Capítulo 5 -

Exílio

-Sigyn! - Levantou o rosto para encontrar seus avós maternos sorrindo para ela. Carregava um carrinho com duas malas. Em uma delas, no fundo, estava o livro de mitologia. Em sua mochila nas costas, seu notebook. Soltou o maior sorriso que podia e correu para encontrá-los. - Como você mudou. Está cada dia mais linda. - Sentiu o rosto corar com o elogio da avó.

-Para, vó. - Ela deu risada e beijou o rosto da neta.

-Realmente, você está linda. - Seu avô abriu os braços para que ela o abraçasse, e foi o que fez. - Como foi de viagem, pequena?

-Tudo tranquilo. Dormi a viagem inteira. - Respondeu, enquanto voltava a empurrar o carrinho, seguindo os avós até o estacionamento do aeroporto.

Seus avôs maternos moravam no coração da capital da Islândia, enquanto seus avôs paternos preferiam a tranquilidade do interior. Ela não sabia dizer de qual lugar gostava mais, apenas sabia que era encantada por aquele país e, depois que terminasse todos os estudos na Inglaterra, provavelmente moraria ali, mesmo que islandês fosse uma língua difícil que ela não dominasse cem por cento.

Já estava de banho tomado e de pijamas. Tinha tirado as roupas das malas e colocado no armário em seu quarto na casa dos avós. Ela tinha passado todas as férias de sua infância ali. No teto, quando tinha nove anos, havia grudado adesivos que brilhavam no escuro e imitavam constelações. No verão, quando não havia noite, ela deitava na cama, fechava todas as janelas e cortinas, apagava a luz e se jogava na cama, encarando as estrelas que brilhavam. Sorriu ao lembrar disso e levantou a cabeça para olhar. Tirou do fundo da mala o livro e mordeu o lábio inferior. Duas semanas que o encontrava sempre que podia. E a cada dia parecia cada vez mais envolvida com ele, de um jeito que nunca tinha ficado com ninguém.

É claro que ela havia se relacionado antes. No ensino médio, odiava o fato dos garotos fazerem fila para ter a chance de chamá-la para sair. Ela achou que estava encantada pelo capitão do time de rugby da escola e foi o único que ela aceitou. O namoro durou quatro meses, até ela descobrir que ele era um canalha que queria levá-la para cama e terminar depois. Ela fez isso antes dele e não derramou uma lágrima, ela estava só encantada. Não gostava tanto assim dele. Nos primeiros anos de faculdade, saiu com um cara que fazia Engenharia. Ficaram dois anos juntos, apesar da implicância de toda a família. Ela gostava dele, não podia negar, mas nunca sentia nada parecido com o que sentia com Loki. Suspirou. Ela queria tanto perguntar se era verdade, se todas aquelas suposições eram verdade, se ela podia atribuir aquele sentimento tão estranho ao destino ou se era tudo culpa dele mesmo – por ser tão bonito, charmoso e tudo mais.

-Sigyn, está tudo bem? - Olhou para a porta do quarto. Sua vó estava parada perto do batente, os braços cruzados e uma expressão de preocupação no rosto. - Estou te chamando faz cinco minutos.

-Desculpa vó, estava perdida nos pensamentos aqui. - Sorriu, tentando acalmá-la.

-Esse livro. É o que te dei? - Olhou para os livros em mão e assentiu com a cabeça. Viu o sorriso que brotou no rosto da senhora, que andou até ela e sentou ao seu lado na cama. - Decidiu lê-lo?

-Sim. Vó, eu posso fazer algumas perguntas sobre isso? - Abraçou a neta pelo ombro.

-É claro que pode, o que quer saber?

-É tudo verdade? - A matriarca piscou os olhos algumas vezes antes de franzir o cenho. - Não pode ser só coincidência papai e mamãe terem o nome que tem e eu ter o nome que eu tenho. E... - Calou a boca, sem saber até onde podia contar sobre Loki. Ouviu a mulher suspirar, antes de soltá-la.

-Ele te encontrou, não foi? - Encarou a porta a sua frente, com vergonha e medo de olhar para a sua vó. Não respondeu. Só perguntou sussurrado "quem?". - Loki. - Seu coração parou de bater por alguns segundos e ela se esqueceu de como se respirava. - A gente te mandou para tão longe. Como ele te encontrou lá?

-Eu não sei. Ele apareceu. - Falou baixo, com medo. - Ele apareceu e de repente tudo o que eu achava que era mentira existe de verdade.

