CAPÍTULO DEZ ANDREAS
Mais dois dias são consumidos naquele retorno e o tempo começa a se esgotar. A preocupação de Andreas com a ameaça feita por Agnese cresce a cada instante.
- Eu sou uma égua de estirpe! Fui treinada e aprendi a fazer truques!
- Poderia ter aprendido o truque de falar nas horas certas.
- Não posso me calar diante das injustiças!
Andreas para e apoia as mãos na cintura. Encara sua companheira de viagem.
- Sim! Eu estou sofrendo injustiça! Sou um animal nobre e de porte elegante, preparado para carregar cavaleiros tão elegantes quanto sua montaria! – Marlene para de andar. – Meu espírito não está preparado para carregar um ogro sobre minha cela! E principalmente um ogro vestindo apenas uma camisa!
- Ele ainda é uma criança e não conseguiria acompanhar nosso ritmo!
- Nantes, ele está sem calças!
- Meu nome é Andreas e não consegui confeccionar uma calça para o pequeno. Quando atingirmos uma aldeia, providenciarei...
- Eu suportaria você sem calças em cima da minha cela! – a égua grita chorosa. – Mas um ogro, não! Não darei um passo a mais com essa mistura de avalanche com terremoto em cima de mim!
Andreas retorna e tira o menino de cima da cela de Marlene. Acomoda o menino com as pernas cruzadas em torno de seus quadris e apoia sua bundinha em seu braço. O menino enlaça o pescoço do homem com seus bracinhos fortes e roliços.
Um tempo depois, Andreas e o ogrinho estão caminhando lado a lado, de mãos dadas.
- Precisamos encher os odres com água doce.
-Tem um rio ali. – ogrinho aponta. – Vamos beber água?
- Não penso que seja prudente bebermos água neste local. – Marlene se senta como de costume e recebe um olhar de desaprovação de Andreas. – Conheço um atalho por onde poderíamos...
- Poderíamos encontrar o Javali de Erimantos? – ironiza o moreno.
- Não, demente! O javali está em Erimantos e não aqui, cavalo falante. É um atalho...
- Não e final. – o tom imperativo de Andreas faz a companheira ficar falando de si para si.
Andreas desce o pequeno barranco até as águas correntes e ajuda o ogrinho a descer também. O homem ajoelha-se e é imitado. Coloca as mãos dentro das águas e é imitado.
- Antes de bebermos, precisamos pedir permissão para quem mora nas águas. O mesmo devemos fazer quando vamos pescar ou nadar. – ele diz e vê o ogrinho achar graça. Sorri também.
- Saiam daí agora! Eu acabei de ver a marca nas árvores! – Marlene surge gritando e saltando como alucinada. – Essas águas são território...
Antes que pudesse terminar a frase, Marlene vê mãos surgirem de dentro das águas e agarrarem Andreas, puxando-o consigo. O ogrinho começa a sapatear e a rosnar, furioso. Não tentaria entrar no território molhado outra vez.
Marlene relincha e aproxima-se da margem. Grita, grita e começa a ser imitada pelo pequeno. Ela para e encara o menino.
- Pode parar com isso, coisa assustadora! Eu sou a única que pode ficar histérica por aqui! – ela se volta para as águas. – Esse homem é especial! Ele não pode viver com as Nereidas! Ele...ele...bom, preciso apelar... ele é filho do Capitão Gancho com a Úrsula!
Um barulho intenso é ouvido e algo grande é praticamente cuspido para fora das águas, como se um golfinho tivesse errado seu salto. Estabacado na margem do rio, Andreas tosse tentando recuperar sua respiração. O ogrinho corre em sua direção, tentando ajudar.
Marlene não se contém e começa a gargalhar.
- Olá, filhote do Gancho com Úrsula! Deu certo!
- Pa...pare com isso... – o humano continua tossindo.
