20º Capítulo

Último adeus

Harry chegou ao Ministério junto com muitos outros de seus colegas, sendo que boa parte nem havia ido para casa. O clima era de cansaço, mas além de tudo tristeza e luto.

Depois que se prostrara ao lado do corpo de Rony, Harry apenas se lembrava de alguém lhe tocando o ombro. Depois disso, de como tudo acabara, de como fora parar em sua sala na noite anterior ele não fazia a mínima ideia.

Lutando para chegar até a sala de reuniões com sua perna e ombro imobilizados, com seu corpo ainda dolorido, Harry refletia que, como chefe dos Aurores, fora de total irresponsabilidade deixar seus parceiros a deriva e se deixar levar pelos sentimentos numa situação tão caótica como aquela, arriscando milhares de vidas. A verdade era que ele não estava no comando daquela missão, mas isso não mudava o fato de que errara. Ele simplesmente sucumbiu diante a imagem inerte de Rony. Contudo, não lamentava por ter estado ao seu lado nos momentos finais.

Chegou à sala e viu que todos os comandantes das equipes já estavam presentes e alguns integrantes das próprias equipes.

-Bom dia. –cumprimentou sentando-se com dificuldade. –Primeiramente eu gostaria de me desculpar por tê-los abandonado num momento difícil como aquele. Foi algo que não pude evitar e infelizmente deixei todos vocês na mão.

-Chefe. –chamou uma voz ao fundo. –Acho que talvez você não se lembre, ou talvez não tenha chegado a ver o que aconteceu. Mas quando o achamos tudo já tinha sido controlado com a tática que havia nos passado. Apenas uns poucos tentaram resistir. As explosões nos pegaram de surpresa, isso é certo, mas logo descobrimos a façanha e pudemos detê-los e finalizar a operação.

-Acho que pedidos de desculpas não é necessário. –Jared falou um tanto abatido seguido de vários murmúrios de concordância. Harry o olhou, agradecido e solidário. Sabia o quanto ele admirava Rony e o quanto ele fora importante em sua carreira. E Harry percebeu que naquele lugar todos eles perderam, não apenas um, mas alguns membros da família.

-Eu agradeço a todos, mas mesmo assim quero que saibam que isso não voltará a se repetir.

Harry encerrou o assunto e partiram para uma conversa mais concreta. Várias pessoas foram presas e cada uma delas seria interrogada e levada a julgamento, o que levaria muito tempo devido a quantidade de acusados. A lista de delitos cometidos por tal grupo era longa e cada um deles teria que ser averiguado.

Descobriu-se que um dos chefões do grupo era exatamente o assassino de Rose e Rony. E assim como ele, vários outros chegaram a óbito. Mas do lado deles também houve perdas. Poucas, mas que fizeram o coração de Harry doer a cada nome citado, inclusive o de Rony.

Ao fazerem uma vistoria no galpão, descobriram uma escada secreta que levava ao subterrâneo e lá, para a alegria da equipe, encontraram uma adolescente desaparecida há dois anos e um garoto de apenas sete anos que fora sequestrado há três meses.

Fora um dia de perdas, mas também de ganhos. Mais uma vez Harry e sua equipe puderam contribuir para que todos vivessem tranquilos e seguros, seja no mundo bruxo ou trouxa.

Todos os amigos feridos ou aqueles que partiram estavam no hospital mágico St. Mungus. E após a reunião, mesmo prometendo a Gina que não demoraria e se sentindo extremamente cansado, Harry não resistiu. Seguiu para o hospital.


Quando Harry chegou ao St. Mungus foi direcionado por uma das Curandeiras para um quarto pequeno e fresco. Entrou e foi deixado sozinho.

O quarto tinha apenas uma pequena cômoda ao lado da porta, uma cadeira e a cama.

Em cima do móvel, Harry viu todos os pertences de Rony. Seu relógio, sapatos, seu uniforme e por último sua varinha. Rodou-a entre os dedos por alguns segundos e depois a depositou no lugar. Direcionou seu olhar para a cama e se aproximou vagarosamente.

Parou ao lado da cama e observou Rony. Seu rosto tinha alguns hematomas, assim como as partes do seu corpo a mostra. Mas mesmo assim, ele apenas parecia dormitar tranquilamente. Harry puxou a cadeira e sentou-se ao seu lado. Pegou sua mão direita, sentindo sua pele ainda com certo calor.

-Eu vou sentir sua falta, Rony. Sinto muito por não tê-lo ajudado. Mas eu prometo... tudo vai ficar bem. –falou com a voz embargada e mais uma vez se deixou levar pelo choro.


Harry chegou à Toca e viu Gina sentada no jardim observando algumas das crianças mais novas da família, inclusive seus filhos, brincarem alheias a tudo o que acontecia.

