Projeção de Consciência

Neville

São Google, procurai por nós.

Neville perguntou ao pai, Antoine Pierre, qual era o motivo dele ter ficado tão desesperançoso. - Acordar esse tal de Simladris não deve ser assim tão difícil, certo? - Errado. O único ser místico que poderia fazer frente a tirania de Dracul estava repousando em um lugar inacessível. Para acordá-lo era necessário encontrar seu local de repouso. Que ficava em uma dimensão extrafísica. - Desista, garoto. Só dá pra chegar em um lugar desses de uma maneira: morrendo! - Respondeu o anão. Neville, que não era de desistir, não se abalou. Passou a tarde toda procurando alguma solução na internet. Não era a fonte mais confiável, mas era a melhor ao alcance. Após muito pesquisar encontrou um assunto que poderia ajudar em sua jornada. Projeção astral. Desprender seu espírito do mundo material sem ter que perder a vida para tanto. Valia a pena tentar. O que poderia dar errado?

O centro de estudo da consciência mais próximo ficava a três cidades de distância. Antoine não queria continuar com aquilo, mas após Neville insistir tanto ele acaba cedendo. Nem que fosse só para o garoto desistir dessa ideia de vez. Com o carro emprestado do seu pai Neville viajou até o endereço posto no site. Queria ter sorte, o telefone de contato não estava funcionando, não havia nem garantia que seria recebido. Depois das catástrofes que assolaram o mundo na semana passada muitos serviços estavam suspensos, principalmente os que não eram vistos como essenciais.

As ruas estavam geladas, tanto que foram cobertas por uma grossa camada branca. Na tentativa de livrar as estradas da neve as autoridades locais contratavam tratores que espalhavam sal nelas. A neve quando derretia se misturava ao sal e acabava criando água salgada. Essa água acabava estragando os motores dos carros, pois seu efeito era similar ao do salitro no ferro. Neville ouvia um ronco estranho saindo do maquinário do veículo. Ele torcia para que não desse problema até pelo menos chegar onde queria. Aos trancos e barrancos Neville encontra o prédio que procurava. O centro de estudo Awakening.

O jovem trapezista estava vestido com roupas grossas dos pés a cabeça, nas mãos usava luvas de couro próprias para afastar o frio. Mesmo estando preparado o clima incomodava. Aquela cidadezinha do interior era acostumada a baixas temperaturas, mas aquela tarde estava frio até mesmo para os seus padrões. Não havia ninguém de bobeira na rua, todos pareciam evitar sair, preferindo se enfurnar em casa, tentando segurar o pouco de calor que encontravam.

Neville apertou a campainha e rezou para que alguém atendesse logo a maldita porta. Como se já não bastasse o frio, ventava muito fazendo com que a sensação térmica fosse lá para baixo. O garoto tentou cinco vezes, na última havia deixado sua compostura de lado e praticamente começava a agredir o botão com seu dedo indicador. - Será que tudo foi em vão?! - Se perguntava ao imaginar que aquela viagem pudesse ter sido uma perda de tempo. Alivio. Uma alma caridosa abre a porta. Um homem de cinquenta e poucos anos, calvo e barrigudo. Neville achou que seria logo convidado a entrar, mas o sujeito bloqueou a porta com seu corpo e pediu que explicasse qual era o motivo da sua visita antes. - Não faz mal. - Pensou o rapaz. Aguentou o frio por tanto tempo, não morreria por mais alguns minutos.

O coroa começou a olhar para Neville meio atravessado. Achava estranho alguém ter tanta urgência em ter aulas de projeciologia. Uma coisa que poderia esperar por um dia mais agradável, quando o frio amenizasse. Se ele soubesse que o garoto viajou três cidades só para ter essa conversa ficaria mais de orelha em pé ainda.

- Você pode se matricular se quiser, mas a próxima turma só começa daqui a duas semanas. - Isso não era a resposta que Neville esperava, tinha urgência.

