Um apito suave e contínuo chega aos ouvidos de Andreas e ele tenta abrir os olhos, mas sua luta é árdua demais e acaba perdendo.

Os latidos de dois cachorros começam a incomodar. Os animais rosnavam um para o outro e estando cada qual num lado da cerca de madeira, quase se atingiam com suas mordidas. A cena era ridícula, embora fosse belicosa.

Andreas aproxima-se dos animais e os dois levam seus olhinhos furiosos para ele. Os dois bichos eram velhos, mas possuíam jovialidade em seus olhos. Parecem sorrir ao ver o rapaz e avizinham-se balançando suas caldas.

- Você está conosco! – um dos cachorros fala.

- Graças a minha coragem. – o cachorro de olhos claros parecia ser tão cínico.

- Aqui os cachorros falam? – pergunta Andreas tentando levantar-se, mas sente ser forçado contra uma superfície macia e quente.

- Amanhã iremos conversar, filho. Procure descansar. – um dos cachorros sussurra e o outro concorda. – Continue dormindo e estaremos aqui com você.

Andreas gargalha.

Quando acorda, observa o quarto branco e percebe que está mais uma vez deitado numa cama de hospital. Era a segunda vez desde que chegara àquela cidade. Num canto do quarto, adormecido numa poltrona estava Killian, protegido por um cobertor sobre os braços.

- Pai...pai, acorde...

A voz fraca do jovem é suficiente para despertar o pirata, que se levanta e praticamente voa sobre o filho. Beija-lhe os cílios e acaricia os cabelos escuros. As lágrimas do rapaz provocam lágrimas no calejado pirata.

- Como você está, filho?

- Dolorido. – ele vasculha o quarto com seus olhos cristalinos em busca de alguém. – Onde está Charlize? E Athos?

- Humm, o guloso estava agitado e foi posto para dormir. Recebeu alta e o hospedamos na Pensão da Vovó. Ficará ali até sabermos o que fazer com ele. – Killian sorri amável. – Já Charlize...tornou-se etérea e subiu junto com a fumaça do incêndio.

- Pensei que não tivessem entendido a minha charada. Não poderia dizer abertamente ou ela provocaria uma inundação na cidade.

Killian beija a testa do filho e leva os olhos para a porta, por onde Gold entra com seus modos arrogantes.

- Eu entendi a sua charada. O crocodilo não!

- Ora, queridinho, não se vanglorie dos nossos feitos. Agimos em equipe.

Andreas sorri e fecha os olhos as receber o carinho de Gold em seus cabelos.

- Fomos todos cortar a raiz e minar a força da árvore. – o advogado sorri e torna-se feio.

- Não ria, por favor. – alfineta Killian.

Entrando no quarto e chamando a atenção sobre sua figura, o Dr. Victor sorri e estaca-se diante da cama do paciente.

- Vejo que o nosso menino está bem! Fico admirado com a facilidade com que se recupera das empreitadas em que se envolve! Terá alta amanhã e receberá um elenco de cuidados com sua perna. Procure não pular de navios em chamas, brigar com anões e policiais e tampouco atravessar portais nos dias de sua recuperação!

- Como conseguiram me encontrar?

Gold e Killian entreolham.

- Regina, Emma e o crocodilo criaram uma cortina invisível para a proteção do Spartacus e vocês não viram a nossa aproximação. Um navio fantasma é assustador, mas a tecnologia atual é mais fantasmagórica! Pelo painel da cabine conseguimos ver onde estavam os corpos quentes e soubemos calcular o local exato para os disparos. – o pirata fala suavemente, como se contasse uma história de ninar.

Os homens mais velhos sorriem, mas param imediatamente quando Andreas cobre os olhos com uma das mãos e começa a chorar intensamente.

- Shhhhhh! Está tudo bem, amor! – Killian se inclina e abraça o filho. Percebe que Gold segura a mão do rapaz e beija repetidas vezes.

