Mutação
Evandro
- Há muitos séculos eles se preparam para a chegada desse dia. Quando o véu da realidade sumir e a magia voltar ao mundo. A Ordo Dracul quer dominar tudo e a igreja do seu amigo deve fazer parte dela. - Devido a sua convivência com muitos religiosos Evandro já ouviu muita teoria maluca sobre como o mundo operava. Em outra situação, se ouvisse aquela história no púlpito ou no conforto de seu lar, iria julgar essa como se fosse mais uma delas. No entanto ele havia sido arrancado de sua casa a força e jogado nu a uma masmorra medieval. Naquele instante o ex-pastor estava muito receptivo a ideias diferentes.
Evandro dividia a cela com uma moça chamada Cinara. Ela estava em uma situação tão ruim quanto a dele, jogada em uma prisão de pedra sem direito nem a ter algum pano para se cobrir. Eram tratados como bichos, recebiam comida uma vez por dia. Um tipo de ração ruim de engolir, mas que devoravam assim mesmo, pois era a única opção que tinham. No canto da cela havia um pinico de madeira que era esvaziado toda vez quando traziam a comida.
A pessoa que trazia a comida, o carcereiro por assim dizer, era um caso a parte. Se é que dava para ser chamado de gente, era grande e musculoso demais. Seu corpo desproporcional só não chamava mais atenção do que seus chifres na cabeça que chegavam a fazer uma volta. Seu rosto era feio, com dentes grandes demais para a boca e nariz bem cheio. Quando Evandro o viu pela primeira vez gritou com todas as forças do seu pulmão. O monstro nem se abalou com o pânico do seu prisioneiro, apenas fez sua atividade e foi embora. - Um demônio!
- Não, ele é um troll. Uma criatura bem estúpida devo acrescentar. - Respondeu Cinara como se dissesse a coisa mais normal do mundo. - Se eles conseguem aparecer no mundo material é sinal que a magia já deve estar de volta.
- Não existe esse negócio de magia, só truques baratos! Eu sei bem disso, passei alguns anos fingindo ministrar curas milagrosas. Tudo encenação. Faz de conta.
- Qual foi a última vez que você "curou" alguém?
- No dia que eu fui jogado aqui eu encenei uma. Faço umas quatro ou cinco vezes por semana desde que me tornei pastor.
- Você notou algo diferente? As últimas curas pareciam mais reais?
Evandro não respondeu, Cinara considerou aquele silêncio como uma afirmação. Ele se lembrou do garoto com manchas no rosto e de mais três casos que surpreenderam até mesmo a ele. - Será possível?
- Isso é efeito do retorno da magia. Muito curandeiro charlatão vai se transformar em um de verdade. Muitos supostos médiuns que pensavam ouvir espíritos, mas ouviam apenas suas próprias loucuras, passarão a conversar para valer com os mortos. Ninguém nunca conseguiu comprovar a existência do sobrenatural, pois até então ele era quase imperceptível. Agora as coisas mudaram, tudo será escancarado.
- Então quer dizer que eu posso mesmo operar milagres?!
- Você não brincava tanto com isso?! Pois bem, agora a brincadeira virou coisa séria!
Como não havia janelas e a iluminação era sempre a mesma, não dava para ter noção da passagem dos dias. Só tinham a companhia um do outro, juntando isso com o fato de compartilharem o mesmo problema, os dois ficaram muito íntimos. No final da primeira semana acabaram cedendo a um modo antigo e natural de alivio de tensão. A semente de Evandro foi posta em Cinara. Ela iria ficar de barriga se algo grotesco não tivesse ocorrido.
Assim que acordou em um certo dia Cinara sentiu uma forte dor de cabeça. Instintivamente Evandro a abraçou e tentou usar seu recém-descoberto dom para curar a enfermidade. Não deu certo. Para piorar, ao passar a mão na cabeça dela uma porção enorme de cabelo cedeu. - Cinara? - A situação era ainda pior do que se imaginava, o rosto da mulher estava sofrendo uma grande transformação. A olhos vistos ela passava por uma metamorfose, sua pele foi ficando verde, seus dentes e garras cresceram e suas orelhas foram ficando pontudas. Assustado, Evandro se afastou e se agarrou as grades da cela, tentando de algum modo passar por entre elas. Uma tentativa inútil. No fim da sessão de horrores as feições humanas de Cinara haviam sumido, ela havia se transformado em um goblin.
