Na Natureza Selvagem
Faraji
Faraji tem trinta e seis anos, é casado e tem um filho de dez anos para sustentar. Suas costas estão acostumadas a carregar peso, desde os oito anos ele trabalha carregando coisas, seja na feira ou em expedições, como era o caso agora. Exercer essa atividade por tantos anos cobrava um preço. Faraji constantemente sente dores na coluna e na batata da perna direita. Um primo seu inclusive ficou entrevado por causa disso. Sua família dependia de seu trabalho por isso Faraji continuava com ele ignorando a dor. De pele bem negra e cabelo raspado, Faraji era alto e magro, apesar de bem forte. Na maior parte do tempo ele trabalhava como pescador, porém, de vez em quando aceitava servir como "burro de carga" para gringos que desejavam conhecer a floresta. Ele odiava aquele trabalho, odiava ter que se sujeitar àquela gente. Mas ele não tinha opção, os europeus pagavam bem. Faraji vive na Libéria, em uma vila de pescadores bem pobre. Essa vila ficava dentro de uma região de floresta tropical. A mata local atraia muitos pesquisadores internacionais, e esses pesquisadores pagavam bem por ajuda nativa. Faraji estava no meio de uma floresta quente com uma mochila absurdamente grande nas costas, atrás dele mais quatro conterrâneos estavam na mesma situação. Logo a frente andava os cientistas holandeses: um velho ruivo, uma jovem loura e dois homens que pareciam ser irmãos. Liderando o grupo um homem negro, alto e musculoso agia como guia. Ele tinha um jeito que Faraji achou estranho, não parecia ser africano. Durante a caminhada, que era bastante longa, Faraji tentava não olhar para loura, mas por mais que tentasse seus olhos teimavam em se virar para sua direção, principalmente na área da cintura para baixo. Faraji não tinha a mínima ideia do que os gringos estavam querendo encontrar na mata, e nem fazia muita questão de descobrir. Só achou curioso alguns comportamentos. O velho, por exemplo, por três vezes capturou insetos com um pote de vidro. - Que gente doida! - Pensou. Já a loura tinha o entusiasmo de uma criança pequena quando coletava algumas flores. Nesses momentos ela tinha que se agachar e Faraji redobrava seus esforços para resistir a tentação.
O sol estava se pondo, o primeiro dia da expedição tinha chegado ao fim. Era o momento de se armar as barracas. Advinha para quem sobrou fazer esse trabalho? Faraji e seus quatro companheiros armaram quatro barracas, os cientistas e o guia iriam dormir nelas, sendo que em uma a loura dividia com um dos cientistas mais jovens. Os liberianos que carregavam as bagagens tinham que dormir no relento, pois não tinha barraca sobrando para eles. Para eles foi disponibilizado sacos de dormir. Apesar de não ter que se deitar no chão duro o saco não era muito grosso por isso algumas pedrinhas que ficavam em baixo incomodavam. Durante o sono Faraji tinha que acordar várias vezes e mudar de posição, pois a parte do seu corpo que ficava em contato com o chão reclamava.
Ariaan tem doutorado em biologia com especialização em insetos. Sua paixão começou muito cedo, desde criança adorava brincar com animais, aos dezoito anos decidiu transformar seu amor em profissão. Hoje com quase setenta anos Arjaan tem vários artigos publicados em revistas cientificas importantes além de alguns projetos em andamento. Dentro de sua barraca o biólogo ao invés de dormir gastava a noite examinando os espécimes "interessantes" que capturou. Um deles, que chamava mais sua atenção, parecia uma formiga de seis centímetros com um ferrão de escorpião nas costas. O ferrão da criatura era diferente, no escuro ele emitia um brilho azul similar ao de vaga-lumes. - Mas que criatura é você, amiguinho? - Arjaan estava empolgado, ao que parece encontrou o que poderia ser um novo espécime.
Kasper e Joris-jan eram irmãos gêmeos, mas não univitelinos, por isso não eram idênticos apesar de muito parecidos. Os dois são recém formados em biomedicina, cursaram a mesma faculdade e dividiam quase todas as turmas. Nessa época os dois conheceram Lieske que cursava botânica. Os dois começaram uma guerra não declarada pelo coração da moça, Joris-jan se saiu melhor e hoje já até planeja casar com ela. Joris-Jan dividia uma barraca com Lieske. Kasper não conseguia ver o que estavam fazendo, mas pelos barulhinhos e gemidos podia deduzir. Naquele instante Kasper sentia uma inveja e uma raiva tremenda do irmão.
