O tempo continua andando a passos largos e alheios aos passos de formigas da humanidade.
Regina mantém sua proteção sobre os seus hóspedes e aos poucos vai permitindo o crescimento de sua paixão pelo jovem Verbenas. Ele, por sua vez, mantinha-se alheio a qualquer demonstração de desejo ou interesse por partes de algumas jovens da cidade. Marlene dedicava-se aos seus amigos cavalos, trabalhando no estábulo da cidade e oferecendo sua força física em trabalhos esporádicos em seu horário livre. Ela e Andreas eram figuras já conhecidas nos bares das docas e dos guetos da cidade e estavam sempre em companhia do grupo do gigantesco Gladius ou fazendo algum trabalho nos barcos.
O menino ogro estava encantado com a escola que frequentava e, incrivelmente, com suas aulas de natação. Estava divertindo-se e devido ao seu temperamento, não conseguia evitar brigas e desentendimentos com outras crianças.
Todos na cidade já estavam a par da origem do jovem Verbenas e aos poucos tentavam uma aproximação. Algo infrutífero, embora Andreas fosse a personificação da elegância e gentileza no trato com quem precisasse de seus conhecimentos e seus produtos
Killian mantinha-se por perto e sempre que conseguia, levava o rapaz para alguma viagem ou o convencia a fazer algum trabalho em seus barcos. Ainda estavam numa relação bastante superficial, mesmo diante da insistência do pirata, sobretudo, ao saber da morte de Elisa.
Naquela manhã, Killian levanta-se para receber Andreas em sua mesa. Beijam-se e depois acomodam-se para o almoço.
- Obrigado por ter aceitado meu convite. Isso me deixa muito feliz.
Andreas sorri e apanha o cardápio. Começa a ler. Era a felicidade de sua vida, conseguir decifrar aqueles símbolos e seus significados com rapidez.
- Como está seu trabalho como herbolário?
- Tenho bastante pedidos, Capitão. Isso me deixa feliz porque posso levar mantimentos para a casa de Regina. Ela não aprecia, mas gosto de contribuir.
- A reforma na mansão abandonada está finalizada. Mudam-se em breve, filho.
Um sorriso amigável surge na boca pequena de Andreas. Naquele momento, Killian consegue ver a pequena Elisa sorrindo para ele.
- Agradeço ao seu empenho. Não serei orgulhoso em recusar a oferta.– ele mantém os olhos sobre o cardápio.
Killian estende a mão e segura a mão do filho, apenas para vê-lo afastar-se sutilmente.
- Sei que você é um homem emancipado, independente e sagaz, porém gostaria de pedir-lhe que ficasse longe do crocodilo. Tudo o que interessa a ele, é poder e magia. Fará o que achar preciso para obter todos os poderes de volta. Ele é ganancioso e vil.
- Essas últimas, são as palavras dele em relação ao senhor. – Andreas dá de ombros. – Mas não estou interessado nas pelejas entre vocês dois. Meu foco está em descobrir uma maneira de ajudar Marlene e retornar para nosso reino.
- Pensa que o crocodilo irá ajudar nisso?
Andreas sorri lindamente e exibe quase todos seus dentes.
- O que ele está proporcionando à minha existência é o que me importa no momento.
- E o que seria?
Mordendo o lábio inferior, o rapaz leva seus olhos para algum ponto do salão e perde-se em devaneio. Não responde com palavras, mas aquele sorriso malicioso e perdido parecia mostrar o que o pirata não queria acreditar.
Horas mais tarde...
- Isso não procede, Killian. O Sr. Gold é um homem casado!
- David, você não viu o sorriso de meu filho! Estava tudo claro como água! O maldito crocodilo está seduzindo meu filho!
David acha graça e nega com a cabeça.
- Gold amava Milah e ama Belle. Eu estava lá quando Belle ficou amnésica e deu lugar para Lacey. O homem veio até mim para saber como criar um encontro amoroso!
- Pois eu lhe afirmo, companheiro! O cascorento está seduzindo Andreas!
- Você não pensou na possibilidade do contrário?
O queixo de Killian cai. Ele tenta falar algo e somente depois de alguns segundos, consegue formalizar.
