Andreas e Marlene param diante da entrada do fétido Siri Barbudo, um dos vários bares pouco recomendáveis das docas.
- Tem certeza de que quer entrar aqui? Poderíamos caminhar pela praia como fazíamos quando eu era uma égua. Apenas não vai poder subir em minhas costas.
O rapaz tenta sorrir. Gesticula convidando-a a entrar.
Lá dentro, a algazarra provocada pelo falatório dos trabalhadores das docas era a sonoplastia que encobria o som vindo de uma junkebox esquecida num canto do salão. Homens grandes, fortes e rudes que faziam questão de manter sua fama de mau. Ria, xingavam uns aos outros, derramavam suas bebidas e em nada desentoavam aos beberrões das tavernas do reino de onde vinham os visitantes.
Homem e mulher entram no bar e caminham até o balcão. Sentam-se e imediatamente percebem que o som do mar de vozes vai diminuindo até cessar. Todos estão olhando para o casal.
- Ora, ora, ora! – grita uma mulher despenteada. – Temos carne fresca!
- É o namorado do Capitão Gancho! – grita outro provocando uma onda horripilante de risadas e palavrões.
- Namorado ou não, esse filé de linguado é meu! – outra mulher dispara.
- Venha até aqui e sente-se em meu colo! Tenho um presentinho para você, garotão!
Novamente surgem risadas e frases de escárnio. Andreas volta-se para o homem que havia lançado o convite e sorri, calando as vozes.
- Deve ser mesmo um presente tão pequeno que beira à lembrancinha.
Os homens gargalham. Aliás, ririam até se alguém declamasse o alfabeto.
- Venha procurar, garotão. Depois você mesmo confirma! – o homem ronca.
Uma risada sonora é a resposta do rapaz.
- Bom, eu teria de abusar da fé e vasculhar até a chegada do próximo ano para conseguir encontrar algum vestígio de virilidade. – ele aponta o próprio corpo. – Isso aqui é um presente de verdade!
Novamente, gargalhadas e batidas das botas no soalho de madeira são ouvidas. O homem gigantesco levanta-se de sua mesa e arreganha a boca num sorriso.
- Ora, pequeno tri tão! Não faça isso com o velho Gladius! Venha pelo menos experimentar um peixe maior que o velho Gancho! Vai me deixar com vontade?
As pessoas gargalham e aguardam a resposta do visitante. Andreas exibe os dentes num rosnado desdenhoso.
- Certo! Vamos apostar, monstro marinho! Caso eu perca, sentarei em seu colo diante de todos aqui! E caso você perca, desfilará pelas ruas dessa cidade horrenda, usando apenas suas botas!
Uma onda de aplausos invade o ambiente.
- E viva o filho do Capitão Gancho! – grita o senhor Smee, agora em pé sobre uma mesa.
O silêncio no bar torna-se sepulcral. Todos os olhares voltam-se para o homenzinho de gorro vermelho. Ele sorri e ergue a caneca imensa cheia de cerveja ainda mais para o alto.
- Este é o legítimo filho do Capitão Gancho e não foge a uma boa peleja! Viva!
Os outros marinheiros empregados do pirata levantam suas canecas e brindam ao recém-chegado. Os olhares de pavor viram-se para o casal e neste momento, Andreas ergue uma caneca de cerveja que encontra sobre o balcão e grita:
- Viva Andreas Verbenas! Herdeiro do Capitão Gancho e de Elisa Verbenas!
E a noite segue animada e não espera ninguém.
Lá pelas tantas, um celular toca em um dos quartos da Pensão da Vovó. Emma desperta e observa o celular escuro chamando e vibrando ao lado da cama onde dormia com seu amado. Ela se senta sobre o colchão e apanha o aparelho. Mesmo não sendo o seu, tinha autorização de Killian para manuseá-lo.
- Pronto!
"Capitão? Desculpas, mas achei que fosse o telefone do Capitão!"