Bill Thompson tem mais de quarenta anos, mas possuía um corpo invejado por muito menino novo. Com uma carreira militar extensa lutou em várias batalhar pelo seu país, os EUA, até quando percebeu que trabalhar como mercenário rendia mais dinheiro. Hoje em dia Bill dispensou as metralhadoras e os coletes, até porque por duas vezes quase levou a pior. O trabalho de guia se mostrou mais lucrativo do que ele esperava e com a vantagem de que nesse trabalho ninguém tentava alvejá-lo. Sua experiência em sobrevivência em lugares inóspitos ganha com seus dias de exército se mostrou muito útil no novo emprego. Acostumado a dormir em qualquer lugar, Bill era o que melhor descansava dentre as pessoas do grupo. Dormia a ponto de roncar pesadamente e babar pelo canto da boca.
O sol ainda estava tímido no horizonte quando começaram a levantar acampamento. Faraji já estava desanimado só em imaginar ter que carregar novamente aquela mochila "maldita" nas costas. Quando terminaram de arrumar e guardar tudo tiveram uma constatação. Quem notou foi Abdel, um dos carregadores. Havia um companheiro de viagem a menos. - Cadê Tacuma? - O povo estava tão centrado em seus afazeres que não tinham notado o desaparecimento de um dos seus. Os holandeses e o guia não se deram conta por outro motivo, estavam pouco se lixando pelo bem estar dos nativos. Além do que para eles os carregadores eram todos iguais.
- O que foi? - Perguntou Bill a Abdel que pressentiu problema só por ver o grupo parado ao invés de carregando as mochilas.
- Tacuma sumiu.
- Não tem predadores nessa região e mesmo se houvesse se ele tivesse sido atacado nós ouviríamos alguma coisa. Ele deve ter voltado para a vila. Se ele não quer receber o pagamento é problema dele.
Faraji não ficou satisfeito com essa hipótese. Não fazia sentido alguém desistir após já ter chegado tão longe. - E quem vai levar a mochila que ele carregava? Nós já estamos com muito peso.
A expedição seguiu viagem, a mochila extra agora era carregada por Kasper que volta e meia trocava de lugar com seu irmão. Faraji não gostava de pensar daquele jeito, mas não conseguia deixar de sentir um pouco de satisfação ao ver um europeu levando a pior para variar. Como não tinha relógio Faraji não fazia a mínima ideia de quanto tempo já havia passado. Imaginou que já era mais do que meio dia, pois seu estômago começou a reclamar. O pessoal da frente parou de andar e Faraji começou a ficar animado pensando que fosse uma parada para comer. O motivo infelizmente era outro.
- Estou ficando maluco? - Perguntou Ariaan.
- Foi só agora que percebeu? - Respondeu Faraji em um tom bem baixo, para que ninguém ouvisse.
- Isso é uma arara?
A ave estava empoleirada em um galho de uma árvore, se exibindo bem a frente do grupo. Ela era linda, com penas vermelhas na cabeça e asas azuis. Indiscutivelmente era uma arara. - O que esse pássaro esta fazendo aqui? Quer dizer, eles só existem na América do Sul e Central, certo?
- Vai ver foi trazida para cá por um estrangeiro e acabou fugindo. - Respondeu Bill. - Acho que a gente devia continuar.
- AAAHHHH! - Todo mundo se virou em direção a Abdel por causa do grito inesperado que ele deu. O homem estava encarando alguma coisa na mata que mais ninguém havia percebido. Era uma figura sinistra que espreitava o grupo. Sumiu de vista tão rápido quanto surgiu.
- O que foi, tá maluco?! - Repreendeu Bill.