-Ah, Sigyn. A gente tentou tanto evitar isso.

-Por quê? Ele não é o que está escrito aqui, você sabe?

-Eu sei. O problema não é ele. - Sua avó suavizou a expressão. - Não. Loki vai amá-la, filha, e vai te respeitar como ninguém mais vai. E você vai respeitá-lo e amá-lo na mesma proporção, vocês nasceram um pro outro e isso é maravilhoso. - A mais velha suspirou. Helena percebeu que tinha muito mais que ela gostaria de falar, mas estava escondendo. - O problema é Odin. Não é hora de falarmos disso, Sigyn. Você acabou de chegar, está cansada. Vim só perguntar se você está com fome.

-Não, vó. Eu vou dormir.

Depois de sua vó ter beijado a sua testa e ter dito boa noite, ela se enfiou de baixo das cobertas com o livro ainda no colo. Voltou a folheá-lo com curiosidade até cair na página com a caligrafia caprichada escrito Loki e Sigyn. Sentiu seu coração explodir no peito, mordeu o lábio inferior. Sabia que não podia acreditar em tudo escrito ali, mas não conseguiu evitar a curiosidade. Tinha se controlado para não ler o conteúdo daquele capítulo, mas sua avó tinha confirmado tudo o que os dois tinham descoberto sozinhos. Era injusto não saber da sua parte da mitologia. Seus olhos foram ávidos.

Sigyn era uma das únicas deusas da mitologia não que não tinham ligação com a nobreza. Nascida de família de camponeses, seu destino com Loki se concretizaria e, só então, ela se tornaria princesa de Asgard e deusa da fidelidade ao casar-se com o deus das mentiras e ter acesso às maçãs de Iddun. Era descrita sempre com longos cabelos dourados e profundos olhos âmbares. Negou com a cabeça e fechou o livro. Como aquilo podia estar tão certo? Levantou os olhos para a porta e demorou-se ali um tempo. O que seus pais não tinham contado para ela durante todo aquele tempo? Seus avós tinham escondido muitas coisas dela, pelo jeito. Engoliu um seco, não sabia se estava preparada para tudo aquilo.

Respirou fundo e abriu o livro nas últimas páginas, onde, caprichosamente desenhada, uma árvore genealógica de todos os deuses aparecia, com tons de dourado. Seu nome, ao lado de Loki, ligados por um único traço indicando matrimônio. Se seguisse a outra linha que surgia dele, cairia em dois outros quadrados isolados do resto dos deuses. Eli e Iwal. Seus pais. Voltou pelo mesmo caminho e observou a linha que saia daquela que a ligava a Loki. Um quadrado fazia seu coração bater rápido demais, descompassado demais. Nari. Um menino, segundo a mitologia. Ela teria um menino com Loki. Travou o maxilar, sentindo a palpitação aumentar.

Não adiantava ficar pensando muito mais naquilo. Precisava descansar. Mesmo que agora sua vó tivesse confirmado que tudo aquilo em sua mão fosse verdade. Duvidou que fosse conseguir pregar os olhos aquela noite, mas, mesmo assim, deixou o livro na cabeceira, jogando-se embaixo das cobertas. Tinha muito o que conversar com Loki a próxima vez que o visse.

-Sigyn, sente-se. - Terminou de colocar o casaco e virou-se para sua vó, a dúvida estampada no seu rosto. Sua vó estava com o livro na mesa, fechado, as mãos cruzadas, a coluna ereta. Sentiu um medo irracional, só via aquela pose se tinha feito algo errado. Olhou para a porta e depois de novo para onde sua vó estava.

-Começou a nevar, eu queria aproveitar. Estou encrencada?

-Não. - Soltou o ar que não percebeu que estava prendendo, tirando uma risada da mais velha. - Só estou brava com seu avô que saiu de casa e me deixou sozinha para contar tudo para você.

-Deduzo que a família inteira já sabe de tudo isso então? - Suspirou, cedendo e indo até a mesa. Puxou uma cadeira e sentou-se, de frente para sua vó. - Sério? A gente podia fingir que temos uma família gigante e não sair espalhando as coisas pra todo mundo. - Gemeu, soltando-se na mesa, tirando risadas da mulher a sua frente.

