5° Capítulo: Levanta e vai!

Rony acordou sobressaltado. A luz do sol batia diretamente em seus olhos, o que o fez desviar e acabar estatelado no chão. Soltou um palavrão com um fio de voz e voltou a sentar-se no sofá. Não devia ter bebido tanto noite passada. E não era de seu feito fazê-lo. E agora gravaria na mente essa dor de cabeça terrível, para não fazer mais essa estupidez. Esfregou a face e olhou para o relógio.

-Droga! – exclamou ao perceber que estava atrasado.

-Desculpe pelo atraso. – falou assim que entrou afobado pela sala.

-Perdeu a hora? –Harry perguntou o analisando. Rony apenas confirmou. – Você não andou bebendo, andou?

Rony parou o que fazia e suspirou.

Como ele sempre descobre as coisas? – questionou sendo pego de surpresa.

Virou-se para Harry e seu olhar denunciou a resposta silenciosa.

-Não foi propositalmente. – explicou-se na defensiva. –Eu nem percebi que estava bebendo tanto. E você sabe que eu não gosto disso.

-Ok. – suspendeu o sermão que estava na ponta de sua língua. –Algo deve estar lhe incomodando para que isso acontecesse.

-Muito trabalho. –respondeu distraído.

Harry parou e cruzou os braços. Perguntava ou não? Essa era sua dúvida. Ele sabia que às vezes era chato e insistente, mas o que podia fazer em relação a isso?

-Isso teve a ver com o fato de eu estar lendo o que está naquele caderno? É por isso que está tão preocupado?

Diante da pergunta de Harry, Rony se viu desarmado. Virou-se lentamente par ao amigo e soltou um riso sarcástico. Como ele consegue pegar as coisas no ar? Ele não está praticando legilimência! Ou será que está? Não, não... senão ele já saberia de tudo!

-O que te faz pensar isso, Harry?

-Você anda disperso e mais preocupado desde o dia que eu lhe mostrei o caderno.

Rony riu.

-Coisa da sua cabeça. Estou como sempre estive.

-Ok. Uma hora eu chego lá e não terá como você mentir para mim. –falou sem acreditar em uma palavra do amigo.

-Você não desiste, Harry. –falou desolado.

-Então tem realmente algo além do óbvio? –perguntou com a sobrancelha erguida.

-Eu não disse isso! –exclamou carrancudo.

-Você não precisa dizer, eu já sei disse há muito tempo, Rony. – falou convicto de sua ideia e ambos ficaram em silêncio.

-Qual parte? –Rony voltou a falar.

-Como? – perguntou confuso.

-Em qual parte você está?

-Quando Hermione estava grávida.

Rony engoliu em seco.

-Porque você simplesmente não pula essas partes? Talvez elas não são tão interessantes para você.

-Ah! Eu não posso fazer isso. Hermione fez um bom trabalho, é claro. O caderno é enfeitiçado, sou obrigado a ler tudo. E eu tenho que confessar, tudo é muito interessante, mas têm alguns detalhes, muito minuciosos, que me deixa desconfortável.

Rony riu.

-Supostamente não era para ninguém ler.

-Deu para perceber. Gina está simplesmente fascinada com seus... relatos, e pega no meu pé por eu ler devagar demais!

-Gina também está lendo? –perguntou com os olhos arregalados e a face corando.

-Hermione disse que não teria problema. –deu de ombros.

-Droga. – xingou baixinho, sem que Harry ouvisse.

-Pois diga a ela que essa história não tem final feliz.

-Ela não tem tanta certeza disso.

-Que seja! Não sou eu quem vai se iludir! –alterou o tom de voz.

-Vamos ver, Rony. Vamos ver...

O silêncio se instalou no ambiente novamente, enquanto Rony lutava contra sua vontade de saber mais de Hermione.

-Tem muito tempo que não a vê?

Harry virou-se surpreso. Rony nunca perguntava sobre Hermione.

-Deve ter algumas semanas.

-Como funciona? As visitas...

-Na verdade é meio estranho. Ela pede a Paul ou Maree para entrar em contato comigo quando quer me ver. Ou seja, eu não a vejo quando quero, ela solicita a minha presença. –falou desgostoso. – E isso não acontece frequentemente. Na verdade, quanto mais o tempo passa, menos eu a vejo.

Rony se manteve em silêncio enquanto o amigo falava. Era difícil aceitar a ideia de que fora ele o causador de toda essa distância.

-E como ela estava? – pigarreou.