- E se eu pagasse um pouco mais para ter uma aula relâmpago?

O senhor chegou a achar graça daquela proposta, mas como percebeu que o garoto estava muito interessado o chamou para conversar na sala da diretoria. Neville adorou o lugar assim que pôs os pés nele, principalmente porque o aquecedor era mais forte ali dentro. Neville sentou em um sofá e o outro se acomodou em uma poltrona que ficava atrás de uma mesa.

- Jovem, até admiro seu empenho para com a nossa doutrina, mas se projetar não é algo que se aprende assim do dia para noite. É algo que leva tempo.

- Senhor...

- Nolan. Pode me chamar de Nolan.

- Nem sei explicar isso sem parecer loucura, mas é que... é um caso de vida ou morte.

Nolan se ajeitou na cadeira, começou a ficar interessado. - Por favor, desenvolva.

Neville sabia que a verdade soava esquisita por isso sentiu um pouco de vergonha ao expressá-la. Contou a Nolan sobre a mudança que o mundo estava sofrendo e que agora o impossível era real. O garoto também explicou o que sabia sobre os ataques que assolaram várias cidades pelo mundo. - É o retorno da magia. O início da Nova Era. O impossível agora é mundano. - Disse o garoto. Um silêncio se fez presente e Neville ficou angustiado. - Será que ele vai pensar que sou maluco? - Temia o garoto. Para sua surpresa a reação de Nolan foi mais receptivo do que ele esperava. O garoto não sabia, mas aquele homem era um esotérico de carteirinha, amante dessa conversa de nova era e cristais pendurados na parede. Neville havia ganhado sua simpatia logo na segunda frase.

- Há uns quatro ou cinco meses começaram a acontecer alguns fatos curiosos nas aulas. - Relatou Nolan. Agora foi Neville que teve seu interesse pela conversa instigado. - Em uma aula qualquer um garoto foi tentar energizar seu colega. Essa é uma pratica comum aqui, nunca aconteceu nada de excepcional no uso dela, mas desta vez...

- O quê?! - Perguntou Neville ansioso para saber como aquela história terminava.

- O garoto pôs a mão no peito do colega e de repente liberou uma energia tão forte que o outro foi arremessado contra a parede oposta. Alguns disseram até terem conseguido ver uma luz azul saindo da mão do menino. Isso nunca aconteceu antes. Fora isso os relatos das projeções astrais dos alunos começaram a ficar cada vez mais fortes. Tanto que muitos ficaram assustados e abandonaram o curso. Um aluno, por exemplo, disse ter visitado uma linda praia em uma projeção, quando ele percebeu suas roupas estavam cheias de areia. Imagina! Areia! Onde ele iria encontrar areia em uma cidade como essa?! Há quilômetros do mar.

- É a magia.

- Dane-se. Vamos ver se você é bom em se projetar. Não tem mais ninguém aqui mesmo. Se quiser eu te dou uma aula relâmpago. E quer saber? Não vou cobrar zorra nenhuma. Você trouxe luz a algo que me deixava perplexo. Acho que é o mínimo que posso fazer para agradecer.

O instrutor fez o melhor que pôde, mas reduzir o tempo de aprendizado que levava semanas a apenas um dia se mostrou acima de suas capacidades. As primeiras três horas foram gastas apenas ensinando a Neville o que ele precisava saber na teoria. Até aí tudo bem. A dificuldade veio com a parte prática. Passaram-se horas e o espírito do garoto teimava em não querer sair de seu corpo material. É, aquele dia não deu.

- Não seja duro demais consigo mesmo. Tem gente que aprende mais rápido, outros levam mais tempo. É normal.

- Quanto tempo você levou para aprender? - Perguntou Neville.

- Eu me projetava antes mesmo de saber o que era isso. Com treze anos eu saia do meu corpo sem perceber, só entendi o que acontecia comigo quando comecei a trabalhar aqui. Por isso passei de estagiário para professor em um pulo. Nossa! Nessa brincadeira foram quase trinta anos.

