23º Capítulo

Últimas palavras

Uma semana havia se passado desde o dia do enterro de Hermione. Gina e Harry não passaram por nenhuma mudança ao longo desse tempo. Harry parecia alheio às suas atitudes, e Gina estava se tornando mais fria e distante de Harry a cada dia.

A situação entre eles fugira totalmente do controle. Estavam mergulhados em seus próprios sentimentos, acreditando que o espaço e o tempo que estavam proporcionando um para o outro era a melhor maneira de lidar com toda essa avalanche de emoções. Pela primeira vez, Harry e Gina estavam diante de um desafio na relação a dois.

Era quinta-feira à noite. Harry se sentia inquieto, não conseguia dormir e também não queria continuar tomando a poção. Aquilo estava se tornando um vício. Gina estava na Toca com as crianças, sempre que ela tinha um tempo passava por lá. Decidido, Harry se levantou e vestiu qualquer roupa. Iria para qualquer lugar, sem destino. Com esse pensamento desaparatou.

Gina ficava muito sentida quando ia a Toca e todos perguntavam por Harry. Não havia muito que dizer e eles também não forçavam muito o assunto. O fato era que não aguentava mais aquele silêncio e não podia continuar evitando Harry. Precisava conversar com ele e saber o que estava acontecendo. Não podia deixar que os dois se arrastassem para o esquecimento ou para o fim de uma vida juntos. Não. Ela não queria isso.

Quando chegou a casa e não o viu em lugar algum, ficou aflita sem saber o que fazer. Pensou em falar com algum dos irmãos, mas preferiu não fazer alardes falsos. Harry não faria algo imprudente. No final, ela só pôde esperar.


Quando retornou, Gina dormia profundamente. Sentou-se na poltrona de frete para a cama, totalmente sem sono, e ficou a olhando dormir.

Ela parecia abatida e Harry percebeu que nada daquilo estava certo. Eles mal se falavam, não se tocavam. Há quanto não a beijava? Harry não se lembrava. Percebeu que a situação entre eles estava cada vez pior, que ele próprio havia se afastado sem ao menos perceber. O que pretendia com isso, afinal de contas? Estava sendo egoísta trancado em seu mundo, esquecendo de que tinha uma vida, pessoas que o amavam. Motivos suficientes para não se deixar abater.

Abriu a gaveta ao lado e viu tudo ali. Precisava dar um fim àquilo tudo. Viu o dia raiar decido de seu próximo passo.

Algum tempo depois, Gina espreguiçou-se e sentiu seu lado vazio na cama. Levantou o corpo e quase gritou assustada ao ver Harry sentando na poltrona.

-O que faz ai? –perguntou com o coração aos pulos de susto.

-Esperando você acordar.

Gina estranhou e permaneceu em silêncio. Queria dizer algo, mas antes que pudesse formular uma única palavra ele voltou a falar.

-Você acha que pode marcar um encontro com todos na Toca, inclusive os pais da Mione?

-Sim.

-Me avise o horário. – falou e se levantou. Passou por Gina e parou por uns minutos, querendo tocar seu rosto, mas se deteve. Eles apenas se olharam e ele seguiu seu caminho até o quarto de Lily. Gina ficou confusa, mas não argumentou. Iria para a Toca e entraria em contato com Marre e Paul.

Algumas horas depois, Gina já estava pronta e as crianças também. Despois de uma semana corrida de trabalho, finalmente teria aquele final de semana livre. Desceu as escadas e encontrou Harry sentado no sofá.

-Eu vou com as crianças mais cedo. Marre e Paul vão chegar às 19h.

-Tudo bem.

Gina ficou ali alguns segundo ponderando se devia chama-lo para vir junto. Mas sabia que se quisesse, ele viria sem precisar ser chamado. Sabia que ele faria algo importante essa noite e talvez precisasse se preparar. Isso a assustava, pois não sabia o que estava por vir. Mas o deixaria fazer o que tivesse que fazer. Caminhou alguns passos e parou.

