19º Capítulo
Rony se foi
Harry não sabia como chegara a sua sala no Ministério. Apenas se lembrava de alguém o ajudando a sentar-se no sofá e ali ficar. Ele não sabia nem ao menos que horas era. Sua mente só repassava uma única imagem: Rony morrendo.
Passou as mãos pelos cabelos, em total desespero. Queria poder esquecer aquele dia, esquecer aquela cena, esquecer aquele último sorriso de Rony.
-Nada vai ficar bem, Rony. Nada. –falou com a voz embargada. E sem resistência alguma, Harry chorou como há tempos não chorava.
Gina estava no quintal da Toca observando o céu. Eram quase onze da noite. As crianças já estavam dormindo em seu antigo quarto, junto com os primos, filhos de Fred e Jorge.
Estava inquieta. A falta de notícias e a demora estavam deixando todos cada vez mais aflitos.
De repente, ouviu passos apressador e virou-se.
-Harry mandou notícias?
-Vem para a sala! –Jorge falou com a face tensa e Gina correu para dentro da casa.
Quando chegou, seus pais e Fred estavam recepcionando alguém que ela conhecia bem. Era Jared, totalmente abatido.
-Jared! Harry mandou você? –perguntou sentindo-se aliviada.
-Desculpe incomodar nesse horário. Mas eu sabia que ia encontrá-la aqui, Gina.
-O que foi? –perguntou alarmada. –O que aconteceu com Harry?
-Ele está bem... aparentemente. Acho que está em choque. –suspirou.
Todos respiraram aliviados.
-E o Rony? Está com o Harry? Afinal de contas por que o Harry está em choque? –perguntou Jorge. Jared engoliu em seco.
-Na realidade não sei se sou a pessoa mais indicada para falar com vocês. Mas diante das circunstâncias... - Como dar uma notícia dessas? Não era ele quem passava tais notícias para os familiares. Principalmente em se tratando de Rony, seu mentor.
-Pelas barbas de Merlin! O que aconteceu? –Fred perguntou, aturdido, diante do silêncio incomodo do auror.
-Houve uma fatalidade. –falou e respirou fundo. – Rony faleceu em combate e parece que Harry viu tudo acontecer. –Jared falou de uma única vez, e ficou estático assistindo o terror daquelas pessoas.
Molly soltou um gritou agudo e foi amparada por Arthur. Fred e Jorge se olharam em choque sem conseguir proferir uma única palavra. Gina, por sua vez, sentiu as pernas bambearem e por sorte caiu sentada no sofá. Um choro sufocado saiu de sua garganta exprimindo toda sua dor.
Fred e Jorge abordaram Jared com várias perguntas, mas a maioria delas ele não sabia responder. A única pessoa que podia dá-las com precisão era Harry.
-Merlin, isso não pode estar acontecendo! –Fred falou consternado. Jorge abraçou o irmão, sem saber o que dizer. O silêncio era quebrado apenas pelos soluços baixos.
Gina, que se mantivera quieta, recebeu o abraço dos irmãos. E nesse momento percebeu que nunca mais abraçaria Rony.
-Harry. –sussurrou inconscientemente, despertando de seus pensamentos. –Eu preciso ver o Harry.
Fred acenou.
-Vai. Ele deve precisar de alguém agora. –falou Jorge.
Gina chegou à sala de Harry, tentando assimilar toda aquela realidade trágica, mas era impossível. Sentia todo seu corpo estremecer totalmente entorpecida, pois para ela, era como se Rony ainda estivesse ali, vivo! Sabia que era verdade o que Jared dissera, mas simplesmente não conseguia acreditar ou sentir que Rony realmente se fora. Como aquilo foi acontecer? Como? Tentou imaginar o que Harry sentia por ter assistido tudo. Com isso, entrou na sala e olhou ao redor e não o viu em meio àquela luz fraca.
-Harry? –chamou enxugando as lágrimas, mas sabia que seria inútil.
-Gina. –Harry falou com a voz rouca e pela primeira vez acordou para a realidade ao seu redor.
Gina caminhou até sua voz e o viu. Sua aparência a assustou. Aquilo era muito além do que ela já vira do seu dia-a-dia como auror. Em pensar que também podia tê-lo perdido! Seu coração disparou em pânico. Ele está aqui, está bem a sua frente, Gina. –pensou.
-Eu vim te buscar. Vamos para casa.
Harry a olhou por alguns segundos e baixou os olhos. E com esse olhar, Gina sentiu um arrepio subir-lhe pelo corpo, recebendo a certeza de que Rony estava morto.
-Eu já sei o que aconteceu. –falou chorando com intensidade. Harry a olhou assustado. E então seu olhar se transformou. Só tinha dor, desespero.
-Eu falhei. –falou com dificuldade. –Eu estava bem ali, só assistindo ele morrer. Sem poder fazer nada... eu falhei, eu falhei com ele, com todos. –desabafou.
Gina não aguentou. Correu até ele e se ajoelhou a sua frente.
-Harry, por favor, eu não aguento sozinha. Fica comigo. –falou desesperada beijando seu rosto. Não se importava se ele estava cheio de terra misturado com sangue seco, nem mesmo se o estava machucando. Apensa precisava senti-lo, precisava ter certeza que ele estaria ali, ao seu lado. – Eu preciso de você... eu preciso. –estava em prantos.
Harry, apenas com um dos braços livres, puxa-a para seu colo a embalando em seu abraço.
-Eu estou com você. Sempre vou estar. –falou beijando seus cabelos. –Vamos para casa.
Apenas quando chegou a sua casa que Harry se deu conta do quanto seu corpo estava arrasado. Gina o amparou ao subir as escadas e o sentou na cadeira do quarto. Correu até o banheiro pegou alguns utensílios e deixou a banheira enchendo.
