Andreas senta-se no chão e encosta-se no corpanzil de Marlene, protegida por um manto.
- O que houve? O jantar foi frustrante?
- Precisamos resolver sua transformação e conseguir o mapa. Depois, precisaremos partir o quanto antes. O lugar aqui é hostil e estamos vivendo como atrações em um circo de aberrações.
Andreas passa a mão pelo rosto e inspira demonstrando puro cansaço e decepção.
- Meu pai teve vergonha de mim. Ele não conseguiu dizer para os membros da realeza que eu sou filho dele. Então, tive de apresentar-me como amigo do Capitão. Depois, o jovem príncipe demonstrou aquele interesse típico de quem quer ver aberrações. Queria matar sua curiosidade vendo e falando com você. – ele se amua ainda mais.
- Eu gostaria de ter mãos para abraçar e acalentar você, amigo. Pense que seu pai foi pego de surpresa, Andreas. Você nutriu essa informação desde criança e já estava preparado para um eventual encontro. O Capitão não estava! Como pensa que ele iria reagir? E se fosse o contrário?
O rapaz senta-se novamente e encara a amiga. Olha bem fundo em seus olhos grandes.
- Estou sendo cruel?
- Está, meu amigo. Precisa deixar o Capitão assimilar essa valiosa informação. Precisa fazer-se conhecer e conhecer o seu pai. Sabe, amigo, vocês precisam ser amigos e depois irão sentir amor um pelo outro. Tenha paciência. O Capitão vai adorar você quando o conhecer melhor.
Na manhã seguinte, mal clareia o dia, Killian chega ao casarão e é recebido por Regina. Elegante em um vestido vinho, ela exibe o mais belo dos sorrisos que guardava em seu arsenal de sedução. Realça suas bochechas e seu rosto de perfeito.
- Capitão, meu Capitão!
- Majestade! O sorriso deveria estar mais frequente em seu rosto bonito! – ele segura suas mãos e as beija. – Como passaram a noite?
- Bem, obrigada! – ela gesticula e o convida para ir à cozinha.
- Eu trouxe uma carta de Henry pedindo desculpas para Andreas. O menino é esperto e rápido demais para conseguir controlar a língua. Fala por impulso e não por maldade.
Regina entrega uma caneca com café para o pirata.
- Creio que quem deve desculpas é o senhor. Por que não quis apresentar Andreas como seu filho?
Killian congela-se e torna-se sombrio.
- Como soube?
- Quando vi Andreas sair do quatro do menino ogro chorando, eu o segui para descobrir o que havia acontecido, porque pensei que havia sido ofendido. Ele conversou com a égua e eu ouvi tudo. O senhor é decepcionante.
Killian abaixa os olhos.
- Foi covardia de minha parte. Ainda estou impactado com a chegada de dele em minha vida. Preciso de um tempo.
- Marlene disse isso ao rapaz. Ele entendeu, mas não torne isso uma constante ou posso ficar brava demais. E quando isso acontece, meu belo Capitão, fico uma mulher feia e muito má. Cuide do tesouro que recebeu, porque é valioso demais. O senhor não sobreviveu tanto tempo por ser estúpido.
Killian se empertiga e mostra-se tenso. Sorri incrédulo.
- Vou buscar Andreas porque iremos passar o dia juntos.
- Abra bem seus lindos olhos, Capitão.
Mordendo o lábio inferior como se quisesse controlar sua fala, Killian concorda com um movimento de cabeça. Quando chega ao quarto onde dormia o filho, o pirata encontra menino ogro em profundo sono, ronronando como um gatinho embolado nos cobertores. Noutro lado da cama, Andreas dormia serenamente com o rosto levemente inclinado para o lado sobre o travesseiro.
Silencioso, Killian apanha uma cadeira e a acomoda ao lado da cama do filho. Senta-se ali e sorri, passando a admirar o jovem que dormia inocentemente, aconchegado nos braços do deus do sono. Nossa! Como era bonito o menino! Os cabelos longos e escuros contrastavam com a brancura da fronha e da estranha vestimenta que protegia o corpo dele. As sobrancelhas eram grossas e delineadas, no mesmo formato que as do pai. Isso provoca mais um sorriso. Já o nariz, longo e com leve arrebitação na ponta lembrava o nariz de Elisa. A boca pequena e de lábios delicados pertenciam à pequena ruiva sorridente. Era a mistura perfeita!
Killian não consegue conter o encantamento e permite que lágrimas atrevidas subam aos seus olhos e escorram pelo seu rosto. Ali, diante de seus olhos, um tanto grande e corpulento, estava seu bebê. Seu menino e seu sangue. E ele iria proteger o seu filhote com a mesma garra que defendia a todos a quem amava. Naquele momento, sua vida parecia completa com a chegada de seu primogênito, tão incrivelmente lindo como o pai!
Aos poucos, Andreas abre os olhos e exibe as mais belas safiras para o homem sentado junto à cama. Pisca de maneira preguiçosa e tenta esboçar um sorriso. Mas fecha os olhos novamente ao sentir os lábios do pai em sua testa. Que sensação quente e divina!
- Levante-se e vista-se! Teremos um dia longo pela frente!
Uma hora depois, Killian apresenta Andreas, Petrus e Marlene aos seus marinheiros, provocando comentários e felicitações. O pirata sabia que não precisaria pedir discrição aos seus companheiros de lutas e viagens, porque nenhum deles comentaria o fato sem a autorização do valho capitão. Era mais um segredo entre amigos.
- Eu não pretendo subir nesse barco!
- Então sugiro que nos espere até o fim da noite, aqui nas docas. Porque meu filho e eu iremos embarcar. – Killian exibe um olhar risonho.
Marlene relincha e ergue o lábio superior exibindo seus dentes imensos.
- Isso é chantagem barata!
- A escolha é sua, senhorita...aliás, qual é seu nome completo?
- Eu não me lembro mais. – Marlene sente uma pontada de tristeza, mas o toque das mãos de Andreas em sua crina e traz de volta para aquele momento divertido.
- Amiga minha, não me deixe sozinho. Venha conosco para esta viagem.
Um pequeno espaço de tempo depois, o barco já estava em alto mar e todos estavam encantados com aquele momento. A alegria de Killian transbordava em seus poros e podia até emanar cheiro. Estava no mar, em seu barco e com seu filho! Era um pai orgulhoso!
Depois do meio dia, o barco retorna e outros afazeres tomam o tempo do trio. Andreas, Petrus e Marlene conhecem o restante das docas, o mercado de peixes; visitam o centro comercial da cidade; a casa de barcos e a praia, onde Marlene corre histérica, mergulhando junto com Petrus . Terminam sua excursão na floresta, onde permanecem até a chegada da noite.
