A manhã de segunda-feira em Godric Hollow tomou-se um pouco triste, pois Lily sabia que James partiria nessa mesma noite para a Flórida.

Não que isso a aborrecesse, segundo ela mesma dissera a ele. Afinal, era uma mulher adulta e muito capaz de cuidar de si mesma.

Era a única filha de uma mulher viúva, e, como tal, aprendera a se virar desde muito cedo. Morava sozinha desde o último ano de faculdade, quando a mãe lhe dera a casa onde Lily havia passado a infância. A propriedade era um pouco velha e tinha alguns consertos a serem feitos, mas servia muito bem ao seu propósito.

Acostumara-se a cuidar de si mesma e da modesta herança também. Entretanto, quando James estacionou o carro diante da casa onde até então ela morara sozinha, mas que agora seria ocupada pelos dois, Lily se deu conta pela primeira vez de que, após passar três dias com James dormindo e acordando a seu lado, seria difícil encarar a solidão no dia seguinte.

Ele tivera sorte em conseguir transferir sua vaga em um apartamento da Lombard Airways para um outro funcionário da empresa. Os únicos pertences que levara consigo para a casa de Lily foram suas roupas e um aparelho de som que, segundo ela, tinha potência suficiente para mandar alguém para a lua.

Pelo visto, estava tudo pronto para os dois começarem uma vida em comum. Sendo assim, por que estava sentindo aquela tristeza dentro do peito? Lily perguntou-se quando James deu a volta pelo carro, abrindo a porta para ela.

— Chegamos, Lils — James anunciou, chamando-a pelo apelido.

Adorava quando ele a chamava daquela maneira carinhosa. A voz aveludada do homem que agora era seu marido adquiria um tom todo especial ao pronunciar seu nome.

Depois de sair do carro, ela perguntou:

— Você apertou o botão que abre o porta-malas?

Virou-se para olhar a casa. Imaginou se não seria melhor irem ao mercado comprar algo para um lanche. James partiria às cinco horas e ela não teria tempo para preparar um jantar mais elaborado. Além do mais, era como se essa fosse sua nova casa, e ela queria "estrear" o quarto devidamente, antes da viagem de James.

— Se abri o porta-malas? Quer mesmo tirar a bagagem, Lily? — James balançou a cabeça, incrédulo. —Agora?

Lily sorriu, deduzindo que ele estava pensando o mesmo que ela.

— Não... — respondeu, abraçando-o. — Isto é, desde que você tenha algo mais interessante em mente...

James não precisou de mais nenhum encorajamento. Pegou-a no colo e se encaminhou para a porta de entrada.

— Pegue a chave no meu bolso, Lily. Quero carregar minha noiva até o quarto — James avisou quando ela deitou a cabeça em seu ombro.

Lily corou, imaginando se algum vizinho estaria espiando-os. Sorriu consigo mesma ao admitir que queria mesmo que eles vissem sua felicidade. Especialmente a Sra. Umbridge da casa em frente, que uma vez dissera que moças altas, magras e atléticas, como Lily, terminavam sempre solteironas.

Com certa dificuldade, pois James não parava de lhe beijar o pescoço, Lily conseguiu pegar a chave no bolso dele. Estava prestes a enfiá-la na fechadura quando ouviu a porta da casa ao lado se abrir de repente e alguém chamar seu nome.

— Lene? — perguntou, olhando sobre o ombro de James. Marlene McKinnon era uma jovem loira e baixa, com cabelos cacheados e expressivos olhos azuis. Era amiga de Lily desde a infância e havia sido sua madrinha de casamento.

— Lily! — Ela entrou correndo no jardim, segurando um envelope amarelo. — Graças a Deus que você voltou! Aconteceu algo terrível!

— Oh, céus, lá vem ela de novo — James resmungou ao ouvido de Lily, fazendo-a arrepiar-se ao sentir a respiração dele junto ao pescoço. — Aposto que ela dirá que a máquina de lavar quebrou ou algo do gênero. Por que tudo é sempre tão drástico para essa mulher?

— Shh! Ela pode ouvi-lo! — Lily talhou, rindo.