- Sou a noiva dele. Quem é?
"Oh, Srta. Swan! Sou eu, Smee! Posso falar com o Capitão? É urgente!"
- Ele está dormindo. O que aconteceu?
"É sobre Andreas! O menino veio ao Siri Barbudo acompanhado de uma belíssima mulher e os dois já causaram muitos problemas aqui no bar!"
- Andreas num bar?
"Sim! Ele e a mulher beberam mais do que qualquer um aqui dentro, já brigaram, bateram, apanharam e agora o rapaz está dançando em cima das mesas e ameaçando tirar as roupas! Está sendo incentivado pelas mulheres e pelos beberrões daqui! Os homens do Capitão estão tentando afastar os abutres e as hienas!"
- Estamos indo! – Emma desliga o telefone e trata de despertar seu amado para seguirem em salvação do pequeno desajustado.
Quando o carro para, Killian praticamente salta e corre na direção do bar fétido, encontrando Smee parado na porta com alguns amigos.
- Onde ele está?
- Não conseguimos detê-los, Capitão. Ele e a moça saíram acompanhados pelo gigante Gladius. Não houve como impedir.
- Gladius? Conheço este nome! – Killian fica pensativo e preocupado.
- É um pirata moderno que usa seu navio monstruoso para combater os baleeiros. Na verdade é um mercenário e um contrabandista! É perigoso demais!
Diante do mar escuro e imenso, três pessoas admiravam a grandiosidade escura e poderosa. O som assustador e imponente provocava intimidação e atiçava a criatividade dos mais sensíveis.
- A melhor maneira de sarar uma ressaca é mergulhando no mar noturno e gelado. – diz Gladius sorrindo. – O mar é o meu melhor amigo!
- Sempre admirei o mar noturno. – diz Marlene. – Mas mergulhar nele é assustador!
Andreas segura a mão da amiga e exibe um sorriso triste. A conduz para dentro da água, como se estivessem caminhando para um altar.
Na manhã seguinte, os raios do sol entram pela janela da pequena cela da delegacia e desperta Andreas como se sua cabeça estivesse sendo atingida por uma avalanche de pedras. Ele geme e tenta se levantar. Move-se na pequena cama e depois de uma forte luta interna consegue sentar-se. Espreme os olhos e segura a cabeça entre as mãos.
- Ai, como dói!
- Deve doer, mesmo. – voz da xerife é ouvida e mesmo sendo suave, ecoa dentro da cabeça do homem como se fosse um trovão. – Você bebeu todo o estoque do bar! O que você estava fazendo?
- Onde está Marlene? – ele se levanta da cama e vai cambaleando até as grades. – Onde ela está? Onde está Gladius?
- Nem ele e nem Marlene estavam lá. Prendemos você e sua amiga, porque era o mais sensato a fazer. Iriam se afogar ou fazer sabe-se lá o que!. – Emma aponta para a outra cela. – Quem é a garota?
Andreas estende um braço para fora da cela, apontando a mulher adormecida de bruços sobre a cama. Ela roncava alto.
- Aquela é Marlene!
Os olhos de Emma arregalam-se e voltam-se para a prisioneira adormecida. Aponta-a com o dedo indicador e exibe uma expressão de espanto, ao olhar de volta para o belo moreno.
- O que quer dizer?
- Não quero dizer, Srta. Swan. Eu lhe disse! Aquela é Marlene! Ela é uma mulher agora!
Emma gargalha e cobre os lábios com a mão em concha. Leva sua atenção para David que entra na delegacia trazendo o desjejum dos prisioneiros.
- Ora, veja quem voltou dos mortos! – ele sorri e deposita a bandeja sobre a mesa. – Regina foi avisada e decidiu manter vocês aqui até que a ressaca passe por completo.
Andreas vai sentar-se na cama no fundo da cela. Afunda o rosto entre as mãos.
- E a moça? Descobriu quem é?
