Era tarde da noite quando o portal expulsa aquele grupo de viajantes. São atirados contra o chão forrado de folhas da floresta afastada da cidade. E quando se recuperam da queda, permanecem por algum tempo deitados, observando as estrelas lá no céu das copas das árvores. Marlene levanta-se e sacode-se para livrar-se das folhas.
- Rápido, Andreas, olhe se o feijão ainda está em meu alforje!
Ainda com movimentos lentos, o rapaz consegue ficar em pé e vai verificar o exato ponto onde havia guardado o grão. Sorri e bate levemente no pescoço do animal.
- Está seguro. – volta-se para o ogrinho e o encontra tentando ajustar a mochila nas costas. O menino sorri e aponta numa direção.
Todos voltam seus olhos na direção indicada e emudecem diante da imensa quantidade de pontos prateados lá embaixo no vale. Não sabiam que estavam vendo as luzes da cidade de Storybrooke.
- Quantas tochas! Esse reino é muito grande! – comenta Marlene sem conter a animação.
- Parecem estrelinhas refletindo nas águas dos lagos. – comenta o menino ogro, batizado por Andreas como Petrus.
- Sim...estrelinhas no lago...- murmura Marlene apaixonada com o que estava vendo.
Ficam ali, observando aquela novidade por longos minutos.
- Que cagada de Jacu que você fez, hein, Petrus?
Andreas sorri amplamente. Ajeita as roupas e a mochila, fazendo o mesmo com garoto.
- É dentro do cocô do Jacu, onde se encontram os mais caros grãos de café. Vamos aproveitar nossa empreitada e conseguir benefícios!
- Você tem uma fé impressionante!
- Sim, Marlene. Tenho muita fé. E você? – o homem segura a mãozinha do menino e começa a caminhar em direção ao mar de luzes lá embaixo.
Como já passava da meia noite, o movimento na cidade era quase nulo, exceto pelos poucos insones ou trabalhadores noturnos que ainda circulavam por ali. O homem e o menino acompanhados pelo garboso animal negro atravessam as ruas com muito cuidado, pois já havia observado algumas carruagens sem cavalos, cruzando de um lado ao outro.
- Aquela carruagem grita! – comenta Marlene indicando para uma viatura que passa não muito longe deles. - Eu tenho a sensação de que nossos dias não serão muito fáceis aqui. Sobretudo, porque agora temos apenas um dos feijões. E ele será usado para pagar minha transformação.
Andreas ri desdenhoso.
- Tenha fé, amiga. Tudo dará certo!
- Não sabemos se o Sombrio está aqui e tampouco se ele aceitará o acordo. Já pensou se a cidade baniu o Sombrio, a Rainha Má e o Capitão Gancho? Ou os matou pelos seus crimes?
Andreas dá de ombros.
- Este reino abrigou seres vindos da Floresta Encantada. Aqui moram fadas, humanos lupinos e outras sortes de criaturas. Caso não encontremos a ajuda do Sombrio, acharemos outro.
- Mas será que estamos em Storybrooke? Será que Pestrus pensou no reino antes de cuspir o que restou dos feijões?
- Tenha fé, minha amiga. Tenha fé. – Andreas sorri e gesticula para que continuem caminhando.
A égua relincha incomodada. Nunca havia convivido com alguém tão determinado e desprendido com aquele belo humano. Sentia uma ponta de inveja daquela gana emanada pelo homem, mas também pela sua crina escura. Equinos poderiam ter cabelos assim, humanos não!
Emma chega à delegacia com um humor pouco amigável. Era muito cedo da manhã e a aflição com que seu policial a havia chamado demonstrava que outra maldição estava caindo sobre a cidade. E havia tão pouco tempo que a rainha do gelo tinha ido embora!
A xerife rosnava e murmurava frases desconexas diante daquela situação. Nem sequer conseguira tomar um bom copo de café para ajudar a despertar, depois de uma noite muito agitada com seu noivo apaixonado. Por que não poderia ter a vida pacata de qualquer mulher de sua idade e aproveitar uma manhã suave, após um momento de amor? Nem tivera tempo de curtir, precisando sair correndo e deixar aquele belo pirata adormecido em sua cama!