- Asasabonsam! Eu vi o Asasabonsam! - Faraji assim que ouviu aquilo pôs a mão sobre o próprio rosto, como alguém faz quando vê uma pessoa fazendo ou falando uma grande burrada. - Pronto. - Pensou Faraji. - Esses gringos já gostam de nos ver como atrasados e supersticiosos, depois dessa então. - A família de Abdel tem origem em Gana, naquele país há uma lenda de uma criatura similar a um vampiro que gosta de sugar o sangue de suas vítimas, o Asasabonsam. No topo de uma árvore, esse monstro, segundo a lenda, balançava suas pernas e agarrava a presa desprevenida com seus pés em forma de gancho. Ao ouvirem aquilo os holandeses disfarçaram um riso, o temor de Faraji tinha se confirmado.
A caminhada prosseguiu, o sol parecia mais inclemente e Faraji já começava a sentir um pouco de tontura. Passou-se quase duas horas quando o grupo voltou a parar. - Comida, graças a Deus! - Ainda não. Lieske ficou feito uma estátua olhando algo distante. Ela forçava bem a vista para tentar entender o que os seus olhos captavam ao longe.
- O que foi, amor? - Perguntou Joris-jan.
- Pensei ter visto alguma coisa.
- Que "coisa"?
- Não sei, pensei ter visto uma pessoa lá longe. - Lieske apontou para a direção onde pensou ter visto alguém. Todos começaram a tentar ver algo, não encontraram nada digno de nota. Mesmo assim alguns membros da expedição ficaram de orelha em pé. Abdel foi um deles. - Meu Deus! O Asasabonsam continua atrás da gente. Isso é um mau sinal!
- Olha, não comece! - Bill avançou na direção de Abdel com tanta fúria que por um momento Faraji pensou que o americano iria agredi-lo. - Ele que tente. - Pensou Faraji. Que já estava começando a sentir repudio por aquele homem.
O sol estava baixando, foi só quando começava a anoitecer que a expedição fez uma pausa e armou novamente acampamento. Faraji, Abdel e os outros dois carregadores, como no dia anterior, ficaram encarregados de arrumar tudo. Faraji já começava a ficar puto com isso. Endireitavam todas as barracas, mas só os "vida boa" usufruíam delas.
A noite, no relento, Faraji não conseguia dormir. Dessa vez nem era por causa do chão duro, mas sim por causa da escuridão e do medo que ela trazia. Ele não queria confirmar aquilo, nem para si mesmo, mas a história do Asasabonsam o estava perturbando. Qualquer pequeno ruído imaginário ou não já o deixava alerta. Naquele instante Faraji rezou para tudo o que era orixá e santo católico em busca de proteção.
A insonia de Faraji foi boa, pois ela o deixou alerta aos "intrusos" que invariavelmente apareceram. O homem se levantou de um pulo só quando viu uma sombra medonha entrando em uma das barracas. Ele não ouve nenhum grito, mesmo assim segue em frente, pois sabia que alguém precisava de sua ajuda. Armado apenas com uma pedra que achou no meio do caminho Faraji entrou na barraca e viu a coisa mais feia que já tinha visto na vida. O monstro estava em cima do velho Ariaan tapando sua boca para evitar que gritasse. O biólogo estava desesperado, mas não conseguia chamar por socorro, pois o monstro impedia. O Asasabonsam tinha o tamanho de um homem, mas não se parecia em nada com um. Sua pele era cinza e seu rosto lembrava um morcego, com direito a orelhas grandes e pontudas. Era uma visão terrível, pois ninguém esta preparado para encarar um morcego com aquelas proporções. Sem pensar duas vezes Faraji atira a pedra no rosto da criatura que solta o velho e cai para trás soltando um guincho agudo e irritante.
Os membros da expedição, todos eles, acordaram assustados ao ouvir o som do animal. Apesar disso não tinham ainda a noção do perigo, por isso saíram de suas barracas despreocupadamente. Só se deram conta do risco que corriam quando começaram a ser cercados por diversas criaturas morcego. O pânico assolou o acampamento. Pessoas corriam sem saber direito para onde deviam correr e algumas delas acabaram indo de encontro com os monstros. Dois carregadores morreram assim. Joris-jan no final se sacrificou para proteger Lieske colocando seu corpo na frente quando os Asasabonsam atacaram o casal. Ele foi levado, carregado pelos pés por uma criatura que espreitava em cima de uma árvore. A confusão só chegou ao fim quando Bill sacou um revólver e começou a atirar nos monstros. Conseguiu matar dois, o resto fugiu.
