Pouco depois da meia noite, nas docas Marlene e Andreas bebiam da visão dos barcos atracados e da movimentação dos raros trabalhadores do turno da noite, ocupados, mas não para deixarem de apreciar o homem ao lado do magnífico animal sentado.

Como dois furtivos, haviam esperado a calmaria na casa de Regina e saído pela cidade. Inquietos e atrevidos, seguem o cheiro do mar.

- Este é um belo barco, porém não se iguala aos que existem nas docas de nosso reino. – Marlene fala num tom sereno e baixo. – Não existem tantos barcos em tamanhos tão adversos como aqui, mas são mais bonitos.

- Reino muito diferente do nosso. Mulheres e homens vestem-se da mesma maneira, carruagens sem cavalos e que gritam, luzes engarrafadas, água quente que sai de furos, telas com pinturas que se movem... fico feliz por saber que iremos demorar pouco tempo aqui.

Marlene emite um som risonho.

- Mesmo? E como retornaremos se vamos usar o único feijão para minha transformação?

Andreas toca as crinas da amiga e sorri.

- Tenha fé, minha amiga. Encontraremos um modo.

A égua relincha numa gargalhada.

- Gosto da maneira como você deposita no destino, tanta esperança. - ela vira sua cabeçorra na direção de um barco em especial. – Este barco não é pomposo!

- Estão admirando meus barcos ou estão planejando o roubo do século?

Os imensos olhos de Andreas voltam-se para a origem da voz masculina e fixam-se naquele homem vestindo roupas escuras e com seu rosto enfeitado pela barba por fazer. O coração de Andreas para de bater e ele se esquece de respirar. Todas as suas emoções vibram juntas e todas as intempéries vividas para conseguir chegar até ali, são imediatamente esquecidas. Cerra os punhos e espreme os dedos até que as juntas fiquem brancas. Sorri.

E seu sorriso, juntamente com aquele olhar, atingem o peito e a alma de Killian como se fossem um poderoso projétil disparado a queima roupa. Não consegue explicar, mas sua vida passa como a um filme acelerado diante de seus olhos e o olhar brilhante de seu irmão Liam volta a se exibir vivo e real.

- São... são seus barcos?

- Ah...s-são m-meus...

- São lindos, senhor...

- São...e-este é o Cisne Guerreiro e o outro é o que mesmo? – Killian se engasga e produz riso no rapaz. – O outro é Capitão Jones!

Os dois riem.

- São lindos! – Andreas tenta voltar seus olhos para os barcos. – Não são pomposos como o Jolly Rogers, mas são belos!

- C-conheceu o Jolly Rogers? – Killian fica histérico.

- Sim. Antes de sair de meu reino, eu estive perto dele e do Barba Negra. O homem jura que o navio é encantado!

Marlene tosse e bate o casco no chão.

- Ah, perdoe-me! Eu sou Andreas e esta é minha amiga Marlene!

- Eu sempre quis conhecer o grande Capitão Gancho, mas sinceramente pensei que o senhor fosse mais alto e mais forte. Assim, uma mistura do pirata Barba Negra e de um ogro!

Killian fica mudo. Não poderia dizer que estava espantado, porém não eram todos os dias em que se encontrava com um animal falante. E estava diante do homem que havia espancado outros nove homens e do belo animal descrito pelas pessoas da cidade.

- Um cavalo falante!

- Cavalo falante é este nobre cavalheiro arrepiado. Eu sou uma égua! Terei de pôr um letreiro no pescoço ou subir em algum púlpito para anunciar que sou uma égua! Cavalos e éguas têm diferenças físicas e não é preciso olhar muito para descobrir isso! Mas para os humanos desinformados ou mesmo displicentes, sou sempre chamada de "cavalo falante"! Começarei a andar com as patas traseiras erguidas para que todos possam olhar abaixo de minha barriga e verificar que não há a presença de um...

- Marlene, o Capitão já entendeu e pede desculpas.

- Não pediu não! Ele permaneceu com essa expressão de massa de pão sem fermento e não decidiu se respira ou pisca ao mesmo tempo!

- Marlene, por favor, peço desculpas em nome do Capitão.

- Não quero as suas desculpas, Andreas! Eu quero uma placa feita de prata para carregar em meu pescoço avisando aos desavisados...- ela para de súbito. – Avisando aos desavisados?

Andreas espalma as mãos diante do focinho do animal e o vê afastar-se para evitar o toque.

- O que foi? O que é? O que é o que? O que? - ela pergunta como se não entendesse seus excessos.