James, Alvo e Lily quando o viram, correram até ele o abraçando. Harry tentou disfarçar a dor que sentia enquanto os filhos o abraçavam com força e sorriu da melhor forma que conseguiu, enquanto ouvia os sobrinhos gritando seu nome.

Gina, parecendo acordar de seu transe, ergueu os olhos e o viu. Vendo sua dificuldade, levantou-se e foi até ele. Logo, caminhavam de volta para a Toca, deixando as crianças aos cuidados dos primos mais velhos.

Harry observou Gina por um momento. Sua feição estava abatida e a tristeza que a encobria era nítida.

-Como você está? –perguntou beijando o topo de sua cabeça.

-Indo... –falou sem emoção. –Eu ainda não consigo acreditar. Não parece real. –suspirou. –Como foi no Ministério? –perguntou desviando de assunto.

-Triste. –Harry falou sem querer entrar em muitos detalhes e Gina não insistiu.

-Estão todos aqui. Eles estavam muito confusos e precisavam saber o que aconteceu. Eu contei tudo. –falou com a voz trêmula.

Harry a abraçou.

-Podia ter me esperado. –falou e Gina deu de ombros.

-Não ia fazer diferença. Ele se foi. – falou sentindo as lágrimas virem novamente. Não conseguia evita-las. – Rony se foi. – repetiu pausadamente respirando fundo. – Dói falar isso. Dói muito.

Harry ficou em silêncio, apenas escutando seu desabafo. De repente, sentiu Gina parar de andar e a viu com o olhar perdido.

-Eu não consigo imaginar uma vida sem ele. –falou com uma dor excruciante, mas ao mesmo tempo como se todas as emoções tivessem sido arrancadas de seu ser. Harry não podia lhe dizer nada que fosse lhe dar realmente algum conforto. Palavras vagas não valeriam de nada. E ela sabia disso, e agradeceu pelo beijo silencioso que recebeu na testa.

Minutos depois, quando entrou na sala junto de Gina, e viu aquela família, que geralmente era tão alegre e festeira, mergulhada no silêncio e nas lágrimas, sentiu-se arrasado e mais cansado do que nunca. Cumprimentou a todos sem proferir uma única palavra e quando chegou a Arthur e Molly sentiu sua respiração parar por um momento.

-Harry. –falou Arthur assim que o viu. –É bom saber que meu filho teve um rosto amigo no final. –falou com emoção.

-Queria ter feito mais. –falou num fio de voz e abraçou Arthur, consolando-o. Molly, que estava sentada no sofá, recebeu um beijou na testa. Ela alisou sua bochecha e Harry tentou sorri-lhe, mas olhando para aqueles olhos sofridos, não conseguiu.

-Onde ele está? –Carlinhos perguntou após algum tempo, quando Harry se aproximou.

-No St. Mungus.

-Você foi lá? – Gina perguntou. Harry apenas afirmou.

-Precisamos organizar tudo para amanhã. –falou Gui para o irmão.

-Eu... – Harry tentou falar, mas sua voz não saiu. De repente sentiu-se sem forças. Viu o olhar confuso de Gina e se foi para cozinha. Sentou-se em uma das cadeiras, respirando fundo. Era muito difícil assistir a todos naquela sala e não conseguia eliminar a culpa que o acometia. Colocou o embrulho que trazia em cima da mesa e o abriu. Tirou a varinha de Rony e rodou-a entre os dedos.

- Harry? –Gui falou entrando na cozinha. –Está tudo bem?

Harry se assustou com a presença do ruivo e guardou a varinha do amigo.

-Sim, só vim beber um copo d'água. –disfarçou.

-Ok. –fingiu acreditar.

-Eu trouxe as coisas dele. –falou indicando o embrulho. –Acho que não é o momento para mostrar a ninguém. Se quiser eu posso guardar.

-Acho melhor mesmo. –concordou. –Não é a hora. –falou olhando para o embrulho, abatido, mas logo desviou a vista. – Bom, nós vamos até o Ministério acertar tudo.

-Eu vou...

-Não, Harry. –cortou-o. –Deixa as coisas com a gente, você já fez o bastante. Vá para casa, você precisa se recuperar. Gina precisa de você em casa não no Ministério. –soltou um meio sorriso.

-O que tem eu? –perguntou Gina chegando à cozinha.

-Nada. Vamos para casa. –Harry falou se levantando.


Quando chegaram, Gina o ajudou a sentar-se no sofá e acomodou-se ao seu lado. James, Alvo e Lily foram direto para o jardim.

-Eu nem perguntei como você está. –Gina falou com um ar preocupado.

-Eu estou bem.

