Mudança
Miguel
Sua rotina era tão constante que ele nem sentia a diferença dos dias. As vezes estava em uma quinta-feira e ele pensava que já tinha chegado o fim de semana. Isso acontece quando não há diferença entre os dias. Como não trabalhava nem estudava todos eram iguais. João Santana, seu pai, até pensou em uma maneira de fazer com que ele retomasse os estudos, mas ainda estava analisando qual seria a melhor forma. Miguel Santana passava a maior parte do seu tempo assistindo televisão. Algo horrível. Uma coisa era você querer assistir um ou outro programa, bem diferente era assistir só porque não tinha outra opção a fazer. Para amenizar seu tédio havia as visitas dos seus amigos e primos que eram de grande ajuda. Porém eles não podiam fazer companhia o tempo todo. Geralmente apareciam duas vezes por semana, três se tivesse sorte.
Uma grande ajuda para amenizar o sofrimento de Miguel era a enfermeira que João contratou para cuidar dele. Sintia tinha trinta e dois anos. Por ser uma loura muito bonita, em outras circunstâncias Miguel iria adorar ter ela cuidando dele. No entanto naquele estado ele tinha perdido quase todo o libido que seria natural de sua idade, quatorze anos. O começo da relação dos dois foi meio estranha, Miguel não estava acostumado a ser tratado como bebê. Já que era preciso que alguém desse banho nele e cuidasse de todas as suas necessidades fisiológicas. No início Miguel se sentia muito constrangido, mas em menos de um mês se acostumou. Sintia com o tempo também se tornou uma grande amiga, ajudando inclusive nas horas mais difíceis quando a tristeza apertava mais forte.
- É um absurdo! Em que mundo vivemos?! - O apresentador gritava mostrando um falso sentimento de indignação. Miguel assistia um daqueles programas policiais que enchiam a TV com as maiores tragédias que se podia imaginar. - Mãe afoga o próprio filho na banheira! Onde já se viu isso?! Essa aí tem que passar no ferro!
- Credo, menino. Como você pode gostar dessas coisas?! - Perguntou Sintia a Miguel.
- É jornal, pô. Só mostra o que acontece. Paciência se só tem miséria, o mundo é assim.
- Não, o mundo não é assim. Você que se engana.
A televisão mostrava uma foto do bebê que havia sido assassinado. Não devia ter mais do que quatro meses, era bem gordinho e com um sorriso iluminado. Seria um bebê como qualquer outro se não fosse suas orelhas estranhamente pontudas.
- O menino nasceu com um problema nas orelhas. - Dizia o pai, em entrevista. - Por causa disso ela acreditava que o menino era do demônio.
- Religião fazendo mais uma vitima. - Comentou Miguel.
- Deixa de ser herege, menino! - Sintia se irritou e mudou o canal. Agora a televisão transmitia um jornal mais sério, que não era tão sensacionalista. A matéria estava na metade, mostrava uma imagem sendo gravada de helicóptero na qual exibia uma pegada gigante, lembrando a de um dinossauro, na areia de uma praia. No canto inferior da tela aparecia a frase: "mistério na Tailândia".
- O outro jornal era mais legal. - Sintia ignorou a opinião de Miguel e começou a assistir a TV com ele. Ela puxou uma cadeira e pôs ao lado da cama do garoto para que pudessem ver o programa enquanto conversavam.
- O que você acha que pode ser isso?
- Deve ser a coisa mais besta do mundo. O povo preferi acreditar nas hipóteses mais fantásticas, sendo que as verdadeiras quase sempre são as mais simples.
- Garoto, você é muito esperto para alguém da sua idade.
Os dois ficaram conversando até o fim do jornal, mais ou menos por meia hora, depois disso Sintia deu uma saidinha do quarto. Enquanto tomava conta de Miguel, de vez em quando ela parava uma hora ou duas para estudar um pouco os assuntos da sua pós-graduação. Ela nunca ia muito longe, ficava no máximo na sala. Qualquer probleminha com o garoto ela parava imediatamente os estudos e ia correndo resolver. A final ela foi paga para cuidar de Miguel, não para ler livros.
Para deixar a vida do filho mais confortável João pagou uma TV por assinatura. Já que o garoto não tinha muito com o que se distrair João achou que daquela forma iria ampliar um pouco suas opções. Após o jornal a televisão começou a transmitir um seriado épico de fantasia que era focado na disputa de várias famílias reais pelo trono de um reino fictício baseado na Europa medieval. Como era um seriado de TV paga voltado para o público adulto tinha muitas cenas de nudez. Um garoto nessa idade normalmente ficaria "animado" com elas, mas não Miguel. Quando o seriado mostrava alguma cena mais picante Miguel sentia tristeza, pois aquelas cenas faziam com que lembrasse que ao contrário dos garotos "normais" ele nunca que poderá fazer o mesmo. Namorar, casar e constituir família. Seus olhos ficaram um pouco úmidos e ele começou a fungar forte. Sintia notou que algo não ia bem e voltou para o quarto.
- Menino, o que foi?
- Nada, esta tudo bem. - Disse Miguel fazendo um sorriso forçado que deixava claro que estava mentindo.
Sintia já estava esperando por aquele momento de tristeza, até que demorou para voltar. A tetraplegia de Miguel era muito recente, apenas um ano, ainda não deu tempo para ele se acostumar com a ideia. A enfermeira cedeu seu lado profissional para um mais humano e se aproximou do garoto. Começou a fazer cafuné em sua cabeça enquanto ele chorava.