A expedição tinha se debandado. As barracas, os equipamentos e as mochilas foram deixadas para trás. No fim, vários metros de distância do ponto inicial, se reuniram Bill, Lieske, Ariaan, Faraji, Abdel e Kasper. Foram os sobreviventes. Ariaan só não sobrou porque Faraji o pegou pelo braço e não deixou de protegê-lo. Lieske estava desesperada pela morte de seu noivo, já Kasper não podia deixar de passar a oportunidade de consolá-la. - Pode deixar, irmão. - Pensou Kasper com um sorriso malicioso no rosto. - Eu cuido dela.
- Eu avisei! - Disse Abdel, em uma espécie de vingança pessoal já que ninguém queria acreditar nele e além disso fizeram troça. Aquele comportamento, porém, acabou por incitar uma fúria tremenda em alguns membros do grupo. Principalmente Bill. O americano, que já não gostava muito dele, pegou Abdel pelo pescoço de uma maneira que parecia que ia estrangulá-lo. Meio que por impulso Faraji age em prol do seu amigo e desfere um belo soco no rosto do americano, que acaba largando o pescoço de Abdel. O soco foi tão bem dado que até o punho de Faraji doía. Bill, que já estava enfurecido, estourou de vez e sacou sua arma.
- Calma, pelo amor de Deus, não vamos... - BLAM! Ariaan tenta por um pouco de bom senso na briga se pondo no meio dos dois. Não foi uma boa ideia, acabou recebendo o tiro que foi intencionado a Faraji. O velho cai duro no chão, morto. Lieske começa a gritar de desespero, já Abdel, Faraji e Kasper começaram a encarar Bill com tanta raiva que até mesmo ele ficou sem jeito.
- Ninguém se aproxima! - Temendo que o atacassem Bill tratou logo de brandir seu revólver na direção de todos. Caminhando de costas, para não perder ninguém de vista, Bill foi se afastando até sumir na escuridão da noite. Levando consigo a única proteção que tinham, sua arma.
Não havia tempo para chorar suas perdas, a expedição que agora foi reduzida a um quarteto se transformou em um grupo em fuga cujo a única meta era sobreviver. Faraji, Abdel, Kasper e Lieske continuaram viagem rumo a vila. Faraji, como era o que melhor conhecia aquela área, acabou sendo escolhido de forma natural como líder do grupo. Ele não queria dividir aquele conhecimento com os demais para não gerar ainda mais pânico. Aquela floresta tinha mudado. Há anos que ele trabalhava com expedições por aquelas matas e nunca havia ouvido falar em criaturas como aquelas. Além disso as plantas, as árvores e os pequenos animais estavam diferentes. Era uma diferença sutil que só quem morava ali por toda a vida iria perceber. O grupo caminhava com dificuldade, por sorte a noite era de lua cheia do contrário teriam que andar na escuridão total. A situação só melhorou quando o dia amanheceu. Estavam famintos e exaustos, mas ninguém queria parar.
Como ninguém estava muito interessado em conversas a mente de Faraji divagou um pouco. Ele se lembrou de uma história que sua avó contava quando ainda era pequeno. Sobre como o mundo iria mudar quando os seres mágicos de outrora voltassem. - Será que é isso? - Pensou Faraji. - Será que as lendas são verdadeiras?
- AAAAHHHH! - Lieske soltou um grito desesperado que fez todo mundo ficar alerta. Kasper tratou logo de protegê-la com seu corpo, os outros dois ficaram meio malucos tentando encontrar o que fosse assustador o suficiente para provocar tal reação. - Que coisa é essa?! - Lieske aponta para um animal estranho que caminhava a poucos metros do grupo. Parecia uma centopeia, mas suas pernas eram muito grandes fazendo com que seu corpo não roçasse no chão. Seu corpo era cilíndrico e de um vermelho intenso. A criatura era meio nojenta, mas não parecia dar sinal de que iria atacar.
Com um pedaço de pal que improvisou como arma Faraji ficou entre a centopeia e o restante do grupo. Ele não quis atacar o bicho, tinha medo de provocar algo pior. - Vamos, gente. Deixa esse negócio aí. - O quarteto seguiu seu rumo se distanciando do animal. Nem bem tiraram ele da mente e já se depararam com outra criatura esquisita. O animal parecia com uma arraia, com o adendo que voava bem alto no céu. Dessa vez ninguém ficou assustado, mas sim curioso.
