A Mãe de Dragões

David

David estava feliz. Seus pais pareciam ter voltado a ficar juntos. Ele não entendia que esse retorno não tinha nada a ver com o amor reestabelecido. Dividiam o mesmo teto, pois tinham um objetivo em comum. Salvar a pele dele e ajudá-lo com sua mudança. Como a casa de Sônia Brito era a maior, Jaquison concordou em se mudar para lá. Milagrosamente o lugar ficou intacto após a invasão de monstros, o único conserto que foi necessário era o portão da garagem que foi destruído por um troll. Mas isso era o mínimo.

A criança de oito anos foi mantida presa dentro de um dos quartos. Não podia sair, só para ir ao banheiro. Era dali para o quarto e só. Comia no quarto, brincava no quarto, assistia TV no quarto... As janelas foram mantidas trancadas e tiraram todos os espelhos do lugar. No início David gostou de seu período de férias, mas após a primeira semana ele começou a achar aquilo estranho e a fazer perguntas. Seus pais inventavam desculpas que até mesmo a sua mente juvenil achava estapafúrdia. - Você esta doente, querido. - Disse Sônia. - Você só pode sair quando melhorar. - David achou aquilo estranho, não se sentia cansado e não tinha nenhuma dor. Como poderia estar doente?

Certa manhã David acordou não em sua cama, como era esperado, mas sim no teto do seu quarto. Ele tentava descer, mas alguma coisa o puxava para sima. O garoto olha para os lados e percebe uma asa de morcego atrás dele. O menino pensa que algum bicho esquisito o estava puxando. Um morcego gigante? Assustado David grita, mas o som que saí de sua boca não é natural, um som não humano. Gutural. Jaquison e Sônia entram correndo no quarto atraídos pelo chamado. A mãe ao ver o que o seu filho se tornou grita desesperadamente e caí pra trás no chão. David continua sem entender nada e tenta falar algo para acalmar sua mãe. De sua boca não saem palavras, mas sim uma fraca labareda de fogo que por sorte não atinge ninguém. Só um pedacinho da parede, próxima a porta. Jaquison instintivamente tira a camisa e tenta apagar o fogo com ela. Não demora muito e termina conseguindo.

David ainda no teto do quarto começa a voar de um lado para o outro. Não tinha total controle de suas novas asas, não conseguia nem descer. De repente a transformação cessa e o menino volta a ser um simples garoto rechonchudo de oito anos. Como ele estava no ar quando voltou a sua forma humana ele acabou caindo do teto. Sofre um forte baque ao se chocar contra o chão. Milagrosamente não se feriu, nem quebrou nada. Mesmo assim a queda doeu e por causa disso David chora. Sua mãe abraça seu rebento e não diz nada. Tão, ou até mais, assustada que o menino ela o abraça com força enquanto lagrimas caíam de seu rosto.

Aquele não foi o último incidente. Alguns dias depois David, mesmo em sua forma humana, começou a soltar labaredas de fogo involuntárias pelo seu quarto. Seu pai, já precavido, havia arranjado um extintor e há todo momento aparecia correndo para apagar o foco de incêndio criado. Os incidentes começaram a acontecer quatro vezes por dia, no final da segunda semana de "resguardo" o menino passou a aprender como controlar aquela habilidade e não mais aconteceram queimadas involuntárias. Sem que seus pais soubessem o garoto começou a treinar por conta própria seu bafo de fogo. Estava ficando bom, em menos de um mês as labaredas passaram a ser cuspidas só quando ele dava ordem para tanto. O menino ficou empolgado apesar de confuso. - Será que sou um super-herói? - Se perguntou. Aquela era a maneira como sua cabeça estava tentando assimilar a novidade.

Aprender a controlar a transformação de garoto para dragão e vice versa foi quase tão fácil quando aprender a controlar as chamas. O menino começou a se divertir como se fosse uma brincadeira qualquer. Quando estava entediado tirava suas roupas e se tornava um lagarto alado. Sua forma de dragão ainda era pequena, assim como a sua humana, era ainda um filhote. Sua forma reptiliana era azul com dois chifres pontudos que iam para trás. Seu bico era bem fino e longo. Sua aparência lembrava lendas orientais, principalmente por causa dos bigodes compridos e finos. O menino se divertia sem perceber que sempre quando se transformava em monstro acabava provocando o desespero dos seus pais. - Não estou doente. - Constatou por fim. - Estou me sentindo melhor do que nunca.

