Nas primeiras horas claras da manhã seguinte, Emma chega à lanchonete da Vovó e é recebida pelo conhecido sorriso da proprietária. Cumprimenta as pessoas e vai sentar-se junto ao balcão.
- Estou desde a madrugada atrás de um suspeito de furto. – a xerife sorri e esfrega as mãos. – Pode conseguir um chocolate para mim?
- Onde está seu noivo? – a mulher mais velha sorri enquanto prepara a bebida.
- Meu noivo? – Emma dá de ombros. – Creio que a esta hora esteja organizando os barcos dele. Por quê?
Vovó encolhe um dos ombros e entrega a bebida para Emma.
- Aconteceu algo que eu não saiba? Uma nova maldição?
- Não! Não! Apenas perguntei porque todos que vieram ontem à lanchonete não comentavam sobre outro assunto que não fosse Killian e os visitantes.
O rosto de Emma torna-se sombrio e ela se inclina para frente, encarando a mulher mais velha. Rosna:
- Diga o que está acontecendo, porque se eu descobrir por minha conta, posso ficar brava.
- Hum! Killian é seu noivo oficial, fizeram um jantar e comunicaram aos seus amigos...e eu...assim como as pessoas desta cidade, não encaro como algo natural ver seu noivo caminhando de mãos dadas com aquele belíssimo rapaz de cabelos longos e tampouco presenteá-lo com constantes beijos no rosto, na mão, na testa.
- Está insinuando que Killian está tendo um caso com Andreas, mesmo sendo meu noivo?
A mulher mais velha dá de ombros e passa a limpar o balcão.
- Demonstrações públicas de tanto afeto entre dois homens saudáveis, jovens e bonitos provocam comentários. Bom, o Capitão não é tão jovem assim...
Emma ergue o queixo numa demonstração de desafio e morde o lábio inferior.
- As pessoas comentaram isso e eu nem fiquei sabendo?
- Toda a cidade comentou, Emma! – a Vovó para sua limpeza. – Eles não estavam dispostos a esconder o afeto! Não somos pessoas tão liberais! Entenda! Você é filha da Mary e do David, nossos líderes e é nossa salvadora! Nós nos preocupamos com você e não encaramos como certo o comportamento do Capitão! Embora ele tenha mudado, ainda não é um dos nossos! Os costumes dele são diferentes!
Emma não contém o riso. Nega com um movimento de cabeça.
- Não acredito nisso! As pessoas estão afirmando que Killian é amante de Andreas e ambos estão me traindo! Quem são as pessoas envolvidas nesse relacionamento, Vovó?
- Killian e você...e agora, o rapaz.
Novamente a loira sorri.
- Então poderemos inteligentemente deduzir que nós três deveremos conversar e decidir o que será melhor para nós! Estou certa?
A Vovó arqueia as sobrancelhas e não responde. Mostra-se ofendida.
- Não quero mais a bebida, mas pode pôr em minha conta. Eu pagarei as minhas contas e cuidarei dos meus relacionamentos.
Momentos depois, Andreas entra na lanchonete da Vovó e é recebido pelos olhares indiscretos, alguns gulosos e outros ferozes das pessoas presentes. Ele sente a hostilidade, mas ignora o fato de que todos estavam falando dele subitamente.
- Olá, minha senhora!
Vovó tenta sorrir. Sente-se embasbacada com a visão daquele homem. O desgraçado era bonito demais para ser de verdade! Como alguém conseguia ser mais bonito que o pirata de olhos perversos? Como ele se atrevia a tanto?
- Boa...tarde...menino...
- Eu fui informado pelos marinheiros do Capitão Jones, que a senhora faz deliciosas tortas. Não tenho o dinheiro vigente deste reino, mas tenho moedas de ouro. Aceitaria como pagamento por uma compra?
- Com esse rosto, filho, você poderia dar até lascas de madeira que eu as aceitaria. – ela mantém o sorriso e debruça-se no balcão. – Conheço mulheres que matariam para ter cabelos e lábios como os seus.
Andreas fica estático. Aquela senhora estava flertando abertamente com ele! Mesmo sendo alertado pelo pai, aquela inversão de valores era muito chocante quando saía do campo da teoria.
- Perdão, senhora, mas não estou acostumado a tais demonstrações. – ele abaixa a cabeça e passa a fitar as mãos.
- Nós também não estamos acostumados às demonstrações que você e o pirata deram pelas ruas da cidade, ontem! – a voz grossa de Leroy chama a atenção de Andreas. O anão aproxima-se de maneira firme do visitante – Isso incomodou as pessoas desta cidade! Sabia que o pirata é o noivo de nossa salvadora e xerife?
- Fico feliz pelo Capitão. A Srta. Swan é uma bela mulher, uma guerreira, a general do exército desta cidade.
Leroy dá um empurrão no ombro de Andreas.
- Então trate de respeitá-la ou teremos de afastá-lo de nossa cidade! Estou farto de sua presença e do que fez aos meus irmãos! – quando o anão esboça um movimento para empurrar o visitante, recebe um golpe tão rápido e potente, que acaba por desequilibrar-se e chocar-se contra uma das mesas.
- Não gosto de violência, homenzinho! Toque-me de novo desta forma e posso perder a elegância!
- Ele não gosta de violência! Aprecia beijos apenas! Mas que sejam do Capitão Jones! – um homem diz em meio às pessoas. Todos riem.
Leroy levanta-se ainda mais furioso do que o costume e avança para Andreas. A confusão está armada!
Algum tempo passado no relógio da cidade e Emma consegue acalmar seus prisioneiros e controlar a égua negra, sentada no chão da delegacia. O único sereno naquele local, era Petrus brincando na cadeira giratória. Era uma cena hilária!
- Agora que estamos todos calmos, posso saber o que houve naquele estabelecimento?
- Não tenho sangue frio, irmã! Ver esse homem agindo como se nada tivesse acontecido fez meu sangue ferver!
- Mas o que aconteceu, Leroy? – Emma se aproxima da cela. O homem bufava como a um touro. – Não costumamos hostilizar quem nos visita!
O anão rosna ferozmente e agarra-se nas grades.
- Deixe-me mais uma hora com este pervertido e ensino bons modos a ele!
- Um réptil cascudo como você tem bons modos? – Marlene fala em meio a um suave relincho. – Assuma logo para a princesa que você atacou meu amigo por despeito!
- Faça essa coisa parar de falar!
Marlene gargalha.
- Fazer uma coisa parar de falar? Então vamos amordaçar você, coisinha feia! Quis apenas agredir meu belo amigo porque não suportou conviver com tamanho espetáculo natural! Sua raiva surgiu porque anões não podem possuir nada belo! É a lei!
- Cale-se, coisa!
- Anões não têm permissão para possuir e nem conviver com o que realmente é belo. E meu amigo é belo demais! Essa é a cruel lei da vida dos anões! Isso enfureceu você!
Emma gesticula para Marlene e a vê balançar a cabeça como se atendesse ao pedido.
- O que houve naquele lugar? – ela pergunta docemente para Andreas.
- Eu apenas defendi meu corpo contra o ataque, princesa. Não iria permitir que este homem usasse de grosseira para humilhar-me. Eu me coloco sob a luz de suas leis para punir meu ato irracional, porém sempre alegarei legitima defesa.
- É claro que foi legítima defesa! Quando esse dragão anão se aproximar, qualquer um deve alegar legítima defesa! A presença dele já inspira legítima defesa! – Marlene começa a rir.
