Os Donos do Mundo
Vitor
Já fazia semanas desde que Vitor Almeida tinha visto sua filha pela última vez, sentia muita saudade e sua vontade era de alguma forma recuperar o tempo perdido dos anos que passou negligenciando suas responsabilidades como pai por ignorância. Queria ligar para ela todo dia, mas tinha a impressão que esse comportamento não seria bem recebido. Ariel não sabia que Vitor era seu pai biológico, foi negada a ela o conhecimento daquela verdade e Vitor não sabia como a revelar sem causar algum dano. Ele tentava se ocupar com os problemas naturais de seu cargo político, mas não conseguia afastar sua mente dela. Eis que em uma manhã de domingo o senador recebe uma ligação inesperada do presidente. Era um chamado para uma conferência. Aquilo soava estranho, não que conferências fossem incomuns, mas não era usual o presidente ligar pessoalmente fazendo o convite. Haviam assessores e secretários que serviam para isso. A tal conferência seria realizada no Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente da república. Não era o lugar mais utilizado para esse tipo de reunião, algo que fez com que Vitor torcesse a boca. O convite foi realizado as oito da manhã, a tal conferência aconteceria no mesmo dia, as duas da tarde. Vitor adiantou seus afazeres mais urgentes e se deixou livre um pouco antes do horário do almoço. Para ir até o Palácio da Alvorada Vitor pegou um carro oficial, não precisava dirigir, havia um motorista para isso. Em menos de meia hora ele tinha chegado. Dois funcionários que trabalhavam no palácio o acompanharam até a sala onde a reunião seria realizada. Vitor nunca havia visto aquela sala antes, era totalmente fechada, sem nenhuma janela, além disso Vitor identificou sistemas anti-espionagens como embaralhadores eletrônicos. Seja lá o que fosse discutido ali seria altamente sigiloso.
A sala era ampla, mais do que suficiente para acomodar os vinte e cinco presentes. Dentre eles, além do presidente, Vitor reconheceu alguns colegas senadores, quatro ministros e dois militares de alta patente. Os militares vestiam uniformes cheios de medalhas que Vitor não fazia a mínima ideia do que significavam. Os convidados ficaram acomodados em um sofá grande em forma de arco que era extremamente confortável. No meio da sala havia uma mesa com um retroprojetor antigo e vários documentos espalhados. As paredes eram bem alvas, ótimas para serem usadas como telas para as projeções. O presidente ficava na frente, em pé, como se apresentando uma palestra. Ao seu lado um homem que Vitor não reconhecia. Um homem bem idoso, que apesar de vestir o uniforme comum ao ambiente, paletó e gravata, usava uma corrente de metal com um medalhão na ponta que não combinava. Havia algo entalhado no medalhão, mas Vitor não conseguia distingui-las, pois eram um pouco apagadas.
O presidente mexeu no retroprojetor fazendo com que na parede aparecesse uma imagem tirada de satélite. A razão de se utilizar um equipamento tão antiquado era porque computadores não eram permitidos ali. Uma medida de segurança usada para evitar vazamento de informação.
- Essas imagens confirmam. Do dia para a noite duzentas e vinte e cinco ilhas e ilhotas surgiram no oceano. No mesmo instante cento e duas sumiram. Nessa "brincadeira" milhões estão desaparecidos, provavelmente mortos.
Vitor entortou a cara, o que o presidente dizia parecia absurdo. Ilhas não somem e surgem ao bel prazer. Ao menos não tantas. As bizarrices não pararam por aí, o presidente mudou a transparência e dessa vez a parede começou a exibir fotos coloridas de vários bebês com aparências estranhas. Orelhas pontudas, cores exóticas e até mesmo chifres. Vitor na mesma hora deduziu que aquilo deveria ser alguma montagem de mal gosto, porém espantava que todos as analisavam com seriedade.
- Ao menos 4.526 bebês vieram ao mundo com alguma "deformidade exótica" nesse último ano. Nenhum médico conseguiu identificar a razão disso. Os nascimentos ocorreram em países, culturas e níveis sociais bem diferentes, sendo difícil determinar qual seria o nexo causal.
