Epílogo

Hugo nunca estivera ali antes. Mas de acordo com seus tios Harry e Gina nada saíra do lugar. A não ser a poeira que Gina tirava de tempo em tempo com um aceno da varinha.

Caminhou pelos cômodos tentando imaginar a vida de um homem que na verdade ele não conhecia e que ainda tinha dúvidas se queria conhecer. E tudo parecia tão sombrio e solitário. Tinha certeza quase absoluta de que era assim que o pai se sentia na maior parte do tempo.

Na verdade, Hugo também se sentia assim... até certo ponto. E, às vezes, se pegava imaginando como seu tio Harry lidara com toda sua história.

E agora, com seus dezessete anos, era hora de encarar a verdade. Não queria mais deixar os detalhes de uma vida para trás. E era por isso que viera à casa do pai pela primeira vez.

Quando chegou ao escritório a primeira ideia que lhe veio a mente foi um ninho de caça. Época de quando procurava o assassino de Rose. Ou seja, a vida toda. – pensou com sarcasmo.

Hugo não queria admitir, mas tinha ciúmes. Ciúmes de um pai que fizera tudo por sua irmã que não estava mais ali e não fizera nada por ele que estava bem debaixo do seu nariz.

Há alguns anos existia apenas raiva e os porquês sem respostas. Rony nunca o procurara e suas últimas palavras não eram suficientes para satisfazê-lo. Mas os dias passaram, Hugo foi amadurecendo... Esse era um ciclo que precisava ser fechado. Sentia que amava o pai, sentia que ele também o amava profundamente, mas por que ainda se sentia abandonado? Por que ainda sentia alguns acessos de raiva e gostaria de nunca mais ouvir seu nome?

Sabia de toda a história, sabia que sua mãe tinha grande parcela de culpa, que ela foi negligente com sua saúde. Mas como fazer seu coração acreditar que foi o medo que afastou seu pai?

Hugo entrou no escritório sentindo sua curiosidade aguçar. Pergaminhos, pastas, painéis, fotos, esquemas, baús, cada item chamou sua atenção. Passou os olhos por algumas coisas, algumas ele leu, outras observou com atenção.

Agachou-se e abriu um dos baús. Dentro, viu vários frascos com lembranças, cada uma com data e título.

-Provavelmente as que ele mencionou na carta. –sussurrou, cansado. Parou um segundo, levantou-se rapidamente e chutou o baú, com raiva. De repente, sentiu ódio, não do pai, mas do homem que tirara sua vida. Era para ele estar ali! Era para ele explicar tudo e não ter que assistir a tudo e tirar suas próprias conclusões!

-Ahhhhhh! –gritou raivoso e se jogou à cadeira, esfregando a face em pleno desespero.

Respirou fundo e olhou ao redor. Meu pai sentou aqui, ele tocou em cada canto desta sala. –pensou melancólico. Abriu a primeira gaveta e encontrou um conjunto de fotos soltas. Fotos com toda a família, com o tio Harry, tia Gina...foi passando até ver uma foto de Rose. Ela sorria para a foto. Hugo sorriu junto institivamente. Sentia muito por não tê-la conhecido, e, às vezes, até se sentia culpado por estar aqui e ela não.

A foto seguinte foi uma surpresa, uma foto sua. Ele não sabia como o pai conseguira e não sabia se isso lhe causava mais raiva ou alegria. Deixou de lado e pegou a próxima. O que viu o deixou com frio na barriga: Rony e Hermione se abraçavam e se olhavam muito apaixonados. Hugo nunca vira nada assim dos dois. Em sua mente só enxergava os pais distantes e se odiando. Ele nunca conseguiu visualizar esse amor que todos sempre descreviam. Ele sempre achava que diziam isso para que se sentisse melhor ou que nessa história havia algo realmente bom. Esse tipo de foto era raro, e Hugo lembrou o que sua tia dissera uma vez: "Provavelmente sua mãe escondeu tudo naquelas caixas no chalé. Quando quiser podemos ir lá procurar.". E como a casa do pai, Hugo nunca visitara o tal chalé e as poucas coisas da mãe que tinha, não lhe dava indicio algum sobre seu pai ou esse amor.