Viu-se obrigada a concordar com James. Lene tinha mesmo uma certa inclinação para dramatizar as coisas.

— Acho melhor me colocar no chão, querido — pediu a ele. — Pode se tratar de algo realmente importante.

— Claro — concordou James, com um brilho de divertimento no olhar. Colocou-a no chão e acrescentou: — Ela deve ter quebrado uma unha ou sofrido algum outro tipo de "ferimento grave". Mas apresse-se, sim, Lily? Meu vôo parte às sete.

— Adoro essas suas crises de romantismo — Lily comentou. — Fala como se tivéssemos um compromisso inadiável para cumprir.

— E temos mesmo — James sorriu para ela. — Um compromisso muito importante. Lá em cima — olhou para a janela do quarto. — Só nós dois.

Lily sorriu e foi ao encontro da amiga que ainda agitava o envelope como se ele estivesse pegando fogo em sua mão.

— Oi, Lene — cumprimentou-a. — O que aconteceu?

Lene parou bem diante de James, quase agitando o envelope no rosto dele.

— Graças a Deus que vocês voltaram! — exclamou ela. — Eu não poderia lidar com toda essa responsabilidade. Esse envelope chegou ontem pela manhã, James. É endereçado a você — acrescentou, ofegante.

— É mesmo? — James deu uma piscadela para Lily. — Veja só isso, Lily. Parece um telegrama. Quem sabe ganhamos dez milhões de dólares naquela aposta que fiz?

— Acho pouco provável — Lene replicou. — Eu estava no jardim, plantando azaléias, sabe. Lembra daquelas mudas que comprei antes de seu casamento, Lily? Então, eu as estava plantando. Escolhi duas mudas brancas e duas cor-de-rosa, confesso que senti sua falta para opinar sobre as cores.

— Sim, Lene, mas estávamos falando do telegrama — Lily lembrou, paciente.

— Oh, é mesmo. Bem, eu estava do lado de fora da casa quando um homem apareceu com o telegrama endereçado a James. Ofereci-me para recebê-lo, já que vocês estavam viajando. Acho que ele anuncia a morte de alguém — declarou ela em tom solene.

— Morte? — Lily arregalou os olhos. — Quem morreu? — Pegou o envelope da mão da amiga, segurando-o contra a luz do sol. — Pelo amor de Deus, Lene! Como pode saber isso? O envelope nem foi aberto ainda! — Voltou-se para o marido: — Deve ser algum amigo de James, cumprimentando-o pelo casamento, não é, querido?

Ele sorriu, exibindo a covinha que Lily adorava.

— Não sei não... — James provocou-a. — Pode ser uma má notícia, sim. O que acha de entrarmos para abrir o envelope de uma vez? A menos que Lene já o tenha aberto e fechado novamente, antes de nos entregar — acrescentou olhando a amiga enrubescida da esposa.

— Não, não. Eu nunca faria isso— Lene replicou. — Foi apenas uma suposição e...

— Relaxe, Lene. Ele está apenas brincando. James, diga a ela que você só estava brincando..

Em vez de responder, James abriu a porta.

— Por que não entramos e sentamos um pouco? — sugeriu.

Lene os seguiu, desculpando-se a todo instante.

— Eu deveria ter esperado um pouco mais, não é? James queria carregá-la para dentro, como nos filmes, e eu estraguei tudo. Desculpe, Lily. Mas é que todo mundo sabe que telegrama é sinônimo de má notícia. Alguém morreu, tenho certeza. Ou então, algo terrível aconteceu.

— Certo — James afundou em uma poltrona. — Bem, não sei quanto a vocês, mas esse suspense está me matando. Lily, por que não abre o telegrama de uma vez?

Lily hesitou um instante. E se Lene estivesse certa?

— Quer que eu o abra? — James se ofereceu.

Lily olhou para o marido. James parecia tão calmo, tão auto-confiante. Ela mordeu o lábio, assentindo. Atravessou a sala e entregou o envelope a ele. Em seguida, sentou-se no sofá, lançando um sorriso nervoso para a amiga.

