez alguma coisa para desagradar o Sr. Matsumoto?"

Eu senti como se um soco tivesse sido dado na boca do meu estômago. "Do que você está falando, Mikoto?"

"O Sr. Matsumoto chamou Sasuke para uma reunião no escritório poucos minutos atrás." Ela pegou as minhas mãos – inclusive a que ainda segurava a tesoura. "Sakura, querida, por favor. Você sabe de alguma coisa? Eu confio em Sasuke e eu sei que ele é um bom menino. Eu não consigo imaginar qualquer coisa que ele tenha feito de errado! Ele aprontou alguma no colégio, não foi? Oh, meu Deus, ele não pode perder essa bolsa. Ele ficaria arrasado se não pudesse mais estudar no Saint Bernard – e Deus sabe que nós não temos condições de pagar uma mensalidade lá –"

O tagarelar de Mikoto foi interrompido pela chegada de Sasuke.

Eu senti a presença dele na porta da cozinha, atrás de mim, antes mesmo de vê-lo. Era como se alguma coisa exalasse dele e me envolvesse, fazendo o meu coração bater descompassado e a minha respiração falhar. Sempre foi assim desde que eu me lembre, mas, agora, a intensidade com que eu era arrebatada pela mera existência dele foi demais. Eu nunca senti algo assim.

"Sasuke, meu filho, até que enfim!" Mikoto me largou e correu até o seu filho com Fugaku em seu encalce. Eu demorei para me virar e ver a cena atrás de mim. Os meus olhos encontraram os de Sasuke. Eu levei uma mão ao coração para tentar desacelerá-lo. "O que aconteceu? O que ele queria? Você está encrencado?"

Sasuke continuou a olhar para mim mesmo enquanto a sua mãe o agarrava pelos ombros.

"Ele estará encrencado se tiver feito alguma merda. Fale logo, Sasuke!" o grito de Fugaku tirou tanto eu quanto Sasuke do nosso torpor. Meu Deus, esse cara me dá muito medo. Nós quebramos o contato visual, e eu passei a analisar a tesoura ainda na minha mão.

"Está tudo bem," eu o ouvi dizer, ainda sem olhar para ele. "Ele só queria saber se eu podia levar o carro dele para lavar na cidade. Só isso."

Eu não conhecia Sasuke tão bem assim, mas consegui ouvir uma mentira na voz dele. Foi só olhar para ele que as minhas suspeitas se confirmaram. Não tinha sido esse o motivo pelo qual Matsumoto o chamara. Não precisava ser um gênio para saber o teor da conversa deles.

Mikoto e Fugaku também não pareceram crer muito naquela justificativa.

"Isso não faz sentido," o pai de Sasuke disse. "Quando ele ligou lá para casa ele me disse que era urgente. Não há nada de urgente em levar a porra de um carro para lavar!"

"Fugaku, olhe o seu linguajar! Sakura ainda está aqui!" Mikoto o repreendeu, mas ele não pareceu muito interessado nem em ouvir o que ela tinha a dizer, muito menos em obedecê-la.

"Você está mentindo," ele acusou Sasuke. "O que foi que você fez que não quer nos contar? Fale, Sasuke! Eu estou perdendo a minha paciência. Era seu aquele cigarro que eu encontrei, não era? Só pode ser isso. Ele deve ter descoberto que era seu."

Eu soltei um arfar de surpresa. Foi Fugaku quem achou o maldito cigarro? Fugaku? Eu tinha culpado o Uchiha errado esse tempo todo. Mas o que, diabos, Fugaku estava fazendo debaixo da varanda do meu quarto? Como ele tinha achado aquele cigarro? Por um acaso ele tinha um cão farejador que eu não conhecia?

Eu recuei um passo. Fugaku acabava de me aumentar o meu nível de medo por ele. Como Sasuke conseguia se manter impassível?

"Eu não sei do que está falando," Sasuke respondeu com a mesma voz monótona de sempre. "Eu não fumo. Você sabe disso. Se não quer acreditar em mim, pergunte ao seu patrão."

O pai dele não pareceu muito convencido, mas se calou.

Mikoto suspirou aliviada com uma mão no peito. "Graças a Deus está tudo bem. Eu sabia que você não tinha feito nada, meu filho. Meu Deus, mas que susto esse homem nos deu! Precisava fazer esse alarde todo para levar um carro para lavar? Oh, me desculpe, Sakura, querida. Eu não quis desrespeitar o Sr. Matsumoto."

Você pode desrespeitá-lo o quanto quiser, Mikoto. "Não tem problema."

"Bem, agora que tudo está resolvido podemos tomar o nosso café em paz," ela contemplou. "Vamos, meninos. Vamos parar de importunar a pobre Sakura em um domingo de manhã." Ela foi embora, seguida por um Fugaku ainda furioso – e eu sinceramente não conseguia entender o porquê.

