Caos
Jorge
Ele atendia o telefone e fazia força para não rir do que a pessoa do outro lado da linha falava. Essa não era a função de Jorge Santana na delegacia, atender chamada. Mas como o escrivão precisou sair para resolver um problema, foi pedido para que ele tomasse seu lugar por uma horinha ou duas.
- Eu poderia te prender por fazer trote com a polícia, sabia? - Ao entender que não seria levada a sério a moça pôs o fone no gancho. - O que foi? - Perguntou Eduardo Suzart, que estava de bobeira escorado na parede da sala.
- Uma mulher ligou dizendo que o demônio estava tentando entrar em sua casa.
- Chama o padre Quevedo! - Disse Eduardo em tom de deboche.
- Coitada, deve ter algum problema. - Por sentir uma dorzinha nas costas Jorge se esticou todo na cadeira. Ficou muito tempo sentado, por isso achou que esticar a perna um pouco iria lhe fazer bem. - Edu, você pode assumir aqui um instante? Só cinco minutos, eu vou só tomar um ar.
Enquanto Eduardo assumia, Jorge saiu da delegacia. Não foi muito para longe, ficou na porta mesmo. Só queria ficar em pé um pouco por uns dez minutos no máximo. De repente o policial ouve um burburinho. As pessoas na rua em frente se aproximavam de uma figura exótica. O homem era musculoso e andava sem camisa, a calça que usava lembrava uma coisa bem medieval, meio Conan o Bárbaro. Para completar o figurino o sujeito segurava um machado nas mãos e usava uma máscara de touro na cabeça, ao menos as pessoas deduziam que era uma máscara. Jorge ficou interessado. - Será que é a propaganda de algum festival? - Animado com a ideia de ter um evento novo na cidade em que pudesse levar seu filho, Jorge foi se aproximando do "ator". No entanto outra pessoa se aproxima primeiro. Todos ficaram assustados quando o minotauro com uma só machadada decapita o homem. A curiosidade terminou e começou o pânico, as pessoas corriam e gritavam. Jorge, em seu instinto policial, sacou a arma e deu voz de prisão. O minotauro virou sua atenção para ele e então Jorge percebeu. Aquilo não era uma máscara. - Meu Deus! É um monstro!
Tal como um touro faria, o monstro começou a esfregar o pé no chão, preparando uma marrada. O minotauro disparou em uma velocidade incrível levando em conta o seu tamanho. Porém não foi rápido o suficiente. Com dois tiros no peito Jorge consegue levá-lo ao chão.
O som dos disparos e a gritaria chamaram a atenção dos policiais na delegacia. Todos foram para o lado de fora. Assim que viram Jorge com arma em punho e um sujeito esquisito no chão perceberam que algo não ia bem.
Não houve nem tempo de analisar o morto. Uma explosão ao longe se fez ouvir. E mais gente correndo aparecia de todos os cantos. Parecia um atentado terrorista ou ato de guerra. Só que muito pior. - Todo mundo peguem suas armas e pra rua! - Gritou o delegado.
Os policiais não foram preparados para aquele tipo de situação. E talvez nem soldados experientes em guerra seriam. Atiçando o pânico das pessoas em polvorosa, vinha atrás um grupo de criaturas únicas. Seres de pele verde, com orelhas pontudas e garras e dentes afiados. O choque de ver tais seres foi tão intenso que alguns policiais ficaram por um instante parados, sem reação. Isso determinou quem seria o primeiro a morrer, sendo pego por aqueles monstros. Começou o tiroteio. Os goblins tombavam as pencas, mas por mais que fossem atingidos mais surgiam.
- Todo mundo para dentro! - Gritou o delegado, que agora agia como um general de guerra. Sua ordem foi prontamente atendida, até porque quase todos não queriam estar do lado de fora lutando com criaturas que achavam ser demônios.
Depois que todos os policiais entraram foi colocado uma mesa na frente da porta, para servir de barricada. Não que tivesse adiantado muito. Dois goblins invadiram a delegacia com estardalhaço arrebentando uma janela de vidro. As criaturas não duraram muito, pois foram logo fuziladas.
Jorge se aproximou da janela para ver o que acontecia do lado de fora. Caos total. Goblins por tudo que era canto e pessoas desesperadas. Muitos mortos vitimados por aquelas criaturas. Como se isso já não fosse o suficiente Jorge ouve um som forte de batidas de asas e por um instante uma grande sombra cobre o sol. O policial olha para cima e pela primeira vez sente uma mistura de medo com fascínio. Um dragão acabara de sobrevoar a rua.
- O apocalipse chegou! - Comentou Evandro.
- Miguel! - Assim que o choque inicial passou Jorge lembrou do seu filho e de seu estado de fragilidade. - Tenho que proteger Miguel!
- Você esta maluco?! - Perguntou o delegado. - Como pode sair com as ruas assim?!
Jorge não deu ouvidos, aproveitou a abertura proporcionada pela janela quebrada e saiu da delegacia por ali. Antes que fosse embora, porém, Evandro lhe entregou uma escopeta. Nessa situação seria uma grande ajuda.
