Killian salta de felicidade como se estivesse comemorando um ponto a mais em um jogo. Bate palmas e gargalha. Pede para David ler pela terceira vez, o resultado do exame de paternidade: Andreas era seu filho biológico e nada impediria de dar seu sobrenome ao rapaz.

Mas no final daquele dia, aquela alegria dá lugar a um forte sentimento de raiva e impotência.

- Eu vou arrancar os pulmões daquele crocodilo com uma colher de sorvete! Ele quer continuar me manipulando! Mas não serei previsível e não vou tirar satisfações com ele, embora o peçonhento esteja esperando a minha entrada furiosa e cinematográfica naquela pocilga que chama de loja!

- Vai apenas furar o soalho andando de um lado ao outro. – Emma tenta acalmar o amado.

- Vou entrar em ebulição! Como Andreas pode ser tão ingênuo?

- E se ele não foi ingênuo?

Killian sorri desdenhoso.

- Blefar com o crocodilo? Eu já tentei isso e quase perdi meu coração!

- Seu filho pode ter agido deliberadamente. Por que pensa que Gold é onipotente? Ele é apenas um conhecedor de truques antinaturais e isso não garante que consiga manipular todas as pessoas. Talvez Gold e Andreas estejam tentando usar um ao outro como arma, para manipular você. Cada qual com o seu interesse em particular.

Um sorriso surge na boca bonita do pirata. Como aquela mulher conseguia ver coisas em meio a tanta neblina! Ela sempre sabia encontrar brechas luminosas em situações que pareciam totalmente opacas. E por isso ele a amava!

- Solicite na justiça, o direito de batizar Andreas com o seu sobrenome, mesmo que seja à revelia.

- E se Andreas não me quiser?

- Ele terá o seu sobrenome, queira ou não. Será Andreas Verbenas Gold Jones. O mais irônico desta história é que tanto você quanto Gold vivem numa eterna luta para a destruição mútua, mas sempre acabam ligados por uma situação ou outra. Sempre surge um elo entre vocês. – Emma acha graça e começa a rir, observando Killian fazer o mesmo. – Deveriam depor as armas!

Mais tarde...

Andreas ouve o som de saltos pelo soalho e levanta os olhos para ver a aproximação de seu pai. Elegante em sua vestimenta do cotidiano andava como se estivesse bailando. Ereto em sua postura militar, era altivo e bonito de ver.

- A porta estava destrancada...

- Sem problemas, Capitão.

- Há bastante trabalho, hein? – Killian observa as anotações do filho.

- Minhas clientes apreciam os chás e os preparados para os banhos que faço.

Killian acha graça e não perde a chance de ironizar.

- Principalmente, se os chás e preparados vierem das mãos de um moreno incrivelmente lindo!

- Não seja vulgar, Capitão.

O pirata senta-se e afasta os papéis para ter espaço para apoiar a mão sobre a mesa.

- Agora você também é herdeiro do crocodilo. Poderia interditá-lo na justiça.

Um sorriso ilumina a boca pequena de Andreas.

- Como respondi a ele: posso interditar o senhor também.

Os dois homens riem.

- Como estão Marlene e Petrus?

- Adaptados. Estão com Ruby neste momento. – Andreas estreita os olhos e inicia novas anotações.

- Você está feliz, filho?

Inspirando profundamente, Andreas encara o pai.

- Poderia estar mais feliz se conseguisse trazer meus companheiros para este reino. Marlene não pretende retornar à condição antiga e não tenho a intenção de deixá-la, caso consiga abrir um novo portal. Mesmo pesquisando muito, Regina ainda não encontrou uma maneira de manter Marlene como humana, caso atravessemos um portal.

- A vantagem é que você continuará conosco.

- Vantajoso para Marlene é o que me importa, Capitão.

- Sua estadia aqui é vantajoso para algumas pessoas: Belle o mantém próximo e isso favorece a saúde da filha; Regina está abertamente apaixonada por você e não temos mesmo garantia de que ela esteja mesmo procurando uma solução para Marlene, o que ocasionaria sua partida; o crocodilo conseguiu machucar minha alma, quando o adotou e o fez existir perante a lei; muitas clientes compram seus produtos sob o sonho de tê-lo como amante...