Sasuke se demorou para acompanhar os seus pais. Ele ficou me encarando pelo que pareceu ser uma eternidade. O meu coração já acelerado bateu ainda mais rápido e forte.

Olhando para mim ele não parecia mais tão inabalável como antes. Ele me encarava de uma forma estranha. Ele nunca tinha olhado para mim assim – e eu não saberia descrever o que era esse assim.

"Eu preciso conversar com você," eu disse antes que eu pudesse me policiar. Sim, eu realmente precisava conversar com ele, mas talvez um domingo às sete e tantas da manhã não fosse o momento mais apropriado. Entretanto, a minha curiosidade sobre o que exatamente Matsumoto e ele conversaram superou a minha paciência.

E, eu não iria admitir isso para mais ninguém, mas, por mais nervosa e estranha que eu ficasse perto dele, eu me sentia bem. Desde que eu pus a cabeça no travesseiro e me desatei a chorar durante a noite toda eu não me senti tão tranquila quanto eu estava agora, olhando para aqueles olhos que pareciam me dizer tudo e nada ao mesmo tempo.

Ele assentiu. "Me deixe avisar a minha mãe."

Eu concordei e ele foi atrás dos seus pais, correndo para alcança-los. Eu senti um frio inexplicável quando ele foi embora. Pela primeira vez eu tive tempo para realmente olhar para aquela cozinha. Vazia. Eu estava sozinha. Exatamente como Matsumoto me encontrou na noite passada.

Eu não consegui ficar ali dentro sozinha. Eu me sentia prestes a vomitar – e eu não podia vomitar de novo. Não havia nada no meu estômago para expelir, e eu já estava fraca demais.

As minhas pernas me levaram para a porta dos fundos, mas antes que eu pudesse passar por ela e correr atrás de Sasuke para que ele não me deixasse sozinha, ele voltou, e eu acabei trombando nele. Ele segurou os meus braços para que eu não caísse.

"O que foi? Por que você está correndo?" ele perguntou, olhando por cima do meu ombro, para dentro da cozinha.

Eu não sabia o que dizer. Eu tenho medo de ficar sozinha. "Você estava demorando." E, novamente, nós ficamos nos encarando até eu recobrar os sentidos e pigarrear. "Eu preciso comer alguma coisa antes de conversarmos."

Ele assentiu e me soltou. Rapidamente eu abri a geladeira, peguei de lá uma caixa de suco de laranja e algumas frutas – eu suspeitava que o meu estômago não fosse aceitar muita coisa além disso. Sasuke me esperou pacientemente de braços cruzados.

"Eu..." Eu mordi o lábio. "Eu não consigo comer aqui. Podemos ir para o meu quarto?" Aquela pergunta teria soado bem suja se eu tivesse sido dirigida a outra pessoa, em um outro contexto. Naquele momento, não havia absolutamente nada de sexy nela.

Sasuke assentiu e, quando eu dei um passo para sair, ele fez um gesto com a cabeça indicando algo no chão. "O que essa tesoura está fazendo aqui?"

Eu acompanhei o olhar dele e vi que a tesoura que eu segurava no chão. O que ela estava fazendo ali? Eu não me lembrava de tê-la deixado cair. Isso provavelmente deve ter acontecido quando eu perdi a minha capacidade de raciocínio um minuto atrás e corri atrás de Sasuke.

"Ela é minha," eu murmurei, levemente envergonhada.

Sasuke não disse mais nada. Só de olhar para mim ele obteve a resposta da sua pergunta. Calmamente ele pegou a tesoura, como se aquilo não fosse uma arma em potencial – e que eu usaria sem nenhum remorso caso precisasse.

Em silêncio, nós fomos para o meu quarto. Eu não desliguei a minha cabeça cansada por um segundo sequer durante todo o trajeto. Matsumoto poderia ter saído do escritório onde conversou com Sasuke e estar andando pela casa. Eu não queria encontra-lo – eu não podia encontra-lo.

Soltei um suspiro de alívio quando finalmente fechei a porta do meu quarto atrás de mim e girei a chave para trancá-la. Distraidamente eu ouvi Sasuke colocar a tesoura de volta na minha escrivaninha.

Ele parou no meio do meu quarto, de braços cruzados e me encarando – ele estava sempre me olhando ultimamente.

"Eu..." A minha voz saiu engraçada, meio esganiçada, e eu tive que limpar a garganta antes de continuar. "Sasuke, eu preciso conversar com você –"

"Coma primeiro."

O quê? Eu arregalei os olhos, surpresa com a ordem dele – e, sim, aquilo era uma ordem e, sim, a minha mãe e o filho da puta ainda eram os patrões dos pais dele e mesmo assim ele falava comigo em um tom autoritário.