— Ora, vejam só... — James disse após começar a ler o telegrama. De repente, empertigou-se na cadeira. — Droga! Justo agora?

Levantou a vista para Lily e forçou um sorriso.

— O que foi? — ela se aproximou dele.

Tentou pegar o telegrama, mas James segurou o papel fora do seu alcance.

— James Potter, se não me disser agora mesmo o que acabou de ler, eu... eu vou matá-lo!

— Também me matará se eu disser, Lily.

Dizendo isso, fez ela se sentar em seu colo e a beijou no rosto.

— Então é mesmo uma má notícia? — Lene inquiriu, curiosa. — Não pode ser. Ele está rindo! Lily, James costuma agir assim mesmo? Você me disse que ele era incrível, mas depois disso...

—Lily! Você disse isso? — James perguntou, abraçando-a com mais força — Não é de admirar que me casei com você. É uma mulher de percepção muito aguçada!

— Meu soco de direita também é muito aguçado — Lily avisou. — Agora me diga o que leu no telegrama.

Ele respirou fundo.

— Bem, a mensagem diz que eu, James Potter, sou agora o novo primeiro oficial da Lombard Airways. Com um pouco de sorte, serei piloto dentro de dois anos, talvez antes.

— James! Mas essa notícia é ótima! Maravilhosa! — Lily abraçou-o, esfuziante. — Um fantástico presente de casamento! — Deu-lhe um sonoro beijo nos lábios, depois foi abraçar, a amiga. — Não é incrível, Lene? James agora é co-piloto!

James ficou de pé, enfiando as mãos nos bolsos da calça.

— Sim — ele confirmou. — Em breve poderemos comprar uma casa maior, com espaço suficiente para nossos filhos e até cachorros, se quisermos.

— Oh, James! Que notícia boa!

Lily mal se continha de alegria. Sabia o quanto aquela promoção significava para James e para o futuro de ambos. Em breve poderia sair dessa casa que, na verdade, pertencia a sua mãe. Queria um lugar realmente seu, onde pudesse criar seus filhos com toda liberdade e carinho.

Embora não pagasse nada pela casa, tinha de cuidar de todas as despesas para mantê-la. No início, sua mãe não queria aceitar tal idéia, mas Lily insistira em manter sua independência.

Antes do casamento, sua mãe havia sugerido que ela e James comprassem a propriedade, mas eles não aceitaram. A casa estava um tanto velha e não era muito espaçosa. Além do mais, teriam que gastar uma enorme quantia com a reforma, se fossem morar ali definitivamente.

Queriam uma casa maior e mais afastada do centro da cidade, onde pudessem criar os filhos com mais liberdade. Se ficassem ali, as crianças não teriam nem com quem brincar, já que a maioria dos vizinhos era composta de pessoas mais velhas.

A promoção de James parecia perfeita para mudar essa situação. Entretanto, algo pareceu estranho para ela. James não estava tão feliz quanto deveria estar. Ele sempre gostara de uma boa comemoração. Por que ainda não pedira que ela fosse buscar uma garrafa de champanhe?

— James, querido? Há algo mais que não quis me dizer?

— Eu sabia! Eu sabia que havia algo estranho! — Lene exclamou, segurando o braço de Lily. — Não disse que telegramas sempre trazem notícias ruins? Aposto que co-pilotos não podem ser casados. Ou então...

— Lene — Lily interrompeu-a ao ver James se virar para a janela —, gosto muito de você, minha amiga. Mas agora quero que me faça um favor. Vá para casa. Ligarei para você depois, prometo.

— Como quiser — Lene respondeu. — Mas seja lá o que for, tenham calma, ok?

Após olhar de um para o outro, ela se retirou. Lily passou a mão pela cintura do marido e encostou a cabeça em seu ombro.

— James? A notícia é boa e ruim ao mesmo tempo, certo? A parte boa você já disse. Agora, qual é a parte ruim?


Olá gente! Espero que estejam gostando das minhas novas fics. Thaty obrigada por comentaram, parece que eles vão sim se separar, não vai ser fácil, mas vamos ver como eles vão lidar com a situação. Beijos e até o próximo cap.