A Nova Ciência
Ariel
Ela ligou várias vezes para o celular do seu padrinho, Vitor Almeida. Mandou vários e-mails, e tentou conversar com ele no skype. Nada. Parecia que o homem havia simplesmente evaporado. Ariel Andrade começava a ficar preocupada, principalmente depois do que aconteceu no Rio de Janeiro. Ela achava que seu dindo estava fora de perigo, já que ele vive em Brasília. Se bem que Vitor viajava tanto. E se ele por azar estivesse no Rio durante a tragédia? Se esse fosse o caso porque ninguém noticiou? Ariel tentou conversar até com a secretária dele, aproveitando que tinha o telefone do seu gabinete. A mulher só dava respostas evasivas. Resultado: o tempo irá passar e Ariel nunca saberá que fim levou o seu amado dindo, nem que ele na verdade era seu pai.
Com exceção daquela preocupação que era relacionada a sua vida privada, Ariel não tinha o que reclamar da vida. Sua carreira na Cyberdine decolou. Isso acontece quando se tem um relacionamento amoroso com alguém da chefia. Não que ela começasse a se interessar pelo seu namorado atual por causa disso, o diretor Eric Washington. Ela o achava charmoso e atraente, nem precisava ser rico para conquistá-la. Mas seria mentira dizer que esse detalhe não havia contribuído para o seu charme.
Ariel estava trabalhando no setor mais restrito da empresa, tinha acesso a quase tudo que fosse sigiloso. Principalmente na construção dos autômatos. Eram centenas construídos por dia. Ariel se impressionava com a facilidade que era produzi-los. Os robôs tinham aparência quase humana e um nível de sofisticação absurdo. Mesmo assim a fábrica os construía como se fossem coisas simples, não precisava de mais do que uma hora para criar um novo. Era quase que uma montadora de automóveis, nem parecia que a Cyberdine criava o que Ariel rotulou de "milagres ambulantes".
- Isso não faz sentido. Os códigos da programação dessas máquinas são muito simples!
- Como eu já disse, querida, o mundo mudou. - Respondeu Eric. - Há magia em tudo agora. Ela torna maravilhas como essas em algo banal.
Ariel era cética, por isso relutava em acreditar em qualquer coisa ligada a termos não científicos como, por exemplo, magia. Porém depois dos eventos estranhos que aconteceram no mundo (incluindo o ataque a cidade do Rio de Janeiro) ela foi obrigada a reconsiderar sua visão das coisas.
- Com a oportunidade que tive de chefiar a Cyberdine eu posso almejar um poder conquistado por poucos. - Disse Eric. - Mas de nada vale esse poder se não tiver alguém do meu lado para compartilhar. - Ariel ficou surpresa com aquela declaração inesperada. Será? A moça não havia planejado casamento ainda, mas ela não negaria se a oportunidade viesse. E com um partido daquele então. - Aceita ser minha esposa? - Sem responder com palavras Ariel se atirou nos braços do amado e tascou-lhe um beijo. Estava selado.
- Juntos podemos fazer milagres! Os autômatos são só a ponta do iceberg. Venha ver a última criação dos nossos cientistas. - Aquilo era um pouco estranho de se dizer após um pedido de casamento. Mas aquele casal era um tanto quanto incomum. Os dois dividiam a mesma paixão por inovações, paixão essa que os completava. Era difícil encontrar casal tão perfeito como aquele. Eric puxou sua futura esposa pelo braço e a levou até a sala de protótipos. Ariel já havia visto aquela sala antes, mas não com a mais nova invenção do grupo.
- O que é isso?
O instrumento era até mesmo um pouco bizarro. Parecia ter saído de algum filme de terror B. Era basicamente uma coluna vertebral negra que era mantida no ar por vários fios e cabos.
- Pense em uma pessoa com algum rompimento na coluna vertebral. Ela não se move por causa dos impulsos nervosos que perdem sua ligação com os membros de seu corpo. Pois bem, essa coluna artificial refaz essa ligação.
