O bote se afasta numa velocidade fantasmagórica e amedrontadora, sob o olhar incrédulo dos que ficaram no litoral.
- Eu tenho de fazer alguma coisa! Ela partirá com ele pela noite e não posso permitir isso! – grita Marlene buscando algum ponto de partida.
- Nós temos de fazer alguma coisa, Marlene! Você e eu iremos salvar Andreas! – Killian toca os ombros da nora.
- O filho é meu e não vou permitir que um fantasma surja do nada e o leve embora de meus braços! Caso eu estivesse com meus poderes na totalidade, ela não seria páreo para mim!
- Mas não está, crocodilo! Por isso precisaremos trabalhar em equipe! – Killian se volta para Gladius e sorri. – Posso contar com sua colaboração?
O gigante bate no peito e sorri imponente.
- Meu navio e meus serviços estão ao seu dispor! Será uma imensa honra trabalhar ao lado do grande Capitão Gancho!
Killian sorri e gesticula para Emma, que se aproxima e já direciona seus passos para o poderoso Spartacus. Todos olham ao mesmo tempo para Regina e a encontram estática, com os olhos na direção do Sonho da Rainha.
- Você vem conosco, Majestade? – pergunta Killian. – Precisaremos de sua ajuda.
A morena olha o pirata e exibe um sorriso predatório, concordando.
- Então, companheiros, vamos cortar uma árvore!
Quando Andreas é levado ao primeiro deque, não se contém e chora copiosamente. Seus pais teriam entendido sua charada? Charlize iria se compadecer de deixá-lo retornar para sua amada? Ele iria transformar-se num fantasma errante dentro daquele navio? Ficaria condenado à eternidade naquela prisão que vagava pelos mares, esperando pelo fim do mundo? Desta vez, ele sente muito medo.
- Ele precisa ser tranquilizado, Charlize. – Athos sussurra ao ouvido da jovem. – Somente você pode fazer isso e sabe como. Deve tomá-lo antes do anoitecer e garantir a sua permanência entre os humanos novamente.
- Andreas não é mais casto. – ela murmura. – A regra é bem clara.
- Ora, isso foi apenas posto como empecilho para dificultar sua procura! Andreas foi tocado e libertado apenas pela mulher que o ama verdadeiramente! Então, é como se ele ainda fosse virginal! O que ele sabe sobre a vida ativa de um homem adulto?
Os olhinhos tristes de Charlize voltam-se para o rosto de Athos.
- Ele não vai aceitar-me como mulher dele.
- Use seus truques e faça-o ver a mulher que ele ama. Crie uma ilusão e o possua de uma vez por todas! Precisa fazer isso imediatamente!
Charlize se afasta e caminha para junto do jovem choroso, tomando seu rosto entre as mãos. Recebe sobre si, a maior representatividade da tristeza e do abandono, estampados naquele par de olhos celestes, encharcados pelas lágrimas do desespero.
- Eu amo você, Andreas. Ficaria honrada ao ser honrada com sua presença em meu leito.
- N-não amo você! – ele soluça e continua chorando como se fosse uma criança. – Meus amores estão lá fora e meu maior amor está morto! Eu morrerei pela tristeza de estar preso neste navio, Charlize!
Abaixando os olhos, a jovem não consegue esconder sua decepção e infelicidade diante daquela situação constrangedora. Como iria obrigar o seu homem amado a pertencer a ela e a libertá-la daquela prisão?
- Andreas, meu amado, desejo ardentemente voltar ao meu estado humano e para isso, preciso ter um contato com um corpo masculino ainda intocado.
Ele soluça ainda mais.
- Eu amo Marlene e entreguei-me a ela! Não sou o homem que salvará você!
Desta vez, quem chora é Charlize. Mas chora de maneira contida e tímida.
A noite cai naquele pedaço de mar e a lua surge imperiosa na abóbada celeste, escura e salpicada de pontinhos prateados e brilhantes.
No deque principal do Sonho da Rainha, Andreas e Charlize observavam a luminosidade redonda da dona da noite. Estavam em silêncio e apenas os soluços chorosos do homem são ouvidos como sonoplastia para aquele momento.