-Harry... – falou com a voz baixa, porém em tom de censura.

-São só algumas dores, nada demais. –falou simplesmente.

Ela apoiou a cabeça em uma das mãos e fechou os olhos. Harry alisou seu rosto e ela voltou a abrir os olhos.

-Vai ficar tudo bem. –Harry falou e lhe sorriu pela primeira vez depois de toda aquela tempestade. – Eu cuido de você, você cuida de mim. Podemos fazer isso, não podemos?

-Podemos. – respondeu e o abraçou.


O sol resplandecente no céu e a brisa que batia no alto das montanhas, ao redor da Toca, faziam do dia perfeito, se não fosse pelo motivo pelo qual todos estavam reunidos ali.

Rony estava deitado numa pedra de mármore branca, vestido apenas com uma túnica branca e calças de mesma cor. Sua feição era exatamente a mesma quando Harry o vira pela última vez, tranquila e serena, como se ressonasse.

O lugar estava lotado, amigos, colegas de trabalho, admiradores, fãs e, o principal, familiares. A cerimonia começou e Harry deixou sua memória vagar para anos atrás quando assistiu ao primeiro enterro de sua vida, do Dumbledore. Naquela época, vários outros o seguiram, pessoas que amava e que ainda ama, mas que nunca mais voltara a ver e agora era a vez de Rony entrar para a mesma lista.

Gina estava ao seu lado em completo silêncio. No primeiro momento em que vira Rony, sentiu sua mão apertar seu braço com força, mas até o momento não chorara e não dissera uma única palavra. Estava perdida em seus pensamentos focada apenas na imagem de Rony deitado ali.

Molly e Arthur que estavam logo ao lado sussurravam um para o outro, cumplices da mesma dor. Molly abraçava o marido com força, enquanto ele tentava o máximo se manter forte por ela.

Minutos depois, as pessoas começavam a dar o seu último adeus a Rony. Sendo um dos membros da equipe dos aurores, e além de tudo comandante, foi feita uma homenagem aos seus serviços prestados, acarretando muita emoção em todos. Aos poucos as pessoas foram se dispersando, até que restou apenas a família, dispondo de total privacidade.

O silêncio que se instalou era reconfortante e Harry pode perceber em cada rosto ali presente que não era apenas ele que se sentia assim.

Cada membro da família se aproximava e dizia suas últimas palavras com muita emoção. Molly e Arthur foram os primeiros a se aproximar, muito emocionados. Falavam palavras de carinho, acariciando a face de Rony. Foram longos minutos até que Carlinhos e Percy os afastaram e o consolaram.

Os irmãos mais velhos, muito abatidos, foram os primeiros acompanhados das esposas, e Harry pode assistir ao desalento e choro daqueles irmãos e sobrinhos mais velhos, uma vez que, em comum acordo, todas as crianças mais novas ficaram na Toca sendo cuidadas por Audrey, esposa de Percy.

Em seguida, de mãos dadas com Gina, Harry se aproximou, era hora de darem o último adeus. Sentiu a mão de Gina aperta a sua e o tremor que tomou o corpo da esposa. Quando ficaram ao lado de Rony, a ruiva levou a mão livre à boca, tentando segurar o soluço, mas foi inevitável.

-Rony. –falou com a voz totalmente ininteligível e caiu de joelhos abraçando o corpo do irmão. –Não vai embora, por favor, por favor. –pedia inconsolável, agarrando-se a ele. Finalmente a realidade havia acometido Gina. Rony estava realmente morto.

Harry sentia as próprias lágrimas descerem ao ver o estado de Gina. Deixando de lado seu corpo que ainda não havia sido curado totalmente, tentou ergue-la pela cintura, mas ela resistiu.

-Não! –ela protestou e ficou ali abraçada ao irmão por alguns minutos.

Logo, Harry tentou novamente ergue-la e dessa vez ela não resistiu.

-Não levem ele! Não! –falou em prantos. –Eu te amo, Rony. Te amo muito. Não se preocupe conosco. Eu só quero que fique bem, por favor. Onde quer que esteja, fique em paz. Se você estiver em paz eu também vou ficar, tá bom? –falou por último e beijou a testa do irmão. Estava totalmente sem forças e deixou que Harry a ampara-se.

Harry olhou para Rony, abraçando Gina com força. Alisou os cabelos do amigo, sentindo que um pedaço de si ia embora.

-Não se preocupe, Rony. Eu vou cuidar de todos. Adeus, irmão. –falou com a voz embargada. Gina agarrou-se a sua camisa e ele a pegou nos braços se afastando alguns passos.

