O Começo
Jorge
Jorge Santana estava no banco do carona, seu colega, Eduardo Suzart, dirigia a viatura. Eduardo era dez anos mais novo que Jorge, não media mais do que um metro e sessenta e cinco, mas tinha os braços bem definidos o que marcava presença. Os dois vestiam a mesma roupa, uma calça preta e uma camisa branca, por cima da camisa usavam um colete escrito Polícia Civil nas costas. Os dois se dirigiam até o local de uma ocorrência, enquanto não chegavam os dois conversavam.
- Como vai o seu filho? - Perguntou Eduardo a Jorge, fazendo referência obviamente a Miguel.
- Na mesma. - Respondeu Jorge em tom de desanimo. - Semana passada eu levei meu menino para o circo. Valeu muito a pena.
- Poxa, cara. Que legal. Mudando de assunto: você se lembra do meu primo, o Duca?
- Sim, o que é que tem?
- Se lembra do problema de pele dele? Pois bem, ele recebeu uma cura de um pastor e você não vai acreditar o quanto ele melhorou. Não quer tentar levar seu menino para essa igreja? Vai que dá certo.
Jorge era um homem prático, não acreditava em milagres. Estava procurando as palavras certas para negar a sugestão sem ofender o amigo. Optou por mudar bruscamente o andamento da conversa. - Ouvi falar de uma empresa que trabalha com tecnologia, a Cyberdine. Eu li um artigo que ela esta planejando lançar no mercado equipamentos que revertem várias deficiências. Prometeram até uma coluna mecânica para os paraplégicos. Tenho fé que dentre alguns anos Miguel vá poder voltar a andar graças a isso.
- Daqui a pouco você vai se deparar com ciborgues na rua. - Eduardo acreditava mais no pastor que operava milagres do que em avanços tecnológicos revolucionários.
A viatura estacionou na frente do local da chamada. O prédio era bem pequeno, só tinha quatro andares, era situado em um bairro popular. A pessoa que fez a ligação estava os esperando na calçada, um homem de cinquenta e poucos anos, calvo e gordo. O cidadão nem deu boa noite aos policiais, estava muito nervoso para ter esse tipo de cuidado. Foi logo guiando-os até o último andar, no apartamento onde morava sozinho. Sua casa havia sido invadida. Porém o invasor não deveria ser uma pessoa normal. Não levou televisão, dinheiro, nada de valor. Atacou a cozinha. Muita bagunça, comida espalhada pelo chão. Um ladrão faminto? Como manda o protocolo Jorge vistoriou todos os cômodos da casa com sua arma em punho. Só quando se assegurou que não havia ninguém na casa escondido foi que ele começou a averiguação. A porta da frente não foi forçada, mas o dono do apartamento jurou que mais ninguém tinha uma cópia da chave. A hipótese mais forte surgiu quando Jorge percebeu que a janela da sala estava destrancada. Será que o invasor entrou por aí? Jorge perguntou se a vítima havia trancado essa janela antes de sair da casa e só deixado aberta quando voltou. O homem não respondeu, só deu um tapa na própria testa. Como se tivesse percebido que fez uma grande besteira.
- Puta merda! Mas como o filho da puta conseguiu subir tão alto?
Jorge olhou pela janela e constatou que era possível a escalada de alguém por ali. Haviam muitos pontos de apoio que facilitavam. Era preciso porém muita coragem para se arriscar tanto só para assaltar uma geladeira. - Deve ser drogado. - Pensou o policial.
Jorge e Eduardo acompanharam a vítima até a delegacia mais próxima para registrar um boletim de ocorrência. Prometeram averiguar o caso e até colocaram uma ronda no bairro para garantir que isso não mais acontecesse. No entanto nada foi solucionado. Não encontraram o invasor e com o passar do tempo, menos de duas semanas, o caso foi esquecido e até a patrulha deixou de fazer a sua ronda.