-Harry? –chamou e ele se virou. – Não, nada. –desistiu. – Te vejo mais tarde.

-Até mais tarde. –falou olhando-a nos olhos.


Quando chegou à sala da Toca, Harry encontro Weasley e Granger reunidos. Todos ficaram em silêncio quando o viu entrar pela porta, sem saber o que dizer.

-Harry, é bom ver você de novo. –Carlinhos falou quebrando o silêncio.

-Eu sei que fiquei um pouco longe nos últimos dias. –começou a falar um pouco desconfortável.

-Nós entendemos. Não precisa nos dar explicações. –falou Arthur.

-De qualquer forma, eu tenho algo que preciso dividir com vocês. – todos enrugaram a testa, curiosos.

-Alguns dias antes da Hermione morrer, eu fui até a casa do Rony... –parou por alguns segundos. Ele poderia dizer que foi até lá porque precisava sentir a presença de Rony, que precisava desesperadamente que Rony estivesse vivo, mas não era necessário dizer tudo isso. Todos eles sentiam o que Harry sentia, ou talvez mais.

-Fui até lá e descobri que ele havia deixado uma carta. O envelope estava em meu nome, então não hesitei em abrir. Eu sinto muito por isso, porque afinal a carta não é apenas para mim, mas para todos nós. Mas no momento eu só... –suspirou... – Bom, de qualquer forma, teve uma finalidade. Eu mostrei a carta a Hermione antes de ela morrer. Acho que ela precisava disso. Uma nova perspectiva. Mas já era tarde. –engoliu em seco. – E Hermione também resolveu deixar uma carta. Essa eu não li ainda. E eu acredito, que assim como Rony, é do desejo de Hermione que eu partilhe com vocês essas últimas palavras. Desculpem-me se eu demorei tempo demais e agora faço vocês reviverem tudo.

-Você fez o certo, Harry. Acho que agora estamos todos mais fortes para ouvir as últimas palavras de ambos. –falou Percy. Harry ficou em silêncio por um momento e voltou a falar.

-Eu vou ler a de Hermione primeiro. Acho que tem coisas que vocês precisam saber. – olhou para Marre e Paul e eles acenaram concordando já sabem o que viria pela frente.

Harry pegou o maço de papéis e o abriu.

"Eu não sei quem irá receber essa carta, mas eu tenho uma grande intuição de que será você, Harry. Sei que está preocupado e que apesar da nossa última conversa você virá me ver. Saiba que você não me magoou, apenas disse a verdade. Suas palavras e os escritos de Rony que você me mandou me fizeram acordar. Mas eu acordei muito tarde.

Eu cheguei a pouco do St. Mungus. Segui o seu conselho, mas as notícias não foram as que eu esperava. Eu estava morrendo e não fiz nada por minha vida. Sei que você vai ficar alarmado com isso, mas saiba que essa notícia também me abalou. Eu não havia notado que fora tão negligente comigo mesma. E nesse momento eu escrevo essa carta o mais rápido que posso. Não quero ir embora sem dizer tudo o que preciso, necessito dizer tudo a você, aos meus pais, aos Weasley. E principalmente a Hugo. Você sabe da existência dele, Harry... do meu filho, do meu filho com Rony. (Nesse momento Harry ouve várias exclamações de espanto) Você foi esperto o bastante para saber que ele era meu filho com Rony.

Sim, eu tive um filho e é ai que minha história começa.

