O Dia Seguinte

Jorge

Silêncio. Com o amanhecer a algazarra generalizada deu lugar a uma quietude intensa. Jorge Santana olha pela janela do quarto do seu filho a rua. A guerra parecia ter acabado. Os monstros não mais atacavam, haviam sumido completamente, sendo deixado para trás apenas os que morreram na investida. Uma prova de que aquele fatídico dia não havia sido causado por alucinação ou histeria coletiva. - Querido, acorde. - Miguel havia caído no sono. Ele sempre recorria àquela espécie de fuga quando a dor, o medo ou a tristeza ficavam fortes demais para suportar. Era a única forma de escapar da realidade que ainda conseguia fazer.

- Pai!? O que houve?! Cadê Sintia?! - A enfermeira do garoto não estava mais entre eles. Seu corpo jazia morto na sala da casa e já começava a feder. Jorge achou por bem poupar seu filho daquela verdade, mas não adiantou de nada. Miguel era esperto demais para não ter percebido isso. Com todo cuidado do mundo Jorge carregou Miguel no colo e o colocou em sua cadeira de rodas. O ajeitou o melhor que pôde. - Miguel, olha para mim, quero que você feche bem os olhos. Só abra quando eu mandar. - Jorge empurrou a cadeira em direção a saída, mas para isso teve que passar por onde Sintia estava jogada. Assim que saiu da casa ele permitiu que o filho voltasse a abrir os olhos. A cena era devastadora: muita gente morta, casas destruídas... Jorge acharia melhor que Miguel também fosse polpado dessa imagem, mas não podia fazer com que seu filho ficasse cego por muito tempo. A não ser que colocasse uma venda em seus olhos, o que seria muita perversidade já que Miguel não tinha como tirá-las já que era tetraplégico.

Jorge andou com o seu filho por várias ruas, nem sabia para onde deveria ir, só seguia em frente. Sua única certeza era a impossibilidade de permanecer na casa. Não havia apenas cadáveres nas ruas, haviam também muitos sobreviventes que tentavam reunir seus familiares ou recuperar qualquer bem perdido. No meio da tragédia ainda tinha aqueles que se aproveitavam do momento de fragilidade do povo e vociferavam reprimendas religiosas morais, como se soubessem qual era a causa daquilo tudo ter acontecido.

- Pai, estamos indo para onde?

- Procurar ajuda, filho. Não é possível que tenham destruído tudo. Mais cedo ou mais tarde encontraremos alguém disposto a ajudar.

Atendendo as preces do policial Vários furgões pretos começaram a entrar pela rua. Os modelos daqueles furgões eram desconhecidos, eram maiores que os comumente encontrados e tinham todo um jeitão futurista. Na porta do lado havia uma logomarca com letras garrafais dizendo Cyberdine. Os furgões pararam no meio da rua e de lá de dentro saíram homens armados. Usavam roupas estranhas, parecendo mais cosplayers de ficção científica do que soldados de verdade. Todos no peito carregavam um conjunto de números e letras parecendo algum código de produto. Miguel olhou para os soldados e não pôde deixar de rir. Na concepção do garoto mais pareciam Stormtroopers. Porém eram todos pretos ao invés de brancos.

- Cidadãos, a ajuda chegou. - Dizia uma voz metálica que vinha de dentro do furgão, provavelmente oriunda de um equipamento de som com baixa qualidade de áudio. - O governo da República Democrática do Brasil enviará um soldado para cada bairro, para conter as novas ameaças será instituído estado de sítio com toque de recolher e outras medidas. Quem precisar de ajuda médica não se preocupe. Esta a caminho.

- Por favor, meu filho é especial! - Jorge tentou buscar ajuda, mas usou as palavras erradas. Miguel odiava ser chamado assim. - Preciso de ajuda médica e... - Jorge tentou se aproximar de um dos furgões, mas um soldado que fazia guarda o empurrou, impedindo sua passagem. - Hei! Seu troglodita! - O soldado foi ainda mais drástico, pegou sua metralhadora e apontou para o peito de Jorge. - Tudo bem! Estou de saída! - A vontade que o policial tinha era de pegar o revólver do seu coldre e meter bala na cara do ignorante. Mas estava em menor número e não podia arriscar a vida do seu filho. A pessoa mais preciosa em sua vida.

- Calma, filho. O pior já passou.

Jorge estava se afastando dos furgões quando de repente uma sombra impediu a passagem do sol. Devido a isso ele olha para cima tentando ver o que bloqueava a luz. Fica embasbacado ao encarar um dirigível azul com proporções descomunais. O dirigível voava a poucos metros dos tetos das casas. Em suas laterais haviam duas telas que transmitiam a imagem do presidente da República em meio a um pronunciamento. Miguel tentou olhar para cima, mas a proteção do pescoço de sua cadeira limitava sua já pouca mobilidade. - Pai, o que esta acontecendo?

- Desisto. O mundo virou um hospício.


