Horas mais tarde, o jantar é servido por David. Ele não consegue conter o sorriso e parecia abobalhado pelo conhecimento da verdade e pela felicidade do amigo. Conseguia entender sua insegurança e fascínio misturados em sua alma.
- Posso dizer que é um belo rapaz.
Mary e Emma se entreolham e riem. Era a quarta vez que David havia dito a mesma frase.
- Obrigado, companheiro! Ele é incrivelmente lindo como o pai!
- Cada um com sua beleza. – diz Mary sorrindo. – Posso afirmar que Andreas tem traços mais suaves. É uma masculinidade mais tenra.
Os demais olham para Mary como se quisessem entender a frase da professora.
- Eu posso imaginar a sensação surgida com a revelação! – David não consegue conter a empolgação. – Agora você tem um membro de seu próprio sangue! Sua família está aumentando!
Killian sorri e estende a mão para segurar a mão do rapaz tímido. Ia falar algo, mas o som estridente de fortes relinchos vindos da rua chama sua atenção e à dos demais. Sente o filho puxar a mão de forma brusca e correr para janela do loft.
- Oh, não!
- O que foi, Andreas? – Killian mostra-se preocupado e corre para junto do filho. Lá embaixo na rua, vê Marlene relinchando, levantando-se nas patas traseiras e balançando a crina de maneira furiosa.
- Eu tenho de ir! – Andreas corre para a porta, apanha seu casaco e volta-se para os anfitriões. – Peço desculpas pela minha indelicadeza, mas preciso honrar com um compromisso afirmado com minha amiga Marlene! Agradeço a hospitalidade e dou minha palavra que serei mais cortês num próximo encontro!
Dizendo isso sai em disparada carreira, deixando a porta do loft aberta. Os demais adultos permanecem junto à janela para observar o que estava acontecendo e apenas veem o rapaz montar o belo animal negro e sair rapidamente.
- Vou descobrir o que está acontecendo! – Killian tenta sorrir, mas seu medo o impede. Apanha seu casaco e segue para fora.
- Eu vou com você! – Emma apressa-se em seguí-lo.
- Vou com eles. Não sabemos o que podem encontrar. – David faz o mesmo trajeto, deixando Mary furiosa por não poder compartilhar da investigação.
Quando Andreas e Marlene chegam à loja de Gold, o encontram elegantemente sentado numa poltrona com a mais serena das expressões em seu rosto. O homenzinho olha-os de forma calma e atenta.
- Estão atrasados.
- Eu peço humildemente desculpas, senhor. – Andreas inclina-se em reverência. Depois se empertiga. – Eu estava em uma reunião com os príncipes deste reino e com o meu pa...com o Capitão Jones.
Gold sorri efusivamente. Emite alguns muxoxos.
- A cidade inteira diz que há um romance entre você e o pirata e não vejo alteração alguma entre os dois contra os comentários. Você viajou de outro reino apenas para encontrar um homem cujos traços estão estampados em seu rosto, querido. – Gold levanta-se caminha manquitolante até Andreas e toca-lhe o queixo, erguendo-o. – Não minta para mim ou vou recusar-me a ajudar a sua amiga.
Sente o rapaz estremecer sob seus dedos.
- O pirata não é seu amante ou amigo. Ele é seu pai! Confirme!
Andreas afasta-se do homenzinho assustador e assume uma bela postura elegante.
- O Capitão Jones não é meu pai.
Gold afasta-se e volta a sentar-se.
– É lamentável que queira deixar sua amiga eternamente na pele de um animal. Belo animal, mas sempre um animal.
Andreas abaixa a cabeça e passa a brincar com os próprios dedos. Levanta o rosto e exibe um olhar perverso à meia visão. Suas sobrancelhas escuras emolduram uma estranha máscara risonha.
- Por que tanto interesse nisso?
- É a minha oferta, querido. Ajudo sua amiga e você me dá uma simples informação.
- Qual é o valor dessa informação para alguém tão poderoso como o senhor? Irá usá-la contra o Capitão? Ele é um frágil mortal e não pode enfrentar os seus poderes.
Gold esmurra a mesa e toma os visitantes de assalto.
- Mas enfrenta sempre que pode! Ele vive para desafiar-me! É um infeliz! – emoldura serenidade no rosto. – Novamente a pergunta: o pirata é seu amante ou seu pai?
- Supostamente é o meu pai.
- Papai Gancho? – Gold gargalha desta vez. Levanta-se, aproxima-se do rapaz e segura seu queixo novamente. – Sabe, querido, não posso deixar passar essa oportunidade de divertir-me à custa do pirata. Vê-lo sofrer é algo que me dá muito prazer. Não quero mais fazer o acordo com você usando o feijão como moeda de troca. Mas eu quero algo maior.
Andreas afasta-se do advogado e mantém os olhos presos em seu rosto.
- Não há algo maior do que a informação que lhe dei, ou maior que o valor do feijão.
- Eu exijo que você mate o pirata em troca da transformação de sua amiga.
Marlene relincha numa gargalhada.
- Prefiro continuar como uma égua. Não privaria o mundo de um homem valente como o Capitão. Se ele é o único que o enfrenta sem magia, qual seria a graça do mundo e de sua vida sem a presença dele? – ela se levanta e caminha até o jovem moreno. Empurra-o com o focinho. – Vamos embora, amor. Estou faminta e a cidade nos espera.
Os dois afastam-se em direção à porta, mas param ao ouvir a voz do advogado.
- Sempre me julgam da pior maneira possível. Tudo o que eu desejo é preencher o vazio que existe em minha alma, depois da morte de meu filho.
Andreas e Marlene se entreolham. Ficam curiosos.
- Matando o Capitão preencheria este vazio? – ela pergunta.
- Impus uma terrível maldição sobre um reino inteiro, apenas para conseguir encontrar meu filho. Quando o encontrei, ele me odiava e não pudemos conviver. Quando ele me perdoou e disse que me amava, morreu em meus braços e não pude salvá-lo. E mesmo tendo vingado a morte dele, não me sinto bem sem a presença dele. – o advogado fala e mantém a cabeça baixa. – Mas desde que vi você, eu soube imediatamente que era o filho do pirata desgraçado. Invejei o maldito pela coragem que nunca tive e invejo agora pelo filho que ganhou, mas que despreza.
- O Capitão não despreza Andreas.
- Despreza sim, queridinha. Ele duvida da paternidade e sequer cogitou a possibilidade de realizar os testes para saber a verdade. Permite que você seja ofendido e até preso por um mero capricho dele. Eu o teria assumido no instante em que contou.
O coração de Andreas torna-se agitado e temeroso. Não sabia reconhecer se havia verdade ou mentira naquelas palavras. Por não conhecer a natureza do Capitão, não poderia rebater aquelas palavras. O Sombrio conhecia o pirata como nenhuma outra pessoa conhecia. Por outro lado, os dois eram inimigos declarados e tudo poderia ser apenas uma armação.
Sente novamente o focinho de Marlene empurrá-lo para fora da loja. Desta vez, ele cede e sai dali.