Quando Rose morreu, eu realmente acreditava que fora Rony o autor desse ato. Eu o afastei, acusei erroneamente. Hoje me dói saber quão injusta eu fui, e pior, ele se foi sem saber do meu arrependimento. Não possibilitei o livramento dessa acusação hedionda. Eu o destruí, eu sei disso, não negue a verdade! Nós poderíamos ter tido um futuro, mas eu neguei isso a ele. Fui cega, não o ouvi e acabei destruindo não apenas ele, mas uma família que sempre vi como parte da minha. Eu peço perdão a cada um de vocês pela dor que causei. Não há muito que eu possa falar agora, pois Rony se foi e o estrago foi o pior possível. Mas saibam que eu sempre os amei e pensei em vocês. Meu afastamento não foi por raiva ou coisa parecida. Eu apenas não conseguia, fui fraca. Simplesmente precisava me afastar de tudo que remetia ao assassino da minha filha, o mesmo homem que eu amei e que amo. A raiva e o amor que eu sentia por ele, me deixavam confusa e arrasada. Essa é a verdade, a dolorosa e vergonhosa verdade. Mas, apesar do meu ódio eu tinha medo do que poderia acontecer com ele se revelasse o que havia acontecido. Guardei esse segredo que me consumia acreditando que Rony ter me perdido e a culpa que carregaria para o resto da vida fossem suficientes. Me calei! Um erro.

Algum tempo depois, da minha fuga, descobri que estava grávida. Esse fato me assustou e fiquei desnorteada por ser responsável por mais uma criança e criá-la sem um pai.

Eu tive uma gravidez difícil, completamente diferente da de Rose. Era por isso que eu marcava horário e data para me visitar, Harry. Eu não podia deixa-lo descobrir. Até que com a gravidez mais avançada nós nos falávamos apenas por cartas. Você deve se recordar desse momento. Eu tinha apenas meus pais como aliados. Os fiz me prometer que não contariam a ninguém.

Pai, mãe, eu sinto muito por tudo o que eu os fiz passar. Vocês guardaram esse segredo, tentando a todo o momento me fazer mudar de ideia. Agora vocês entendem o meu pedido de silêncio. Vocês me amaram mais do que eu merecia e peço perdão por não ter sido honesta, por não ter sido verdadeira com tudo o que estava acontecendo. Eu me perdi no meu caminho e não pedi por ajuda, esse foi outro erro. Eu amo tanto vocês, e hoje, olhando para trás, recordando tudo o que fiz a vocês, eu vejo que fui egoísta e ingrata. Eu menti, omiti e joguei uma carga tão pesada para vocês que a palavra perdão é muito simplória para exprimir o que eu realmente sinto. Eu só posso agradecer pelo amor que recebi e pedir perdão por tê-los abandonado.

E de repente tudo havia piorado. Eu dava o meu máximo por aquela criança, mas meu corpo abatido não ajudou. Eu praticamente morava no St. Mungus e por um momento achei que perderia aquele filho também. E eu o quase perdi. Algumas semanas antes para o nascimento, descobri que havia contraído um vírus mágico e que por causa dele, tive que fazer um parto prematuro, colocando a minha vida e a de Hugo em risco.

Apesar de tudo, Hugo nasceu com saúde e bem. Eu havia conseguido lhe dar a vida. Mas o vírus havia me pegado da pior maneira possível. Falei com meus pais para ficarem sempre perto de Hugo, que não o deixassem sozinho e não lhes contei do meu estado de saúde e pedi a curandeira para inventar qualquer história sobre recuperação do parto. Nada alarmante. A verdade era que eu fiquei praticamente em isolamento até terem certeza de que o vírus não comprometeria outras pessoas. Eu não podia ver Hugo, muito menos alimenta-lo. Era arriscado já que ele era um bebê prematuro e não queríamos causar mais contratempos com sua saúde. Ele foi para casa em poucos dias, mas eu continuei ali e foi mais fácil para esconder tudo dos meus pais. Não queria lhes causar mais sofrimento. Eu pensei que fosse morrer e realmente cheguei perto disso, mas no final consegui me recuperar e fui para casa depois de longas semanas. Era em Hugo que eu pensava, ele precisava de mim. Para que meus pais não descobrissem nada, pois eu ainda precisava me tratar em casa, disfarcei as poções como se fossem remédios trouxas e falei que aquilo eram vitaminas e outras coisas bobas para me cuidar.