- Como?
- Você recebeu um filho com trinta e um anos. Ele viveu sozinho durante toda a adolescência e começo da fase adulta. O que ele viu ou viveu neste ínterim?
- Meu filho seduzindo o crocodilo?
David abre as mãos e encolhe os ombros.
- O que sabemos sobre o rapaz? Caso eu pedisse a você para descrever a personalidade e os gostos dele. Saberia fazer?
Killian nega.
- Não sabemos absolutamente nada sobre o passado dele e os segredos que carrega.
- Por que ele faria uma coisa absurda como seduzir o crocodilo?
- Absurda para quem?
Killian explode numa gargalhada e afasta-se de David. Volta-se para olhá-lo com incredulidade.
- Ele é um rapaz ingênuo!
- Apostaria sua única mão nisso?
Um riso rouco é a resposta do pirata. Nega com a cabeça diversas vezes.
- Não, meu filho não está seduzindo o crocodilo! Aquilo é a coisa mais abjeta que já vi! É assexuado e maléfico!
- Para você, mas não foi para Cora, Milah ou Belle. Não sabemos as preferências de seu filho. Ele está sendo assediado pelas mulheres mais bonitas de nossa cidade e não responde a nenhuma investida. Ele está há um bom tempo em nossa cidade e somente é visto ao lado de Marlene e daquele troglodita careca do Gladius. Ignora abertamente os flertes.
Novamente Killian nega com a cabeça. David continua:
- Quem ele deixou no reino antes de vir para o portal? Ele disse sobre ter sido comprado por Minerva, fala de um amigo rato e de uma menina fantasma. O que mais ele diz?
- Está achando tudo natural porque não é com um filho seu! – Killian explode. - Está sugerindo que eu aceite o crocodilo como meu genro?
David nega com a cabeça, não se contém e começa a rir. É imediatamente acompanhado pelo amigo.
- Investigue o relacionamento dos dois, sem ser precipitado. Seja cauteloso porque há algo de obscuro nisso tudo. Tanto Gold quando Andreas tem algum interesse em manter essa amizade. Cada qual quer tirar o seu proveito e sabemos que Andreas é menos forte que o Gold.
Era madrugada quando Killian entra no saguão do hospital em busca de informações sobre seu filho. Encontra Emma e é impedido de continuar seu trajeto.
- Como ele está?
O médico, Dr. Victor, aproxima-se sorrindo e mantendo sua serenidade de sempre.
- O rapaz é forte, Capitão.
- Mas o que aconteceu? – Killian pergunta passando os olhos do médico para a noiva.
O médico ri da pergunta do pirata.
- Apenas Andreas é filho de quem é. Não foge à peleja alguma e mais uma vez ele se envolveu em confusão, desta vez nas docas. Bateu muito, apanhou bastante também e foi atirado no mar. Foi trazido pela garota Marlene e não resisti à tentação: vacinei os dois e os submeti a uma bateria de exames. Colhi material para saber o estado da saúde deles.
Emma acaricia as costas do noivo. O observa sorrir nervosamente.
- Por que não aproveitamos para realizar o teste de paternidade?
- E o que seria isso, Swan?
- É um método usado em nosso mundo, para provar que pessoas são parentes de sangue. Assim, saberemos se Andreas é mesmo seu filho biológico.
Killian olha para o médico e o vê concordar com um movimento de cabeça.
- Seria algo para a proteção do rapaz.
- E se provar que ele não é meu filho?
- Isso será algo que o senhor e o rapaz devem resolver. – responde o médico sorrindo.
Killian e Emma se entreolham. Ficam em silêncio por alguns instantes.
- Vamos fazer o tal teste!
Dois dias se passam depois da nova aventura de Andreas contra alguns jovens bêbados perdidos nas docas, naquela noite.
A porta da nova casa de Andreas é aberta e Marlene faz um gesto seco para que Gold entre, carregando um pequeno embrulho agitado em seus braços.
- Andreas já está a caminho. O senhor pode sentar-se ali. – a mulher acha graça na luta feroz do homem contra a menina que não demonstrava prazer em estar ali.