- Já é funcional?!
- Ainda não testamos em nenhuma cobaia humana, mas acreditamos que sim.
Assim que Eric mencionou pessoas com paraplegia Ariel se lembrou de um conhecido seu que tinha um filho com esse problema. Um policial que era amigo de sua mãe, o filho dele havia perdido os movimentos do corpo em uma tentativa frustrada de mergulho. Uma lastima. Era tão jovem, uma criança praticamente. Ariel visitou o menino duas vezes no máximo. A cena era de partir o coração.
- Conheço alguém que precisa de um desses.
- Sério? Se ele concordar com nossos termos pode servir como nossa cobaia.
Kasper
A criatura dava marradas com seus chifres tortos que emergiam de sua cabeça. Ainda bem que ela estava contida em uma cela com um vidro tão espesso que era virtualmente impossível de ser quebrado. O monstro era um troll, mas não estava ainda totalmente transformado. Ainda havia algo de humano nele, apesar de pouco. Do lado de fora da cela havia um laboratório, cientistas pouco convencionais analisavam a criatura tentando definir como ela foi criada. Por que a cobaia se tornou aquele tipo de monstro e não outro? Na ciência não há muita aleatoriedade, geralmente são os estudiosos que não entendem suas razões. Agora o importante era definir se a ciência unida a magia seguia as mesmas regras.
Estamos na Holanda, no centro de pesquisa de uma empresa chamada Geneco. O criador e dono da empresa recebeu um montante de recursos absurdo para por em andamento seus estudos. Era um investimento preciso. Já que as leis naturais sofreram uma mudança era necessário redescobrir como elas agiam nesse mundo novo. A fauna e a flora mudou radicalmente, inclusive em nível microscópico. Animais novos, plantas novas, micro-organismos novos, minerais novos... A magia quando voltou mudou muita coisa. A classificação da vida agora tinha que ser redefinida. A divisão clássica dos reinos biológicos como animal e vegetal teria que ser reescrita. Novos seres que não se encaixavam em nenhum filo tinham que ser catalogados.
Analisando a criatura junto com um cientista empregado seu estava Kasper, dono desse grande empreendimento. Os dois conversavam sobre a matéria de seu estudo, a criatura que estava presa em uma cela de vidro.
- Por que ele se transformou nessa criatura e não em outra? - Perguntou o cientista. - Alguns se transformaram em goblins, em vampiros ou em outras criaturas folclóricas mais bizarras. Por que ele sofreu mutação e não nós, por exemplo? Será que há algum agente infeccioso espalhado pelo mundo que provoca transformações em hospedeiros mais suscetíveis?
A ideia de que havia algo no ar que estava transformando seres humanos em monstros desagradou Kasper. Não porque ele se compadecia dos infectados, mas sim porque temia que poderia se transformar em um deles. Não queria virar um troll ou pior, um goblin.
- Tomara que essa teoria não seja a correta. Se for é bem capaz de que em poucas gerações a humanidade inteira seja transformada nessas coisas.
Kasper deixou que seu subalterno continuasse estudando o troll enquanto foi checar outros setores de sua empresa. Na sala ao lado um grupo de cientistas fazia a necropsia de um homem morcego. Era o espécime que Kasper havia encontrado morto e levado com ele em um barco de resgate militar quando se perdeu na Libéria. Sem se preocupar em vestir roupas apropriadas Kasper entrou no necrotério e perguntou se algum dos envolvidos na pesquisa tinham novidades.
Haviam três médicos envolvidos na necropsia, todos vestiam roupas apropriadas o que incluía luvas de látex e máscaras cirúrgicas. Um deles deixou o monstro morcego de lado e foi conversar com Kasper, tirando antes sua máscara e as luvas. - É incrível como seus órgãos mudaram! Mas apesar disso uma analise do DNA da criatura revelou que ele é basicamente humano, apesar da diferença drástica na aparência.
