CAPÍTULO QUATRO
Haviam levado mais tempo do que o esperado em seu trajeto, quando encontram um vilarejo movimentado e barulhento. Mesmo com muitos aldeões transitando na tumultuada feira, a figura altiva de Andreas não passa despercebida e desperta cobiça. Algumas pessoas encantadas com a beleza singular daquele desconhecido e outros imaginando seu peso em ouro. Eram os mercadores de escravos, ocultados em meio à multidão.
- Como seremos percebidos? – pergunta Cosme olhando para os lados e tentando encontrar um ponto de partida.
- Vamos nos misturar às pessoas e falar mais do que deveríamos. Alguém irá prestar atenção em nossa conversa e receberemos sugestões e propostas. – Andreas estreita os olhos e observa ao seu redor. – Precisamos encontrar uma taverna para nos alimentarmos decentemente.
Quando entram na movimentada taverna, muitos olhares imediatamente se voltam para olhá-los com as mais diversas expressões e pensamentos. Os olhares que não se voltaram de imediato, levam apenas alguns segundos de retardo para caírem sobre o trio, mas em especial na beleza do homem alto e de cabelos longos e escuros.
- Boa tarde, minha senhora! – Andreas sorri lindamente e já encanta a proprietária da taverna. Entrega três moedas de ouro para a mulher e sutilmente escova seus dedos aos dedos dela. - Acredito que isso cubra as nossas despesas. Preciso de um quarto para duas pessoas, estamos com fome e queremos banho quente.
A mulher sorri e acredita que havia entendido a mensagem. Diz qualquer coisa para um homem gordo e grisalho e indica o segundo andar do prédio.
- Eu vou mostrar o quarto para vocês. Depois vou providenciar alimento e o banho. Vocês vão ficar no mesmo quarto?
- Sim. Mas uma cama é suficiente. Somos casados.
Cosme é pego de impacto e não consegue esconder o olhar risonho surgido em seu rosto. A mulher levanta as sobrancelhas pintadas e não diz nada de imediato. Pela quantidade de moedas recebida, poderia hospedar uma manada de búfalos num mesmo quarto. Continua seu trajeto e após alguns minutos abre a porta do melhor quarto daquela espelunca.
- Há somente uma cama, mas vocês devem saber como se acomodar.
Andreas toca-lhe o cacho de cabelos que caía pelo ombro e exibe o mais doce dos sorrisos.
- Sabemos como nos acomodar. Peço que não demore com a comida e a água quente para o nosso banho.
Depois que a mulher os deixa sozinhos, eles se despencam sobre a cama dura.
- Muito bem! Como vamos chamar mais a atenção para nós? – Andreas se senta sobre o colchão. – Provocaremos uma briga?
- Nós já chamamos a atenção para nós, irmão, com esta história de casal. – Cosme levanta-se e acomoda a mochila que ainda carregava, sobre o chão.
No início da noite, já alimentados e com roupas limpas, os dois reaparecem no centro da taverna, onde muitos bebiam e jogavam, alguns discutiam e outros apenas observavam as pessoas em busca de companhia. Havia música e o som da voz humana assemelhando-se ao belo som do mar.
- Precisamos nos exibir e obter alguma informação valiosa. – Andreas fala de si para si.
- Pela maneira como nos olham, penso que seria melhor se nos camuflássemos. – Cosme esboça um sorriso para uma jovem prostitua que despe Andreas com seus olhos grandes.
Cosme afasta-se calmamente de Andreas, aproxima-se de um grupo de jogadores e para numa posição que causa incômodo aos demais. Emite pequenos sons de desaprovação diante de cada cartada que considerava incorreta, o que começa a provocar raiva nos jogadores.
- O que há com você, cara de rato? Conhece jogadas melhores do que estas? – um dos homens esmurra a mesa.
- Conheço sim e fico admirado que jogadores profissionais como vocês, as desconheçam.
Todos começam a rir. Um dos jogadores aponta para uma cadeira e praticamente obriga Cosme a se acomodar ali.
- Venha jogar e mostre tais jogadas. O que tem para apostar?
O homenzinho sorri e exibe segurança. Com suas mãos rápidas, exibe uma pérola retirada de uma pequena bolsa de couro. Deposita a bolsa sobre a mesa e provoca comoção e discussão. Uma partida é iniciada e Cosme mostra-se estranhamente seguro de seus atos. Sorri e acena para Andreas, posicionado próximo à mesa de jogos.