Mesmo com o sofá confortável Vitor não conseguia ficar quieto, ajeitando sua posição várias vezes. Se sentia como sendo o único são em uma sala rodeada de malucos. Até torceu para que alguém entrasse na sala e dissesse que tudo não passava de uma brincadeira. Algo que, obviamente, não aconteceu.
A próxima projeção fez Vitor perder a compostura e começar a rir. Todos olharam para ele com uma expressão de reprovação, mas o senador não se abalou. - Pode nos dizer o que é tão engraçado? - Perguntou o presidente visivelmente irritado. O motivo do surto de Vitor foi a imagem de uma maca no necrotério contendo um homem horroroso com cara de morcego. Vitor pensou em programas sensacionalistas ao estilo de acredite se quiser. Não conseguia ver seriedade naquilo.
O presidente ignorou o comportamento de Vitor e continuou com a sua apresentação. - Muitas dessas criaturas foram encontradas em parte da África e no sudoeste asiático. Relato de espécimes de outros tipos foram relatados, mas ainda precisam de confirmação. Biólogos, engenheiros florestais, botânicos... Vários estudiosos e cientistas confirmaram que várias zonas naturais tiveram uma alteração estupida em sua biodiversidade. Novas espécies de animais foram registradas enquanto outras simplesmente desapareceram.
- É o fim do mundo. - Disse Vitor em tom de deboche. - O que significa tudo isso? Com todo respeito, vocês levam essas coisas a sério?
Ninguém se dignou a responder a pergunta de Vitor. O presidente prosseguiu enquanto o senador simplesmente cruzava os braços e ficava emburrado, como um menino pequeno que fora contrariado.
- A questão é, ao que tudo indica essas alterações bizarras no planeta estão apenas começando. Como vamos lidar com elas com o mínimo de perdas civis possíveis e sem desencadear o pânico?
Um dos militares se prontificou a responder a indagação do presidente. Ele era o mais velho dos dois, mas tinha um corpo em forma. Seu cabelo era grisalho e bem aparado, sua barba era um pouco grande demais para alguém na sua posição. - Mais do que com esses eventos temos que nos preocupar com a reação do publico. As pessoas hoje em dia trocam acusações de satanismo e feiticeira entre si sem nenhum motivo, imagina agora?
- Isso é fato. - Disse o outro militar. - Ouvi falar que os casos de assassinato de "bruxas" na fogueira no norte da Africa aumentou significativamente nesses últimos meses. Já pensou se essa "tendência" é importada para cá?
O presidente pôs a mão direita na testa, deixando claro que estava realmente preocupado. - Puta merda! O que a gente não precisa agora é de uma guerra religiosa!
A reunião prosseguiu, mas Vitor nem se preocupou em prestar atenção a ela, para ele tudo aquilo parecia um festival de loucuras. - Será que o governo nacional virou um hospício? - Se perguntava. Os discursos e indagações pareciam intermináveis, mas depois de uma tarde inteira chegaram ao fim. - Que bela perda de tempo! - As pessoas começavam a se retirar, Vitor praticamente correu até a saída, mas foi impedido pelo presidente que o chamou para uma conversa privada. Esperaram que todos saíssem e quando só restaram na sala Vitor, o presidente e o velhinho misterioso com um medalhão no pescoço é que começaram.
- É a primeira vez que você é convidado para uma reunião privada como essa, não é mesmo? - Perguntou o presidente.
- Sim. Vossa excelência, desculpe-me se eu agi de modo inapropriado. É que tudo isso... - Vitor fez uma pausa. - Foi demais para mim.
- Entendo, é comum seu tipo de reação quando se descobre que o mundo não é exatamente como se acredita que ele é.
- Não quero ser rude, mas acho que minha noção de mundo é muito boa, senhor.