Sem mais nenhum resquício de humanidade, a fera avançou em direção a Evandro com a boca escancarada pronto para mordê-lo. Os dois se engalfinharam no chão. O ex-pastor conseguiu imobilizar seu oponente usando sua experiência em MMA, um esporte que aprendeu na adolescência. Com as pernas prendeu o corpo do goblin e com os braços apertava seu pescoço. Apertou com força. Com tanta que se fez ouvir um estalo. O pescoço do monstro havia quebrado.
A luta deveria ter sido barulhenta, pois chamou a atenção do carcereiro. Com seus passos lentos ele chegou perto da cela e viu, sem mudar sua expressão pacata, um dos prisioneiros caído morto no chão. O troll abriu a porta e foi em direção ao goblin caído, iria apenas jogar o defunto fora. Evandro aproveita esse momento de distração e corre porta a fora. Se livrando da cela que o prendia por tanto tempo. O troll de tão parvo não notou a fuga, apenas continuou com sua tarefa.
Evandro correu por vários corredores mal iluminados, pelo caminho viu muitas outras celas que serviam de cárcere para muitas pessoas. As celas eram variadas, homens eram presos junto com mulheres, crianças com adultos. Não havia nenhum tipo de preocupação quanto a classificação. Todos estavam na mesma situação, tratados feito animais. Alguns tinham mais sorte, assim como Evandro, foram postos em celas mais vazias. Outros porém disputavam espaço com muitos, amontoados como se fossem gado. Cinara não foi a única que sofrera aquela estranha mutação. Em outras celas era possível ver prisioneiros em processo de "globinização", outros já completamente transformados.
Uma luz! Após muito correr Evandro finalmente encontra um sinal de esperança, uma luz natural que provavelmente vinha do sol. Ela entrava na masmorra por um buraco não muito grande feito na parede. Evandro se espreme por aquela abertura e consegue finalmente alcançar a liberdade. Porém ela não era como ele imaginava. Não importava para onde olhava só via mato, ao se virar para trás ele percebe que seu cativeiro havia sido construído dentro de uma caverna. - Mas quem se daria ao trabalho de construir uma prisão como essa?
Sônia
Com vinte e cinco anos e já divorciada. Casou cedo porque engravidou, mas o relacionamento não durou muito. Solteira, Sônia Brito se preocupava apenas com uma pessoa. Ela mesmo. Não muito materna, ela nem pensou duas vezes ao ceder a guarda do seu filho para o ex-marido. Morando sozinha em uma casa grande que herdou dos pais, a moça vive com o salário de assistente administrativo. Não é muito, mas como não tinha família para sustentar dava para se virar bem com ele. Viciada em academia, não conseguia passar um dia sem fazer alguma atividade física. Além da aeróbica e musculação, praticava artes marciais: Kung-Fu. O resultado foi um corpo escultural que mesmo já tendo passado por uma gravidez era impecável. Atraindo muitos pretendentes, Sônia gostava de esnobar e se fazer de difícil.
O seu expediente começava a tarde, com a manhã livre ela acordava cedo para ir a academia. Estava vestindo sua roupa de ginástica. Inclusive uma calça colada que levava muitos a loucura. Sônia ainda tomava café, sanduíche natural com suco de laranja, quando ouviu um som estranho de confusão vindo da rua. Uma espiada pela janela da sala revelou a zona de guerra na qual a cidade havia se transformado. A multidão corria, parecendo fugir de algo terrível. Sônia não achou prudente ficar assistindo a cena pela janela. Temendo uma bala perdida, ela se agachou debaixo da mesa e pegou seu celular. Ligou para a polícia.
Ainda estava conversando com o policial do outro lado da linha quando ouviu um rosnado gutural. Foi checar o que era, voltando a olhar pela janela, mas agora agachada, ela viu a criatura mais feia que já tinha visto na vida. Na frente do portão da garagem um monstro forçava a entrada. Era grande e musculoso, com um rosto medonho piorado com a presença de dois chifres. Aquilo era um troll, mas como não sabia disso a moça se referiu a ele com a coisa mais próxima que encontrou em sua cultura.
- Tem um demônio tentando entrar em minha casa! - Sônia se queixou sem pensar. Assim que ouviu o tom de deboche no outro lado da linha percebeu que tinha jogado fora aquela oportunidade de pedir ajuda. Sem ter cabeça para contornar a situação, ela desliga o celular e corre para o andar de cima. Enquanto subia as escadas ainda conseguia ouvir o troll golpeando o portão. As batidas eram fortes, mais cedo ou mais tarde ele conseguiria invadir.