Hugo sentiu seu coração acelerar. Tudo o que precisava estava ali. Ele se levantou tão rápido que jogou a cadeira no chão. Precisava de mais, precisava se sentir mais próximo dos pais, precisava conhecê-los. Correu até o baú que chutara minutos atrás e se agachou diante dele. Escolheu uma memória aleatória e entrou na velha penseira do pai.

Hugo pôde presenciar vários momentos dos pais, inclusive de Rose, o que o deixou em pura catarse. Pessoas que ele não conhecia, que ele nunca poderia ter a chance de conviver, mas que poderia ter um pedacinho delas.

Retornou de mais uma lembrança e voltou para o baú, olhou para um frasco que lhe chamou atenção. A etiqueta dizia: Último dia. Ele sabia que se tratava do dia que Rose morrera.

Jogou o conteúdo na penseira e entrou.

-Rony, não faz isso!

-Mas ela adora, Mione! –Rony gritou, jogando Rose mais uma vez para o alto.

-Eu disse chega! –retrucou nervosa, chegando ao lado dos dois.

Hugo observava hipnotizado, capitando cada detalhe.

-OK. –Rony suspirou. E desceu Rose. –Vai procurar seus primos, ruivinha. Papai vai conversar com a mamãe.

Rose beijou a face do pai e saiu correndo gritando.

Hugo gargalhou com o jeito da irmã e a observou por um tempo, assim como o pai, e depois o seguiu.

-O que? Vai me chamar de mandona agora? –perguntou irritada.

-Não. –falou paciente e sentou-se no banco.

-Acho melhor irmos para casa, está ficando tarde.

Hugo sentou-se na grama, de frente para os dois.

-Ou... você pode se sentar aqui ao meu lado por um momento e me contar o que está acontecendo. –fitou-a. Hermione estava de pé e braços cruzados no peito.

Rony a conhecia bem demais para saber que aquele nervosismo era apenas de fachada. Ele só precisava esperar para que ela confidenciasse o que a estava torturando.

Hermione revirou os olhos e ficou mais impaciente.

Hugo riu do jeito dos pais. Estava começando a conhecê-los.

-Eu não quero sentar, quero ir para casa!

-OK. –falou simplesmente e continuou a fita-la.

-Você me irrita às vezes, sabia?

-Eu sei! –riu.

Hermione virou o rosto, não aguentou e soltou um pequeno sorriso e logo em seguida um pequeno soluço. Rony a pegou pela mão e a guiou até seu colo. Hermione foi com prazer e enterrou o rosto na curva de seu pescoço.

-Vai me contar o que está acontecendo? –perguntou alisando seus cabelos.

-Não é nada demais, na verdade. –sussurrou. –É só que...

-Que...

-Estou um pouco frustrada. Já é a segunda vez.

-Segunda vez de que? –perguntou confuso.

-Alarme falso.

Rony franziu a sobrancelha ainda sem entender, Hermione revirou os olhos, enxugando as lágrimas, e riu.

-Gravidez, Ronald, alarme falso para gravidez!

-Ahhhh! –exclamou. –Mas eu acho que você está se chateando a toa.

-Eu sei. Quer dizer, às vezes acho que tem algo errado comigo.

-Isso é pura paranoia sua e você sabe disso. Você anda ansiosa, precisa relaxar. –falou alisando suas costas. Hermione sorriu.

-Afinal, qual a pressa? Rose só tem dois anos. Temos todo o tempo do mundo! –beijou sua orelha.

Hugo sorriu triste. O todo tempo do mundo acabou.

-E se não tivermos?

Rony a olhou intrigado.

-E se tudo acabar de uma hora para a outra? Já pensou?

-E para que eu ia pensar algo assim? Eu estou aqui, Rose também. Nós não vamos a lugar algum, Hermione. –falou sério. –Espero que você também não!

-Claro que não. –sorriu e o beijou.