- Será mesmo? Quero te apresentar o senhor Kalevi, nosso especialista em assuntos esotéricos. Ele é da Finlândia. - O velhinho apertou a mão de Vitor com tanta rapidez que o senador nem conseguiu evitar o gesto. Aquilo era outra novidade inesperada. Como se já não fosse ruim o bastante ver políticos gastando tempo com aquelas asneiras ainda tinha que aturar um "especialista" na área. Agora que Kalevi estava mais próximo Vitor pode ver melhor o que estava desenhado em seu medalhão. Era um triângulo com um circulo dentro. - Uma bobagem mística, claro. - Pensou.
- Sinto uma grande energia negativa! Alguém próximo a você corre perigo!
Vitor sorriu e fez que sim com a cabeça, se prendendo para não dar uma resposta agressiva naquele que achava ser um charlatão. - Meu Deus! Aqui as coisas estão piores do que eu imaginava.
Evandro
Quando Evandro Martinez começou a trabalhar como pastor ele via sua função apenas como uma forma de ganhar dinheiro. Não estava ligando para fé, salvação nem nada do tipo. Sempre foi um homem pratico e nunca perdeu um minuto se preocupando com coisas que não fossem desse mundo. Todo dia ele entrava na igreja, subia no palco e representava um papel. Fingia curar alguma enfermidade ou expulsava espíritos ruins que nunca existiram. Apesar dessa conduta poder ser vista como imoral Evandro nunca sentiu remorso por ela. Isso é, até agora. Naquele instante um fiel subiu no palco, convidado para dar um testemunho. Evandro se lembrava dele, o rapaz havia aparecido em um culto há algumas semanas. - Podem me chamar de Duca, meus amigos me chamam assim. - Disse o garoto. - Eu sofria com marcas horríveis em minha cara. Olha só como eu estou! - O rosto do garoto não estava totalmente lisa, mas comparada a imagem da foto que ele segurava com orgulho nas mãos estava bem melhor. Em resposta a plateia gritou "aleluia" e "glória a Deus".
Duca não era o primeiro que testemunhava uma cura milagrosa ministrada por Evandro. Muitos outros haviam feito o mesmo. Alguns por terem sido pagos para dizer aquilo, outros porque tinham alguma enfermidade curada naturalmente com o tempo, mas que não sabiam disso. - O que esta acontecendo comigo? - Se perguntou o pastor. Ele já presenciara cenas semelhantes tantas vezes, porque só agora se sentia incomodado? Aquele sentimento que misturava culpa com vergonha foi tão forte que ao fim daquele culto Evandro tomou uma decisão que iria mudar sua vida.
- Você esta maluco?! Quer desistir agora? Quando o negócio esta crescendo tanto. - Ouvir a palavra negócio vinculado a algo que deveria não visar o lucro irritou Evandro. Algo inédito, antes ele não sentia aquele tipo de desconforto com isso.
- Rodolfo, você não sente um pouco de remorso pelo que fazemos? - Aquela igreja não era muito grande, mas já tinha duas filiais. Rodolfo Assunção foi seu idealizador, ele é quem nos bastidores administrava todas as operações e inclusive contratava os funcionários assim como os pastores. Foi Rodolfo que convidou Evandro a fazer parte da igreja anos atrás. Rodolfo e Evandro eram amigos desde os tempos do colégio, porém haviam perdido contato quando saíram da adolescência. Rodolfo fez faculdade de psicologia, Evandro formou a banda Mucosa Cerebral. Os dois só voltaram a se encontrar anos depois, quando Evandro havia sido expulso de sua banda e estava desempregado.
- O ser humano é movido pela constante busca da sensação de bem estar. Você acha que as pessoas que prestam algum trabalho solidário o fazem para ajudar os outros? Errado! Só fazem isso para fingirem que são "boazinhas", para se sentirem bem e se acharem melhor que os outros, nem que seja uma superioridade apenas moral.
- Sim? O que isso tem a ver com a nossa conversa?
- Tudo! Você não deve se sentir culpado pelo que faz. As pessoas vem aqui para comprar esperança, pouco importa se são verdadeiras ou falsas. Acorda! Toda religião ou instituição "altruísta" é movida por esse pensamento.