A porta do seu quarto estava trancada, mas isso não foi empecilho. Em sua forma dracônica David mastigou a maçaneta até que ela cedesse permitindo assim sua passagem. Seus pais estavam dormindo, exaustos devido a tantos dias de vigília continua. Seus sentidos naquela forma eram melhores, podia ver com uma nitidez muito superior a de um humano e sua audição era fantástica. A queda de um alfinete no cômodo ao lado era estrondoso. Ele podia ouvir batimentos cardíacos com exatidão. Através desse sentido ele podia determinar, por exemplo, se alguém estava dormindo ou se estava agitado. Apesar de tanta sensibilidade auditiva seu limiar de dor era muito grande. Podiam estourar uma bomba ao seu lado que ele não se sentiria incomodado.

Através da janela do andar de cima o menino-dragão conseguiu fugir e realizar seu desejo, um voo noturno, um passeio pela cidade. Bem alto no céu David se sentia maravilhado. As pessoas pareciam pontinhos pequenos e nessa perspectiva tudo parecia tão mais simples. Ele voo até perder a noção do tempo. Horas se passaram e o guri só se tocou que sua volta noturna estava muito demorada quando a noite começava a ceder lugar ao dia. Se guiando por seus sentidos aguçados o menino-dragão consegue voltar para a casa dos seus pais sem dificuldade, entrando pelo mesmo lugar por onde saiu, a janela. Quando voltou deu de cara com seus pais que estavam acordados e transtornados, pensando que o pior tinha acontecido. Ignorando que seu filho não estava na forma humana e o quão perigoso isso poderia ser Sônia correu atrás do menino e o puxou pela cauda. O obrigou a ficar no nível do chão e deu vários tapas em sua bunda escamosa. Sua pele de dragão era muito grossa para ele sentir alguma dor do castigo, mas ele entendeu que fez besteira.

- Mãe, eu só queria dar uma volta. - Disse o garoto assim que se tornou humano novamente.

- Nunca mais faça isso sem o nosso consentimento esta entendendo?! Não quero ser obrigada a te acorrentar no quarto. - Pelo tom de voz dela David percebeu que ela não estava brincando. A partir daquele dia ele resolveu se comportar. Já era tarde o estrago havia sido feito, a família só não havia percebido ainda.

No dia seguinte do passeio noturno, David acordou com um barulho de multidão que vinha do lado de fora da casa, da rua em frente. Como estava decidido a obedecer seus pais não importava o que acontecesse o menino ficou quieto em sua cama. O garoto ficou encolhido, em posição fetal enquanto esperava pelo fim da confusão. Ele podia ouvir os gritos de protesto, sabia que o povo estava revoltado por sua causa. Ouviu palavras como monstro, demônio e alado.

David podia ouvir seus pais na porta da casa tentando argumentar com a multidão em fúria. - Não há nenhum monstro dentro da nossa casa! Só nós e nosso filho! - As palavras de Sônia pareceram não convencer as pessoas. Não arredaram o pé e contra-argumentaram. - Nós ouvimos gritos a semanas e até mesmo fumaça aí de dentro! Vocês também passaram a não sair de casa para nada. Isso é muito estranho!

- O que minha família faz ou deixa de fazer da vida não é da sua conta, vá cuidar da sua! - Respondeu Sônia.

- É exatamente isso que eu estou fazendo! Se tem um monstro aí dentro minha família corre perigo! - A líder da multidão era uma velha odiosa. Rabugenta e intolerante. Daquelas que só outro de sua "espécie" suportaria.