- É uma criatura fascinante. - Constatou Kasper. - Mortífera, muito mais rápida e resistente do que um humano. Pena que é bem menos inteligente e muito mais feio. Se pudêssemos captar seus pontos positivos, rejeitar seus negativos, e integrá-los a um corpo humano seria um empreendimento interessante.
- Tipo um crossgen? Criar um hibrido das duas espécies? Um ser transgênico?
- Sim. Poderíamos inclusive patentear esse tipo de coisa.
Após trocar mais uma ou duas ideias com o médico Kasper saiu do necrotério e foi visitar outro setor. Este era situado em outro andar, por isso ele precisou subir um lance de escadas antes. Esse setor em especifico parecia um laboratório de informática de alguma faculdade. Cheio de computadores um ao lado de outro divididos em várias fileiras. Os PCs ali eram modernos demais, não seriam encontrados em muitos estabelecimentos, mesmo em um país como aquele que era de primeiro mundo. Apesar das várias máquinas disponíveis, havia apenas uma sendo utilizada. Kasper foi conversar com o usuário desse computador, um cientista que analisava algo que para um leigo pareceria apenas uma sequência aleatória de letras e números.
- Esse software cedido pela Cyberdine é fantástico! - Disse o usuário do PC. - Ele analisa uma sequência de DNA em poucos minutos. Com ele fazer uma alteração se tornaria brincadeira de criança.
Kasper sorriu, aprovando a novidade. - Que bom, vou me lembrar de enviar um presente ao nosso amigo Eric lá no Brasil. Há previsão de quando iremos poder aplicar esse recurso para manipular DNAs verdadeiros além dos hipotéticos?
- O quanto antes. Já pode inclusive ir arranjando as cobaias.
Kasper saiu daquela sala e pegou seu celular estava fazendo uma ligação. - Quando você trará a carga? - Kasper conversava com um sócio do outro lado da linha. O sócio era membro da Ordo Dracul, um homem tão inescrupuloso quanto ele. A carga a qual se referia não eram peças nem equipamentos, mas sim seres humanos que eram tratados como mercadoria. Presos em um porão de navio. Kasper sorri ao ouvir que a tal "carga" lhe seria entregue ainda aquela semana. As cobaias necessárias a sua pesquisa estavam a caminho.
Dentre as pessoas presas no barco escravagista estava um garoto liberiano que havia se perdido dos pais. Um menino de dez anos, seu nome era Machi. No cativeiro a criança rezava apenas por uma coisa: que seu pai o encontrasse e o tirasse dali. - Faraji! - Machi repetia o nome do seu velho como se fosse um mantra. Tinha fé que isso iria de alguma forma atraí-lo para ele.
Faraji
Ele sentou na beira da calçada com a cabeça baixa, pouco se importando para as pessoas que estavam ao seu redor e o olhavam com estranheza. Faraji assim que fugiu de sua vila em uma embarcação militar passou a procurar por sua família. Sua esposa, Ebenita, ele não tinha a menor esperança de reencontrar, pois tinha fortes indícios de que ela havia sido capturada e provavelmente morta pelos abomináveis homens morcego, ou como seu amigo Abdel gostava de chamá-los, os Asasabonsam. Sua única esperança era encontrar seu menino, Machi, ele soube que o garoto havia fugido com os poucos sobreviventes de sua vila em navios pesqueiros. No entanto não o encontrou mesmo após descobrir onde os barcos de refugiados haviam atracado. - O garoto sumiu! - Era a única explicação que lhe deram. Faraji teve vontade de amaldiçoar seus conterrâneos por causa de sua negligência para com seu menino. Mas a tristeza suplantou o ódio. Ele tinha mais com o que se preocupar do que com vinganças vazias.
