O Retorno do Rei
Antoine
Na Suíça, no meio de uma floresta fria e desabitada, há um castelo que poucos conhecem ou sabem da sua importância. Ele existe desde os tempos medievais, de lá pra cá fizeram algumas reformas e muitas ampliações. Muito maior e mais confortável do que naquele tempo antigo, esse lugar vem acumulando uma enorme riqueza em conhecimento e cultura. Porém é reservado a poucos. Antoine Pierre queria visitá-lo antes, mas a turnê do Le Grand Guignol na América do Sul o impedia. Agora que o circo voltou a Europa ficou mais fácil. O anão para na entrada do castelo e fica um tempo admirando sua magnitude. Ele é atingido por uma leve nostalgia, se lembrava da última vez que entrou naquele castelo, na época Antoine ainda era um jovem matuto que não sabia nada da vida. O antigo dono do Le Grand Guignol apresentou o castelo a ele e o iniciou na ordem. A partir daquele momento Antoine descobriu que a magia e o sobrenatural eram reais e que algum dia irão voltar. Isso é se já não voltaram. Antoine acreditava que sim, aquela visita tinha o proposito de se certificar.
A porta dupla da entrada principal era enorme, com cinco metros de altura, não podia ser aberta por qualquer um. Havia um funcionário cujo a função era simplesmente essa. Abrir e fechar a bendita porta. Um homem enorme de musculoso, só assim para aguentar empurrar os vários quilos daquela porta de madeira maciça. Antoine encontrou sua primeira dificuldade antes mesmo de chegar perto da porta. - Malditas escadas! - Reclamou o anão. Os degraus eram muito altos e espaçosos para alguém com as pernas tão curtas como a dele. Subir um lance de quinze degraus se mostrou bem cansativo. Após vencida essa etapa Antoine agora tinha que bater na porta. Não havia campainha, preso a maçaneta se encontrava um arco grosso de metal que servia para fazer barulho ao se chocar contra a madeira da porta. Era outro desafio, por ser muito pequeno Antoine tinha que se esticar todo. Mesmo assim não conseguiu alcançar. Resolveu então berrar. - Abre aqui! - Após a quarta ou quinta chamada a porta recuou, permitindo sua entrada.
- Que merda, cara. Você quer me deixar congelar lá fora?
O porteiro não deu atenção a reclamação de Antoine, talvez porque não falasse inglês. Se limitou a apenas permitir a entrada do anão e fechar a porta logo em seguida.
O lado de dentro do castelo ainda era mais majestoso do que o lado de fora. O salão de entrada era enorme, pendurado nas paredes haviam vários quadros de artistas antigos, nos cantos das paredes podia se encontrar armaduras medievais e outros tipos de enfeites que nos levavam a uma outra época. Uma época de cavaleiros e guerras de espadas.
Aquele castelo pertencia a uma ordem chamada Ordo Dracul, cujo sua principal função era aguardar e se preparar para o retorno da magia ao mundo. Seus membros eram identificados através do símbolo que usavam, um triângulo com um círculo dentro. Antoine, por exemplo, usava o símbolo em todas as roupas que vestia, porém quase ninguém percebia. Estava desenhado em lugares não muito evidentes como em golas de camisa ou no canto das pernas de bermudas. Só quem sabia o que procurar notava que ele usava o símbolo. Uma verdadeira sociedade secreta, seus membros estavam nos mais altos escalões de poder das mais diferentes nações. Os draconianos passam tão despercebidos que nem os que acreditam nos poderes das sociedades secretas os conhecem. Seus membros riam das teorias da conspiração mais amplamente divulgadas, alguns deles inclusive fomentavam elas, criando uma espécie de rede de desinformação. Quem quer se manter escondido não deixa vazar informação que possa ser disponibilizada por sites amadores feitos por fanáticos. Ao invés disso usa esses sites para desviar atenção do que realmente importa. Enquanto o publico em geral fica se digladiando acusando uns aos outros por manipular a sociedade, a Ordo Dracul se mantém invisível, mas presente em quase todos os lugares.