Em um prédio abandonado que ficava não muito longe do local onde houve a invasão um sujeito esquisito proclamou moradia. Ele não era como os vários mendigos que invadem esse tipo de lugar para se abrigar do frio. Ele era muito diferente deles e não permitia mais ninguém no seu território. Dois que tentaram viver ali foram rechaçados. Um posto para correr, o outro teve um destino pior encontrando o seu fim. O lugar fedia, era muito sujo e escuro. Dava até para ouvir os ratos caminhando de um lado a outro. Apesar de ser inóspito a figura gostava de lugares assim, com pouca luz, fechados. Ele não era um ser humano, estava mais próximo a um monstro. Não tinha olhos para ver, sua pele era cinza. Sua grande boca quando aberta revelava dentes pontiagudos que lembravam os de um vampiro. Não usava roupa alguma, mas também não tinha órgãos sexuais para proteger. Suas mãos eram desproporcionalmente grandes, possuindo nos dedos grandes garras que além de letais eram muito úteis para outras funções. Como escalada.
Vitor
Vitor Almeida acordou cedo aquele dia, antes das seis da manhã já estava de pé. Ele não precisava levantar a essa hora, pois estava de folga, mas esse era um habito difícil de vencer. Vitor estava em uma cidade pequena situada no Amazonas que se chamava São Jorge. Não havia muita modernidade nela, nada de cinema, shopping, casas de show ou qualquer desses prazeres da vida urbana. São Jorge tinha apenas um atrativo, uma empresa que apesar de servir ao governo nacional tinha um estranho nome estrangeiro, a Cyberdine. Tal nome exótico foi imposto, pois ela era uma espécie de convênio entre vários países, apesar disso não havia investimento privado. As sete da manhã Vitor já estava vestido, respeitando seu cargo de senador, estava trajando uma roupa impecável. Não iria realizar nenhum trabalho oficial naquele dia, mas não achava de bom tom ser visto em uma empresa, mesmo apenas como visitante, de modo desleixado. Vitor tinha uma casa em seu nome naquela cidade, mas estava dormindo em um quarto de uma pousada. Isso porque a propriedade não era mais dele, ele a havia cedido para sua enteada, Ariel Andrade. A boa vontade que Vitor tinha para com Ariel em nada tinha a ver com o fato dele ser seu padrinho ou por ter sido um grande amigo do suposto pai da moça quando este ainda era vivo. A ligação dos dois era mais forte. Há um ano Vitor fez uma descoberta, a mãe de Ariel lhe fez uma grande revelação. No início ele não quis acreditar, mas depois de olhar para o rosto da garota no aeroporto não teve como negar, Ariel tinha muitos traços dele. Era de fato sua filha.
As oito horas da manhã Vitor pegou seu carro alugado e foi até a sua antiga casa, que cedeu a Ariel. Só foi preciso uma buzinada para que ela aparecesse. A moça já o esperava na porta. Ela estava vestindo uma saia que ia até o joelho e uma camisa feminina que lhe dava um ar todo de secretária. Estava comportada, mas muito bonita. Vitor abriu a porta do carro e ela entrou. Dez minutos depois e os dois já estavam entrando na área da Cyberdine. A empresa era enorme, tinha vários prédios em seu nome, sendo que alguns lembravam instalações de fábricas. A distância entre os prédios era tamanha que muitos funcionários andavam de um ao outro em pequenos carrinhos que lembravam os usados em jogos de golfe. Vitor estacionou o seu veículo na frente do prédio do setor de RH, ele não entrou, mas desejou toda sorte do mundo a sua "enteada".
O primeiro dia em qualquer trabalho de empresas desse porte é sempre igual. Não há tarefas a realizar, por enquanto não, um funcionário mais antigo introduz os novatos as dependências mais importantes enquanto explica sobre a missão da empresa e coisas do tipo. Ariel e mais um grupo de cinquenta pessoas das mais variadas idades, sexos, raças e níveis sociais acompanhavam um homem magrelo, de cabelo ralo e que andava meio curvado. O bendito homem ia falando sobre a empresa enquanto mostrava alguns setores, o passeio se revelou bem demorado, custando uma manhã inteira. O que chamou a atenção de Ariel e dos demais foram os laboratórios. Só pelo que Ariel podia ver havia vários equipamentos modernos que mesmo ela se mantendo atualizada constantemente não sabia que existiam. Autômatos com forma quase humana e de tamanho natural guardados nos cantos da sala. - Será que são operacionais? - Se perguntava a moça.