Hugo, esse é o nome dele. Eu e Rony sempre dissemos que se tivéssemos um menino ele teria esse nome. E eu pus, sem saber exatamente o porquê. Ele tem os olhos dele, Harry. Exatamente como os de Rony.

Nos primeiros meses, sentia a vida renovando com Hugo nos braços. Mas o tempo passou, ele crescia e apesar da alegria que ele me proporcionava e de saber que ele precisava de mim, eu morria por dentro. Ele tem um sorriso lindo. Muito parecido com o de Rony. Quando ele sorri, contagia a todos. Mas eu ficava me perdendo numa vida que não existia. Eu tinha perdido Rose e seu rosto não saia da minha cabeça. Imaginava a reação de Rony ao saber que tivera um filho, mas isso me torturava. As imagens se misturavam me deixando cada vez mais vulnerável.

Eu tomei minha decisão pensando em Hugo, ele precisava de uma mãe de verdade, mas eu não era eu mesma. Ele precisava de mim, mas eu não estava lhe dando o que era necessário. Decidi me afastar por um tempo. Fiz isso, me sentindo horrível e totalmente derrotada. Deixei essa carga para os meus pais. Eles tentaram fazer com que eu mudasse de ideia, mas disse que seria apenas por um curto tempo. Eu voltaria. Nunca teria coragem de abandonar Hugo, nunca. Eu prometi mandar cartas e sempre falar com ele quando possível e assim fui levando os dias.

Era bom ficar sozinha, mas eu sentia que estava fazendo tudo errado. Fiquei mais perdida do que imaginava. Foi quando percebi que havia algo de errado novamente com meu corpo. Os sintomas eram de gripe. Nada muito grave. Mas com o tempo eu fui perdendo a força, perdendo a vontade de comer e a dificuldade para respirar em certos momentos era terrível. Eu sabia que havia algo errado quando fiquei muito debilitada, mas não achei que fosse grave, não mesmo. Por isso não me preocupava tanto. Eu ignorava aquilo. Outro erro.

Quando fui ontem ao St. Mungus procurei a curandeira que havia cuidado de mim na época da minha gravidez. Fiquei lá durante duas horas fazendo vários exames e descobri que o vírus havia deixado algumas sequelas. É daí que vinham todos os meus sintomas. Só que já era tarde demais, Harry. Eu me esforçava muito para respirar porque meus pulmões estavam falhando. Essa foi a principal sequela, o tratamento contra o vírus deixou meu corpo fraco. Com o tempo meu estomago não conseguia manter a comida, por isso você via o sangue. Eu estava literalmente destruída e não tinha cura ou tratamento. Eu iria apenas... morrer. Como você disse. Eu apenas morri.

E agora eu estou aqui, tentando dar alguma explicação para tudo o que eu fiz, mas sei que nada vai encobrir meu erro. Você vê, Harry? Fui cometendo um erro atrás do outro me afundando na minha autocomiseração, enquanto eu era o monstro. E essas são as consequências.

Você tem total razão. Rony morreu lutando, morreu por algo. Morreu amando a mim e a Rose. E eu não fiz nada. Me arrependo por ter perdido quatro anos da minha vida, mas agora isso não vale de nada. As palavras dele me doem o peito. Ele me perdoou, mesmo eu não merecendo. Eu escondi seu filho, o que poderia ter sido sua alegria. O que eu fiz da minha e da vida dele, Harry? O que eu fui? Será que ele sabia que eu o amava apesar das minhas ideias equivocadas?

Eu não tive a chance de falar nada do que gostaria para Rony, mas agora eu digo para todos vocês. Conto toda a verdade da minha lista infinita de erros. Sei que apesar de Hugo não ter os pais, ele será muito amado. Diga a ele, Harry, que eu o amo mais que tudo. Que ele foi o meu sopro de vida quando eu estava perdida. E espero que ele me perdoe um dia por tê-lo impedido de ter um pai, uma família. Apesar de tudo, Rony e todos os Weasley são tão presentes na vida de Hugo, que é como se ele os conhecesse. Ele cresceu conhecendo cada um de vocês.