Entra na delegacia disposta a destroçar qualquer bruxa ou monstro que tivesse vindo sabe-se lá de onde e quando.
- O que aconteceu aqui? – ela rosna espalmando a mão sobre a mesa.
- Tivemos de intervir numa desinteligência na rua principal, Srta. Swan. Os anões e um desconhecido foram os envolvidos.
Emma leva seu olhar furioso na direção das duas celas e vê os anões aglomerados, enquanto que na outra estavam um homem, um menino e um cavalo negro.
- Mas o que significa isso? Desde quando prendemos animais e crianças aqui na delegacia?
O policial massageia a nuca e aponta para a cela em questão.
- É um cavalo falante.
- Cavalo falante é o seu digníssimo pai, seu jumento! Eu sou uma égua! Será que preciso andar com as patas traseiras levantadas para que todos vejam a minha...
- Todos entenderam, Marlene. – Andreas toca o pescoço do animal e o faz calar-se momentaneamente. – Ela é sensível demais.
Emma aproxima-se da cela e olha o trio lá dentro como se cada um deles tivesse duas cabeças. Sorri, admirando a beleza e a verdade que consegue neles.
- Sou Andreas Verbenas, senhora. Ao seu dispor! – ele se inclina respeitosamente e indica com uma movimento de mão, seus dois companheiros. – Esta é Marlene, o menino chama-se Petrus e é meu filho.
O menino ogro também se inclina saudando a mulher.
- Sou Emma Swan, a xerife da cidade. Posso saber o que os trouxe aqui?
- Não sei o que significa ser xerife, mas acredito na autoridade que deve ter. Sua entonação é firme demais. – Andreas cruza as mãos às costas e ergue o queixo, de forma altiva. Levanta uma das sobrancelhas e o coração de Emma explode em batidas descompassadas. Aquele olhar não deveria estar naquele rosto desconhecido, porque ela havia deixado o verdadeiro dono daqueles faróis azuis, deitado em sua cama. – Eu apenas revidei um vilipêndio vindo daqueles anões.
Leroy rosna de dentro de sua cela e teria saído dali caso tivesse mais força.
- Vilipêndio? Esse forasteiro faltou com o respeito comigo e com meus irmãos, desarmou os policiais e bateu em quem se aproximou da confusão! Simplesmente porque mandei que saísse da frente do meu carro para que pudéssemos passar! Íamos ao trabalho!
Emma volta sua atenção ainda atordoada, para o belo jovem de olhar poderoso e celeste. Era a segunda coisa mais linda que havia visto aquela manhã!
- Policial, solte Leroy e os irmãos. Cuide para que saiam logo daqui e que cheguem aos seus trabalhos. – ela observa os movimentos do policial. Ainda precisava organizar seus pensamentos e tentar descobrir o que havia visto nos olhos do desconhecido, que a estava impressionando tanto. Depois de sentir a garantia de que nenhuma celeuma seria causada no salão, abre a porta da cela e gesticula para que todos saiam dali. – O menino precisa comer e dormir.
- Eu também preciso comer e dormir! – Marlene exalta-se. – Preciso tomar um banho porque estou suada, irritada e apavorada com este reino! Mal chegamos e já tivemos um embate com um grupo de anões dentro de uma carruagem sem cavalos! Além disso, ainda... – ela para de falar quando Andreas toca suavemente o seu focinho.
O rapaz volta-se para Emma e sorri suavemente. Era um sorriso desconhecido por ela, mas possuía uma particularidade que tinha urgência em ser descoberta. Ele segura a mão do menino ogro e o leva para sentar-se numa das cadeiras. Posiciona-se em pé ao lado do menino.
- Onde estamos,senhora? Qual é o nome deste reino?
- Storybrooke. De onde vocês vieram?