Outro detalhe interessante da Cyberdine era o compromisso com o bem estar dos seus funcionários, haviam várias salas de lazer criadas para diminuir a tensão dos trabalhos. Havia mesas de ping pong, totó e outros jogos do tipo. O refeitório tinha vários tipos de comida e o que era melhor, tudo de graça.
O mais surpreendente porém foi mostrado no fim do passeio, veio na forma de um homem de trinta e poucos anos bem vestido e de porte altivo. Ariel olhou para ele e imediatamente o achou bem atraente. O terno que usava o deixava ainda mais imponente.
- Quero apresentar a vocês o diretor da Cyberdine, Eric Washington. - Disse o guia. - Ele foi o primeiro a testar nossas próteses. - Prótese? Ariel olhou o homem de cima a baixo e não viu nenhuma imperfeição em seu corpo, muito menos um membro artificial. Eric foi saldando os novatos com apertos de mão. Quando chegou a vez de Ariel ela percebeu. Sua mão direita tinha um tom meio azulado e seu toque não era normal. A moça ficou impressionada, pois aquela era a prótese mais perfeita que ela já tinha visto. Seus movimentos se possuíam alguma limitação eram imperceptíveis.
Antoine
Antoine Pierre acabou de sair de uma apresentação, o resultado como sempre foi tão bom quanto o esperado, mesmo assim ele e sua equipe não deixavam de ficar contentes. Antoine nasceu com Acondroplasia, uma doença que provoca o tipo mais comum de nanismo. Seus braços e suas pernas são desproporcionalmente pequenos se comparado a sua cabeça que é um pouco grande. Nascido em uma família pobre de uma região rural da França, Antoine não tinha muitas expectativas de progresso. Sua vida mudou quando o Le Grand Guignol passou em sua cidade. Para sua sorte na época o circo era pequeno e precisava de novos membros. Um anão naquele ambiente era muito bem vindo. No início ele fazia papeis humorísticos em meio aos palhaços, mas com o passar do tempo foi ganhando importância e hoje além de ser apresentador, nos bastidores cuida de boa parte do lado financeiro do espetáculo, era também o dono majoritário do Le Grand Guignol. Estudioso, é fluente em cinco idiomas incluindo o inglês, o russo, o alemão e o português. Antoine tinha um camarim só seu, seu status permitia isso, era um trailer que ficava no fundo da tenda do circo. Para chegar a porta, mesmo a altura sendo baixa, havia uma pequena escada com quatro degraus para facilitar sua vida. A maçaneta não ficava no meio da porta, mas sim um pouco abaixo. O trailer foi feito sob medida para ele. O lado de dentro mais parecia uma casa de boneca. Mesas, bancos, armários... tudo feito tendo em vista seus noventa e cinco centímetros.
A primeira coisa que Antoine fez lá dentro foi tomar um banho, depois mudou de roupa. Trocou suas roupas vermelhas chamativas do show por umas mais comuns. Ainda era cedo, onze horas da noite, ele planejava assistir um pouco a televisão antes de dormir. O anão deita na cama e já ia ligar a TV com seu controle remoto quando ouve uma batida na porta. - Pode entrar! - O homem que entrou no trailer não foi feito para aquele ambiente, era muito alto para se sentir confortável. Era jovem e bem musculoso, ainda vestia a roupa do show, uma calça brilhante e uma camisa ao "estilo Aladdin" que deixava o peito quase todo de fora. - O que foi, Neville? Algum problema?
- Pai, ontem aconteceu algo intrigante! Quero dividir isso contigo. - Neville e Antoine são um caso bem interessante. Como não herdou a doença do pai Neville pode crescer sem que nada o impedisse, e como cresceu, com dezessete anos o garoto já havia atingido um metro e oitenta, quase o dobro do tamanho do pai. Aos treze o garoto já conseguia carregar o seu velho no ombro. O papel do adolescente nas apresentações é de trapezista, foi treinado desde criança para isso o que o transformou em um artista excepcional.