- Não consegui salvar a vida de Charlize...

- Você fez o mais simples dos atos e libertou a jovem da prisão. – cochicha Gold inclinando-se sobre o rapaz, quase se encostando a Killian que não se afasta. – Destruímos a fonte de todo o mal. O navio havia adquirido vida própria e estava controlando quem entrava nele, mantendo Charlize como sua amada prisioneira. O monstro não existe mais e a moça está em paz!

Um mês é engolido no calendário e a vida na cidade está tranquila, com seus habitantes ocupados com seus afazeres e prazeres.

Andreas consegue convencer Athos a prestar serviços para Killian, até o momento em que conseguirem abrir novamente o portal para enviá-lo novamente ao seu reino ou para onde quisesse ir.

Também convencida pelo amado, Marlene passa a trabalhar nos barcos de Killian e algumas vezes prestava serviços na lanchonete das Lucas, quando o movimento aumentava. Dedicava-se aos cuidados com sua casa, auxiliando Andreas no box no centro comercial e participava ativamente da vida escolar e do desenvolvimento de Petrus, agora bem mais crescido. Os interesses do menino voltavam-se exclusivamente para o mar e constantemente prestava serviços para Gladius, além de estudar assuntos relativos à marítima.

Naquela manhã, Killian conversava com o Sr. Smee, passando as coordenadas para a viagem que seria iniciada dali a três. Contaria com a presença de seu filho e isso o entusiasmava como se fosse um menino preparando-se para sua primeira saída da cidade.

Passadas as instruções, Killian dedica sua atenção e encantamento para o jovem casal que se aproxima, abraçado e com a paixão estampada em seus lábios. Marlene e Andreas sorriem ainda mais quando param próximos ao pirata.

- Onde está Petrus?

- Nós o deixamos com Gladius há pouco. Ele nos pediu para deixar o menino acompanhá-lo numa manobra que fará esta tarde. – diz Andreas mantendo o braço em torno dos ombros de Marlene.

- Eu gostaria que fosse jantar comigo e com os Charming. O que me dizem? – Killian não se contém e acaricia os cabelos escuros do filho. Como era lindo aquele dali! – Iremos marcar a data do meu casamento com Swan, antes de minha viagem.

O jovem casal gargalha feliz.

- Iremos com muito prazer! – Marlene leva os olhos escuros para a figura que se aproximava do trio. Era o manquitolante advogado, pai postiço de Andreas. – Homenzinho ciumento aquele dali. Parece que adivinha quando Andreas se aproxima do Capitão!

- Répteis têm excelente faro! – o pirata ironiza e mantém o sorriso cínico até a chegada do advogado mal humorado. – Você resplandece o nosso dia, crocodilo! Irradia uma alegria contagiante e comovente!

- Ficaria ainda mais resplandecente e radiante, se algum portal abrisse bem embaixo dos seus pés e o levasse para o Reino de Oz. – ele se volta para o casal. – Como estão?

Andreas inclina-se para frente e num gesto inesperado, beija os lábios do pai. Sorri.

- Falta pouco para a felicidade total.

- Isso é algo que não se pode atingir. – o advogado coloca a mão no interior do paletó e retira uma caixa aveludada de lá. Entrega-a para o filho. – Fiz um colar para você, com um berloque especial. Espero que use com sapiência!

Andreas desvencilha-se delicadamente do abraço da amada e apanha a caixa. Com cuidado, ele a abre e alarga o mais lindo de todos os sorrisos já vistos em seu rosto. Leva os olhos arregalados e brilhantes para o rosto de Gold.

- Você fez um colar com o feijão mágico!

Um gemido desgostoso é emanado de Marlene. Caso fosse um equino ainda, teria bufado.

- Um presente deste naipe foi dado aos troianos e não acabou bem para eles, segundo consta.

Gold espreme os lábios finos num sorriso sarcástico.