- Meus amigos e eu viemos por um portal aberto por um feijão... – Andreas sorri lindamente e acaricia a cabeçorra do menino ogro. O pequeno havia feito a coisa certa.
- Um feijão mastigado por um ogrinho, que cuspiu aquela meleca branca no chão e fez abrir o portal. Fico pensando se ele tivesse conseguido comer o feijão. Será que o feijão poderia ter aberto um portal dentro da barriga do menino?
Emma e Andreas se entreolham.
- A questão é pertinente. Sim, mas eu apenas perguntei de onde vieram e porque vieram.
- Não. A senhora perguntou apenas de onde viemos. – retruca Marlene. - Não perguntou qual o motivo que nos trouxe.
- Viemos de um reino chamado Pedras Desenhadas e estamos aqui em busca de um amigo.- intervém Andreas mantendo a suavidade na voz.
- Abriram um portal com um feijão mágico e vieram para este reino atrás de alguém. – Emma cruza os braços diante do peito. – E quem é esse amigo?
- Killian Jones, também conhecido Capitão Gancho. – Andreas fala suavemente e mantém um sorriso sem exibir os dentes. – Recebi informações de que ele estaria neste reino, tendo vindo com a Rainha Cora, atrás do Sombrio.
O rosto de Emma sofre uma transformação. O homem era amigo de Killian e de Cora, dos tempos de acordos maléficos. Certamente, sua intenção não era boa e sua índole também não. Iria testar sua verdade.
- A Rainha Cora está morta. O Capitão Gancho não está na ativa e não sei quem é o Sombrio. O que você quer com o pirata?
Andreas percebe imediatamente a hostilidade crescente.
- Ele é conhecido de minha mãe e fui incumbido de trazer uma mensagem a ele. É o único que pode ajudar minha mãe.
Num gesto de impaciência, Marlene senta-se no chão, como de costume. Bufa e relincha alto.
- Certo! – Emma gesticula para dois policiais que se aproximam. – , preciso que colabore comigo e poderei ajudá-lo. Preciso retirar a criança e a égua desta cela par acomodá-los em lugar melhor.
Andreas empertiga-se e encara Emma de forma desafiadora.
- Sua amiga será conduzida aos estábulos e examinada por veterinários...
- Não vou a estábulo algum! – Marlene balança a crina ao ver o gesto do moreno, pedindo que se calasse.
- O senhor ficará detido até que eu averigue a sua história. Peço que o senhor entre novamente na cela. Vou mantê-lo detido apenas por horas e no final do dia, poderemos confirmar ou não a sua história. Será alimentado e...
- Vai deter a mim? Sob qual acusação? – Andreas leva os olhos para um homem loiro e forte que entra na sala. – Desordem? Então deveria manter presos aqueles anões! Ou neste reino regem leis de protecionismo? Os seus amigos são libertos e os desconhecidos são encarcerados!
- Não sabemos quem é o senhor. – Emma tenta controlar o seu nervosismo diante daqueles olhos que estavam escurecendo pela raiva. – Não o estou encarcerando. Apenas mantendo vocês seguros.
- Atrás de grades! Não somos animais selvagens!
David toca o ombro do rapaz e é repudiado.
- Não ficaremos encarcerados apenas porque nos defendemos contra um ataque de nove homens! Eu salvei minha amiga e meu filho, apenas! – Andreas rosna e enfurecido torna-se mais bonito. – Não enfrentei tantos obstáculos para acabar preso por absolutamente nada!
- Ele tem razão, Emma. Poderemos mantê-los seguros longe daqui. – David aproxima-se da filha. Cochicha. – Ele agrediu Leroy e os irmãos, desarmou e dominou dois dos nossos guardas. Imagine o que a cidade estará falando dele agora! Leroy deve ter se incumbido de criar o ataque de nova maldição e não será seguro mantê-los aqui.
- O que sugere?
- Levá-los para o lugar mais seguro da cidade. - David sorri para os visitantes.