"Eu preciso conversar com você antes," eu insisti. Eu precisava tirar isso do peito de uma vez, e tinha que aproveitar o que ainda me restava de coragem para falar com ele.

Ele balançou a cabeça em negativa. "Coma. Eu espero."

Eu pensei em protestar mais um pouco, mas eu realmente estava com fome. Aquelas frutas na minha mão pareciam o banquete mais delicioso da história por causa da minha fome.

Eu passei por ele para me sentar na cadeira que acompanhava a minha escrivaninha. Eu dei uma mordida na maçã e a minha barriga quase fez uma dança de satisfação. Parecia que ela não via nada agradável há anos.

"O que Matsumoto queria com você?" eu perguntei depois de dar outra mordida.

"Termine de comer."

Que obsessão é essa de Sasuke em me ver comer? "Eu posso comer e falar ao mesmo tempo."

"Que bom para você. Parabéns, mas não vai fazer isso agora. Coma."

"Sasuke, eu preciso saber –"

"Eu vou te dizer. Termine de comer, Sakura. Eu não vou a lugar nenhum."

Concluindo que eu não iria ganhar aquela discussão – e que eu realmente precisava comer – eu fiz o que ele pediu – ou melhor, ordenou. Em silêncio, eu comi duas maçãs e uma banana, tomando suco de laranja para ajudar a descer. Sasuke ficou andando pelo meu quarto com as mãos nos bolsos. Eu não estava exatamente à vontade por ele estar fazendo isso, mas eu não tinha outra escolha. Não podia manda-lo sentar na minha cama – isso seria mais estranho ainda.

"Por que Matsumoto te chamou até o escritório dele?" eu repeti quando terminei. Eu me sentia mais forte a cada segundo.

Ele parou de andar e ficou de pé na minha frente. "Você já deve saber o que ele queria."

Eu respirei fundo e assenti. Era claro que eu sabia – quero dizer, desconfiava. "O seu silêncio."

Ele confirmou com a cabeça.

"E o que foi que você disse?"

Foi a vez de Sasuke suspirar e passar uma mão pelo cabelo preto. "Eu não tive outra opção."

Eu me levantei e fui para frente dele. "Sasuke, ele te ameaçou?"

Ele me encarou e assentiu.

"Como?"

"Os meus pais."

"O que ele falou dos seus pais? Que iria demiti-los?"

"E que eles nunca mais arranjariam um emprego."

Eu não duvidava que ele fosse capaz de fazer isso. Matsumoto era um dos homens mais importantes do país, talvez até do continente. Ele devia ter as suas maneiras sujas de conseguir tudo o que queria.

Desgraçado. Filho da puta. Eu queria dizer a Sasuke que eu sentia muito, que eu não queria envolve-lo nessa história, mas eu não podia. Afinal, se ele não tivesse entrado na cozinha... Eu não conseguia nem pensar no que aconteceria.

"Eu falaria por você," ele disse de repente.

Eu não tinha entendido. "O quê?"

Ele passou outra mão pelo cabelo. "Quando você denunciá-lo. Eu não vou ficar calado caso precise de mim."

Eu honestamente fiquei muito mais emocionada do que devia com a declaração dele. Ele estava disposto a colocar os pais dele no olho da rua para me ajudar a colocar Matsumoto atrás das grades? Eu nunca esperaria isso dele. Pelo pouco que eu conhecia de Sasuke ele me odiava intensamente. Talvez o ódio dele não fosse tão grande assim.

"Não se preocupe. Você não vai precisar de fazer isso. Eu não vou denunciá-lo."

Ele prendeu a respiração por um momento. "Você não vai denunciá-lo."

"Não," aquilo não era uma pergunta, mas eu respondi assim mesmo.

Ele fez uma pausa. "Por quê?"

"E-Eu não posso," eu resmunguei.

"É claro que pode, Sakura. É só abrir a boca e falar. Eu te levo na delegacia."

"Eu não vou denunciá-lo, Sasuke," eu insisti mais firmemente.

"Por quê?" ele perguntou no mesmo tom. "O que você não pode fazer é deixa-lo impune, Sakura. Você não pode deixar ele escapar dessa ileso."

"Ele não vai sair ileso."

"Então denuncie."

"Não!" eu praticamente gritei. Merda. Eu não queria discutir com ele. Eu estava cansada demais para qualquer coisa remotamente estressante naquele momento, e brigar com Sasuke demandava muito das minhas energias. Eu ficava desgastada emocionalmente. "Eu não vou denunciar. Eu não vou dar essa satisfação para ele."

"Satisfação? Você está ficando maluca, Sakura? Você acha que ele ficará satisfeito de ver o nome dele na porra da polícia?"