- Que sorte a sua.

- Com certeza. São bem poucos os que conseguem se projetar sem nenhum treinamento prévio.


Miguel

Assim que abriu os olhos Miguel Santana se espreguiçou na cama. Seus braços e suas pernas respondiam aos comandos de seu cérebro isso era sinal de uma coisa: ele ainda estava dormindo. A sensação era boa, poucos dão valor a benção que é poder controlar o próprio corpo. Aquela alegria só era valorizada por aqueles que a perdiam, e sabiam que falta ela fazia. O garoto se pôs de pé. Seu corpo astral estava em uma replica quase perfeita do seu antigo quarto, já seu corpo físico repousava na casa de sua tia, que ficava fora da capital. O garoto caminha até a porta. - Que sensação boa é caminhar! - Pensou. Ao abri-la porém não deu de cara com a sala, o que seria mais lógico, foi parar em uma praia, olhou para trás e não havia mais porta por onde voltar.

Fazia tempo que Miguel não tinha essa sensação, dos pés descalços caminhando sobre areia morna. A areia se infiltrando por entre seus dedos que afundavam um pouco. A última vez que teve essa sensação foi naquele dia. No dia que tomou a pior de suas decisões. - Os outros conseguiram pular, por que eu não conseguiria? - Era impressionante como uma brincadeira boba poderia mudar tanta coisa. Um mergulho. Só bastou isso para por tudo a perder.

Miguel caminha um pouco por aquela praia até que se depara com Sintia tomando banho de sol. Ele nunca a viu só de biquíni no mundo real, apesar de que podia imaginar que deveria ser uma bela visão. No seu sonho lá estava ela, confirmando aquela ideia. Deitada de bruços por cima de uma toalha de praia, linda, só de biquíni e o que era melhor, viva e feliz. Miguel se sentiu bem ao ver aquela imagem dela curtindo a vida. Porém a sensação boa não durou muito, a memória dela morta veio a sua mente e uma lágrima escorreu pelo seu rosto, no mundo astral e no físico. - Desculpa. - Foi só o que conseguiu dizer. Se não perdesse tempo se preocupando com ele, o "inválido", talvez ela tivesse conseguido fugir.

- No início da humanidade o véu da realidade que cobria o mundo era fino fazendo com que o contato com o sobrenatural fosse mais intenso, antigamente a magia era forte. Mas isso foi passado. O mundo mudou, o homem trocou as maravilhas pela razão, o véu da realidade esta mais forte do que nunca. Mas isso irá mudar quando a magia voltar ao mundo criando uma nova era.

Em um pequeno palco circular situado na água do mar uma pessoa usando paletó e cartola vermelha fazia seu anuncio. Miguel reconheceu que aquelas eram as palavras de abertura da apresentação do Le Grand Guignol. O apresentador no sonho usava as mesmas roupas do apresentador que Miguel viu no circo. Porém a versão onírica estava bem longe de ser um anão, era até bem alto.

O apresentador falou sobre como a magia podia trazer maravilhas ao mundo e apontou para a sua esquerda. Miguel olhou para aquela direção e viu uma multidão se aproximando. Porém a multidão não era formada por pessoas, mas sim por criaturas verdes, com orelhas pontudas e dentes e garras afiados. Goblins. Miguel nunca os tinha visto quando estava acordado, já que permaneceu com um cobertor cobrindo a cara durante todo o ataque ao Rio de Janeiro. Mesmo assim ao vê-los agora pela primeira vez entendeu que esses monstros foram os responsáveis pela morte de Sintia. - De novo não!

Miguel não pôde salvar Sintia no mundo real, mas no sonho era diferente. Agora podendo se mover ele estava determinado a não deixar que sua amiga fosse pega uma segunda vez pelos monstros. Miguel agarra o braço de Sintia e a puxa com força, fazendo com que ficasse em pé na marra. Ele começou a correr segurando a mulher pelo braço. Sem olhar para trás Miguel escapa das criaturas ao sair da areia. No outro lado da rua uma casa com porta aberta, sem pensar duas vezes ele entra.