Harry hesitou por um momento. O que deveria dizer? Que ela estava péssima, tomando vários remédios e completamente acabada?

-Na medida do possível, bem. –falou desconfortável, mas Rony não percebeu.

-Que bom. –soltou um meio sorriso e saiu da sala, dando fim ao assunto.

Pelo dia leve que o departamento dos aurores passava naquela segunda-feira, nada impedia Harry de sair mais cedo, o que com certeza Gina iria adorar.

-Vou mais cedo hoje. –Harry avisou, vestindo seu casaco.

-É... está tudo meio parado por aqui. –falou Rony.

-Vai ficar?

-Vou sim. Não tenho mais nada para fazer.

Harry se despediu e caminhou até a porta. Quando a abriu, parou.

-Porque não dá uma passada lá em casa mais tarde? As crianças vão gostar de vê-lo. Já tem o que... –falou pensativo. –Quase dois meses?

Rony abriu a boca para responder, mas Harry foi mais rápido.

-Eu sei que não gosta de sair. Você não tem que pensar se deve ou não ir, Rony. É só levantar sua bunda da cadeira e ir! – falou divertido e saiu, deixando um Rony emburrado para trás.

Harry chegou em casa rindo de si mesmo. Subiu as escadas correndo e constatou que as crianças não estavam em casa. Pelo horário, estavam na Toca, na aula.

Assim como todos os Weasley filhos, os netos eram todos ensinados em casa. E com tantas crianças na família, Molly, com sua energia e firmeza, tinha a ajuda de Melanie e Vivianne, esposas de Fred e Jorge respectivamente, que davam conta perfeitamente do recado, com sua alegria e jeitinho lúdico de ensinar.

Harry passou em seu quarto e nada de Gina. Será que está no Ministério? – pensou.

Então foi até o escritório de Gina e abriu a porta bem devagar. E lá estava ela, andando de um lado para o outro, falando freneticamente com alguém que estava na lareira. Harry entrou na sala em silêncio e fechou a porta atrás de si, recostando-se na mesma.

-Eu já disse! –Gina exclamou exasperada. – Precisa repetir?

-Gina...

-Beth, ele é um idiota! Qualquer coisa o mande lidar comigo, ok? –falou com os olhos faiscando.

-Ok. Você é quem sabe, chefinha. –riu a amiga.

-A gente se vê amanhã, Beth. –riu também e viu a cabeça de Beth sumir nas chamas.

-Ocupada? –Harry perguntou com um sorriso.

Gina soltou um grito e pulou no lugar onde estava.

-HARRY! –exclamou com a respiração acelerada. – O que está fazendo ai? Caramba! Você me assustou!

Harry riu e se aproximou, abraçando-a.

-Eu saí mais cedo. Achei que fosse gostar.

Gina sorriu.

-Problemas? –perguntou em relação ao trabalho.

-Nada que eu não resolva. Esses caras comem na minha mão. Idiotas! – riu.

-Comem na sua mão... sei... – cruzou os braços.

-Ah! Você entendeu! – riu.

-Já acabou?

-Talvez eu possa tirar uns dez minutinhos para você, Potter.

-Isso seria muito interessante. –sorriu e a puxou para um beijo. – Venha tomar um banho comigo. –sussurrou em seu ouvido.

-Gostei disso. –falou sentindo um arrepio subir-lhe pela espinha.

-Você podia chegar todos os dias mais cedo, sabia?! –falou com um sorriso sapeca.

Essa era Gina aos olhos de Harry, uma mulher forte, determinada, mas que não perdia aquele ar jovial e sapeca.

Harry terminou de vestir a camisa e jogou-se na cama ao lado da ruiva.

-Você enjoaria antes que eu percebesse. –jogou verde.

-Que tentativa mais chula! – riu. –Eu quero você desde os meus dez anos de idade. Não tem como eu enjoar de você.

Harry deu um de seus mais belos sorrisos e beijou o topo de sua cabeça, aninhando-a em seus braços.

-Daqui a pouco as crianças chegam. –Gina falou com a voz abafada por estar com a face no peito de Harry.

-Pelo menos deu para termos alguns minutinhos...

-E que minutinhos! –gargalhou. –Vem, Tayla deve estar fazendo algum lanche delicioso! –levantou-se e puxou Harry pela mão.

-Acho que vamos ter uma visita hoje. –falou quando já lanchavam.

Gina arregalou os olhos e engasgou com o suco.

-Ela...

-Não, Gina. –cortou-a gentilmente, antes que criasse expectativas.

-Ah. –disfarçou a decepção.

