CAPÍTULO SEIS - ANDREAS

Alguns dias doloridos depois, a carroça carregando a cela com grades para diante da entrada de um vilarejo. Um arco feito em pedra e protegido pelas trepadeiras, esverdeado a construção. Lá dentro, vários casebres rodeavam uma construção muito maior, mas não pomposa como a um castelo. Era a residência da Senhora Agnese, conhecida como a Dama Triste.

- Abram a cela e o deixe sair para respirar melhor.

Andreas é retirado da cela e precisa ser amparado devido ao tempo em que ficara encolhido dentro daquele espaço minúsculo. Sentia dores nos músculos.

- Veja a sua nova residência, rapaz! – Jota Ruivo aponta para o casarão. – Aqui passará os seus dias, até que a dama se enjoe de você. Podem apresentá-lo ao irmão da dama. É certo que ele ficará impressionado.

O prisioneiro mantém sua altivez e espera um momento certo para sua reação. Não poderia arriscar sua segurança, por isso mostra-se submisso.

- Seja um bom menino ou terei de perder minha mercadoria. – a voz de Jota atrai os olhos de Andreas, mas antes que pudesse continuar, sente a dor de um chuta contra suas costelas e ainda consegue vê seus empregados serem atacados com fúria pelo prisioneiro.

Os três lutam violentamente, enquanto Jota Ruivo recupera-se do golpe. Sente-se obrigado a intervir no auxílio de seus empregados. Depois de muito tempo, exausto, Andreas é novamente imobilizado, deixando um saldo de estragos nos agressores.

Lá dentro do casarão, os mercadores são acompanhados por empregados até a presença de um homenzinho gordo com pernas finas. Era o irmão da proprietária daquele vilarejo e o administrador local.

- Ora, ora, Jota Ruivo! O que me trazem como novidade? – ele sorri e esfrega as mãos ao ver um homem encapuzado e amarrado ser ajoelhado no chão. Tira o capuz do prisioneiro e um rosto impressionante surge para quem quisesse ver. – Pelos pássaros no céu! Mas o que é isso?

O homenzinho fica histérico. Começa a saltitar, rodopiar e a arriscar passos de dança. Sorri, aplaude, emite sons gozados e depois retorna para observar indiscretamente a beleza do homem ajoelhado e nitidamente furioso. Poderia receber uma mordida se ficasse mais perto.

- Mas isso é um sonho! Gotas de diamantes caindo sobre nossas cabeças! Banheiras cheias de orvalho para um banho matinal! O uivo de alcateias inteiras sob a nossa janela! – ele segura o queixo de Andreas, larga-o e sai correndo dali. Os mercadores e empregados se entreolham assustados.

O homenzinho corre a sala toda, balançando as mãos sobre a cabeça e emitindo sons engraçados e frases sem sentidos. Depois retorna para inclinar-se olhar com total admiração, aquela pessoa com olhos cor do céu que antecipava uma chuva.

- Minha irmã não vai conseguir acreditar que isso seja real! É a mais pura e perfeita aproximação do amor da vida dela! Quem é essa criança?

- É uma oferta de Jota Ruivo para a nobre dama. – diz o mercador imundo, com a boca tomada pelo fumo que amarelava seus dentes. - Eu imaginei que a Dama Triste pagaria o máximo por esta peça rara.

- E o fétido acertou! Minha irmã amará ter essa preciosidade em suas mãos!

- Desgraçados. – rosna Andreas.

Os mercadores gargalham desdenhosos. O administrador se repugna e balança as mãos como se quisesse limpar alguma sujeira invisível. Faz novamente sons engraçados e chama os empregados para mais perto.

- Tragam uma bebida para este jovem. Ele precisa se acalmar, senão poderá matar a todos nós.

Alguém traz uma taça escura e Andreas é imediatamente imobilizado para que o líquido fosse derramado dentro de sua boca. O anfitrião aperta a boca e o nariz do prisioneiro para impedí-lo de respirar a assim obrigá-lo a engolir o líquido.

Enquanto Andreas tenta se recuperar do ataque, o anfitrião volta-se para os mercadores.

- Vocês serão levados à sala do tesouro e poderão pegar o que conseguirem carregar. Mas se lembrem de que somente poderão levar o conseguirem manter em seus braços. O que cair no chão fora do casarão, virará areia!

Os mercadores gargalham. Iriam se fartar.

O homenzinho sai da sala tão saltitante como havia estado a pouco. Precisava oferecer em primeira mão, a notícia para sai triste irmã. Sentia que a presença do belo jovem iria modificar os dias cinza da bela dama.