Assim que passa com Sintia pela porta Miguel toma o cuidado de trancá-la. Não sabia se essa medida de segurança era necessária em um sonho, mas decidiu não arriscar. Ele olhou para sua amiga e se espantou com a mudança. Ela não vestia mais roupas de banho, estava vestindo uma de suas roupas convencionais que usava para trabalhar. - Claro! - Pensou Miguel. Roupa de banho é só para praia, em um sonho a gente muda de fisionomia ou de vestuário a depender da situação. Miguel nem havia notado, mas quando caminhava na praia estava só de sunga. Agora ele vestia uma calça jeans e uma camiseta vermelha.

- Sintia? Você é você mesmo? - Após a satisfação de ter conseguido salvar sua amiga ter diminuído um pouco uma duvida abateu Miguel. Aquela era a Sintia verdadeira que de alguma forma o visitou em seus sonhos ou era só uma cópia produzida por sua imaginação?

Sintia o ignorou fazendo com que ele colocasse em duvida sua identidade. Deixando a enfermeira um pouco de lado, Miguel começou a admirar o interior da casa a qual entraram. O lado de dentro era muito grande, ao contrário do lado de fora que era pequeno. Uma lógica que só uma realidade não material poderia conceber. Miguel de imediato percebeu que aquilo não era uma residência, mas sim uma biblioteca. Uma biblioteca enorme, com estantes cheias de livros a perder de vista. O garoto se aproxima de uma estante qualquer e puxa dela um volume aleatório. O livro tinha uma capa dura toda preta, não tinha nem titulo. Miguel começou a folheá-lo. Apesar de estar escrito em uma língua estranha ele conseguia entender tudo claramente. Miguel ficou fascinado. Aquele livro continha uma versão da história do mundo muito pouco ortodoxa. Revelava vários mistérios. O garoto começou a lê-lo com voracidade até que aquele mundo foi deixado para trás.

Miguel abre os olhos novamente. Ao tentar se espreguiçar percebe que seus braços e pernas não respondiam mais. Estava acordado. - Que merda! - Reclamou o garoto em pensamento. Jorge, seu pai, estava ao seu lado no quarto, sentado em um banco de madeira daqueles bem baixinhos. - Bom sonhos? - Perguntou o pai.

- Sim. - Respondeu Miguel se lembrando da presença de Sintia.

Os dois começaram a conversar trivialidades até que Jorge ao ajeitar a coberta do garoto percebeu que havia um livro em baixo de sua mão. Como não tinha sensibilidade naquele membro Miguel não notara isso, só soube quando seu pai contou. - Que livro é esse? - Era um livro de capa preta sem título, o livro que Miguel havia pego para ler em seu sonho. O menino o reconhece na hora, mas para não assustar o pai inventou uma mentira rápida. - Sua irmã me deu. Ela estava lendo para mim.

Jorge achou aquilo estranho. Sua irmã, Dandara, nunca foi muito cuidadosa. Não a imaginava perdendo tempo lendo para um garoto tetraplégico, mesmo o garoto em questão sendo seu sobrinho. Jorge riu ao imaginar a cena e guardou o livro sem muito cuidado em cima de uma escrivaninha que estava ali perto. - Já volto, filhão. Só vou comer algo. - Jorge deixou Miguel sozinho em seu quarto enquanto ia para a cozinha.

Miguel estava morto de curiosidade para voltar a ler o livro. O livro estava diante de seus olhos, a menos de dois metros de distância. Para uma pessoa "normal" bastaria levantar e dar um passo longo. Miguel juntou todas as suas forças para forçar seu corpo a obedecê-lo. Tentou várias vezes até que se deu por vencido. Em momentos assim é que ele mais odiava a sua sorte.