Muito tempo e jogadas depois, Cosme acumula vitórias e prêmios. Totalmente sóbrio, ele mantém sua atenção no casal amigo e nas mãos dos adversários de cartadas. Lá pelas tantas, recebe um sinal de Andreas e entende que seria o momento certo para obter algumas informações.
- Eu preciso entregar uma encomenda a um velho conhecido e não tenho como chegar a ele.
- E onde esse velho conhecido está? – um dos jogadores solta uma baforada do charuto fedorento.
- Não está em reino algum desta região. Está num reino que somente pode ser alcançado por meio de um portal. Mas para abrir este portal, preciso de um objeto valioso.
O homem gargalha e bebe outro gole da cerveja, molhando sua barba horrenda.
- Objeto valioso? Qual?
- Um feijão mágico.
Os olhos escuros do homem fixam-se no rosto de rato de Cosme. Olha-o com tamanha invasão e profundidade.
- Esses feijões estão quase extintos e os que existem, valem muito.
- Mas eu sei que você poderia dizer-me onde consigo um desses.
Uma risada estrondosa é o início da resposta do homem.
- Posso dizer, mas tenho o meu preço. – ele se vira na cadeira e aponta com o dedo gordo na direção de Andreas. – Quero aquele rapaz como forma de pagamento!
Os demais jogadores e frequentadores ficam em silêncio, prestando atenção na negociação dos dois apostadores.
- Ele é justamente a encomenda que tenho de entregar.
Uma risada pigarrenta é a resposta do jogador. Escarra e cospe no chão, passando a sola da bota por cima da sujeira.
- Este é o preço da informação.
- Como posso entregar a encomenda como pagamento pela informação do paradeiro do feijão? De que me valeria o portal aberto sem a encomenda em mãos? – Cosme gesticula de forma desdenhosa. – Você não tem informações e nem sabe de feijão mágico algum. É apenas um bufão mentiroso!
O homem se levanta e esmurra a mesa. Inclina-se sobre ela.
- Seu homenzinho horrendo! Sua ratazana fedorenta! Veio até minha mesa, ganhou todas as partidas e ainda quer desdenhar de mim? Eu sou Jota Ruivo e tenho reputação de mercador! Tenho objetos que nenhum outro mercador possui!
- Não possui não! – Cosme mostra um sorriso cínico sem exibir os dentes pequenos. – Você não possui aquele rapaz e nem possui o feijão mágico! Então, deduzo que sua reputação é uma grande bosta!
E se faz um silêncio sepulcral.
- Eu lhe devolverei tudo o que ganhei, em troca do feijão mágico ou de uma informação que me leve a ele. – Cosme sorri.
- Não quero seu dinheiro! Eu quero aquele rapaz! Posso me fazer muito rico e parar de trabalhar, caso o venda para uma determinada dama! Ela poderá tornar-me um dos homens mais abastados deste reino!
Cosme apóia o queixo na palma da mão e olha o jogador com mais desdém ainda.
- Por que ela pagaria tanto assim pelo rapaz?
- Você é um jumento!Olhe para ele e diga o que está vendo?
Todos os olhos fixam-se na figura bonita de Andreas. Ele se sente despido e depilado no meio de um salão de festas.
- Hum! Vejo um homem alto, com bons músculos, altivo...belo rosto...poderia perfeitamente ser a encarnação de um príncipe!
- Além de feio, você é estúpido e desinformado! Ele não é a encarnação de um príncipe, seu bosta! Ele é a reencarnação do maldito e purulento Capitão Gancho! E todos perceberam isso quando vocês entraram por aquela porta! – o jogador bêbado e furioso soluça e não consegue beber o restante de sua cerveja. – Esta dama quis entregar o mundo ao pirata, mas ele somente tinha olhos e coração para a esposa morta! Imagine o quanto eu ganharia se levasse esse rapaz para ela? – o som prolongado de um arroto interrompe a fala do homem.
Cosme emite muxoxos e começa a guardar todo o prêmio que havia ganhado durante as partidas. Dá uma olhada desdenhosa para o mercador bêbado e deixa algumas moedas sobre a mesa.
- Bufão mentiroso e delirante! Espero que os ciganos roubem toda a sua mercadoria e o deixem ainda mais ridicularizado. – diz e levanta-se dali, gesticulando para que o casal o siga. É prontamente atendido.
- Eu não minto! – Jota Ruivo se põe em pé e caminha trôpego atrás do trio que se afastava do salão, saindo da taverna. – Eu não minto e posso provar que conheço aquela maravilha de dama apaixonada pelo Capitão pirata peçonhento e ladão...ladalão...ladrrrão...