O pirata começa a recuperar sua racionalidade, mas não seu controle sob aquele súbito encantamento surgido ao deparar-se com aquelas belas piscinas azuis e límpidas, enfeitando aquele rosto conhecido.

- Eu preciso de uma bebida...poderemos falar sobre sua vinda, sua briga com os anões e seu encontro com o Barba Negra...

- M- minha amiga Marlene pode acompanhar- nos?

- T-tudo o...que q-quiser...espere! - Killian segura o braço do desconhecido. - Por que falou da Jolly Rogers para mim?

Andreas derrama sobre o capitão, um foco de luz ao exibir um sorriso largo. Um sorriso conhecido e nunca esquecido.

- Eu falei porque o senhor é o dono do navio. Ele ou ela, como queira, está apenas sob os cuidados momentâneos do pirata Barba Negra. Viemos para este reino, apenas para encontrar o senhor, Capitão.

Killian ergue o queixo numa atitude defensiva e desafiadora.

- Meus amigos e eu percorremos vários reinos e viemos para cá, cada um com seu objetivo. Cada um de nós tem um desejo que pode ser realizado durante nossa estadia aqui.

- Quem é você e como soube que eu estava aqui? - o tom do capitão é imperativo.

Marlene relincha e sacode a crina em sinal de impaciência.

- Eu negociei com o Barba Negra e ele me aconselhou como buscar informações sobre o seu paradeiro. Em posse da informação, buscamos um meio de viajar. E confesso que foi divertido!

- Foi quando Andreas invadiu o rancho onde meu patrão cultivava os feijões e os roubou. - Marlene fala e recebe os olhos de Killian sobre ela. Era impressionante a semelhança com os lindos olhos de Andreas.

- E o que querem de mim?

Andreas abaixa os olhos, inspira profundamente e esfrega as mãos nas coxas. Mostra-se nervoso ao levantar seu olhar para o rosto feroz do capitão.

- Eu sou Andreas Verbenas, capitão. Sou filho de Elisa Verbenas.

Killian abre e fecha a boca como se fosse um peixe. Tenta falar algo, mas não consegue.

- Minha mãe quer que paremos com nossa vida na bandidagem. Então, decidiu fazer um último trabalho e precisa de coordenadas estrelares que somente o senhor possui. Ela enviou uma mensagem escrita.

- Mensagem de Elisa para mim?

Andreas consegue sorrir e o coração de Killian escorre dentro do seu peito. Arreganha a manga da camisa e exibe uma tatuagem no antebraço. A tinta estava gasta, mas ainda nítida. Estava escrita em um código inventado pela jovem e pelo pirata.

Estendendo a mão e segurando o braço do rapaz, Killian estreita os olhos e começa a decifrar o que estava escrito ali.

"Killian Jones, quero que conheça o nosso filho. Cuide dele porque não poderei. Elisa".

Cobrindo a boca com as mãos em concha, Killian consegue ver diante de seus olhos a história inteira vivida naquele curto espaço de tempo em sua vida. De fato, havia conhecido uma pequena jovem, de vibrantes cabelos ruivos e sorriso maroto. Era uma herbolária e ambos viveram um breve romance e aventuras, cobrindo a tristeza e a carência existentes em seus corações. Uma história que estava oculta no passado e que agora pulsava viva e perfumada bem diante de seus olhos.

Estende as mãos e segura o rosto de Andreas entre elas, sentindo o rapaz estremecer. Estava segurando um sonho. O sonho de ser pai. Estava segurando a realização concreta da vida de qualquer homem. Estava segurando o rosto de seu filho. Num ímpeto, Killian desiste daquele toque superficial e traz Andreas para um abraço apertado. Queria sentir o resultado de seus encontros com a pequena Elisa Verbenas. Quando se afastam, há lágrimas em seus olhos. Killian não se contém e beija os longos cílios do filho. Embora fosse mais alto, cabia perfeitamente em seu abraço de pai. Encostam as testas.

- Estou ficando frouxo. - Killian tenta sorrir.

Delicadamente, Andreas se afasta do pai, mas mantém as mãos em seus ombros. Killian abraça novamente o filho. Toma-o nos braços como se suas vidas dependessem daquele abraço. Queria eternizar aquele momento e gravar em sua memória olfativa, o cheiro daquele menino. Sorri ao reconhecer o cheiro cítrico da erva Verbenas. O pirata luta contra suas lágrimas e contra o imenso desejo de apenas permanecer com seu filho dentro do espaço de seus braços.

- Vamos sair daqui e conversar muito mais. – Killian conduz o jovem. Ambos começam a caminhar de mãos dadas, sendo seguidos por Marlene que agora estava milagrosamente calada. Algumas pessoas observam a cena com as três personagens.