O Presidente da República

No Palácio da Alvorada, no jardim a sua frente, ele ficou olhando para o céu a espera de sua mais nova aliada. Ela estava demorando, mas o presidente se sentia compreensivo. Não deve ser fácil destruir uma das maiores megalópoles do país. Mesmo com o apoio de um exercito e tendo tantas habilidades. Após uma espera de mais ou menos duas horas ela apareceu. Veio voando em todo o seu esplendor. Uma criatura única, com doze metros da ponta de uma asa a outra. A dragonesa pousou bem na frente do presidente. Tinha escamas brilhantes de tão brancas e um olho azul bem vivo. Era um tipo de beleza não apreciada por muitos, já que a maioria se borrava de medo com a sua presença. O lagarto gigante começou a se transformar, suas medidas reduziram bastante e seu formato reptílico deu lugar a um mais humano. Deixando sua forma de dragão para trás ela se tornou uma linda mulher. Ainda era bem alva e seus olhos continuaram com o mesmo tom de azul. Seus cabelos eram vermelhos e compridos, seu rosto cheio de sardas. Apesar de ter um corpo atraente e chamativo ela não se importava em andar nua, já que não conseguia se transformar com as roupas. Ela também não tinha o que temer. Ninguém a atacaria ou forçaria um contato intimo. A menos que quisesse receber uma cusparada de fogo na cara.

- Dagmar, apesar de gostar de te ver assim, acho que não fica de bom tom entrar no congresso sem vestir algo.

Um funcionário trouxe para a dragonesa roupas com que pudesse vestir. Ela se vestiu ali mesmo, na frente dos dois. O presidente sentiu tanta atração que teve que desviar o rosto e pensar em outra coisa. Não queria aumentar o volume na sua calça. - Pronto. - Disse Dagmar. - Podemos começar. - A dupla entrou no plenário, a casa estava cheia. Todos querendo saber qual medida seria tomada para contornar a situação sem precedentes. O presidente sentou em sua cadeira e começou a dar seu pronunciamento. Todas as câmeras apontadas a ele.

- Eu aceitarei o fardo de reerguer o país. - Disse o presidente. - A partir de hoje as eleições estão revogadas até o problema ser sanado. Não podemos perder tempo com desavenças políticas enquanto o povo sofre! A crise exige pessoas mais competentes e ágeis. Por isso haverá algumas mudanças nos quadros de prefeitos e senadores de localidades chave e porei no cargo pessoas de altíssima confiança e reputação ilibada.

- Isso é um absurdo! Você quer virar um ditador?! E a constituição?! - Um dos senadores presentes se levantou da mesa irritado, apontando um livro para cima como se tivesse invocando poderes dele. O tal livro era a constituição federal do país.

- Olha só o que eu faço com sua constituição! Dagmar! - A mulher que estava ao lado do presidente só precisou dar uma cusparada. Uma pequena bola de fogo voou em direção ao livro da constituição que o senador segurava e o queimou por completo. O senador precisou largar o livro rápido se não quisesse ter sua mão queimada.

- Acho que eu já sei quem será o primeiro a ser cassado.


Antoine

O Le Grand Guignol estava em turnê na Suíça, mas as apresentações tiveram que ser interrompidas. Não havia clima para circo com os eventos que assolaram o mundo no dia anterior. O Rio de Janeiro foi atacado por um exército de goblins e um dragão albino. Paris foi invadida por uma horda de vampiros. Tóquio sofreu com um monstro tão grande que faria o Godzilla parecer um filhote. Havia ainda os homens-morcego na Libéria, os Rakshasa em Mumbai, os gigantes de gelo em Oslo e mais tantos outros casos. Antoine Pierre assistia as notícias em uma televisão que foi posta na frente do seu trailer, na parte externa da área do circo. Toda a trupe assistia junto, assustados, achando que havia chegado a hora em que o mundo encontraria seu fim. Neville estava chorando, ver aquelas lágrimas de pavor no filho foram a gota d´água. Antoine se sentia culpado. Não que tivesse feito algo que provocasse um daqueles eventos, mas foi conivente com eles.

Sem conseguir encarar seus colegas, e principalmente seu filho, Antoine entra no seu trailer e fecha a porta com brutalidade. Para extravasar a raiva ele ainda chuta o armário de seu quarto. Não que suas perninhas atrofiadas pudessem fazer muito estrago, era só para descarregar a frustração.

- Pai? Tudo bem? - Neville entra no trailer do seu pai com cautela, pois sabia que ele estava com muita raiva, só não entendia o motivo. Apesar de ser muito maior que Antoine, Neville o respeitava bastante. Desde os seis anos de idade ele já não sentia as bofetadas "pedagógicas" que seu pai dava. Mesmo assim fingia que doíam e acatava suas ordens.

- Agora não, garoto. Me deixa sozinho!