- Pode até ser, mas eu não quero mais fazer parte disso. - Após dizer aquelas palavras Evandro vira as costas para o amigo e vai embora. A partir daquele dia ele não pisaria mais em uma igreja, ao menos não como pastor. Naquela noite Evandro dormiria preocupado com o que iria fazer dali para a frente. Sem o dinheiro que a igreja lhe dava não tinha mais como se sustentar. Evandro voltou a estaca zero, na mesma posição que se encontrava quando saiu do Mucosa Cerebral. Apesar de por um lado ficar aflito devido a incerteza de como iria viver, pelo outro se sentia aliviado, pois não precisava mais enganar ninguém.
Evandro morava em um apartamento minusculo que ficava no quinto andar de um prédio de seis. O aluguel não era dos mais caros, mas agora que não havia mais fonte de renda era um problema. Ao menos com o dinheiro que tinha guardado dava para garantir no mínimo três meses. O apartamento só tinha um quarto e era pouco mobiliado. Só tinha o básico e olhe lá. Na sala, por exemplo, não havia sofá, mas sim algumas cadeiras de plastico, daquelas usadas em bar.
O ex-pastor estava quase pegando no sono quando ouviu uma batida forte na porta. - Quem seria a essa hora? - Normalmente as pessoas interfonavam antes de fazer uma visita. Se bem que Evandro estava meio sonolento, não podia afirmar com certeza se já tinham interfonado e ele era que não havia percebido. - Existe campainha para isso! - Gritou Evandro enquanto se levantava da cama para atender o visitante inconveniente. Seja lá quem fosse ignorava a campainha e agredia constantemente a porta com batidas que ficavam cada vez mais urgentes.
Evandro estava há menos de dois passos da porta, já ia abri-la, quando a ultima batida o fez ter medo. De tão intensa a porta tremeu. Não havia olho mágico então Evandro não tinha como saber quem era. O ex-pastor pensava em ligar para a portaria e pedir ajuda quando na última investida a porta cedeu, abrindo com violência e quebrando a maçaneta. Não houve nem tempo de ver direito quem eram os invasores. Não que isso fizesse muita diferença, pois estavam todos vestidos de preto e usavam máscara. Eram três ao todo. Imobilizaram Evandro e puseram um saco em sua cabeça. Depois ainda golpearam sua nuca fazendo com que perdesse os sentidos. Ele só acordaria muito tempo depois em um local desconhecido.
O chão era duro, feito de pedra. Alguma coisa viscosa escorria por sua testa, ele passou a mão e percebeu que era sangue. Seu sangue. A cabeça doía, mas ela era a menor das suas preocupações. Após alguns segundos Evandro notou que não estava mais vestido. Em uma situação comum ele ficaria envergonhado, mas até aquilo parecia pequeno frente a tudo. A iluminação era péssima, a pouca luz era proporcionada por tochas penduradas. Evandro percebeu que estava dentro de uma cela, uma prisão cujo as paredes eram rústicas, feitas de rocha. Aquele cenário lembrava muito uma masmorra medieval. Tanto era que o ex-pastor chegou até a temer que houvesse morrido e aquilo seria o inferno. Aquela ideia foi logo descartada, se sentia muito vivo para acreditar nessa hipótese.
Evandro estava tão desesperado que demorou a notar que não estava sozinho. Havia mais uma pessoa que dividia a cela com ele. Uma mulher cujo a parte direita do seu corpo estava cheio de queimaduras antigas. Seus cabelos eram encaracolados e castanhos. Em outra circunstância Evandro até poderia achá-la bonita. Ela também estava sem roupa, mas ele estava temeroso demais para sentir qualquer tipo de atração.
- Que lugar é esse? - Perguntou Evandro.
- Você irritou quem não devia. - Disse a moça. - Aqui é onde eles jogam os indesejáveis. Os que sabem demais.
- "Eles" quem mulher?
- Os donos do mundo.