Não quero que se sinta culpado por nada, Harry. Eu o conheço bem e sei que me amava. Mas tudo, tudo, foi por minha culpa. Eu o envolvi, o fiz sofrer, mas não se martirize por algo que você não tinha as rédeas para controlar. Eu não quero causar sofrimento na sua vida. Por favor, eu peço que faça isso por mim, por Gina, pelos seus filhos. Você fez tudo o que podia, acredite, mas apenas eu tinha o controle de minha vida, meu amigo.

Todos os meus diários estão guardados na minha casa. Lá você encontrará detalhes de tudo o que aconteceu nesses anos. Quando Hugo tiver idade o suficiente para entender, Harry, entregue tudo a ele. Conte a verdade. Ele precisa saber.

Eu tenho mais um pedido... Conte ao mundo essa história. Mostre ao mundo a história que começou naquele 1º de setembro há tantos anos. Só você será capaz de fazer isso. Sei que não é o final que queria, nem eu, mas nem sempre a vida é seguida através de planos. Essa foi a minha vida com Rony, Rose e Hugo. A vida real, não um conto de fadas.

Eu amo cada um de vocês, e agradeço pelos anos que fui feliz, agradeço por ter-lhes dado Hugo como uma presença eterna minha e de Rony.

Com Carinho,

Hermione Weasley

Harry terminou e ficou em silêncio, assimilando tudo o que a amiga dissera na carta, assim como todos na sala.

-Hermione teve um filho? –Gina perguntou um pouco rude. – Você sabia e não nos contou nada? – acusou.

-Eu desconfiava. –Harry falou. – Só tive certeza no dia que fomos vê-la no dia que ela viu as memórias.

Gina riu sarcástica.

-Nós sentimos muito por tudo. – Paul falou, percebendo o clima realmente tenso. – Nós realmente não sabíamos como driblar a situação.

-Eu acho que nós temos muito a conversar, e teremos muito tempo para isso. –Arthur falou em choque, porém calmo. –Mas eu gostaria muito de ouvir o que meu filho tem a dizer. –falou com emoção. – Harry?

Harry acenou e pegou a carta de Rony.

"Harry, se essa carta chegou até você, é porque algo deu errado e eu não estou mais presente. E conhecendo-o como eu o conheço, meu amigo, eu sei que você iria até a minha casa. Sei também que você deve estar lendo diante de todos da minha família (não antes de ter lido sozinho, acredito), então não preciso pedir. Acho que seria muito audacioso dizer que Hermione também estaria ai. Bom, de qualquer forma, ela também está inclusa nesta carta.

Primeiramente eu gostaria de dizer que sinto muito por terem que ler isso. Quero que saibam que eu não queria morrer, definitivamente esse não era o meu objetivo. E a minha finalidade com essa carta era garantir que vocês soubessem disso e também ter a chance de me despedir de vocês. Pois eu sei que nesse momento vocês estão sofrendo. E me dói saber disso.

A verdade é que a minha vida tem sido um inferno desde a morte de Rose. E quando Hermione foi embora, o que era meu maior medo, tudo piorou. Eu só queria dar um fim a esse pesadelo, era tudo o que eu queria. Dar um fim a esse pesadelo e, assim, poder começar a viver. E eu estava disposto a seguir com esse plano custasse o que fosse. E no fim, custou a minha vida. Não foi só por Rose que eu fiz isso, mas por outras várias famílias que foram destruídas pelas mesmas pessoas. Agi por ódio? Uns podem dizer que sim. Mas eu queria justiça!

Eu sei que parte da culpa é minha. Não neguem. Eu não protegi Rose na hora que ela mais precisou. Eu não estava lá por ela e ela se foi, a minha família se foi e não havia nada que eu pudesse fazer.