- Isso é por causa do que aconteceu na França? - Antoine era francês, por isso faria sentido ele ficar abalado ao saber que seu país sofrera um ataque daqueles. Neville também era, ao menos no papel, porém viajou tanto sua vida toda que como resultado nunca se ligou a uma cultura em especial.

- Isso é tudo culpa do seu pai! Seu pai é um monstro! - Antoine pôs as mãos no rosto para tentar esconder suas lágrimas. O que não deu muito certo. Neville sentou na cama e o abraçou. Tentando confortá-lo. - Não foi culpa de ninguém. Quem poderia adivinhar uma coisa dessas? - As palavras de consolo tinham o efeito contrário do esperado, pois Antoine sabia de tudo. Isso o fazia sentir ainda mais culpado.

- Maldita magia! Por que foi achar de voltar?! - Ao ouvir o desabafo do seu pai Neville se lembrou das histórias que o circo contava nas apresentações. Naquele instante sua mente deu um estalo. - Pai? As narrativas do circo são faz de conta, certo? Esse negócio de que a magia era predestinada a voltar é fantasia, né? - Antoine encarou o filho e tentou responder, mas não conseguia. Por um lado era difícil contar a verdade, pelo outro não queria mentir para ele.

- Meu Deus! - Neville se levantou em um salto, largando o seu pai com tanta rispidez que o anão quase cai da cama. - Isso faz de você um profeta?!

- Não, menino. Seu pai é só um anão que contra todas as probabilidades deu certo na vida.

- Então como você sabia que..?

- Existe um castelo nesse país que reúne muita gente importante. É como se fosse um clube extremamente VIP. Seu pai faz parte desse "clube". - Neville fez um olhar estranho para Antoine deixando claro que não tinha entendido direito. O anão então decide abrir o jogo de vez. - Seu pai é membro da Ordo Dracul, uma sociedade secreta que desde tempos imemoriais se prepara para o retorno da magia no mundo. Pois bem, a magia voltou. É por causa dela que se tem monstros correndo na rua e que truques baratos se tornaram verdadeiros. É por causa dela que você agora esta tendo resultados autênticos quando lê a sorte de alguém no jogo de tarô, por exemplo.

A cabeça de Neville só faltou explodir com essa revelação, o medo de um possível apocalipse foi substituído pelo fascínio por uma nova era cheia de possibilidades. - Mas isso é incrível!

- Eu também pensava assim e olha só no que deu. A desgraça da magia mal voltou e já causou a morte de milhões! Eu devia ter ouvido meus pais, nada que vem dela presta! - Antoine foi criado em uma religião que não acreditava em vida após a morte e que odiava qualquer coisa ligada a espíritos ou magia. A crença ensinada a ele pelos seu pais dizia que a consciência não sobrevivia a morte física, mas que no final dos tempos os fiéis iriam ressuscitar e viver para sempre no paraíso a qual a Terra se tornaria. Ps: só os fiéis dessa crença teriam essa sorte, os de outros credos ou os ateus iriam sumir mesmo. Ao menos era melhor do que ser torturado para sempre.

- Não tem como contornar isso? Quer dizer, a magia ficou escondida por tanto tempo, será que não dá para escondê-la de novo?

Aquela pergunta deixou Antoine animado, o afastando daquele estado de autopiedade. Ele consultou seu livro preferido. O de capa preta e sem título que ficava na base da estante, em uma altura que ele poderia facilmente pegar. Neville sempre teve curiosidade em saber o que seu pai via tanto naquele livro, até tentou lê-lo escondido uma vez, mas não conseguiu. Estava escrito em uma língua estranha que ele não soube identificar.

- Que livro é esse? Sempre tive curiosidade em saber.

- É o livro de iniciação da Ordo Dracul, é escrito em uma língua que só os iniciados conhecem.

- Hmmm, isso explica muito.

- É, fodeu. O sobrenatural vai e volta do mundo ao seu bel prazer. Não dá para interferir nisso.

- Se não tem remédio, remediado esta.

Antoine não gostou dessa resposta e tentou procurar por outra coisa que ajudasse. Folheou várias páginas até encontrar algo que fosse interessante naquele momento. - Dracul tem um irmão!

- Quem é esse aí?!

- É o líder da nossa ordem, um elfo rei da magia e... - Neville olhou para o pai com uma tremenda cara de espanto. Seus olhos ficaram o mais esbugalhados possível e sua boca escancarada. Antoine entendeu que aquilo era informação demais para o garoto. - Resumindo: se acordarmos o irmão de Dracul, Simladris, o maldito poderá perder sua coroa e o poder sobre milhares de seres místicos. Não podemos expulsar o sobrenatural do mundo, mas podemos pelo menos fazer com que ele não destrua tudo sob a ordem de uma só mente.

- Legal. O que a gente tem que fazer?

Antoine leu a parte do livro que falava sobre o que era necessário para acordar Simladris e sua animação inicial acabou escorrendo pelo ralo. O anão fecha o livro e com ele bate com força na sua testa.

- Deixa para lá, estamos fodidos mesmo.