- Elas cuspiram você porque eu disse...- o riso de Marlene acaba e ela encara as figuras que flutuavam nas águas, observando-os. – Olá!
As três nereidas começam a rir.
- Você é um cavalo falante!
- Ah! Ah! Ah! Quando me contarem a parte engraçada, vou rir também!
Elas riem ainda mais.
- Vocês cheiram a lodo. – a égua finge espirrar e percebe que o riso para.
- Deixe-as em paz, Marlene!
- Caso você tenha ficado amnésico, elas iriam fazer você morrer afogado! Não fizeram porque eu disse...
- Não me quiseram porque fui bloqueado por alguém! – ele se senta no chão. – Alguém me blindou para os toques de outras mulheres.
A égua não se controla e gargalha de maneira divertida e ruidosa.
- Mas quem lhe disse que essas coisas esverdeadas e fedorentas, são mulheres?
- Marlene, por favor...
- Por favor? Puxam o cadafalso e você diz obrigado ao carrasco?
O olhar que se desenha no rosto de Andreas faz com que Marlene tente controlar seus impulsos. Ela balança as crinas.
- Certo! – ela se volta para as nereidas. – Eu agradeço a boa vontade de vocês, meninas. Foram sábias! Sabe o que acontece com nereidas que tocam num homem bloqueado?
Andreas se levanta e gesticula para que o ogrinho se afastasse das margens.
- Pare, por favor...poderemos ser atacados!
Afastando-se também, Marlene ainda dá uma última olhada para as criaturas na água. Sente o forte ímpeto de falar, porém consegue controlar seu órgão mais forte: a língua.
- O que aconteceu lá embaixo? – ela grita correndo atrás dos dois e alcançando-os.
- Nada de mais.
- Como nada? Você foi puxado para dentro do rio e depois foi cuspido! Saiu voando como se fosse um escarro! – ela ri da própria fala. – Como elas descobriram que você está com cinto de castidade?
- Não estou com cinto de castidade!
- O que elas queriam? Queriam ter filhos com você? Queriam os seus ossos para colares? Queriam seu couro para tamborim?
Andreas rosna e cobre a boca com ambas as mãos. Volta-se para Marlene.
- Marlene...elas me mergulharam e sentiram que havia algo envolvendo meu corpo.
- Eram suas roupas. Elas não sabiam?
O moreno não segura sua risada e gesticula como se estivesse dispersando suas palavras pelo ar. Por que continuar?
- Você conseguiu pegar alguns peixes ou mesmo água doce? – a égua dá um empurrãozinho do menino e o vê cambalear. – Fique fora do meu trajeto, sapinho. Eu havia dito que conheço outro atalho, mas você preferiu ignorar o meu conhecimento.
- Eu sei.
- Pelo meu atalho, teríamos mais proximidade com as terras litorâneas. Lá teríamos palmeiras, aves aquáticas e seus ovos, além de mais facilidade para que vocês pegassem peixes. Mas o grande líder da matilha quis...
- Eu sei.
- Quis ser engolido pelas nereidas. E o que vamos fazer? Continuar caminhando próximo ao rio e sermos seguidos pelas futuras ex-mães dos seus filhos, ou seguirmos pelo meu atalho?
O ogrinho puxa a ponta do casaco de Andreas e aponta na direção do rio. Todos olham e encontram as nereidas nadando como se os seguissem.
- Oram, vejam! A nossa flor de lótus é tem percepção! – Marlene se senta e mostra-se debochada. – E então, homem bloqueado? O que seu grande cérebro humano quer nos dizer?
Andreas desenha em seu rosto a mais cínica das caretas.
- E se seguirmos o seu atalho a acabarmos presos? Eu tenho prazo para retornar ou terei preço pela minha cabeça.
Marlene emite um som que demonstra sua concordância.
- Ótimo que concordamos! Vamos, use sua força para carregar seu futuro cisne negro, porque em minha cela esse patinho feio não se senta. Sobretudo, sem calças! Urghhh!