-Decidimos que já passou da hora de você saber a verdade, Sigyn. Não contaríamos a você se ele não te encontrasse, mas. - Helena suspirou e levantou-se. - Por favor, não me interrompa enquanto conto, é difícil pra todos nós lembrar disso e vai ser difícil contar para você, mas espero que entenda. - A moça assentiu com a cabeça e cruzou os braços, esperando a mais velha começar a falar. - Eu e seu avô nos casamos cedo, e demoramos para ter sua mãe. Moramos num vilarejo afastado da cidade, numa propriedade grande o suficiente para nós dois e mais um filho. Quando Elli veio, ficamos maravilhados, já achávamos que não podíamos ter um bebê.

"Na propriedade do lado, morava Igor e Agda e, alguns anos antes de termos Elli, eles tiveram Iwall. Os dois cresceram juntos e, quando sua mãe fez vinte e um anos, eles vieram até nós e contaram que desejavam se casar. Naquela época, e onde morávamos, era preciso pedir permissão do rei para um casamento, e, caso ele permitisse, a cerimônia já seria feita no castelo e eles voltariam como um casal para casa. Juntamos nossas coisas e partimos para a cidade, encontrar Odin".

Helena semicerrou os olhos e abriu a boca, curiosa para perguntar. Percebeu as sobrancelhas erguidas de sua avó e se calou. Seus pais eram de Asgard, seus avós eram de Asgard. Ela era descente de Asgard. Engoliu um seco antes de ouvi-la puxando o ar para continuar a história.

-Quando chegamos ao castelo e Odin ouviu os nomes deles, não permitiu o casamento. Disse que as Valquírias haviam previsto que horrores viriam da filha que teriam, que essa filha se voltaria contra Asgard e sua monarquia e, por isso, não podia permitir. Morávamos isolado do resto da população, não sabíamos sobre a lenda que corria pelos corredores do castelo e pelas ruas das cidades. Frigga tinha visto, em seus sonhos, que a futura esposa de Loki nasceria de um casal de camponeses.

-Papai e mamãe. - A senhora acenou com a cabeça e sorriu fraco para a neta.

-Quando voltamos, seus avós e nós permitimos que Iwall e Elli se juntassem, construíssem uma casa, pegando uma parte de cada propriedade e vivessem juntos, não aceitamos a imposição de Odin e nossa vida seguiu assim por alguns anos. Cuidavam para não ter filhos, teriam que ir até a cidade registrá-lo e isso atraia a atenção de Odin para a situação que eles viviam. Só não contávamos que nosso outro vizinho, por inveja, talvez, contaria para a coroa que eles estavam juntos. A paz durou quinze anos.

"Um dia, Odin apareceu com alguns guardas e uma cesta. Disse que traimos Asgard e seu rei e que, por isso, teríamos o castigo que merecíamos. Veja, Sigyn, não é todo mundo que nasce em Asgard que tem direito a vida eterna. As maçãs de Iddun são reservadas a realeza, aos deuses e alguns guerreiros. Éramos só camponeses. Nascemos, crescemos, e, um dia, morreríamos. Mas Odin levou consigo seis maçãs. Nos fez comer e depois nos jogou na Terra como forma de exílio. Foi então que descobrimos sobre você, Sigyn, o que poderia acontecer. E só Frigga e as Valquírias sabem o quanto seus pais evitaram. Imagine a dor de ver você crescer, enquanto ficaríamos para trás, sem nem saber ao certo como tudo isso ia acontecer. Mas você veio, Sigyn, e foi a melhor coisa para os seus pais".

As duas ficaram em silêncio por um tempo. Helena colocou as mãos em cima da mesa e soltou o ar. Então era verdade. Tudo o que estava naquele livro era verdade. Estava tendo problemas em assimilar tudo aquilo, tentando processar todas as informações que pareciam dançar em seu cérebro e fora de ordem. Desviou os olhos para os retratos na estante atrás de sua avó, percebendo as fotos de seus pais, que não envelheceram um dia sequer. Seus avós continuavam os mesmos também. E só ela continuaria envelhecendo, sem poder controlar isso, sabendo que um dia ela teria que partir, e eles ficariam na Terra, sem saber muito como reagir. E Loki. Suspirou. Em tão pouco tempo tinha se apegado tanto a Loki. Mais um que era imortal e que não a acompanharia no processo de envelhecimento. Voltou a focar os olhos castanhos em sua avó.

-Por que esconderam isso de mim tanto tempo?

-Queríamos que tivesse uma vida normal, Sigyn, sem pensar muito em Loki, em nós. Provavelmente um dia você perceberia que não envelhecemos, e perguntaria, e contaríamos quando esse dia chegasse. Até lá, levaríamos a vida normalmente. Mas agora você apareceu com esse livro de novo e tão distraída, como se seus pensamentos estivessem em Asgard. - Helena riu, sentindo as bochechas corarem. - O que vai fazer sobre isso?