O encontro de Agnese e Andreas não foi exatamente como Dovar havia imaginado. Ao ver aquele homem belíssimo em trajes típicos dos jovens nobres de um reino qualquer, a dama fica histérica. Aqueles lindos olhos azuis, enfeitados pela maquiagem delicada, havia trazido de volta das profundezas de seu coração, o maravilhoso olhar de seu capitão pirata. Por que Dovar queria torturá-la daquele jeito? Por que expor para um desconhecido, todo o seu precioso segredo? Por que exibir para os olhos do jovem visitante, sua fragilidade de mulher apaixonada? Aos gritos e arrancando os enfeites dos cabelos, Agnese corre pelo salão e é levada por duas empregadas para outro cômodo.

Totalmente constrangido, Dovar acompanha Andreas para um atelier, deixando-o ali.

- Peço desculpas pela reação de minha irmã. Ela ama a lembrança daquele pirata e não suportou ver a encarnação dele, aqui nesta casa. – o homenzinho dá de ombros.

Olhando ao redor, mostrando-se mais sereno, Andreas encanta-se com as pinturas espalhadas pelas paredes, numa demonstração de amor a alguém, um único alguém. Senta-se num divã em busca de conforto. Ele aponta um dos quadros com o dedo indicador.

- Ele é o amor da nobre dama?

- Sim. Este é o maldito pirata que provocou a alma triste de minha irmã e que a condenou a viver presa nesta casa, até...sabe-se quando.

- Este é o Capitão Gancho? Mas ele é lindo!

- E foi essa beleza a perdição de minha irmã. Ela ganhou a disputa pelo amor do pirata e a nossa outra irmã aprisionou Agnese nesta casa. Caso ela saia das dependências da parede, envelhecerá para a idade com que realmente está. E deduzo que virará poeira de osso, assim como eu. – ele dá pulinhos estranhos. – Fique à vontade, meu jovem. Vou ver como minha irmã está.

Dovar faz um arco com os braços acima da cabeça e sai andando de lado, como se quisesse imitar uma bailarina. Andreas não percebe a barbaridade.

O rapaz volta-se para um dos divãs e não se preocupa em conter seu riso abobalhado ao conhecer o rosto de seu suposto pai. De fato, o espelho da casa do Sombrio não havia exagerado: o pirata era de fato incrivelmente lindo! Ri sozinho como um louco ou pela reação da droga em seu organismo.

Cansado demais, ele acaba por adormecer e não tem consciência disso. Desperta com toques suaves em seu rosto, como se ele fosse trincar a qualquer momento. Vai abrindo seus olhos e termina de destruir o restinho de coração que ainda batia no peito de Agnese. Ele se senta de forma suave para não espantar a mulher. Sorri tentando aproximação e admira-se-se com o par de olhos mais brilhantes que já havia visto em sua vida.

- Já que a minha presença a incomodou, liberte-me.

- Não me incomodou. Apenas me aterrorizou. – ela continua tocando aquele rosto másculo e muito bonito. – Você me causou medo e dor.

Ele inclina a cabeça para baixo num sinal de respeito e não responde. Mas sente seu queixo ser erguido de forma delicada, mas firme. Olham-se nos olhos.

- Eu vi o meu capitão em seus olhos, menino. – ela sorri.

Andreas se desvencilha dos toques da mulher e ainda trôpego, caminha até uma das telas.

- Não conseguirei fazer esta pergunta sem ser rude. Mas a senhora conviveu muito tempo com meu pai? – ele aponta para a tela.

A histeria de Agnese que se segue nem precisa ser descrita.

Nos dias que se passam, Agnese evita qualquer tipo de contato próximo ao belo hóspede. Apenas o observa atentamente ao longe, bebendo de sua beleza e juventude. Percebe as constantes fugidas de Andreas para as janelas, mostrando esperança de ver alguém distante, vindo em seu salvamento ou tentando encontrar alguma forma de fuga. A dama percebe também que não poderia evitar por muito tempo, a presença forte do filho do seu pirata, tão singulares os dois homens eram. E para torturá-la ainda mais, os empregados tinham enfeitado os olhos do menino como o pirata enfeitava os seus. Pura crueldade!

Mas num determinado momento, a dama decide que não poderia mais ficar escondida e desperdiçar aquele pedaço imenso e suculento de carne que havia posto sobre seu prato. Estava bem temperado e cheirava muito bem. Deveria degustá-los sem cerimônia.