Ariel
As primeiras semanas de trabalho na Cyberdine foram mais fáceis do que ela imaginava. Algo que para alguns poderia ser visto como positivo para ela não era. Ariel Andrade estava descontente com suas funções que não excediam a de um estagiário. Se bem que ela não poderia reclamar muito, pois o gordo salário recompensava. Ariel era considerada a empregada mais bonita da empresa, o que não era motivo para se vangloriar, pois haviam poucas mulheres no quadro de funcionários. Ela recebia muitas cantadas, mas levava a maioria na brincadeira e acabava criando relações de amizade ao invés de românticas. Isso é, até quando se aproximou mais do diretor da empresa, Eric Washington. Ariel não demorou a perceber as segundas intenções dele. Ela resistiu, porém o jeitão galante de Eric acabou a conquistando. De início ela não queria saber de romance com um superior hierárquico, achava que poderia trazer algum constrangimento ou até mesmo um problema mais sério. Mal havia terminado o primeiro mês e Eric fez parecer que seus temores não tinham fundamento. Antes que percebesse Ariel já tinha aceitado um jantar regado a vinho e, posteriormente, passar uma noite no motel da cidade. Nessa noite, enquanto Eric descansava para tentar fazer de novo, Ariel ficou deitada sobre seu peito analisando sua prótese. Ela segurou seu braço direito mecânico e ficou apalpando em busca de alguma falha. Não encontrou nenhuma, era uma replica perfeita.
- Não é possível! Como conseguiram fazer algo assim?!
- Acho bonito esse seu fascínio por tecnologia. É difícil encontrar isso em uma mulher, principalmente uma tão bonita.
- Você sente? - Perguntou Ariel enquanto ia apertando com as mãos todos os dedos do braço mecânico de Eric.
- Claro, a prótese é ligada a minhas terminações nervosas.
- Mas por que nunca vi alguém usando uma dessas antes? A Cyberdine poderia muito bem acabar com os problemas de milhares de pessoas deficientes.
- Esse é o nosso projeto. Dentre alguns poucos anos amputação, paralisia, cegueira e surdez serão problemas do pássado.
Ariel arregalou os olhos e abriu a boca em forma de O. Eric achou graça da expressão da moça. - Quero te mostrar uma coisa. Mas você não vai poder contar a ninguém. É um segredo da empresa e corro o risco até mesmo de responder penalmente se isso de alguma forma vazar.
Ariel balançou a cabeça positivamente com muito afinco. Deixando claro que concordava com tudo. O casal pernoitou no motel e na manhã seguinte acordaram bem cedo. Foram direto para empresa. Alguns funcionários viram os dois chegarem juntos, não precisava de muito mais para que começasse o fuxico.
Eric levou sua amante até um setor afastado, que ficava no subsolo de um dos prédios. Era uma área muito restrita a qual Ariel não tinha acesso. Eric pôs o polegar de sua mão esquerda, que ainda era de carne e osso, em cima do leitor da porta fazendo com que ela cedesse e deslizasse suavemente abrindo uma passagem. O casal estava dentro de uma espécie de galpão que era tão grande que poderia facilmente abrigar um avião comercial lá dentro.
Ariel pôs as mãos na boca para abafar um grito. Era uma reação de medo instintivo ao ver um verdadeiro exército formado por manequins mecânicos. O galpão funcionava como um deposito onde eram guardados robôs de forma humanoide, mas que eram artificiais demais para se passarem por humanos. Seus rostos pareciam ser feitos de pele, mas nenhum tinha cabelo, os pescoços exibiam fios e engrenagens. O resto do corpo era totalmente metálico. Em seus peitorais estava impresso o número de série.
O galpão estava lotado, era uma multidão formada por facilmente mil deles. Eric puxou Ariel pelo braço para que ela os visse mais de perto. Ariel o acompanhou, mas ainda tinha um pouco de receio.
- O que é isso?
- A primeira geração de autômatos da Cyberdine. Serão usados na segurança publica, na construção civil, na medicina... As aplicações são infinitas.
- Você esta brincando, são só bonecos! Não é possível que sejam funcionais! Não existe robôs tão avançados assim. É impossível.
- É mesmo? LK-4D4, Dê três passos a frente.
O robô que tinha o número LK-4D4 escrito no peito se destacou da multidão ao se aproximar do casal dando os três passos ordenados. Por instinto Ariel agarrou com força o braço de Eric em busca de proteção.
- O publico em geral não tem acesso a essa informação, para que não seja gerado pânico na população. Os lideres globais já estão cientes de que o mundo mudou. Ninguém sabe o porque ou como. As leis que regiam nosso universo mudaram.
- Que papo maluco é esse?!
- Você esta certa, construir androides e ciborgues não era possível. Mas agora é. Isso tem a ver com as mudanças.
- Meu Deus! Deve ser o fim do mundo.
- Alguns acreditam que sim, outros acham que é uma dadiva. Que é um novo começo. Olhe para a minha mão! - Ao dizer isso Eric levantou sua mão direita, a da prótese. - Isso não seria possível se essas mudanças não acontecessem.
Ariel tentou vencer seu medo e se aproximou do robô. Com a ponta do seu dedo indicador ela tocou o peito do LK-4D4. Não conseguiu deixar de sorrir. Seus sonhos adolescentes de ficção cientifica tinham se concretizados.