No porão do navio, Athos contava e recontava os milhares de moedas de ouro e suas joias protegidas em seus baús de madeira. Tudo aquilo era seu enquanto permanecesse no navio, mas tão logo Charlize consumasse seu amor com Andreas, ela retornaria à condição humana e poderia ser morta, juntamente com o jovem ladrão. Era o plano de Athos. Livre dos indesejados, comandaria um navio poderoso e repleto de valiosidades. Poderia manter o mistério e a lenda em torno do Sonho da Rainha e usufruir do que pudesse lucrar com isso. Ele ri sozinho e inebriado pelo brilho dourado.
Lá fora, Andreas perde-se em pensamento e deixa escoar com as lágrimas, toda a esperança de ser resgatado daquela maldição iminente. Sente a mão fria de Charlize tocar a sua mão.
- Sabe que tenho amor por nós dois, Verbenas.
- Não sei nada disso. – ele leva os olhos cansados para o mar escuro e tem a sensação de ouvir um barulho característico, mas sua ansiedade poderia ter produzido alguma alucinação sonora. – Eu quero estar adormecido, quando você cruzar o portal. Não quero ver essa cidade ser deixada para trás.
O zunido típico de um grande disparo chega aos ouvidos do casal e a explosão do casco de madeira do navio, toma os dois de assalto. Com o impacto, os jovens são atirados contra o chão e rapidamente Andreas trata de proteger o corpo de Charlize.
Do meio do nada, como se rompesse uma cortina invisível, Spartacus surge majestoso e mostra-se perto demais do outro navio. O impacto de um novo disparo é recebido e um incêndio inicia-se.
- Fique aqui e caso eu não retorne, pule na água! – Andreas deixa a jovem encolhida num canto do deque e corre em busca de Athos, pedindo aos Céus para que ainda o encontre vivo.
No porão parcialmente inundado, o homem lutava para conseguir abrigar o máximo de joias e moedas de ouro que conseguisse esconder dentro de suas roupas. Quando Andreas o encontra, os dois travam uma feroz luta corporal, cada qual com seu objetivo. Depois de algum tempo de confronto, Andreas consegue arrastá-lo para fora dali e o atirar na água noturna, por um buraco aberto na parede do casco.
Partindo em busca de Charlize em meio das chamas, o ladrão não a encontra onde a havia deixado. O fogo se fortalece e Andreas consegue ver a plataforma colocada entre os navios e percebe a entrada de Gold e Killian. Ele tenta aproximar-se dos pais, mas o chão cede sob seus pés e ele é engolido para o deque inferior.
Num canto daquele andar, Andreas vê a figura pequena de Charlize encolhidinha, abraçada a uma boneca com rosto de porcelana.
- Venha comigo, Charlize! – ele grita. Levanta-se mancando e sente a dor de um ferimento em sua coxa. – Venha comigo agora! O navio irá afundar em pouco tempo! Meus pais estão aqui para nos tirar daqui!
Ela sorri chorosa.
- Não posso, amado. Tenho de permanecer no navio, mesmo que ele fique em destroços.
- Isso não é real! – ele tenta aproximar-se e uma labareda o impede. Ouve o som das vozes de seus pais. Sente as lágrimas começarem a rolar em seu rosto. Desespero. – Eu lhe imploro, Charlize! Não desista e venha comigo! Apenas me dê sua mão!
Charlize sorri encantada e aliviada. Estava tendo a mais linda visão desde que entrara naquele navio: Andreas chorava por ela.
- Você está chorando, amado!
- Eu lhe imploro, Charlize! Não fique para morrer aqui! Venha viver comigo!
Ela nega com a cabeça e sorri ainda mais.
- Já estou morta, amado. Mas agora estou liberta pelas suas lágrimas.
Uma viga de madeira despenca e no mesmo instante em que esmagaria Andreas, é impedida por alguma força desconhecida e para em pleno ar. As chamas também são congeladas e as figuras de Gold e Killian surgem no andar.
- O que vocês fizeram? – grita Andreas.
Gold e Killian olham em volta, incrédulos no que estavam vendo. As labaredas congeladas e a viga de madeira presa por alguma força ou por alguém. Rápidos, os homens retiram o rapaz do risco iminente e são surpreendidos quando ele luta para conseguir alcançar a jovem em pé num canto do deque.
- Eu serei sempre grata a você, Andreas Verbenas. Desde que fui amaldiçoada e presa neste navio, nenhuma lágrima foi derramada por mim. Algo simples que poderia me libertar. – ela sorri e vai se desvanecendo diante dos olhos dos três homens.