Rodolfo
Ele voltou da Suíça na manhã anterior. Foi tudo planejado, chegou antes do ataque que já estava programado. Rodolfo Assunção abriu as portas da sua igreja e convidou todos os desesperados para entrar. - Não se preocupem, o mau não tem poder dentro dessas paredes! - Gritou Rodolfo, fazendo referência aos monstros que assolavam a cidade. De fato os goblins não entravam em sua igreja. Não porque alguma força sagrada os impedia, mas sim devido a um acordo prévio firmado por Dracul. Os refugiados rezavam, choravam, gritavam... Rodolfo atiçava a euforia deles com palavras de efeito que falavam sobre arrependimento e salvação. No meio da confusão ouviu-se um barulho de vidro se espatifando. Rodolfo foi checar o que era. O barulho veio do seu escritório, um dos goblins havia invadido a igreja arrebentando com a janela. Os fieis estavam na área do culto, por isso não o viram naquela situação, reclamando com o monstro tal como um mestre faz com um servo.
- O que você esta fazendo?! Quer botar tudo a perder?! - Rodolfo batia e chutava no goblin. O monstro tinha garras e dentes que podiam facilmente por fim àquelas agressões, mas era tão submisso ao seu mestre que não revidava. - Vá invadir as igrejas dos concorrentes! Essa aqui não! - Com as orelhas baixas a criaturinha saiu por onde entrou, pela janela do escritório.
Como não podia perder o espetáculo Rodolfo voltou para a área de culto em polvorosa. - O poder de Deus expulsou o demônio! Glória!
Miguel
Em sua situação ele não podia nem mesmo ir até a janela ver qual era o motivo de tanto barulho. Era em momentos assim que Miguel Santana odiava sua sorte. Como não podia se mover Miguel não tinha como reagir. Até mesmo entender o que estava acontecendo para ele era difícil, já que não conseguia espiar a rua. De repente o jovem ouve um barulho ainda mais forte só que esse vindo de dentro da casa. Se não fosse tetraplégico seu corpo naquele instante iria tremer de medo. Miguel estica o pescoço em uma tentativa vã de ver algo mais. Não é bem sucedido. Dava para ouvir Sintia gritando, algo de muito grave acontecia. Por ela uma lágrima escorreu de seu rosto.
Sintia entrou no quarto de forma estrondosa, chorava muito e estava ferida. - O que foi? - Perguntou Miguel desesperado. A enfermeira apenas fez sinal de silêncio com o dedo sobre seus lábios e cobriu o garoto com várias cobertas grossas. - O que é isso?
- Miguel, por tudo o que é mais sagrado. Faça silêncio!
Com as cobertas cobrindo o rosto, além de paralitico Miguel estava agora cego. A única forma de compreender o mundo eram seus ouvidos. O garoto ouve Sintia dar um grito estridente e depois o som dela cair no chão. A partir daquele instante Miguel não ouviu mais a voz da enfermeira. Passos. Dava para perceber que haviam pessoas no seu quarto. Ao menos ele imaginava que eram pessoas, não tinha como adivinhar que eram goblins. Um dos monstros chegou perto da cama, a aproximação fez com que Miguel sentisse seu bafo. Um cheiro podre.
O garoto prendia a respiração, sentia vontade de cair no choro, mas se controlou. Dois minutos depois Miguel não ouviu mais nada, eles haviam deixado-o sozinho. Apesar de aparentemente o perigo já ter ido embora Miguel não conseguia deixar de ficar tenso. Como poderia? Ele conseguia ouvir vindo lá de fora um barulho que era equivalente ao de uma guerra. Batidas de carro, gritos, tiros de arma de fogo, grunhidos... O inferno tinha chegado a cidade.
Miguel não podia fazer nada, era prisioneiro do próprio corpo. Só podia esperar e torcer para que tudo terminasse logo. Ele não tinha como medir o tempo, mas tinha noção de que o dia estava acabando, pois o sol estava ficando mais fraco. Ele permaneceu imóvel sob as cobertas por horas. Eis que ele volta a ouvir passos vindos de dentro da casa. Seu coração dispara. Os passos iam até sua direção. Quando o desconhecido arrancou com brutalidade as cobertas que cobriam seu corpo o coração só faltou soltar pela sua boca. O alívio chega quando ele percebe que o novo invasor na verdade era o seu pai.
Jorge não diz nada, apenas abraça o filho com força e começa a chorar. Igualmente emocionado Miguel também não consegue dizer uma só palavra. Naquele instante não era preciso. O abraça dos dois demorou mais de um minuto. Naquela situação descobriram o quanto aquele gesto de afeto era valoroso.
- Não se preocupe, filho. Papai chegou.
Armado até os dentes, Jorge fechou a porta do quarto e pôs um armário na frente para fazer uma barricada. Em seguida trancou as janelas abafando um pouco o som que vinha da rua. Não havia lugar seguro na cidade, logo não tinham para onde fugir. Jorge sentou no chão, ao lado da cama do filho e preparou suas armas. Seu revólver e a espingarda que seu amigo Eduardo lhe dera.
- Calma, essa guerra não há de durar para sempre. - A intenção do policial era montar guarda ao lado da cama do filho até que tudo terminasse. Não importa o quanto demorasse. Horas, dias, semanas. Para a sorte dos dois não houve necessidade para tanto. Ao amanhecer a guerra deu uma trégua e as criaturas pareceram ter voltado de onde tinham saído.