-Você vai gostar. –tentou anima-la. –Ele não deu certeza, mas eu acho que ele vem.

Gina ergueu a sobrancelhas, cética.

-Rony?

-Sim. –falou com um meio sorriso.

-Tá brincando!

-Bom, vamos ver. Tivemos uma conversa particularmente longa hoje.

-E o que conversaram?

-Ele deu a entender que realmente tem algo que não sabemos e perguntou por ela.

Harry contou tudo a esposa, deixando-a pensativa.

-Ele deve sentir muita falta.

-Sem dúvida.

-Bom, acho que essa noite eu cozinho. –sorriu.

-Você na cozinha... –falou lentamente.

-O que? De repente eu passei a cozinhar mal?

-Você cozinha perfeitamente bem, Gina, e sabe disso. Mas ver você na cozinha é... sexy. Eu já lhe disse isso várias vezes.

-Harry! –exclamou divertida. –Pois então, se você estiver certo, Potter, eu lhe prometo uma noite de insônia e pura diversão. –falou num sussurro e mordeu o morango em seguida.

Harry não teve tempo de revidar a sua provocação.

-MAMÃE! –três vozes gritaram, tirando o casal de seu momento íntimo.

Gina agachou-se e recebeu os três num abraço apertado.

-E eu, vou receber um abraço também?

-Papai! –os três largaram a mãe e correram para o pai.

-Vocês não deram trabalho para a sua avó e tias, deram?

-O James... –começou Lily.

-Lily! –exclamou James raivoso, deixando Lily amuada.

-Vou fingir que nada aconteceu dessa vez. –falou Gina com seu olhar típico de Molly Weasley. –Agora, todos já para cima, banho!

Os três subiram discutindo entre si.

-Eu vou. –falou Harry.

-Ui... -sussurrou. –Maridão solícito. –sorriu.

-Mais tarde... -falou implicitamente e beijou Gina na área do pescoço, fazendo-a suspirar.

Logo, todos já estavam de banho tomado e brincavam com Harry na sala.

-Eu atendo! –gritou o moreno quando escutou a campainha tocar. – AH! –exclamou alegre.

-Eu levantei minha bunda da cadeira e vim. –deu de ombros.

-Gina vai adorar! –puxou-o para dentro.

-TIO RONY! –Lily, Alvo e James gritaram e correram para o tio que não viam há algum tempo.

Rony ficou um tanto surpreso com a recepção daquelas três crianças. Elas demonstravam tanto amor e saudade, que para Rony era um tanto surreal sentir as emoções que aqueles pequenos seres despertavam em seu íntimo. Quando se deu conta, percebeu que morrera de saudade de abraça-las, de até mesmo, ouvir suas vozes e risadas.

-Hey, calma, deixe o tio de vocês respirar.

-Tio Rony, nós vamos brincar, não vamos? –perguntou Alvo.

-Claro que sim. Eu só preciso ver a mãe de vocês primeiro e já volto.

-Então vai rápido! –falou Lily apressada, fazendo Rony rir.

-Quer dizer que a Senhora Potter está cozinhando? –interrogou quando chegou a cozinha.

-Rony! Você veio! –Gina largou tudo e se jogou nos braços do irmão.

-É. –falou sem graça.

-Fico feliz que tenha vindo. –falou com um enorme sorriso.

-Eu também, Gina. E faz algum tempo que não como sua comida.

-Então hoje você vai se empanturrar!

-Tio Rony!

-Vai logo! É capaz de eles te sequestrarem!

Rony riu e voltou para a sala.

As horas passavam rapidamente para Rony. Era simplesmente revigorante brincar despreocupadamente com seus sobrinhos e afilhado. Nada poderia ser mais revigorante.

-Lá se vai a minha sala. –brincou Gina.

-Ponto para mim. –sussurrou Harry e se encaminhou para junto dos quatro.

Tempo depois após jantarem, James, Alvo e Lily dormiam profundamente em suas camas, restando apenas Rony, Harry e Gina na sala totalmente bagunçada.

-Desculpe pela sua sala. –Rony riu.

-Eu deveria fazê-lo arrumar tudo. –brincou.

-Eles são ótimos. Não tem dúvida que vocês são pais maravilhosos.

-A gente tenta. Mas eles são realmente ótimos. –Harry falou com orgulho.

-Eu deveria aparecer mais. Sou um péssimo tio e padrinho.

-Isso seria mais que ótimo. –falou Gina. –Você pode não perceber, mas eles sentem sua falta.

Rony sorriu constrangido.