O castelo funcionava um pouco como igreja, todos os domingos havia reunião de membros que discutiam algum assunto em pauta da atualidade. Antoine só participou de duas reuniões, quando estava se iniciando na ordem. Desde então só se interessou por voltar a participar agora. Pois queria saber se o momento que tanto esperava havia acontecido. A reunião só iria começar as nove da noite. Ainda era cedo, Antoine tinha tempo para dar um passeio na propriedade.
Como era uma traça, o lugar do castelo que Antoine mais gostava era a biblioteca. De tamanho colossal continha uma ampla variedade de títulos. Nela você poderia encontrar, por exemplo, a versão original de textos sagrados como a bíblia e o alcorão. Antoine achava impressionante o fato desses dois livros terem mudado tanto de uma tradução a outra. Além de vários livros místicos dos mais variados tipos havia também muitos científicos. Como cadernos particulares de pensadores como Leonardo Da Vinci. Havia lugar também para ficção, romances nunca publicados de artistas como Tolkien e H.P Lovecraft. Antoine gostava de ler sobre a quarta era da terra média que nunca veio ao conhecimento geral.
Perdido na leitura Antoine nem notou que o tempo havia passado. Ao olhar para o seu relógio de pulso ele se assustou com a hora. Estava dez minutos atrasados. Correndo o mais rápido que suas pequenas pernas permitiam ele chega até a sala de reuniões. Parecia uma igreja gótica, mas não havia bancos para as pessoas sentar. Os presentes formavam um grande círculo enquanto ouviam as palavras do orador. No meio do púlpito havia uma belíssima armadura dourada.
Dentre os rostos ali presentes Antoine podia ver vários presidentes e reis, inclusive de países em guerra, mas que ali pareciam esquecer suas diferenças.
- A era da magia começou! - Gritou o orador, um velhinho que usava um medalhão bufante pendurado no pescoço.
Vitor
- O que diabos estou fazendo aqui?! - Vitor Almeida estava indignado. Além de ter que aturar uma reunião no Palácio da Alvorada cheia de "absurdos", o senador foi praticamente forçado pelo presidente da República a participar de uma viagem até a Suíça. Usaram um jato particular da União. - Ótimo, gastando dinheiro público com asneiras! - Sem poder extravasar suas frustrações Vitor teve que aguentar cinco horas de voo acompanhado por um presidente que ele achava sem noção e um tal de especialista oficial para assuntos esotéricos que ele julgava ser o pior tipo de enrolador. Com horror Vitor se viu forçado a assistir a uma espécie de culto ministrado em um castelo que ficava no meio do nada. Para piorar ele reconheceu vários rostos famosos da politica internacional. - Será que o mundo todo ficou maluco?!
- A era da magia começou! - Kalevi parecia ser o líder daquela loucura, falando várias coisas que para Vitor não tinham o menor sentido. - O véu da realidade esta próximo a desaparecer, como na última era da magia que durou do ano vinte mil antes de cristo ao dez mil. A prova disso é que nosso líder pode finalmente se materializar no nosso mundo. - Começou um alto burburinho no salão, como se Kalevi tivesse falado algo de grande impacto. Vitor apenas revirou os olhos torcendo para que tudo acabasse logo.
O velhinho finlandês apontou para a armadura dourada e saiu da frente, como se apresentasse um produto impressionante que quisesse vender.
Silêncio.
Vitor sentiu um calafrio inexplicável e podia jurar que ouviu um sussurro em seu ouvido que o alertava para sair dali. Apesar de seu sexto sentido gritar para que ele fugisse, seu senso de etiqueta social falou mais alto. Não queria irritar o presidente, por isso ignorou seu instinto de sobrevivência e permaneceu na sala. Um erro.
Uma fumaça de origem desconhecida impregnou na sala, se acumulando há poucos centímetros do chão. Como uma neblina estranha, os pés dos presentes se tornaram quase que invisíveis. A fumaça foi se concentrando, como se tivesse vontade própria. Ela foi se aproximando da armadura dourada e começou a preenchê-la. Após se unir a armadura, a fumaça começou a se solidificar. A fumaça agora tinha uma forma quase humana que vestia a armadura. A entidade tinha a pele roxa e orelhas bem pontudas. Após se materializar, o ser se levantou em toda sua glória com sua vestimenta imponente. Nesse instante todos os presentes se ajoelharam, com exceção de Vitor que estava amedrontado demais para poder se mover.