- O que diabos esta acontecendo?! - Perguntou Kasper.
- Acho que morremos e estamos pagando nossos pecados no purgatório. - Respondeu Lieske. Desta vez foi Abdel e Faraji que tiveram que disfarçar o riso.
- Eu acho que estamos bem vivos. Do contrário não estaríamos tendo essa conversa. - Disse Abdel, que não acreditava em vida após a morte.
Como o grupo era menor do que inicialmente e não levavam nenhuma bagagem, a volta se mostrou bem mais curta. Antes do anoitecer daquele dia eles já tinham regressado a vila. No entanto o que encontraram não foi o que esperavam. Vários corpos jogados no chão de homens, mulheres e crianças. Foi um verdadeiro massacre. Preocupado, Faraji tratou logo de sair correndo em direção a sua casa, o restante do grupo o acompanhou mesmo sem terem entendido para onde ele queria ir. A porta estava aberta, assim que entrou Faraji procurou por todos os cômodos, não demorou mais que um minuto já que a casa era minuscula. Sua mulher e seu filho não estavam ali.
- Ebenita! Machi! - Faraji saiu de sua casa gritando pelos nomes de sua esposa e de seu filho. Kasper foi o primeiro a ficar alarmado com aquela atitude. - Cala a boca, homem! Quer atrair os monstros para cá?!
De uma das casas da redondeza saiu um velhinho que empunhava uma espingarda. Era um idoso de pele bem escura, magro e careca. Mal se aguentava em pé. Faraji foi correndo em sua direção e o agarrou pelos ombros, ignorando o fato que ele portava uma arma. - Cadê minha esposa?! Cadê meu menino?! Responde!
- Faraji, você vai acabar matando o velho! - Disse Abdel, que tentou puxar os braços de seu amigo para evitar que ele fizesse o pior.
- Eles chegaram de repente tarda da noite, eram tantos!
- Eles quem?!
- Demônios! Monstros com rostos horrorosos! - Abdel, Kasper e Lieske deduziram que o senhor estava se referindo às criaturas morcegos. Lieske começou a suar frio e a tremer. Kasper quis abraçá-la para fazer com que se acalmasse, mas ela se esquivou do gesto. - Muitos morreram, alguns se embrenharam na mata e uns poucos fugiram nos nossos barcos de pesca.
- E Ebenita e Machi? - Perguntou Faraji, que agora já havia soltado os ombros do velho.
- Eu vi Machi entrando em um barco, quanto a Ebenita eu não sei.
Faraji sentia aliviado por um lado, mas desesperado pelo outro. Por um lado teve a confirmação de que seu filho havia escapado, já o destino da sua mulher continuava incerto. Os sentimentos conflitantes fizeram com que ele colocasse as mãos na cabeça e começasse a chorar.
- Calma, vai dar tudo certo. - Disse Abdel na tentativa de acalmá-lo.
- A porra que vai!
- Não quero parecer insensível, mas como vamos sair daqui? - Perguntou Kasper.
- Na casa do meu filho há um rádio de longa distâncias. - Disse o velho. - Se eu soubesse mexer naquilo já tinha pedido ajuda.
- Eu sei usar um rádio. - Disse Faraji.
O velho levou Faraji até o bendito rádio. Os outros três ficaram ali mesmo esperando um resultado positivo. Faraji demorou umas quatro horas, já era noite quando ele regressou até sua antiga casa para conversar com os outros sobreviventes. A ajuda estava a caminho. Quando voltou Faraji ficou surpreso ao ver Kasper e Lieske carregando um homem morcego. O pescador tomou um baita susto, mas relaxou assim que percebeu que a criatura estava morta. Na certa um membro da vila havia abatido esse aí na invasão. - O que diabos pensam que estão fazendo?
- Temos que levar alguma prova. - Disse Lieske. - Ou você acha que irão acreditar em nós se aparecermos de mãos abanando?