-Não sei, conversar com ele, talvez?

-Lembre-se que Odin não queria que você nem tivesse nascido, Sigyn. Cuidado. Se ele descobrir sobre você dois... - A jovem piscou os olhos algumas vezes. Não tinha pensado nisso.

-O que eu faço? - Sussurrou.

-Siga seu coração. Converse com Loki. Conte o que eu acabei de te contar. Vocês vão dar um jeito. - A senhora esticou o braço para conseguir segurar as mãos da neta, sorrindo fraco, mostrando as poucas rugas que tinha no rosto, concentradas perto dos olhos azuis.

-Por que Odin fez isso?

-Essa é uma pergunta que ainda não encontramos a resposta. - Helena engoliu um seco e assentiu com a cabeça. Queria gritar.

Não sabia muito bem descrever o que estava sentindo naquela hora. Um aperto na boca do estômago e o sangue que fervia pareciam ser completamente opostos. Sentia-se rejeitada, ela não deveria ter nascido, eles não a queriam, Odin não a queria. Odin. Quantas vezes não ouviu Loki resmungar o quanto não gostava muito de seu pai? Já tinha escutado algumas injustiças que o cara tinha cometido, e ali estava a maior de todas elas. Ele tinha simplesmente acabado com a vida que seus pais tinham em Asgard. Precisou respirar fundo para não chorar.

-Vou andar um pouco.

-É bom. - Sua avó concordou, com um sorriso fraco. - Só não demore, seu avô volta para o almoço.

Por que se sentia tão rejeitada por um cara que nem conhecia? Olhou para o céu, impedindo as lágrimas de saírem. Abraçou-se, como se estivesse com frio, mesmo que estivesse bem agasalhada. Seus pais esconderam aquilo por mais de vinte anos. Tudo podia ter sido tão diferente, sua vida era pra ser completamente diferente. Sentiu o ar gelado quando respirou fundo. Quem Odin achava que era para ditar como seria sua vida – e se ela existiria? Por que ele a rejeitara? Sua maior vontade era de encontrá-lo naquele momento e dar um tapa na cara dele só para extravasar tudo o que estava sentindo. Talvez fosse se sentir melhor, mas o que precisava agora era tempo para assimilar tudo aquilo.

Jogada na cama do seu quarto, esperando o jantar ficar pronto, já que tinha sido expulsa da cozinha por sua avó quando foi tentar ajudar, deixou a mente vagar até a história que sua avó tinha contado de manhã. Quanto tempo eles não tinham vivido. Quantos anos ela não deveria ter, então, se os pais tivessem se casado definitivamente quando deveriam. Há quanto tempo estaria já vivendo com Loki. Fechou os olhos e suspirou. Sua mão foi para o pingente dourado do colar que ele havia lhe dado no dia que tinha saido para viajar. Esperava ansiosa qualquer sinal dele por perto.

Apesar da ansiedade, não sabia muito bem como começaria a contar tudo. Que parecia ser tudo verdade já estavam mais ou menos ciente de tudo, mas aquilo só aumentaria o sentimento negativo que Loki tinha de seu pai, e não queria ser responsável por isso. Não queria ser responsável por nenhuma briga no palácio de Asgard, não queria. Gemeu, afundando ainda mais no travesseiro. Ouviu duas batidas na porta e levantou-se.

-Pode entrar. - Viu a cabeça loira do seu avô. aparecer na porta. Diziam sempre que ela tinha puxado tanto os cabelos quanto os olhos dele. - Ah, oi, vô.

-Preocupada com alguma coisa, Si? - Deu de ombros. - Perguntas idiotas, respostas idiotas. Posso sentar? - Apontou para a cama.

-Claro. Ia ajudar vovó com o jantar, mas ela me expulsou da cozinha.

-Ela fez a mesma coisa comigo. Disse que quer fazer um jantar especial hoje. Disse que sente que vai precisar. - Helena franziu as sobrancelhas. - Enfim. Como minha neta preferida está depois de descobrir tudo?

-Confusa? Chateada por vocês nunca terem me contado nada? Preocupada, definitivamente. - Apertou ainda mais o pingente, como se tentasse chamá-lo daquele jeito. Ele não tinha aparecido aquele dia que ela mais precisava?