Minutos mais tarde, Andreas surge caminhando calmamente. Vestia uma camisa grande demais para seu corpo esguio e apenas uma calça escura. Estava descalço e ainda trazia no rosto, as marcas de sua briga nas docas.
- Você é uma alma rebelde, querido! Suas semanas não podem ser tranquilas?
- Está começando a ficar divertido. – ele não sorri. Apenas aproxima-se do homem e tira o bebê de seus braços, sem pedir permissão. Embala a menina. – Shhhh! Andreas está aqui!
Aproxima a menina de seu peito e começa a cantar algo em tom baixo. Gold apenas olha-o encantado com a ternura ao lidar com a criança. Rapidamente leva os olhos para Marlene que se senta num dos sofás e gruda sua atenção num filme na televisão.
- Você sabe mesmo lidar com crianças. É uma bela figura com um bebê nos braços. Tem filho?
- Tenho.
- Não me refiro ao ogrinho. Falo de um bebê saído de você.
Andreas levanta o rosto e encara Gold, que mantém um sorriso cínico no rosto.
- Sou um homem solteiro.
- Seu pai também é um homem solteiro. E olhe você aí!
- Eu decidi preservar minha castidade até meu casamento.
- Lerdo da maneira como lida com os flertes, vai preservar por uns 300 anos. – resmunga Marlene, devorando os salgadinhos de dentro de uma embalagem plástica.
- Que assim seja. – Andreas olha para Gold e o encontra ainda observando-o. – O senhor sente muita falta de seu filho?
Um gemido mostra a dor de Gold.
- Muita falta. Tive perdas demais em minha vida, para permitir que outras aconteçam. Sinto falta de Bealfare...mas na verdade sinto a falta de um filho propriamente dito.
- E Maya? – Andreas gesticula apontando a garota em seu braço.
- Ele disse "filho", plantinha desinformada. – resmunga Marlene.
Gold acha graça, desta vez.
- Sinto tanto a falta de um filho, que manipulei o nosso acordo para que você permanecesse aqui por mais tempo.
Marlene e Andreas se entreolham e depois fitam ferozmente o visitante.
- Manipulou?
- Eu confesso que fui egoísta, mas desejei chamá-lo de filho, desde que o vi pela primeira vez, quando caminhava com seu pai pelas docas. Confesso que senti muita inveja do pirata naquele momento. Cheguei a sonhar que um portal se abria em minha loja e você surgia ao lado de Neal. Meu filho dizia que havia voltado para trazer você para minha vida. Foi um sonho lindo e acordei chorando.
Novamente Marlene e Andreas olham-se incrédulos. O misto de emoções passa visivelmente pelos seus rostos. Piedade ou raiva? O que sentir?
- Eu ficaria imensamente feliz, caso algum dia pudesse chamá-lo de filho. Preciso que me permita praticar o amor de pai.
- Eu tenho um pai vivo.
- Um pai que teve vergonha de chamá-lo de filho, de assumir diante da cidade a sua origem e preferiu deixá-lo exposto às maldades das pessoas, aos comentários e até à uma cela de cadeia.
Com um movimento suave, Andreas fica em pé e começa a andar pela sala onde estavam. Eram movimentos lentos para não provocar susto na criança.
- Isso seria imprudente de nossa parte, Sr. Gold. Certamente haveria problemas.
- Pela primeira vez eu não estou pensando em provocar dano a alguém. Tudo o que sonho é ver alguém responder quando eu chamar: filho! – Gold sorri timidamente. – Estou declarando o meu amor, pela quarta vez ao longo desses séculos de vida. Aceite o amor que estou oferecendo!
O silêncio na sala torna-se sepulcral, até que o som dos passos de Petrus chegando ali, chama a atenção dos adultos. O menino vinha segurando o livro sonoro que havia ganhado de presente. Cumprimenta a todos, aproxima-se de Marlene e senta-se ao lado dela, sendo envolvido por um dos braços da mulher.
- Veja! Ele sente que é amado e isso não pode ser explicado. – argumenta Gold. – Gostaria que você sentisse a mesma segurança que o garoto demonstrou, sabendo que não iria ser repudiado.
Sem saber o que dizer, Andreas desgruda seus olhos da cena e volta sua atenção para o visitante.