No quarto que era do seu irmão, Sônia procura por qualquer coisa que poderia usar como arma. Acaba encontrando um taco de beisebol. - Perfeito! - O esporte não era muito popular no país, mas o seu irmão quando vivo havia conseguido entrar em um time pequeno quando foi viver nos EUA. A carreira parecia promissora, mas foi interrompida pela mistura bebida e direção.
Ao sair do quarto do irmão, Sônia dá de cara com um vulto. Nem pensa duas vezes. Bate o taco com força na cabeça do invasor. O golpe foi tão forte que o crânio da criatura rachou espalhando tecido encefálico no corredor. O coração de Sônia dispara, ela nunca havia agredido alguém, não para valer, muito menos matado. Ela examina superficialmente o intruso e nota que não se tratava de uma pessoa. Poderia ser qualquer coisa menos isso. O monstro era verde e orelhudo, um goblin.
Sônia não teve nem tempo de descansar, subindo as escadas mais daquelas criaturas. Arriscando sua vida, a assistente administrativa foge pelo único lugar possível, a janela do corredor. Por lá era andava pelo beiral e tencionava subir no telhado da casa vizinha. Ela consegue cumprir seu objetivo, mas algo dá errado. As telhas da casa não aguentam o seu peso. O telhado cede e ela acaba parando no meio da sala.
- Que porra é essa?!
Era de se esperar a reação de susto do morador. Como se já não bastasse a zona na rua tinha que aturar uma mulher caindo dos céus. O medo passa e dá lugar a preocupação quando ele reconhece a moça que havia descido a sua sala. - Menina, o que diabos aconteceu?
- Monstros por toda a parte! É o fim do mundo! O apocalipse! - Sônia nunca foi muito religiosa, mas nada como um momento de desespero e pânico irracional para se recuperar a fé.
- Deve haver uma explicação sensata para isso. Devem ser os alienígenas! - Floriano tinha sessenta e dois anos. Quando jovem teve uma experiência com seres de outro planeta, ou ele assim acreditava. Como ninguém o levava a sério, ele suprimiu aquela história. Mas sua crença ainda estava latente, procurando uma oportunidade para aflorar, como agora.
- Não existe essa coisa de extraterrestres.
- Ok, tudo bem. Acreditar em anjos e demônios deve ser muito mais racional. - Disse Floriano ironicamente.
A casa de Floriano era pequena, talvez por isso não tenha chamado a atenção do exército invasor. A única ligação com a rua eram a porta e a janela de madeira da sala, que estavam trancadas. Sônia se levantou, sem deixar o taco para trás. Ficou em posição, como um jogador que espera a bola arremessada para dar uma tacada.
- Menina, relaxa. Se fizermos silêncio ninguém vai nos notar aqui e nos deixarão em paz. - Mal Floriano havia terminado de falar e a parede da frente de sua casa vem a baixo. Uma calda de lagarto estupidamente grande a derrubou com um simples golpe. Floriano e Sônia se afastaram bem a tempo. Ficaram impressionados, não querendo acreditar no que seus olhos revelavam. A criatura era magnifica, um lagarto alado gigante com escamas tão brancas que brilhavam e olhos de um azul intenso. Floriano ignorou o perigo e se aproximou, com mais curiosidade do que medo. O dragão aproximou o seu focinho e Floriano chegou até a pensar que poderia acariciá-lo. Como se faria com um animal de estimação qualquer. O dragão abre sua boca e sopra uma labareda. O fogo foi tão intenso que Floriano morreu sem sentir dor alguma. Sônia conseguiu escapar, mas as chamas lamberam um pouco o seu braço direito. A queimadura foi superficial, mas incomoda.
O dragão abriu as asas e alçou voo deixando para trás uma casa em escombros e um corpo calcinado.
A ficha ainda não tinha caído, Sônia não se deu conta do perigo que correra nem que seu amigo havia acabado de morrer. Andando calmamente, apenas segurando o braço machucado, ela sai da casa e ganha a rua. Sem se importar em se expor para as criaturas que tomavam a cidade. Seu celular toca, devido ao seu estado de choque ela o ignora deixando a ligação cair. Sônia só atende quando ligam pela segunda vez. Calmamente ela pergunta. - Quem gostaria?