Eu sei que minhas tentativas para que fiquem bem, talvez sejam vãs, mas eu quero tentar. Eu quero vê-los bem. Não quero que sofram. As minhas tentativas em vida de ser feliz não deram certo. E agora que não estou mais vivo, e vocês sim, preciso que vocês sejam felizes! Preciso que as vidas de vocês continuem a valer a pena!

Lembra-se da nossa última conversa, Gina? Foi minutos atrás. Eu sei a resposta da sua pergunta. Eu tentei várias vezes convencer Hermione de que não fora eu, tentei mostrar a ela que podíamos ter ficado juntos e eu queria isso, Gina! Eu daria tudo na minha vida para tê-la de volta! Eu tinha medo, mas eu a queria, eu amo e sempre vou amar! Não importava o que ela havia feito, não importava o do que ela havia me acusado. Como você havia dito, dois estranhos podem voltar a se conhecer.

Mas eu desisti de mostrar a verdade. Eu cansei, não tinha mais forças. E hoje, preste a prender o homem que matou minha filha eu te falo, Hermione, de peito aberto: Você errou. E eu sinto muito por isso. Não queria que você tivesse feito isso. Queria que tivesse me dado uma chance de mostrar a verdade. Porque eu te amo, te amo até o fim dos meus dias. Depois de tanta raiva, pedidos, negação eu a perdoo. A perdoo por tudo. A perdoo, principalmente, pelo maior dos seus erros: o filho que você me escondeu. Sim, eu sei que ele existe.

Eu fui à casa dos seus pais há dois anos e vi um garotinho. Ele tinha os seus cabelos e os meus olhos. Mais uma vez eu fui para que me ouvisse, para que visse a verdade, mas fiquei atordoado com aquela criança e sai de lá o mais rápido que pude. E eu nem ao menos sei seu nome! Lembro-me de nossas conversas e dizíamos que se tivéssemos um garoto seria Hugo. Seria esse?

Eu queria ter imposto minha presença, mas não tive coragem. Eu tinha medo de que minhas memórias não fossem provas suficientes da minha inocência, caso você decidisse me denunciar. Isso me envergonha, admito. Rose teve tudo de mim e esse pequeno garoto não teve nada. Mas eu o amo e todos os dias a imagem de seu rosto jovem vem a minha mente. Apesar disso, eu guardei muitas memórias para ele e comprei muitas coisas pensando em um dia entrega-las a ele. Mas esse dia nunca vai chegar. Então fica a encargo de vocês recolher todas essas coisas na minha casa e contar a Hugo quem fui.

Diga a ele... Eu não tive tempo de conhecê-lo. De saber se ele tinha medo de aranhas ou se ele já sabia Hogwarts: Uma História de cor e salteado, mas independente disso, eu o amo, que ele foi a alegria dos meus dias sombrios. Mas que ele também me fazia sentir culpado por sorrir, porque Rose não estava mais ali e ele sim. E outras, Rose me fazia sentir culpado, porque eu dei meu amor a ela, e a ele eu refreava esse amor. Será que um dia ele vai entender os pais que teve? Será que um dia ele vai perdoar a mim e a Hermione?

Nesse momento o que mais me frustra não é ter morrido, mas, sim, ter morrido sem Hugo saber que ele tinha um pai que o amava. É isso que me dói. E não há nada que eu possa fazer para mudar essa verdade. Nada.

Diante disso tudo vocês podem ver que eu também errei. Eu também tenho minha parcela de culpa nessa história, eu sei disso. E peço, nesse momento, mas talvez isso nem é preciso, que perdoem Hermione. Ela foi a mulher da minha vida, ela foi a escolhida, foi ela quem me fez feliz, ela quem me deu filhos, é ela que eu amo. Apenas foquem nisso.

Marre e Paul, vocês foram como segundos pais para mim. Sei que proteger Hermione naquele momento era prioridade e não os culpo por não terem me dado passagem. Nem posso culpa-los.