- Admiro a sua rápida aquisição de informações históricas, mas elas são perfeitamente dispensáveis em nosso caso, queridinha.

- Dizem que a cavalo dado não se olham os dentes, porém para um feijão mágico pendurado como pingente, deveríamos olhar o esqueleto inteiro. – ela retruca resmungona.

Andreas beija o rosto do pai postiço e ergue o presente como se fosse um troféu, colocando em torno de seu pescoço logo em seguida.

- Ficará seguro aqui comigo. É uma promessa! Obrigado por confiar em mim!

- É o mínimo que o papai crocodilo deveria fazer, depois de ter trapaceado na transformação de Marlene! – Killian alarga seu sorriso felino.

- Fiz a trapaça porque amei Andreas desde o primeiro instante em que o vi. Ao contrário de certo pirata peçonhento que o rejeitou e o expos ao escárnio público!

- E então o crocodilo surgiu voando com um C desenhado no peito, para salvar a situação entre pai e filho. – Killian brinca sorrindo.

- Pais, por favor...

- Surgi caminhando calmamente para proteger o filho que elegi para mim. E fui imediatamente aceito, haja vista que o meu sobrenome está primeiro que o seu.

Marlene deixa a cabeça pender em direção ao peito.

- Obviamente que quis o menino. Queria repor o filho que perdeu por valorizar a magia em detrimento ao pequeno. Quer vender a imagem de pai zeloso e apaixonado? Por que não ser este exemplo de pai para sua menina Maya?

- Não se atreva a citar o nome de minha filha com esta boca pútrida e maldizente!

Uma gargalhada é a reposta inicial de Killian.

- Minha boca pútrida e maldizente, beijou inúmeras vezes os lábios doces de Milah e passou ensinamentos de um pai, durante anos para Baelfire!

Num movimento brusco, Gold avança para o pirata.

- Você entregou o meu filho para os Meninos Perdidos, seu animal covarde! – ele grita entre os dentes travados e ergue sua bengala.

- Por isso você ousou aproximar-se de meu filho biológico para tomá-lo de mim! Sempre sua vingança em primeiro lugar! – Killian não se afugente e mantém o gancho armado.

- Parem com isso! – Andreas fica entre seus dois pais.

- Sua imensa sorte é a minha fragilidade sem a minha magia, seu verme imundo!

- Você é o mesmo camponês covarde de sempre! Escondendo-se atrás dessas manobras sobrenaturais! Criatura vil e patética! Crocodilo velho e decadente!

Andreas posiciona o corpo entre os dois brigões e tenta evitar o contato físico entre eles.

- Parem imediatamente com isso! Continuem com essa idiotice e eu irei embora com minha família!

Gold e Killian entreolham-se furiosos.

- Por um segundo, vocês poderiam tentar conviver civilizadamente? Não suporto esses confrontos! Isso me deixa infeliz e não foi por isso que vim para este reino! – Andreas massageia a testa. Retira o colar e o exibe entre os dedos. – Eu usaria isso para sair deste reino e voltar para casa! Mas para isso teria de perder o meu amor e não arriscaria a transformação de Marlene por nenhum de vocês dois! Então, eu suplico a paz!

Killian ergue as mãos num gesto de rendição. Não perderia a presença do filho por reações impensadas. Iria controlar-se, mesmo que tivesse de segurar a mão do velho inimigo.

Observando o gesto do pirata, Gold decide mostrar-se com boa vontade para um movimento de paz. Ergue as mãos para render-se ao pedido do filho e acidentalmente bate com a bengala na mão de Andreas, derrubando o colar com o pingente precioso, no chão.

Sem dar chances para reações, um círculo verde nasce e cresce sob os pés das quatro pessoas, envolvendo-as sem oportunidade de fuga. Um novo portal é aberto e com a força típica, suga os quatro corpos para dentro de sua bocarra, levando-os para um destino desejado anteriormente.