-Eu não quero virar um desconhecido para eles. Principalmente Lily que é tão nova e passei pouco tempo com ela. –ficou em silêncio por alguns instantes e voltou a falar: - eles me fazem bem. –falou com a testa enrugada como se acabasse de fazer uma grande descoberta.

-É claro que eles fazem. Eles também são sua família, Rony.

-Eu pensava que ficar perto de crianças me deixaria melancólico, na verdade era como eu me sentia.

-É totalmente compreensível esse sentimento. Mas talvez agora você precise delas mais do que imagina. –deduziu a ruiva.

-É... talvez. –sussurrou. Colocou a mão no queixo e suspirou. –Eu queria muito ter filhos agora. Eu só tive essa experiência por dois anos, não é muita coisa.

-Você ainda pode ter filhos. –falou Harry.

-Ahh, não. Não mais. Rose foi...única. Foi bom enquanto durou. –tentou sorrir.

-E o que pretende fazer da vida? Morar naquele mausoléu o resto da vida? –foi enfática.

-Eu tenho... assuntos para acertar, Gina. E só vou descansar quando tudo estiver resolvido. Fora isso, não tenho com o que me preocupar. Sem filhos, esposa... tenho meu emprego. O que mais um solteirão de 33 anos deseja? –riu.

-Você não vai desistir, não é? –perguntou Harry.

-Você desistiria se estivesse no meu lugar, Harry? Gina?

Ambos ficaram em silêncio.

-Eu sei que não. Nenhum de vocês dois.

-Só tenho medo que faça alguma besteira. –Gina confessou.

-Bobagem. –bebericou sua bebida.

-Se você fizer alguma idiotice eu o prendo para nunca ver a luz do sol, Ronald. –ameaçou.

Rony riu cético, fazendo Gina bufar.

A conversa se tornou mais leve após isso, até que os olhos de Rony mirou certo canto da sala e ele se levantou.

-Aonde vai?-perguntou Gina.

Rony pegou o caderno e voltou a sentar-se. E novamente o destino o colocava diante as provas.

-Vocês não deviam ler isso. –balançou o objeto nas mãos.

-E qual seria o motivo para não ler? – Gina desafiou o irmão.

-Isso é deprimente. Quero dizer... isso tudo já aconteceu... sei lá. –suspirou.

-Hermione queria que lêssemos. –argumentou Harry.

-Hermione deveria pensar duas vezes antes de tomar suas decisões.

Harry e Gina trocaram um olhar cúmplice e permaneceram em silêncio.

-Vocês têm que entender que, seja o que estiver aqui, nada vai fazer eu e Hermione voltar. Acabou e eu estou tentando digerir isso há quatro anos. Vocês deveriam fazer o mesmo ao invés de se alimentarem com falsas esperanças. –Rony nunca falara tão sinceramente como agora. Talvez o medo estivesse tomando conta de sua consciência, pois ele sabia que não teria como evitar a verdade.

-Eu sinto muito por ter afastado Hermione da vida de vocês. Mas eu não posso fazer nada quanto a isso. Infelizmente.

-Rony, isso não é sua culpa. –Gina falou confusa e Rony apenas sorriu torto.

-Eu sinto muito a falta dela... vocês não fazem ideia.

-Rony, deve ter algum jeito, deixa a gente te ajudar. –suplicou.

-Não tem como, Gina. –suspirou e se levantou. –Eu já vou. Tenho plantão amanhã. Prometo que vou aparecer mais. Eu só quero pedir uma coisa.

-O que é? –Harry perguntou.

-Não deixa... não deixa que o que tem escrito ai, os façam me odiar. –falou com dificuldade.

-Rony...- Gina sussurrou.

-Esquece tudo o que eu disse. –riu. Seu corpo girou e Rony desapareceu.

-Isso tudo é uma droga, Harry! –Gina se levantou raivosa, sentindo as lágrimas grossas descendo por sua face. –Você tem toda razão! Algo está errado, muito errado e ele se culpa por isso! –exasperou-se. –Como ele pode pensar assim? Ele fez tudo, tudo o que podia!

Harry ficou em silêncio refletindo sobre tudo o que Rony dissera. Uma desconfiança brotou em sua mente, mas nada que deveria dizer agora.

-Isso tudo é uma grande merda! –exclamou com a voz dura, afastando as lágrimas, e seguiu para o quarto.

N/A: Oiii, pessoal!

Como prometido mais um capítulo para vocês!

Espero que gostem!

Agradeço a todos pela companhiaaa!

Grande beijoooooooo!