Mãe, pai, sei o quanto os fiz sofrer. Eu não queria, não mesmo. Mas agora que não me tem ao seu lado, imaginem minha dor quando perdi Rose e Hermione me deixou. Eu simplesmente não consegui. Fiz o máximo que pude. Eu os amo, muito e não quero que sofram mais. Agora vocês tem um pedaço de mim e sei que vão ama-lo muito.

Irmãos, sei que também não devem estar bem, mas também sei que estão sendo o amparo nesse momento. Eu amo cada um de vocês.

Gina, minha irmã! Eu sei o quanto você queria me ajudar! Eu sinto muito por tudo o que causei e por ter me distanciado de você. Não queria que nossos últimos anos juntos tivessem sido assim. Mas o problema sempre esteve em mim, ou na minha vida para ser mais exato. Sua mão sempre esteve estendida para mim e não quero que pense que foi o contrário. Quero que você levante essa cabeça, pois a sua vida está diante dos seus olhos. Harry precisa de você e você dele. Vocês não podem deixar que nada derrubem vocês, você está me entendendo? Eu vou ficar bem e preciso que você também fique.

Harry...eu não sei o que dizer a você. Eu tentei evitar qualquer sofrimento e não sei se consegui. Provavelmente não. Você deve ter estado lá comigo e eu não sei o que aconteceu. Seja o que for, não se atenha a isso. E mais uma vez conhecendo-o como eu o conheço, não se culpe. Você é meu irmão e não quero que carregue esse sentimento falso. A única coisa que quero que faça é que cuide de Gina. Ela pode parecer a mulher mais forte do mundo, mas por dentro é tão quebrável quanto qualquer outra pessoa.

Eu agradeço tudo o que fez por mim, mas eu precisava tomar minhas próprias decisões e seguir meu caminho, sendo errado ou não. Tire um tempo de férias, esfrie a cabeça. Eu e Hermione tomamos todas as suas energias e de Gina também.

Eu amo cada um de vocês e lembrem-se, tudo vai ficar bem. Eu prometo."

Eternamente,

Rony Weasley

Harry terminou de ler escutando o silêncio ser quebrado apenas pelos soluços. Ergueu os olhos e viu Gina com os olhos vermelhos vidrados nele. De repente, se levantou e saiu. Harry baixou o olhar e suspirou. Abriu o embrulho que trazia e colocou sobre a mesa. Lá estava o uniforme de Rony, seus sapatos, o relógio e sua varinha. Pegou o caderno que Rony escrevera sobre seus quatro anos de puro pesadelo e também o deixou ali. Levantou-se em silêncio, escutando todos começarem a conversar e seguiu os passos de Gina.

Não podia deixar as coisas alcançarem um ponto mais extremo do que já estava. E agora, após ler as palavras de Hermione e de Rony pela segunda vez, Harry se sentia mais leve, como se tivesse a chance de continuar sua vida. Essa era a noite de expelir tudo o que fosse necessário. E ele e Gina precisavam desse momento.

Seguiu para a parte de trás do quintal e a viu lá em completo silêncio, olhando o céu tomado por sua escuridão. Parou a alguns metros de distância também permanecendo em silêncio. Tinha medo de iniciar aquela conversa. Medo de revelar coisas que ele não queria admitir nem para si mesmo.

-Então era isso que você estava escondendo. –Gina falou sem se virar. Sua voz era dura e ela não sabia dizer se era por Hermione ter escondido tal coisa ou por Harry não ter lhe contado.

-Eu...

-Sim, você já falou. Só desconfiava. –falou impaciente, virando-se para ele.

-Eu queria te poupar. Eu não queria que precisasse se envolver sabendo quão fragilizada você estava.

Gina engoliu em seco. Não gostava daquela palavrava, fragilizada. Mas era a verdade, ela estava e ainda está fragilizada.

-Eu sei disso, mas isso não é motivo para esconder as coisas de mim...

-Eu sei... –cortou-a. - Eu só não sabia o que fazer.