Eu abri a boca para explicar, mas a fechei logo em seguida. Eu não tinha forças para aquilo. Não tinha forças para falar ainda. As minhas feridas eram recentes demais – em todos os sentidos. Só de pensar em falar me deu uma onda de náusea que foi difícil de segurar.

Quando eu disse que não queria dar essa satisfação a Matsumoto, eu quis dizer que não queria que ele me visse como uma vítima fraca. Recorrer a delegacia e chorar no ombro de algum policial não iria fazer nem cosquinhas nele. Ele apenas riria da minha cara.

Eu não iria deixa-lo ver o quanto ele me afetou. Ele não passava de um verme na minha vida. Nada do que ele fizesse deveria ter influência alguma sobre mim, até mesmo aquilo. Eu nunca havia vivenciado nada mais traumatizante do que a noite de ontem, mas ele não precisava saber disso. Eu me manteria forte. Não me deixaria abalar por ele – mesmo que tanto por dentro quanto por fora eu estivesse totalmente quebrada.

Era exatamente isso o que ele queria de mim: submissão. E eu não daria nada a ele.

Eu não estava pronta para explicar isso tudo para Sasuke ainda.

"Eu não posso," eu por fim disse, baixo, olhando para o chão. "E, mesmo se eu pudesse, não adiantaria de nada. Ninguém iria acreditar em mim."

Ele deu um passo na minha direção. "Você não olhou o seu rosto no espelho? Não acha que esses machucados são convincentes o suficiente?"

Eu voltei a encará-lo – dessa vez com fúria nos olhos. "Eu sei como está a porra do meu rosto, Sasuke. Eu não só vi no espelho como estou sentindo nesse exato momento." Ele não precisava me lembrar do desastre na minha cara. Se tinha alguém que estava perfeitamente ciente dele era eu. Os meus ferimentos doíam constantemente.

Ele suspirou e bagunçou o cabelo. Parecia muito frustrado. Por que ele queria tanto que eu denunciasse Matsumoto? Ele não deveria estar nem aí para mim – a nossa relação era essa nos últimos anos. Ninguém estava nem aí para ninguém.

Eu não deveria me sentir na obrigação de dar explicações para Sasuke, mas, por mais que eu não estivesse preparada, eu sentia que ele merecia uma. Afinal, ele fazia parte de toda aquela história. Talvez não fosse certo deixa-lo completamente de fora.

"Ele é um dos homens mais poderosos do país, Sasuke," eu continuei. "As evidências no meu rosto não são nada perto do que ele pode comprar – e isso inclui policiais, juízes, advogados. Denunciá-lo não vai levar a nada."

"Não é só no seu rosto que há evidências, Sakura." Ele colocou as mãos na cintura. "Eles... Eles vão te analisar direito. Vão investigar. Não vai ser tão fácil assim para Matsumoto."

"Eu não quero falar sobre isso," eu encerrei o assunto. Não era hora de falar sobre aquilo. Eu não achava que eu fosse mudar de ideia agora ou depois – eu pretendia mesmo não denunciá-lo. Discutir com Sasuke agora não iria fazer diferença; pelo contrário, só iria me deixar ainda mais chateada. Eu ainda tinha muito o que processar. Não precisava dele para colocar carga na minha consciência.

"Eu..." Eu engoli em seco. "Eu também quero que você fique calado sobre isso, Sasuke. Eu não quero que absolutamente ninguém saiba disso." Se eu pudesse, nem ele saberia disso. Mas eu não tive escolha – e eu fico grata que eu não tive. Ele me salvou de algo muito pior.

"Nem mesmo a polícia?"

"Principalmente a polícia."

Ele não pareceu gostar muito do que ouviu, mas acabou assentindo. "Eu só falaria alguma coisa se fosse para a polícia. Você não precisa se preocupar quanto a isso."

E eu sinceramente acreditava nele. Acreditava quando ele dizia que eu não precisava me preocupar com o nosso mais novo segredo. O engraçado é que poucos dias atrás nós tínhamos brigado justamente por eu não acreditar nele – quando ele afirmou que não tinha dedurado o cigarro para o filho da puta. Entretanto, tanto na questão do cigarro quanto agora, eu acabei aceitando a palavra dele. No fundo eu sabia que ele era honesto e discreto. Eu podia respirar aliviada. O meu segredo estaria seguro com ele.

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Sasuke

Eu abri a porta de casa. A minha mãe já estava me esperando de pé do outro lado.

"Sasuke, aquela blusa que Sakura estava usando era sua?"

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A.N.: Eu agradeço mais uma vez as reviews! São elas as maiores responsáveis por eu continuar escrevendo. Sinceramente, muito obrigada.