Regina ainda se mostra embasbacada com a beleza do jovem visitante e não faz questão de disfarçar. Não consegue desviar seus olhos e sua admiração daquele rapaz de olhar límpido.
- Eles precisam apenas de um lugar seguro por alguns dias. – diz Emma.
A morena não responde, encantada como se estivesse admirando a estátua de Davi.
- Precisarão de banho, comida e descanso. Eles têm bagagens com roupas.
- Ele pode até nadar em minha caixa d'água, caso queira. – Regina sorri lascivamente. Volta-se para Emma e gesticula de maneira desdenhosa. – Pode ir embora, Srta. Swan...todos estarão protegidos em minha casa. E leve seu pai!
Na noite daquele mesmo dia, Regina empolga-se na preparação de um jantar. Teria uma bela companhia e não importava se os apêndices estivessem juntos. Seria uma noite diferente, longe da solidão de todas as noites.
- Espero que tenha aprendido a utilizar o chuveiro, Sr. Verbenas. – Regina sorri ao colocar sobre o balcão, a forma com a torta recém retirada do forno. – Banhou o menino?
- Agradecemos imensamente a sua hospitalidade, Majestade. Eu sou um homem inteligente e segui as suas instruções corretamente. - Andreas permanece em pé, próximo ao balcão, depois de ter acomodado o pequeno Petrus num dos bancos. O menino recusa a maçã oferecida por Regina.
- E sua bela amiga Marlene?
- Banhei Marlene antes de nós, a alimentei e a deixei nos estábulos junto aos seus cavalos. Ela estava muito cansada.
- Bom, como deve saber, na Floresta Encantada eu fui a Rainha, mas aqui eu sou o que chamam de Prefeita. É uma líder da comunidade! – ela sorri exibindo seus dentes de porcelana. – Moro nesta casa e adotei o filho da Srta. Swan. Dividimos a educação do menino e as despesas.
O rosto de Andreas torna-se inexpressivo e seus olhos caem à meia visão. Apenas maneia a cabeça afirmativamente. Regina percebe a irrelevância da informação.
- Bom, isso é desinteressante! O senhor conheceu a minha mãe?
- Apenas ouvi comentários sobre ela e sobre o Capitão Gancho. Minha mãe os conheceu.
A morena retira a torta da forma e a deposita com cuidado sobre uma travessa de vidro. Leva o objeto para uma mesa, ajeitando-o entre outros objetos.
- O que veio buscar em Storybrooke?
- Estou à procura do Capitão Gancho e também gostaria de encontrar o Sombrio.
- Sombrio? E quem seria o Sombrio?
- Alguns o chamam de Dark One, Senhor das Trevas, Aberração...
Regina sorri e retira o avental.
- Aqui, ele é conhecido como Robert Gold. E continua temido e respeitado. Agora está casado e tem uma filha recém-nascida. O que quer com ele?
Acariciando a cabeça do menino, Andreas permanece em silêncio por alguns segundos. Depois, inspira profundamente e olha por cima da cabeça de Regina, como se procurasse algo. Ela sorri, achando familiar aquele hábito. Mas em quem?
- Gostaria de pedir ao Sombrio uma ajuda na transformação de minha amiga. Ela quer voltar a ser mulher, como foi um dia.
- E por que acha que o Sr. Gold irá ajudá-los?
- Não tenho certeza de nada, Majestade. Entretanto, não costumo perder a fé.
Regina aproxima-se do homem e sem sentir a obrigação de resistir, toca a ponta dos cabelos ainda úmidos pelo banho. Como ele se atrevia a ser tão bonito?
- Por que não vieram ao meu reino em busca de minha ajuda?
- Porque não tenho nada de valor que venha a enriquecer ainda mais uma rainha. Soube que o Sombrio faz acordos, porém não soube isso sobre a senhora. Rainhas fazem acordos com outras rainhas ou reis, jamais com um plebeu.
- O plebeu sendo você, eu negociaria com muito prazer.