Com um movimento da varinha do celebrante, a mármore branca abraçou Rony, o acomodando em seu sono eterno. E então, tudo o que parecia ser um pesadelo, tornou-se bastante real. E os cantos dos passarinhos agora se misturavam com o som das vozes e lágrimas desesperadas. Molly e Arthur eram amparados pelos filhos e noras enquanto Harry sentia Gina se agarrar ao seu pescoço.

-Ele se foi, Harry. Se foi. –falou soluçando. Não tinha forças para nada. Rony se fora, nunca mais o veria. Seu irmão, o irmão de quem era mais próxima. Seu sangue, sua alma.

-Ele se foi. –confirmou num fio de voz, abraçando-a forte.


Após o enterro, todos se reuniram na Toca. O barulho das crianças no Jardim dava vida não só ao lugar, mas também aos corações tristes.

Molly fora levada para o quarto por Arthur, o baque estava sendo bastante forte para ambos. Cunhadas e sobrinhos mais velhos se reuniram para preparar o almoço da família.

Harry estava no antigo quarto de Gina. Ele alisava seus cabelos carinhosamente enquanto a observava dormir.

-Ela dormiu? – perguntou Carlinhos entrando o mais silenciosamente no quarto.

-Dormiu.

-Dia difícil. –falou olhando para o rosto da irmã.

-É. –suspirou.

-Harry... –chamou cautelosamente. –Não sei se é o momento certo, mas sei que você é a única pessoa que pode decidir isso.

-O que foi?

-Acho que com os imprevistos e tudo o mais, acabamos esquecendo a Hermione. Gina nos colocou a par dos últimos acontecimentos, estamos preocupados com ela, e, bom, como ela vai reagir ao receber essa notícia?

Harry sentiu seu estômago afundar. Hermione. Ele esquecera completamente da amiga e agora retornaria com essa bomba.

-Talvez ela quisesse ter estado aqui, no enterro. –falou novamente, tirando Harry de seu devaneio.

-Mesmo se quisesse, ela não teria coragem de encarar todos vocês.

Carlinhos bufou.

-Ela precisa mesmo parar com isso. Ela errou, ponto. Quem é que não erra nessa vida?

-Bom, de qualquer maneira é tarde. – suspirou. –Como é que eu pude me esquecer?

-Foram muitas coisas ao mesmo tempo, Harry. –falou solidário. –Não se sobrecarregue tanto.

-Gina sempre diz isso. –diz tímido.

-E ela está certa. Não se esqueça, Rony se foi, mas você ainda tem uma família enorme. –solta um pequeno sorriso e sai deixando um Harry mudo para trás.

-Oi. –Gina falou com a voz rouca, acordando segundos depois. – O que Carlinhos queria?

-Nada com que deva se preocupar.

-Harry... –pediu sem forças.

-Eu vou precisar visitar Hermione amanhã... esqueci dela.

-Merlin! –gemeu. –Eu vou com você.

-Não. Você vai descansar, ficar com seus pais, seus irmãos... Eu cuido disso.

-Mas...

-Cuidar um do outro. –sussurrou, alisando sua face. – Me deixa cuidar de você. –falou sério e Gina não discutiu. Sábia que não tinha forças para assistir o sofrimento de Hermione. Não agora.

-Como você está? – Harry perguntou preocupado.

-Não sei. – falou com a voz embargada e respirou fundo. – Não sei como ficar bem, não sei como sair desse sofrimento. –confessou.

-Você não precisa sair dai agora. Eu estou aqui e você tem o tempo que for preciso.

Gina afastou o corpo dando lugar para que Harry deitasse ao seu lado e o abraçou.

-E você? Como você fica?

-Eu tenho você, as crianças. Eu vou ficar bem também.

-Harry... –falou pensativa. – sabe o que mais me dói? –ergueu a cabeça e olhou em seus olhos. –Os últimos anos dele foi de total sofrimento, mergulhado num mundo obscuro sem ter chance alguma de ser feliz. Ele se foi sem sentir que ele fizera tudo pela filha, sem ouvir o que Hermione tinha a dizer. Ele morreu se sentindo culpado por tudo o que aconteceu. –suspirou, mas as lágrimas já desciam incontroláveis. – Ele morreu infeliz, Harry. E me dói saber disso. Me dói saber que eu não tinha o poder de ajuda-lo. –mergulho o rosto na camisa de Harry.

-Ninguém tinha esse poder. –sussurrou, consolando-a. Harry entendia muito bem o que Gina dizia, além de sofrer por não terem mais Rony, sofriam por seus anos sem vida, sem alegria. Sentiu seus próprios olhos inundarem de lágrimas e deixou a dor e a saudade o envolverem.

N/A: Olá, pessoal!

Mais um capítulo, mais rápido dessa vez! E mais triste... se é que isso é possível!

Beijos, beijos!