Meia hora depois um barco militar atracou próximo a vila. Os soldados que se aproximaram viram um casal carregando uma maca improvisada. Por isso deduziram que um membro do grupo estava ferido, quando chegaram perto perceberam que não era bem isso. - Jesus! - Um dos soldados de tão assustado apontou sua metralhadora para o monstro, mesmo ele sendo apenas um cadáver.
- Calma, homem. Esta morto. - Disse Lieske.
- O que diabos é isso?!
- É o que queremos descobrir.
Todos embarcaram, o velhinho, Abdel, Faraji, Lieske e Kasper. Até mesmo o cadáver do homem morcego. Na manhã seguinte o grupo iria expor um alerta em uma conferência na embaixada holandesa e iriam responder algumas entrevistas. O mundo a partir daquele dia não será mais o mesmo.
Bill
Apesar de toda a sua experiência na selva Bill se encontrava naquele momento perdido. A floresta era densa e não havia nenhum ponto de referência pelo qual ele conseguisse se guiar. O soldado checa seu revólver, só restava uma bala. Ele pensou um pouco e achou melhor não gastá-la com o inimigo, mas sim com ele mesmo. Caso continuar vivo constituísse um prolongamento sem sentido de dor aquela bala poderia representar um "santo remédio". Com sede e fome, Bill gira o tambor da sua arma até não ter mais como saber aonde estava a sua última bala. Bill pressiona o cano do revólver na sua têmpora e pressiona o gatilho. Nada saí, apenas um som de "clique".
Bill guarda sua arma no coldre e volta a caminhar, mesmo sem ter a mínima noção de para aonde estava indo. Pouco depois ele começa a ouvir passos, como se alguém ou algo estivesse se aproximando. Ele se esconde atrás de uma árvore com sua arma em punho. Estava pronto para pegar o maldito Asasabonsam de surpresa quando no meio do ataque ele percebe seu erro de julgamento. Não era um monstro a espreita, mas sim uma mulher andando calmamente na floresta. Apesar de estar armado a moça não demonstrou medo ao vê-lo. Ela era linda e estava praticamente nua, como se fosse uma índia saída de um conto de fadas. Maravilhosa demais para ser de verdade.
Se guiando pelos seus instintos mais primitivos, Bill deixou sua busca pela sobrevivência de lado para dar ouvidos ao seu libido. Ele agarra a índia pelo braço e no mesmo instante ela perde o semblante calmo. Bill joga a índia no chão e monta em cima dela. Já estava abrindo o zíper de sua calça quando sente uma pontada nas costas como se fosse uma picada. A pontada era fraca, por isso Bill pretendia ignorá-la. Porém notou que seu corpo não respondia ao seu comando.
Bill caí de costas no chão e a índia sai de baixo do corpo dele, se pondo logo de pé. Sem que o soldado percebesse atrás dele um índio se aproximava segurando nas mãos um cano que mais parecia uma flauta. Essa "flauta", porém, não tocava melodia, soltava pequenos dardos envenenados. A índia abraçou o seu salvador e exclamou algo. Bill não entendeu nada, mas pela cara de brava que ela fazia aquilo deveria ser um palavrão. O casal indígena foi embora deixando Bill jogado no chão, paralisado.
Sem poder fazer nada Bill ficou assistindo o sol se esconder e o dia se transformar em noite. Era uma agonia muito intensa ficar imobilizado e consciente de tudo. Isso sem contar o terror. A floresta era cheia de perigos e Bill agora estava indefeso a todos eles. Após oito horas o soldado força seu pé direito e começa a sentir que sua paralisia estava cedendo. Ele já até começava a ficar esperançoso, mas sua alegria durou pouco.
- Que bicho é esse?! - Com horror Bill viu uma criatura estranha se aproximar sem poder fazer nada. Parecia uma centopeia gigante, mas suas pernas eram muito compridas e afastavam seu corpo do chão. O animal se aproximou do rosto de Bill e ficou o encarando por uns instantes. Ele rezou para que o bicho fosse embora, mas percebeu que suas preses não seriam atendidas quando a centopeia abriu a boca e mostrou várias fileiras de dentes. O ataque foi rápido, a mordida insuportável. A criatura triturava carne, ossos e dentes. Uma morte dolorosa. Enquanto morria Bill se arrependia por ter falhado na roleta russa.