-Eu não sei o porquê essas coisas estão na sua cabeça, mas eu amo você. Eu quero que se lembre disso, independente de qualquer, eu digo qualquer coisa! É você que eu amo e é você que eu vou amar até o último dia da minha vida. Mesmo quando a gente se diz odiar um ao outro, eu te amo. –beijou seu pescoço.

-É besteira minha. –falou se apertando mais a ele, enquanto sentia suas mãos alisarem suas costas. – Eu não poderia deixar de amar você nem se eu quisesse, Rony. Nem se eu quisesse. –sussurrou e o beijou sofregamente.

Hugo sentiu-se envergonhado com a cena, mas ao mesmo tempo não conseguia deixar de assistir.

-Tem certeza que eu já não fiz minha obra de arte e daqui a alguns meses o Hugo chega? –perguntou ofegando e gargalhou.

Hugo sentiu seu coração pular no peito. Estavam falando dele!

-E quem disse que o nome será Hugo? Eu não dei a palavra final ainda.- Falou inquieta.

-Eu sei que você gostou! –mordeu seu queixo.

Foi ele quem escolheu meu nome!-Hugo pensou eufórico.

-Tenho certeza que a sementinha do Hugo não foi plantada. –falou revirando os olhos.

Rony socou o ar em vitória e Hermione gargalhou.

-Mas... podemos ter outra menina. –refletiu ele.

-Rony, cala logo essa boca! Vamos pegar Rose e ir para casa! –riu. Beijou toda sua face.

-Seu desejo é uma ordem. –falou pigarreando sentindo os beijos de Hermione em seu pescoço.

Hugo ficou rindo dos pais. Eles eram engraçados. Ficou assistindo os últimos momentos e logo estava de volta ao escritório.

Fora um dia tão normal que terminara tão tragicamente. Mal sabia sua mãe que ela já estava gravida dele. Que falavam sobre sua existência sem saber que ele já estava crescendo em seu ventre.

Assistir a tudo isso era um alento, mas também um desalento. Imaginar a vida que construíram, os sonhos que ainda tinham, ver aquela família normal e feliz terminar do jeito que terminou. Era irreal.

E agora podia entender o amor que os pais sentiam. Podia sentir esse amor, era nítido, ali, naquelas memórias. Todos insistiam em lhe dizer isso, mas como não ficar com a dúvida lhe cutucando? Hugo nunca convivera, nunca os vira juntos! Mas agora estava tudo ali, tudo o que ele precisava para que não fosse mais necessário querer acreditar e, sim, simplesmente saber.

Assim como quando escutou seu nome pelos lábios do pai, soube também que antes mesmo de nascer ele já fazia parte daquela família, que era amado e desejado. Isso bastava numa vida sem eles.

E agora imaginava como deve ter sido para o pai ficar longe, sabendo que ele estava ali tão perto. Quão difícil foi viver com esse misto de sentimentos, a filha morta, a mulher que não o acreditava e um filho a sua espera e que por mais que ele quisesse vê-lo e abraça-lo não conseguia. E sua mãe, que viveu no escuro, com a dor da perda, acusando, julgando, e que quando descobriu a verdade, o desespero do arrependimento e da culpa a consumiu até a morte.

Hugo se entregou a um choro, que apesar de tudo, era purificador e agradeceu aos seus por essas descobertas. Não tinha seus pais, mas finalmente podia aceitar e entender suas decisões, seus erros e suas escolhas. Finalmente poderia amá-los com seus defeitos.

Agora, ele tinha uma vida inteira para se permitir fazer parte e não ia adiar mais. Estava pronto para conhecer sua família.

Fim

N/A: Meus queridos, e essa foi O Diário de Uma Paixão!

Agradeço a todos que leram e que não desistiram da minha enrolação...rsrsrs

Esse momento Rony e Mione eu dedico para uma amiga muito especial, a Patrícia, que me acompanha desde de sempre! Obrigada pelo seu apoio, Sister!

A todos vocês eu deixo um abraço enorme e meu eterno agradecimento pelos recados, pelo carinho e companhia!

Em breve retornarei com outro projeto e para que esse infortúnio de sumiu não aconteça, só vou começar a postar quando tiver muita coisa adiantada!

Beijooooo no coração de todos vocês!