- O senhor é um homem belíssimo e as pessoas não fazem questão de tê-lo por perto, Capitão.

Killian alarga um sorriso e acentua seus traços felinos.

- Eu não sou o mel. Sou o veneno e o ferrão.

Andreas não rebate. Apenas retoma o seu trabalho montando os kits com sachês com ervas.

- Você chama o crocodilo de pai?

- Ele não é meu pai, Capitão.

- Então por que permitiu que ele o adotasse? – Killian explode e levanta-se bruscamente, assustando o filho. – Queria usar mais um subterfúgio além das badernas, para chamar a minha atenção?

Andreas encosta-se no espaldar da cadeira e mantém a serenidade no rosto.

- Chamei a sua atenção quando me declarei seu filho. Apenas não consegui mantê-la em mim. – ele dá de ombros. – Percebi que meu esforço desde que saí de minha terra, não valeu a pena. O senhor não estava convencido de minha verdade e nem na verdade de minha mãe. Naquele momento, quando eu me sentia verdadeiramente um órfão, o Sr. Gold surgiu.

Uma pontada de dor agride a garganta de Killian. A frase do filho não provocava emoção, mas produzia dor física.

- Eu lhe peço perdão, filho.

- Não se preocupe comigo, Capitão. Não há do que perdoá-lo, porque não me ofendeu.

- O que sente pelo crocodilo?

- O Sr. Gold é o que de mais próximo eu estive de uma figura paterna. Ele me falou sobre amor. Ofereceu-me este amor e eu aceitei.

A frase surte o mesmo impacto de um coice de mula contra o peito de Killian. Ele cobre os lábios com a mão em concha.

- Não sinta raiva dele, Capitão, porque fui cativado.

Os olhos de Killian ardem e ele pisca para impedir que lágrimas atrevidas fossem expostas.

- Sinto muito, filho.

- Poderemos ser amigos, Capitão. Ser meu amigo é melhor que ser meu pai. Ser pai é chato! Precisa dar conselhos, controlar e não pode ouvir as intimidades dos filhos. Amizade é boa para cultivarmos. É mais divertido!- Andreas sorri e logo desfaz o sorriso.

Killian acaricia os longos cabelos do rapaz e depois se inclina para beijar-lhe o alto da cabeça.

Naquela mesma noite, o pirata adormece nos braços de Emma, depois de ter chorado e soluçado por horas a fio. Tivera um filho legítimo em seus braços e por vaidade, permitira que seu maior inimigo levasse embora sua preciosidade sem esforço algum. Havia presenteado seu inimigo, com uma parte vinda de seu sangue e de sua carne. O velho crocodilo roubara alguém de sua vida, como uma forma de vingança pela perda de Milah.

Lágrimas quentes e com a mesma intensidade caiam dos olhos de Andreas, quando ele bate à porta da mansão de Gold.

- É um pouco tarde para uma visita, querido. – foram as palavras do advogado, antes de ser atropelado pelo corpo do filho adotivo em busca de um abraço e proteção.

E com os braços repletos pelo corpo do rapaz, Gold sente sua alma gargalhar e luta contra o ímpeto de gritar ao mundo o quanto estava radiante com sua vitória. Sua vida poderia acabar naquele instante e seria um homem feliz.

Acariciando os cabelos do filho adotivo, o homem permite que seus outros problemas sejam diminuídos e momentaneamente esquecidos. Desconhecendo a si mesmo, abaixa todas as armadilhas que mantinham preso o seu autocontrole e sua frieza diante de demonstrações de afeto. O menino em seus braços tinha a capacidade de minimizar tudo o que ele encarava como mais importante: poder, magia, autoridade, conforto e ódio. Nada mais tinha valor naquele instante, a não ser a proteção daquele menino que o havia buscado no meio da noite, banhado em lágrimas. Nem mesmo Baelfare, quando criança, costumava demonstrar tamanha necessidade de abrigo e de carinho, como aquele desconhecido fazia naquele instante. Não iria perder aquela sensação por nenhuma outra coisa naquele espaço de mundo. Não iria se arrepender daquele momento e sabia que estava sendo apresentado ao real significado de felicidade completa.