-Eu imagino. - Ele esticou-se até ela, depositando um beijo delicado na sua testa. - Não queríamos te preocupar com isso enquanto não precisávamos, Si. - A jovem suspirou. Entedia sua família, o lado deles. - Já sabe como vai contar tudo isso para ele? - Helena colocou-se sentada, resmungando.

-Não. Sei que não posso simplesmente esconder isso dele, mas... - Soltou o ar. - Não sei como ele vai reagir e não sei como contar.

-Uma coisa de cada vez. - Ela rodou os olhos. - Vocês vão conseguir se resolver, pode ter certeza.

-Eu sei, mas não é com isso que estou preocupada. - Estava mais preocupada como le reagiria. Teria que ser tão cuidadosa. Se ela já tinha vontade de dar uns tapas em certo deus quando ficou sabendo, imaginava o que podia passar na cabeça de Loki. Sua barriga ficava gelada com o pensamento.

-Você vai dar um jeito, sempre deu. Mas agora eu vou, seu pingente está brilhando, acho que tem alguma coisa a ver com um deus chegando. - Levantou, rindo. Helena jogou uma almofada em seu avô, levantando logo em seguida, com pressa. - Vai com calma.

Esperou que ele saísse do quarto para fechar a porta e pegar as botas e o casaco que ficavam ali atrás, além do conjunto de gorro, luvas e cachecol jogado na cômoda de qualquer jeito. Desceu as escadas colocando as luvas, meio apressada. O mais velho já estava sentado na poltrona da sala que dava para a janela, tentando espiar alguma coisa além da paisagem branca e Helena riu.

-Convença-o a ficar para o jantar! - Ouviu sua avó gritar da cozinha. Rodou os olhos e fechou a porta atrás de si.

-Depois de você me contar o porquê você estava tão desesperada em me ver, talvez eu responda se vou ficar para jantar. - Helena pulou de susto e colocou a mão no peito. Loki riu. Estava encostado na parede ao lado da porta, os braços cruzados e o sorriso maravilhoso que ela amava. Inclinou-se para grudar os lábios. Ela conseguiu sorrir também com esse gesto.

-Loki. A gente meio que precisa conversar.

-Não. Não comece com essa frase. Lá em Asgard essa frase só tem um significado. - Helena riu mais um pouco. Ele estava de bom humor. E destetava saber que seria ela que destruiria o bom humor dele.

-Relaxa, ok? Não vou terminar com você. Aliás, longe disso. É só... Complicado. Vamos andar um pouco. Tenho certeza que vovô está atrás da porta ouvindo tudo.

Distraída em ver suas pegadas na neve, Helena tentava descobrir um jeito de contar tudo aquilo para Loki, que andava em silêncio ao seu lado, perto o suficiente para que ela o notasse, para que ela o sentisse. Sabia que todo aquele jeito dela devia estar preocupando-o, então deixou seu corpo inclinar até ele, encostando-se em seu braço. Ao perceber o que ela fez, o deus sorriu e passou o braço por seu ombro. Parecia que ela lutava contra si mesmo, com dificuldade em contá-lo alguma coisa. Decidiu ser o primeiro em puxar um assunto.

-Então, seus avôs já sabem.

-Já. E como minha família é um ovo, todos já estão sabendo, logicamente.

-Logicamente. - Ele repetiu, rindo, conseguindo tirar uma risada dela.

-E ai que está o problema. Minha família. Na verdade, o problema não é a minha família, é...

-Helena, você não está falando coisa com coisa. - Loki parou e ela parou junto, virando-se para encará-lo. - Aconteceu algo? - Mordeu o lábio inferior e sentiu que ele analisou cada pedaço do seu rosto. Engoliu um seco. Por que era tão difícil?

-Por favor, Loki. Não faça nada estúpido. - Suplicou, sentindo o coração bater rápido, sabendo que teria que falar rápido e sem enrolação para que conseguisse tirar todo aquele peso das costas. Sabia também que não podia esconder nada dele, afinal, também afetava diretamente a vida de Loki.

-Helena. - Ele levantou as sobrancelhas.

-Meus pais e meus avôs sabem de você porque eles são de Asgard. Foram banidos anos atrás quando meus pais tentaram se casar. Longa história.

-Eu tenho a eternidade. – Ele cruzou os braços. Lena sentia como se tivesse algo em sua garganta que a impedisse de continuar a falar.