Jaquison e Sônia tentaram, mas eles sozinhos mesmo sendo jovens e fortes, não eram capazes de segurar um grupo de quarenta e poucas pessoas. A multidão entrou na marra armados com armas improvisadas como pedaços de pau, tijolos e canos de aço. Assim que o casal deixou de ser empecilho os revoltados começaram a esquadrinhar cada centímetro da casa. Não era necessário a barbaridade, mas devido a adrenalina alguns aproveitaram para quebrar móveis e destruir o que podiam. - Chame a polícia! - Pediu Sônia ao pai do seu filho. Jaquison tentou, mas a linha só dava ocupada.

Os invasores subiram ao andar de cima. Apesar de vândalos eram humanos o suficiente para respeitar o quarto onde um menino de oito anos se recolhia assustado. Só saíram da casa algumas horas depois quando se deram por satisfeitos. Alguns ainda aproveitaram para pilhar. Um deles roubou o dinheiro que estava guardado em uma gaveta. Humanidade, as vezes conseguem ser mais monstruosos do que qualquer criatura saída do folclore.

- Temos que sair daqui. Os vizinhos estão desconfiados, qualquer coisinha invadem nossa casa de novo. É capaz até de nos lincharem. - Disse Sônia a Jaquison enquanto os dois arrumavam a bagunça que os arruaceiros causaram.

- E ir para onde?

- Minha família tem uma chácara no interior. Lá ninguém vai nos perturbar, é um lugar bem isolado.

No dia seguinte a família viajou com o mínimo possível, meio as pressas. Dentro do carro de Jaquison, um Celta de três anos atrás. O casal logicamente ia na frente, Jaquison no volante e o menino atrás. O transito estava livre. Devido aos problemas recentes na cidade muitos serviços estavam parados. Resultado: mesmo sendo seis horas da tarde, um horário de pico, as estradas tinham pouco movimento. Aproveitando-se disso Jaquison afundou o pé no acelerador. Muito acima do limite de velocidade, mas não havia guarda de trânsito para pará-lo nem sensor para captar seu excesso.

Jaquison e sua família tinham superado os limites da cidade, agora a viagem duraria mais algumas poucas horas, se o pior não acontecesse. Em um pedaço da autoestrada Jaquison se vê obrigado a parar seu Celta bruscamente, havia um tronco de árvore jogado no meio da estrada. - Pelo amor de Deus, desvia não para! - O aviso chegou tarde. Sônia já havia entendido que aquilo era uma tocaia, Jaquison por outro lado foi muito lerdo e só percebeu quando três homens armados se aproximaram do carro. - Todo mundo para fora! - Disse um deles. Um sujeito magro que escondia seu rosto por baixo de uma camisa que usava como máscara.

Os três foram obrigados a sair do carro, David demorou mais em compreender o que estava acontecendo, tanto que um dos bandidos precisou agarrar seu braço direito e o puxar com violência para fora. O movimento foi tão abrupto que David caiu de cara no asfalto quando foi retirado do veículo. Sônia, por reação automática, saiu em disparada para socorrer o filho. Porém seu caminho foi barrado por um dos bandidos que estava mais perto.

Jaquison e o filho foram obrigados a se afastar do carro. A intenção dos três meliantes era de levar o carro com Sônia dentro. Não precisava ser muito genial para entender o que pretendiam fazer com ela. Até mesmo o pequeno David conseguiu perceber o perigo. Sem pensar muito o garoto abre sua boca e prepara a labareda mais potente que já fez até agora. As chamas saíram de sua boca e atingiram o bandido mais próximo dele. O homem gritou de dor e se debateu loucamente. Todos se afastaram. A agonia do crápula durou pouco, logo ele fica imóvel jogado no chão tostando o que sobrou do seu corpo. Após presenciarem aquela cena os dois bandidos restantes saíram em fuga. O medo, porém, não atingiu apenas os ladrões, mas também os pais do menino. Até mesmo eles começaram a ficar com um pé atrás por David. Um medo que iria aumentar e causar consequências. Uma coisa é ver uma criança queimar móveis outra bem diferente é perceber que ela pode incinerar um ser vivo sem nenhuma dificuldade.