- É Marlene transformada, pai! – explode Emma com um semblante de total pavor. – Ela fez acordo com o Gold! Desobedeceram as recomendações e fizeram um acordo com Gold!
David olha horrorizado para a mulher cujo ronco ecoava pela cela.
- Não pode ser!
- Pode e fizemos. – Andreas fala alto. – Mas o acordo não foi bem planejado e Marlene somente será humana enquanto estiver aqui em Storybrooke. O Sombrio não perpetuou a mudança.
David aproxima-se das grades.
- Você foi avisado pelo seu pai a não fazer acordos com o Sr. Gold!
- Viemos para o seu reino para fazer esse acordo. Foi por isso que cruzamos o portal. Eu havia encontrado o Capitão e agora eu precisava ajudá-la a alcançar o desejo dela. Portanto, não aceitarei repreensões da família real.
- E do seu pai? Você aceita repreensões? – a voz de Killian é ouvida e ele se aproxima da cela. Segura as grades e recebe os olhos pesados do filho sobre seu rosto. – O que foi aquilo ontem?
Andreas larga-se na cama pequena demais para o seu tamanho.
- Ah! Foi uma bebedeira! Marlene queria comemorar a possibilidade de segurar uma caneca com a própria mão. Eu apenas a segui e a protegi.
Killian gargalha irônico.
- Dançar quase nu sobre uma das mesas do Siri Barbudo é definido como "proteger" alguém?
Um riso sarcástico é o começo da resposta.
- Perdi a minha honra no primeiro momento em que o senhor segurou a minha mão e me beijou em público. Dançar sem roupas em cima da mesa não seria mais desonroso. É o que namorados pederastas fazem.
Killian abaixa a cabeça e encosta a testa nas grades. Depois olha para o filho.
- Sinto muito pela minha distância, filho. Prometo desfazer todo o mal entendido e resolver essa situação.
Andreas levanta-se e aproxima-se das grades. Toca as mãos do pai.
- Não quero que se preocupe comigo, Capitão. Iremos encontrar um meio de atravessar o portal e ainda manter Marlene como a mulher que é. Isso é tudo o que me incomoda agora.
Os olhos de Killian fixam-se em David e Emma, buscando entendimento.
- Eles mantiveram o acordo com o Sr. Gold e não incluía a mudança perpétua. Marlene será mulher enquanto estiver em Storybrooke. – diz o príncipe apontando a mulher adormecida, que emitia roncos como trovões.
- Nós lhe avisamos a não fazer acordos com o crocodilo! O que você pensou? Pensou que poderia confiar naquilo? Eu quase perdi meu coração ao tentar um acordo! Aquilo é perigoso demais!
- Apenas pedi para a Sra. Gold intervir e fazer o marido concordar em ajudar Marlene, como agradecimento ao que fiz para a filha deles.
Killian esmurra a grade e assusta o filho.
- Droga! Aquele crocodilo não perde a essência! Foi expulso pela esposa por traição e continua querendo tirar vantagens sobre tudo! – ele se volta para o filho. – O que deu a ele em troca? Somente a saúde da filha dele não seria suficiente para amolecer aquela rocha sedimentar que está no lugar do coração! O que deu a ele?
- Por que se importa com isso, Capitão? Não há provas de que o senhor seja realmente meu pai. O senhor não acreditou e nem fez questão de comprovar a verdade– Andreas massageia as frontes. – Já conseguimos o que queríamos e não precisamos manter a urbanidade. Não preciso mais do senhor para mais nada, porque minha mãe está morta agora.
A notícia surte o mesmo efeito que um soco no estômago e Killian tenta controlar o súbito mal estar que revira as suas entranhas. Leva os olhos tristes para Emma, buscando apoio naquela situação inédita e assustadora. Havia ganhado um belo presente da vida e o estava perdendo tão rapidamente, que sequer tivera tempo de desvendar os detalhes.