-Você sabe melhor do que eu como as coisas funcionam por lá. Eles foram até Odin pedir permissão para casar e ele não permitiu. Disse que Frigga e as Valquírias tinham previsto que da união deles viria, bem, eu. Pelo jeito, eu me voltaria contra a monarquia de Asgard, e deixa eu te falar que eu to quase, e proibiu. Eles voltaram para o interior. Meus avôs permitiram que eles vivessem juntos, até que Odin descobriu e, bem, aqui estamos. - Foi a vez dela analisar cada expressão do rosto de Loki, esperando qualquer reação dele. O silêncio que caiu era ainda mais desconfortável que o primeiro, tenso. Dava para sentir no ar todo aquele bom humor de Loki indo embora, sendo substituído por... Isso ela não conseguia identificar. Estava impassível demais para demonstrar qualquer coisa, mas ela sabia que boa coisa não era. - Loki, por favor.

-Helena, você entende a gravidade disso? - Na cabeça dele, todos os motivos de Odin ter feito aquilo com ele passaram voando. Sempre soube que seu pai não era seu maior fã, mas não imaginou que ele faria uma coisa dessas.

-É claro que eu entendo, Loki. Não sei se você percebeu, mas meus pais e meus avôs estão presos aqui, imortais, enquanto eu envelheço. - Respondeu, calma, mas com vontade de gritar. - Não sei como seu pai é, e sinceramente não me interessa, mas o que ele fez foi... - O deus suspirou e a puxou rapidamente para um abraço apertado. Sabia muito bem o que seu pai era.

Não tinha pensado no quanto aquilo tinha afetado a família de Helena antes dela ter dito aquelas últimas frases. Tinha pensado só nele, egoísta como era, enquanto ela tinha pensado em todos. Em como tinha sido cuidadosa, não só consigo mesma enquanto estivesse falando, mas com ele, pedindo para não fazer nenhuma besteira. E ele era tão egoísta. Não merecia Helena. Mas ela era sua Sigyn, afinal.

-Eu sei. - Sussurrou e passou a mão pelos cabelos dela. - Meu pai, não sei se eu comentei com você, mas ele é um canalha. - As mãos dela, que estavam jogadas ao lado do corpo antes, com aquelas palavras, agarraram-no com força. Loki colocou o queixo no topo da sua cabeça e fechou os olhos. - Eu sei, desculpa, Helena. - Ela assentiu com a cabeça, apertando-o ainda mais.

-Isso é tão... Estúpido. E pensar que tudo podia estar resolvido. Meus pais podiam ter a vida que eles sempre tiveram e a gente não ia ter que ficar se escondendo... - Parou a frase no meio e se soltou de Loki. Deu alguns passos, chutou a neve e grunhiu em ódio.

Loki sentia-se ainda pior. A vontade de socar seu pai acumulava ainda mais, só não podia deixar transparecer. Ficaram em silêncio por um tempo, até que Helena se virou para Loki de novo, os olhos vermelhos, os braços cruzados, o rosto de choro. Não, não. Não queria ver ela chorando pela primeira vez, não naquele lugar, não por causa de seu pai. Sabia que falar "não chora" provavelmente pioraria tudo, se a puxasse para um abraço então... Suspirou.

-Sobre o jantar. Eu vou aceitar. - Percebeu um sorriso tímido que surgiu em seu rosto. Passou a mão pela bochecha, limpando a lágrima imaginária e assentiu com a cabeça, entendo o que ele queria. Não chore, Helena, pelo amor dos deuses, não chore.

N/A: OH HEY!

Oh meu Deus, tudo foi revelado!

Foi esse capítulo que perdi quando deu problema no meu computador, e algumas partes pra frente. Então, não está do jeito que eu queria. Tentei reescrever do melhor jeito possível, mas sabe quando você sente que não tá ficando do jeito que você quer? Bleh.

Mas gostei do resultado final apesar de tudo. Capítulo divisor de águas em Chasing a Starlight e eu espero que tenho gostado. O próximo deve sair semana que vem. Se eu tiver terminado ele – ehehe.

E EU TIVE COMENTÁRIO! EBA!

Uma FicWriter: Nha, brigadaaa! Sobre terminar antes de ir pra faculdade: não sei, está nos meus planos, mas é que vou começar a trabalhar pra juntar um dinheirinho, e tem a mudança, e etc, etc, etc, então, vamos ver. Já tenho boa parte da fic. Brigada mesmo, por todos os elogios, é o que me motivou a terminar o capítulo 5 – e tive que me controlar pra não colocar ele no ar logo depois que vi seu review HAHA.