Neville pegou um baralho de tarô e o arrumou em cima da cama, várias fileiras de nove cartas, formando setenta e oito ao chegou a revirar os olhos, não estava interessado em brincadeiras naquele momento. - O que foi, garoto? Acha que tem talento para cartomante?
- Só escolha uma carta.
Para se livrar logo do seu menino Antoine aceita entrar no jogo e pega uma carta qualquer, a carta em questão tinha a imagem do enforcado, um homem de cabeça para baixo que é mantido no ar por uma corda que o puxava pelo pé direito. - Sim? Vai me dar uma explicação pseudo-exotérica agora?
- Pegue outra. - Antoine assim o fez, tirou do meio do baralho uma outra carta do enforcado. Algo estranho, pois ali não deviam ter cartas repetidas.
- Você bagunçou meu tarô, menino?!
- Só pegue outra.
Antoine, meio desconfiado, puxa outra carta. De novo acaba com um enforcado nas mãos. Faz isso mais três vezes e obtém o mesmo resultado. - Mas esse tarô só tem essa carta! - Neville pegou "os enforcados" da mão do seu pai e os colocou de volta a formação de cartas sobre a cama. Após revirar as cartas anteriormente escolhidas pelo seu pai elas passaram a mostrar resultados diferentes.
- Garoto, você esta aprendendo ilusionismo também?!
- Não, pai. Juro que não tem truque nenhum. Eu não fiz nada. Fui usar o tarô com uns amigos, só de brincadeira, e o resultado foi o mesmo. Acho que esse baralho é mágico.
Antoine riu da hipótese proposta pelo filho. - Você pode ter o tamanho de um homem, mas ainda pensa como um menino. - Antoine recolheu o baralho espalhado em sua cama e o organizou em sua mão. Depois guardou as cartas dentro da gaveta de um criado mudo. - Vá dormir, você tem treino amanhã de manhã. - Neville vai embora descontente com o parecer de seu pai. Assim que seu filho foi embora do seu trailer Antoine pega de volta o bendito tarô e repete a jogada. Por mais que tentasse só conseguia tirar a mesma carta. O enforcado.
- Será que já começou?! - Antoine volta a guardar o tarô e vai até uma estante que ficava do outro lado de seu trailer, próximo ao chão havia um livro de capa dura que tinha uma aparência bem medieval ou, se você gostasse dessas coisas, de RPG. Não havia titulo nem ilustração na capa. Era um livro único. As páginas foram impressas com técnicas bem antigas. Apesar de velho o volume era legível e não demostrava sinal de desgaste.
Antoine estava empolgado, pois não esperava viver o bastante para acompanhar o início da nova era, uma era onde o véu da realidade que cobre o mundo irá deixar de existir, sendo reveladas coisas fantásticas. Antoine foi instruído sobre esses eventos quando entrou no circo, pelo homem que o contratou, o antigo dono do Le Grand Guignol. No início ele se mostrou cético, mas lhe foi revelado em suas várias viagens alguns pontos da Terra onde o véu já mostrava sinal de fraqueza, Antoine viu maravilhas que derrubaram seu ceticismo inicial. A magia, o sobrenatural, o espiritual, o fantástico... Essas coisas eram todas reais e estavam prestes a voltar ao mundo. Seu tarô funcionar era um sinal, se o véu se mantivesse ainda forte aquele jogo não passaria de cartas sem nenhum valor pratico. - Isso deve estar acontecendo no mundo todo! - Pensou o anão. Curas milagrosas e vidências mentirosas passarão a ser verdadeiras. Seres que povoavam apenas o imaginário popular começarão a andar entre nós. Civilizações místicas antigas serão encontradas. Poderia esse ser o início de um mundo novo, mas para ter certeza disso Antoine precisaria primeiro de uma confirmação. E essa confirmação ele não encontrará nas dependências do seu circo, mas no lado de fora.
Antoine abre o livro em uma página especifica. Já sabia para aonde ir.