Agachou-se novamente e o olhou, totalmente devastada. Harry partilhava esse mesmo sentimento e preferiu ficar em silêncio enquanto sentia as mãos de Gina cuidar de seus ferimentos.
Primeiro ocupou-se da perna esquerda, na qual viu um corte profundo. Rasgou o restante da calça e fez um feitiço silencioso. Mas por ser muito profundo, ainda precisaria de cuidados por uns dias. Em seguida, tirou-lhe a camisa, mas Harry retesou quando chegou ao ombro esquerdo. Rasgou também o pano e viu o osso deslocado.
Harry podia sentir cada centímetro de seu corpo doer. Quando chegou ao ombro, ele apenas esperou. E sem aviso e com um movimento rápido, a varinha de Gina voltou com o membro para o lugar. Harry engoliu o grito de dor e caiu com a testa no ombro de Gina. Estava exausto.
Gina recostou seu corpo na cadeira, precisando fechar mais algumas feridas antes de leva-lo para o banho. Ele a olhou, sentindo que suas mãos tremiam e agarrou uma delas.
Ela ergueu o olhar, estava novamente chorando. Pousou a testa no joelho dele, soluçando. Não sabia se estava chorando por não ter mais Rony, por seu fim tão triste ou por ter Harry ali, vivo. Talvez pelos dois motivos.
Ele alisou suas costas, sem saber o que dizer. A verdade era que não havia o que dizer naquele momento. Nada traria Rony de volta. Nada.
Gina voltou a erguer a cabeça e respirou fundo.
-Deixa. Eu termino. –Harry falou.
-Não. Eu estou bem. Vem, você precisa de um banho. - ergueu-se e o ajudou a se levantar, guiando-o até o banheiro. Precisava tirar toda aquela sujeira para que as feridas não infeccionassem.
Após o banho, Gina enfaixou sua perna, imobilizou seu ombro e cuidou das outras feridas menores. No olho direito, agora totalmente fechado, roxo e muito inchado, colocou um unguento. Quando acabou sentou-se na beirada da cama e o olhou, caindo novamente nas lágrimas. Era isso que queria fazer, apenas chorar, e foi isso que Harry lhe permitiu fazer. Ele ergueu seu braço livre e Gina correu para se aninhar em seu peito, chorando a perda de uma vida, a perda de um futuro.
Gina despertou sentindo seus olhos pesados. Percebeu que ainda era muito cedo, o sol ainda nem nascera. Olhou para cima e viu Harry a olhando.
-Você não dormiu. –afirmou com a voz rouca.
-Não consegui. –falou ainda alisando seus cabelos ruivos.
-Vou trocar seus curativos. –falou se erguendo, mas Harry a manteve em seus braços.
-Não se preocupe com isso. –falou com a voz suave, como se estivesse com a cabeça em outro lugar. –Você já fez o bastante, só descanse um pouco.
Gina não discutiu. Apenas ficou o olhando divagar.
-No que está pensando? –perguntou já sabendo a resposta. Harry a olhou ponderando entre a verdade e a mentira. Optou pela primeira opção.
-As imagens não saem da minha cabeça. –falou sem olhá-la.
-Conta para mim. –falou sem que percebesse. Mas no fundo era o que queria.
-Como?
-Conta para mim o que aconteceu. –falou tranquilamente. –Partilha comigo o seu peso.
Harry achava que aquela não era uma boa ideia. Ele falhara. Deixara Rony na mão e ele morrera.
-Eu quero ouvir, Harry. –sussurrou, beijando sua mão livre.
Harry, sem pensar muito, suspirou e começou a contar tudo a ela, sem omitir qualquer detalhe. Quando terminou ela parecia de certa forma aliviada.
-Eu...cheguei a pensar que ele queria isso... morrer. –confessou. –Muitas vezes eu cheguei a pensar isso.
-Eu sei.
-Mas ele sorriu. Acho que isso muda tudo.
Harry manteve silêncio.
-O que foi?
Harry passou a mão pelo rosto, inquieto.
-Eu devia estar lá. Eu devia ter sido mais rápido. Não era para isso ter acontecido! Foi...
-Para, Harry. –falou calma. –Por favor, para. Você estava desarmado, tudo aconteceu muito rápido. Não atribua essa fatalidade a você. Nada que eu falar vai mudar sua cabeça, eu sei, mas me deixa tentar. Você estava lá, você assistiu tudo, e além de tudo, você era o parceiro dele nessa luta. Você sobreviveu e ele não. –falou com sinceridade. –Mas poderia ter sido você ou qualquer outro auror que estava lá. Ninguém tem culpa. Rony sabia disso, eu sei disso e todo mundo sabe disso. Você fez tudo por ele. – soltou um meio entre lágrimas. –Então eu peço, por mim, pelos seus filhos, não acredite no que sua cabeça fica lhe dizendo.
Harry sorriu fraco e limpou as lágrimas de sua bochecha.
-Eu vou tentar. –falou e Gina apenas suspirou desejando que ele realmente acreditasse em suas palavras.
Harry ainda sentia seu corpo muito debilitado, mas precisava ir ao Ministério fechar o caso. Gina protestou, mas não havia muito que dizer, ainda mais diante das consequências.
-Volte o mais rápido que puder. Estarei na Toca. –falou ela.
-Será rápido. –beijou-a e a viu seguir para as escadas. –Gina. –chamou e ela se virou. – Eu te amo.
-Eu também te amo, Harry.
N/A: Olá, meu povo!
Acho que devem estar um pouco surpresos com tudo. Mas essa sempre foi a ideia da fic... Drama, tragédia.
E apesar dos pesares, espero que continuem acompanhando!
Beijosss!