O casal dirigiu por mais alguns quilômetros com David no banco de trás, nenhuma palavra foi dita. Em uma parte ainda mais deserta da estrada Jaquison e Sônia saem do Celta e pedem para que David fizesse o mesmo. - Espere por nós aqui. Já voltamos. - Disse o pai do menino. David ficou parado no acostamento enquanto via o carro de seus pais se afastando até sumir de vista. O garoto esperou, ficou plantado no mesmo lugar por quase quatro horas. Até que percebeu que seus pais não mais voltariam. O menino chorou e se convenceu de que aquela atitude dos dois foi a mais sensata. - Sou um monstro. - Pensou. - Quem poderia amar um monstro? - O menino tira suas roupas para poder assumir sua segunda forma. Agora transformado em dragão ele alça voo. Se quisesse poderia usar seus sentidos para rastrear seus pais, mas ele entendeu o recado deles. O garoto voou alto na direção oposta. Sem rumo, só queria ir o mais longe possível dali.

David passou dias sem regressar a sua forma humana, começou a sobreviver caçando pequenos animais que davam bobeira. Uma galinha aqui, um rato ali, um cachorro ou um gato. Seu instinto lhe dizia que aquelas carnes seriam saborosas e ao devorá-los ele recebeu sua comprovação. Voando as distancias são menores. O rapaz saiu do estado, parando em vários lugares diferentes. Se refugiando em casas abandonadas ou cavernas escuras onde não seria atormentado. Por onde ele passava lendas e histórias surgiam. Alguns juravam ter avistado um demônio outros achavam que era um espírito ou até mesmo um alienígena. A história do menino-dragão começou a ficar popular em menos de uma semana, isso acabou causando reações.

Certo dia David dormia em uma mata virgem que ficava na divisa do estado do Espírito Santo. A mata era fechada e praticamente não recebia visitas humanas. O pequeno dragão em pouco tempo começou a trocar o dia pela noite. Era mais fácil passar despercebido na escuridão. Outros de sua espécie, porém, não estavam nem um pouco preocupados se seriam ou não avistados. Eram poderosos demais para se sentirem ameaçados por "meros humanos". David desperta do seu sono ao ouvir um som de bater de asas. Ao abrir os olhos se depara com um dragão muito maior do que ele. Um lagarto alado com escamas brancas e olhos azuis. O garoto se sente ameaçado e mesmo estando em total desvantagem rosna para o gigante. O outro dragão se estivesse em sua forma humana riria da atitude do jovem.

Dagmar revela sua forma humana, o lagarto branco gigante some para dar lugar a uma bela ruiva. David ficou ainda mais assustado ao presenciar a mulher nessa forma do que na outra. Essa era a primeira vez que o menino via uma mulher, ainda mais uma tão bela como aquela, nua.

- Menino, qual o seu nome? - Para um leigo identificar um dragão macho de um fêmea é quase impossível. Dagmar já conseguia fazer isso sem titubear. David tentou responder, mas de sua boca só saíam rugidos. - Desse jeito você não vai conseguir falar nada, mude para sua outra forma. - David ficou envergonhado com a proposta, não queria ficar nu na frente de uma desconhecida. Dagmar logo entendeu o dilema do garoto. - Deixa de besteira, você não vai me mostrar nada que eu já não tenha visto.

David voltou a sua forma de garoto. Ainda tímido protegia sua vergonha com as duas mãos. - Meu nome é David.

- Você se transformou em Dragon-Shifter há quanto tempo.

- Dragon o quê?

- Dragon-Shifter. Você não é um dragão verdadeiro. Se fosse não teria nascido humano e nem poderia se transformar de bicho para gente.

- Acho que faz quase um mês.

- E seus pais?

Doeu dizer aquelas palavras, mas mesmo assim ele disse. - Me abandonaram.

- Entendo. Garoto, nossa gente precisa ser mais unida. Como você percebeu os humanos não irão nos aceitar. Eles não aceitam nem outros de sua própria raça quanto mais.

- Esta me convidando para morar com você?

- Sim. - Disse Dagmar com um sorriso malicioso, sem conseguir definir se o garoto captou a malicia de sua própria pergunta.

Dagmar voltou a se transformar em um dragão, David a seguiu. Os dois voaram alto no céu rumo a Brasília. Por todo o caminho atraíram olhares curiosos e espantados. Era o início de uma nova relação.