- Graças a Deus! Você esta bem! O seu filho não para de perguntar por você! - Na outro lado da linha falava Jaquison, seu ex-marido e pai do seu filho. - Onde você esta?! Você esta bem?!
- Esta tudo acabado. O mundo. Já era. - Jaquison não entendeu o que sua ex-mulher estava querendo dizer. Por isso a ignorou e tratou logo de transmitir sua mensagem. - Nós estamos no shopping Max, eu e seu filho. Aqui é o lugar mais seguro da cidade, esta cheio de gente, tem seguranças armados. Eu até iria te buscar, mas tenho que tomar conta do nosso menino. - Sônia não deu certeza se iria até o tal shopping. Na verdade não disse mais nada. Apenas desligou o celular na cara do ex-marido.
Sônia começou a andar como um zumbi, com passos lentos e olhar vago. Ainda carregava o taco de beisebol, mas não parecia alerta para o combate. O shopping Max não era muito longe, mas a pé o percurso levava uns quarenta minutos. E com as ruas naquele caos não deveria ser tarefa fácil. Por onde ela caminhava a moça via morte e destruição. Vários corpos jogados pela rua de pessoas em fuga e até mesmo de alguns monstros. Havia choro, lamentações e gritos. Uma verdadeira guerra, talvez pior do que uma, já que um dos lados não estava preparado.
Com o seu caminhar automático Sônia conseguiu sem dificuldade chegar até a metade do caminho. Talvez tenha sido sorte, ou talvez os monstros preferissem vitimais mais ativas ou que corressem em bando. Mas toda sorte tinha um limite. De um prédio abandonado uma criatura feia espiava o caminhar de Sônia. Espiar era modo de dizer, já que o monstro não tinha olhos para enxergar. A criatura era cinza, tinha dentes de vampiro e garras compridas em mãos desproporcionalmente grandes. Esse vampiro veio a cidade bem antes do exército de monstros. Algumas semanas atrás moradores na região se queixaram de um estranho ladrão de comidas. Adivinha quem era?
O monstro foi tão furtivo que Sônia não percebeu sua aproximação. Ele vinha pelas costas, estava preparando um bote. Quando já ia soltar para pegar sua presa o vampiro cai duro no chão atingido por um tiro. Sônia olha para trás assustada pelo barulho do disparo tão próximo. O vampiro jazia morto no chão, ao longe um policial empunhava uma espingarda. Não tinha como ela saber, mas seu salvador era o mesmo homem que havia atendido sua ligação à polícia naquela manhã. A coincidência não parava por aí. Assim como ela, o policial também estava em busca do filho. Não havia tempo para conversa ou agradecimentos, o policial seguiu seu rumo e ela também. Os dois prosseguiam em direções opostas.
Alguns minutos depois Sônia chega ao bendito Shopping Max. O centro comercial mais badalado da cidade havia se transformado em um campo de refugiados. Centenas esperavam ali pelo fim do caos que reinava. Apesar da multidão Sônia não teve dificuldade em encontrar seu ex. Ele era um homem difícil de perder de vista. Já que tinha quase dois metros de altura. Deixando suas desavenças de lado Sônia abraçou Jaquison e em seguida o seu filho. David tinha apenas oito anos de idade. Era uma criança pequena e rechonchuda. Inocente, ele ainda não tinha a capacidade de entender a gravidade da situação. Tanto era que havia gostado daquele dia. Recebera uma visita e um abraço caloroso da mãe, não era algo que ocorria sempre.
Os três encontraram um cantinho para ficar dentro de uma loja de roupas. Não havia mais ninguém ali, seguranças ou refugiados. Era quase que como se tivessem voltado a ser uma família. Estavam curtindo a privacidade, juntos em um canto qualquer, usando várias roupas amontoadas como colchão. Sônia foi fazer um carinho na cabeça do filho quando notou uma estranha protuberância. Ela afastou o cabelo do menino para examinar melhor.
Susto!
David estava com um par de chifres nascendo, algo que podia soar como cômico, mas que vivenciado na prática era assustador. Mesmo que não muito usado Sônia ainda tinha instinto materno. Se preocupando mais com o bem estar do seu filho do que com a estranheza da situação a mulher pegou um boné azul e pôs em cima da cabeça do menino.
- Não se preocupa, seja lá o que aconteça, mamãe esta aqui.