-Eu sei que eu estava distante, Harry. Sei que as coisas ficaram um pouco difíceis. Sei também que você viu seus dois melhores amigos morrerem na sua frente. Eu entendo. De verdade. –falou sincera. –E, de repente, você me isolou, se fechou para mim. E eu me senti perdida. Eu preciso ser forte pelos meus pais, pelos meus filhos... e a única pessoa que eu tinha não estava mais ali.

-Eu não quis excluir você, eu não queria que isso estivesse acontecendo. –respirou fundo. –Eu perdi a cabeça. Rony estava ali, bem na minha frente e eu não pude fazer nada por ele. Hermione morreu nos meus braços, nos meus braços, Gina. E eu implorei para que fosse a um hospital. Eu via você, via os Weasley, via os Granger e pensava no meu fracasso como amigo. E agora tem uma criança sem pais. Rony nunca teve a chance de dar um abraço no próprio filho, chance de pelo menos uma vez ter esquecido a tragédia com Rose e ter o prazer de ser pai novamente. Isso tudo não entrava na minha cabeça.

-Harry, você não foi um fracasso. –Gina falou respirando fundo, engolindo as lágrimas.

-Hoje eu sei que não, mas era como eu me sentia. E confesso que ainda existe um conflito dentro de mim, Gina. Eu sei que fiz de tudo por eles, sei que eles se colocaram nessa situação e apenas eles poderiam sair dela. Mas ainda sim tudo isso me assombra.

-E o que você vai fazer a respeito disso? Deixar que esse pesadelo tome conta da sua vida? –pergunta com a voz baixa.

-Eu não posso deixar isso acontecer. Eu não posso deixar que nós dois nos tornemos eles. –declarou com sofrimento. – Eu não queria magoá-la, não queria ter me afastado no momento que você mais precisou.

-Eu também sinto muito por não ter lutado por nós. –passou a mãos pelo rosto, aflita. –Eu deixei as coisas estagnadas. Essa não sou eu e não é quem eu quero me tornar.

Harry se aproximou e envolvendo a face de Gina com as duas mãos. Ela fechou os olhos com o toque. Há quanto tempo não ficavam tão próximos? Era como se finalmente eles fossem Harry e Gina novamente.

De repente, Gina começou a soluçar forte envolta por sentimentos que ela não conseguia colocar em palavras.

-Eu... eu... não quero que se afaste de mim, Harry. –falou com dificuldade.

-Eu nunca faria isso. Eu não poderia deixar isso acontecer. Nunca. –beijou sua testa.

-Eu sei que estamos todos quebrados, e você tem todo direito de sofrer, assim como todos nós. Eu estou disposta a te dar o tempo que for necessário. Mas eu quero que você converse comigo, diga o que sente, não quero que fuja e se isole. Eu só quero fazer o mesmo que fez por mim. É só me dizer o que precisa, Harry.

-Eu só preciso de você. –falou e encontrou seus lábios para um beijo urgente e saudoso. Até o momento, não tinham ideia de quanta falta sentiam um do outro. Seus corpos se espremeram e suas bocas procuravam uma a outra com ânsia. Por um momento curto, tudo fugiu da mente de ambos.

Mas quando o beijo terminou, Gina sentiu seu peito doer. Abraçou-se a Harry e chorou.

-Será que vai passar? A dor? –perguntou em meio às lágrimas.

-Nunca passa. –falou sincero. –As pessoas tem o costume de dizer que o tempo cura, mas ele não me curou, ele só me fez conviver com esse vazio. Eu tento pensar em coisas boas para sobrepor o vazio.

-E o que acontece agora?

-Continuamos a viver. Tentamos aprender a viver sem eles. –falou engolindo em seco. – Agora nós nos reerguemos e continuamos a viver.

-Rony e Hermione querem isso.

-Então é isso que podemos fazer por eles e por nós mesmos.

N/A: Olá, leitores!

Mais um capítulo! E agora todas as explicações ai para vocês! Espero que gostem!

Beijos!