- AAAAHHH! - Desesperado, Vitor saiu correndo rumo a porta de saída. Porém, para sua infelicidade estava trancada por fora. O senador começa a agredir a porta em uma tentativa inútil de fazer com que abrisse. Para sua infelicidade, a criatura de armadura ficou interessada nele e começou a se aproximar. A medida que ficava mais perto o pânico de Vitor aumentava. - Sai daqui, Demônio!
A criatura não se sentiu ofendida com o insulto, apenas começou a olhar para Vitor com uma expressão de curiosidade. - Quem é esse aqui? - Perguntou. - Não o conheço.
- Me perdoe, mestre Dracul. - Disse o presidente da República do Brasil. - Pensei que ele fosse inteligente o suficiente para entrar na ordem, mas pelo visto me enganei.
Dracul ergueu sua mão direita e apontou para Vitor, em seguida um raio saiu de dentro dele e atingiu o senador que foi reduzido a nada mais do que cinzas.
- Os nossos métodos de seleção eram mais rigorosos. - Se queixou o elfo.
Eric
Ver uma pessoa ser vaporizada não o abalou, em sua vida ele já viu coisa muito mais impressionante. Eric Washington tirou uns dias de folga do seu cargo de direção da Cyberdine, pois sabia que aquela reunião seria a mais importante dos últimos milênios. Não estava enganado, o retorno do rei elfo comprovava isso. Era sua chance de aumentar ainda mais o seu poder de influência, que já não era pouco. Antes de entrar na Ordo Dracul, Eric não era ninguém. Apenas um garoto aleijado com ataques de pânico. A perda de seu braço direito se deu em um evento muito traumatizante. Ele na época tinha apenas treze anos. Estava assistindo uma maratona qualquer na sua cidade natal, que ficava na região sul dos EUA. No meio do evento um terrorista explodiu uma bomba matando a ele mesmo e mais cinco pessoas. Eric sobreviveu, mas acabou perdendo um braço. Após anos tentando superar o trauma, Eric foi apresentado a um homem que trouxe a solução, além de uma proposta de trabalho que mudou sua vida. Naquele ano Eric entrou na Cyberdine, no começo era apenas um estagiário, mas foi progredindo. Dez anos depois ele foi apresentado a Ordo Dracul, para atingir um cargo de direção foi um pulo. O que poucos sabem é que seu braço não é sua única parte biônica.
- Você será responsável pelo domínio tecnológico. - Eric ouviu aquilo ao aceitar o cargo na Cyberdine. - Todos que precisarem de avanços na área da eletrônica, robótica e informática recorrerão a nós.
Rodolfo
Poucas pessoas são sádicas o bastante para achar graça de ver alguém morrendo daquela maneira. Rodolfo Assunção era aquele tipo de gente. Após se formar em psicologia Rodolfo por acaso fez amizade com alguém que fazia parte da ordem. Não demorou muito para ele ser convidado a participar. Logo depois lhe foi feita uma proposta. - Você será responsável pelo surgimento de uma nova religião. - Lhe foi instruído. - Em algumas décadas será a mais influente do país. Desse modo iremos dominar no campo ideológico.
Kasper
Indiferença, Kasper não sentia prazer nem repulsa ao presenciar a morte do brasileiro desconhecido. Cientista acima da média, ele se formou em biomedicina junto com seu irmão gêmeo, Joris-Jan, já falecido. Antes mesmo de sair da faculdade o garoto chamou atenção e acabou sendo convidado para fazer parte da Ordo Dracul. Sem que ninguém de sua família desconfiasse ele fundou uma empresa com mais cinco membros da ordem. A Geneco tinha como meta estudar a genética dos seres vivos e brincar com ela, fazendo todo tipo de manipulação. - Você responderá pelo avanço da medicina. - Lhe foi instruído. - Todos que precisarem de curas para doenças ou deformidades genéticas recorrerão a nós. - Manipulador, Kasper foi quem induziu o irmão a elaborar uma expedição cientifica na Libéria. Joris-Jan não sobreviveu, foi morto por um ataque de criaturas morcego. Kasper, nem ficou triste. Sabia dos riscos daquela exploração, apesar de não ter dividido aquele conhecimento com seus colegas.