Abdel, o único amigo que lhe restava, apertou seu ombro em uma tentativa de passar-lhe um pouco de conforto. A atitude era nobre, mas pouco eficiente. A busca dos dois acabou os levando para Mumbai. Eles ouviram relatos de que Machi poderia ter passado por lá. Com a ajuda de colaboradores a dupla conseguiu chegar ao país. Encontraram uma terra devastada. A cidade fora uma das tantas que sofreram ataques de criaturas místicas, no caso Rakshasas. Criaturas da mitologia hindu e budistas, seres humanoides com cabeça de felinos. Considerados por muitos como reencarnação de pessoas que eram sádicas e ruins. O líder desses monstros que invadiram a capital da Índia, por exemplo, revelou ser na verdade Latafat, um criminoso assassino e estuprador morto há muito tempo.
- Amigo, conversei com um senhor que diz poder nos ajudar em nossa busca.
Faraji levantou a cabeça só para revelar um rosto inchado de tanto chorar. - Ninguém pode nos ajudar, Abdel. Sou grato pela sua companhia, mas não tenho mais esperanças.
- Não seja derrotista! Venha conversar com esse velho que conheci. Ele é um vidente, é incrível como ele sabe das coisas.
Faraji apesar da tristeza conseguiu rir daquela proposta. Ele conhecia videntes em sua vila, era impressionante o quanto eles não acertavam nada. Por coincidência, após atirar para todos os lados, uma coisa ou outra conseguiam "adivinhar". Nessas raras ocasiões faziam um estardalhaço tão grande que o povo se esquecia das dezenas de previsões furadas.
- Abdel, por favor, esse povo não consegue adivinhar nem se vai chover ou não.
Abdel insistiu tanto que Faraji acabou sedendo. Seguiu o amigo até uma rua não muito longe dali. A cidade ainda se recuperava por isso havia muitos escombros e gente desesperada caminhando de um lado a outro. O trânsito que já era caótico naturalmente (já que no país não havia sinais de trânsito nem regras) virou completamente insano.
O tal vidente morava em uma casa pequena, mas que por milagre não havia sofrido nada com o ataque dos monstros. Ele atendia em uma sala apertada que era decorada com vários enfeites esotéricos e bregas. Para deixar o quadro ainda mais clichê o homem tinha uma bola de cristal repousando em uma mesa coberta com uma toalha roxa cheia de estrelas. O vidente era bem idoso, sua pele era morena, bem tipica da região.
- Você procura pelas pessoas que mais ama no mundo. Chegou a acreditar que ambas estão mortas. Se engana! Ainda vivem, mas precisam de você!
Faraji sentiu vontade de ignorar o fato de que aquele homem era já um velho e partir para cima dele. A vida já era dura demais sem que ninguém fizesse troça com seus sentimentos.
- Seu menino esta preso em um local escuro, cheio de pessoas desconhecidas que compartilham com ele seu sofrimento.
- "Local escuro"? - Pensou Fariji. - Dá para ser mais vago?
- Sua esposa esta mais perto. É mantida como escrava por criaturas medonhas meio homens meio tigres.
- São os Rakshasa! - Disse Abdel com entusiasmo. - Ebenita esta com os Rakshasa!
- Espere! Eu vejo seu garoto! - Disse o vidente que se concentrava em sua bola de cristal. - Ele esta na Holanda! Junto com um homem que você conhece. Um holandês cruel capaz de roubar a esposa do próprio irmão.
Os únicos holandeses que Faraji conhecia eram os cientistas da expedição. A história do que o vidente falava fazia sentido, Faraji até já fazia ideia de quem ele estava se referindo.
- O que aquele gringo filho da puta quer com meu menino?!
O vidente se concentrou um pouco antes de trazer uma resposta. - Vai usá-lo como um rato de laboratório. Como uma mera cobaia. Pouco lhe importa se o menino irá sobreviver ou não.
Faraji pôs a mão na cabeça. - E agora? O que posso fazer?!
- Pesa ajuda! - Aconselhou o vidente – Há alguém disposto a ajudá-lo se for lhe explicado a situação.
- Quem?!
- Pense um pouco, você sabe o nome dessa pessoa.
Faraji pediu emprestado o celular de Abdel e fez uma ligação.
- Senhora Lieske! Preciso de sua ajuda!
