James continuou a olhar através da janela, observando o tráfego na Nineteenth Street. Por fim, voltou-se para Lily e segurou-a pelos ombros, imaginando como daria a notícia a ela.
— Lily...
— James, o que aconteceu?
Os olhos verdes de Lily o fitavam com preocupação. James não queria aborrecê-la. Ele a amava demais. Apaixonara-se desde a primeira vez em que a vira no clube, com os cabelos presos em um rabo-de-cavalo e uma faixa branca na testa. O andar confiante e o belo sorriso o haviam conquistado de imediato.
Porém, só havia uma maneira de acabar logo com aquilo. Decidido, disse de uma vez:
— Fui transferido para São Francisco. Partirei amanhã de manhã, e terei que ficar lá durante quase dois anos. Depois disso, serei efetivado no ABE novamente.
Lily desvencilhou-se das mãos dele e afundou na cadeira mais próxima, balançou a cabeça, incrédula.
— Transferido? Para São Francisco? Dois anos? — Ela levou a mão à boca. — Amanhã? — sua voz saiu abafada. — Isso é uma brincadeira, não é? Quer dizer, ainda estamos em plena lua-de-mel! Só pode ser brincadeira!
— Não é uma brincadeira, Lily. — James ajoelhou-se diante da cadeira, abraçando-a pela cintura. — A vida é mesmo cheia de surpresas, não é, meu amor? Farei a rota São Francisco-Havaí depois que o treino inicial for completado; só então serei transferido para cá de forma permanente, a menos que eu resolva ir para um outro lugar, o que não farei, naturalmente.
— Não, claro que não fará — Lily replicou entre dentes.
James sentiu o coração se apertar ao ver o quanto a notícia a afetara. Lily fora criada em Godric Hollow e já dissera a ele que nunca deixaria a cidade, a menos que o trabalho dele exigisse isso.
Em contrapartida, James prometera que assim que fosse promovido a piloto, providenciaria sua permanência em ABE, um aeroporto internacional localizado ali mesmo, na Pensilvânia.
— A Lombard me fornecerá um apartamento no primeiro mês, se não estou enganado. Começarei a procurar um local para ficar assim que puder. Não ficaremos separados por muito tempo, Lily. Não deixarei que isso aconteça.
Devagar, Lily inclinou-se para a frente e segurou o rosto dele entre as mãos. Seus olhos ficaram marejados de lágrimas.
— James, como poderei ir? — sussurrou ela. — Tenho um contrato com Dumblendore, o diretor de Hogwarts.
Ela assinara um contrato de dois anos, para começar a trabalhar como professora efetiva dentro de alguns dias. Fechara o contrato na semana anterior.
James ficou de pé. Virou de costas para que Lily não notasse sua preocupação, e receio também.
— Com certeza eles a dispensarão do contrato, não é?
— Pode ser — respondeu ela, sem muita convicção. — Mas isso não garante que eu consiga outro emprego de professora em São Francisco, antes do final do ano letivo. Terei que esperar até arrumar outro emprego, antes de desistir do contrato. Não sei nem se meu diploma de magistério é válido na Califórnia! Oh, James, por que isso tinha de acontecer justo agora?
Ele voltou-se para ela, os braços abertos num gesto impotente.
— O que você quer que eu faça, Lily? Que recuse a promoção?
— Não! Claro que não! — exclamou ela, levantando-se da cadeira e abraçando-o com força. — Estou feliz por você, por nós. De verdade. Mas é que... a notícia foi tão repentina! Ainda mal tive tempo de pensar direito.
Ela ficou na ponta dos pés e o beijou no rosto. James viu lágrimas de tristeza em seus olhos.
— Tudo terminará bem, meu amor — Lily disse a ele. — Você verá.
Tudo terminará bem, meu amor. Você verá.
James recordava as palavras de Lily três semanas depois, enquanto subia as escadas do apartamento, ao final de outro longo sábado em busca de apartamentos. Suspirou alto.
São Francisco era uma cidade bonita, mas muito cara para se viver. Cara demais. Como seus telefonemas para Godric Hollow, todas as noites. E as refeições que ele comia nos restaurantes locais, seus novos uniformes, as corridas de táxi e o aluguel da televisão que ele pedira, para não ter que encarar as noites de solidão em sua cama vazia.
Felizmente, os dias eram menos dolorosos. Aproveitava cada instante que passava no simulador de vôo e as aulas que assistia com mais três co-pilotos, também recém-promovidos.
Os colegas de classe riam quando ele se recusava a acompanhá-los a algum lugar, depois das aulas, mas ele não ligava. Estava muito mais interessado em chegar logo em casa ligar para Lily. Só que agora as coisas haviam se tomado um pouco mais difíceis.
Lily ainda não começara a trabalhar como professora efetiva e chegava em casa cedo, por volta das cinco horas. James só voltava para casa às sete e isso dava a ela tempo de pensar em muitas perguntas para fazer a ele.
No início as questões diziam mais respeito ao novo trabalho. Porém, ultimamente as perguntas de Lily haviam se tornado um tanto diferentes.
Ele encontrara um apartamento? Poderia conseguir uma folga para passar um fim de semana com ela, em Godric Hollow?
James sentou na poltrona ao lado do telefone. Apoiando as mãos na nuca, fechou os olhos, recordando o rosto de Lily da última vez em que a vira. Os belos olhos verdes lutavam para conter as lágrimas. Ela esforçara-se bravamente para manter um sorriso enquanto o acompanhava pelo longo corredor do aeroporto, em direção ao avião que o levaria da vida dela por um tempo que só Deus sabia.
Haviam ficado juntos durante quatro dias apenas: Quatro dias inesquecíveis, de completa felicidade. Porém, insuficientes para duas pessoas que pretendiam passar o resto da vida juntas.
James ficou de pé e foi à cozinha pegar um copo de chá gelado. Em seguida, foi verificar a correspondência. Uma carta da Lombard Airways solicitando o envio de alguns documentos, outra de um amigo felicitando-o pelo casamento... Parou de repente, ao reconhecer a delicada caligrafia de Lily no terceiro envelope.
Deixou o copo de chá sobre uma mesinha, antes de abrir o envelope. Dentro havia um cartão.
"Mas não é meu aniversário", ele pensou consigo. Virou o cartão e se deparou com o desenho de uma menininha ruiva, vestida com jeans e camiseta. Seu rosto estava triste e os braços abertos num convite a um abraço. Ao abrir o cartão, James leu: "Sinto tanta falta de você! Sua Lily".
Ele ligou para ela no mesmo instante. Impaciente, esperou durante cinco toques antes que ela atendesse. Lily estava ofegante, como se houvesse corrido até o telefone.
— Alô? James, é você?
Ele sorriu consigo ao ouvir a voz dela.
— Sou eu, Lily. Recebi seu cartão.
— Recebeu? E... você gostou?
James riu, voltando a olhar a menininha ruiva.
— Muito — respondeu. — De fato, a menina é tão linda quanto você.
— Ora, obrigada — Lily agradeceu, sorrindo.
James ouviu ruídos ao fundo, fazendo-o imaginar que ela estivesse no quarto, deitada na cama dos dois.
— Você está no quarto?
Estremeceu ao lembrar como ela estava na última noite em que haviam dormido juntos. Aninhada entre os lençóis cor-de-rosa, os cabelos ruivos espalhados em ondas sedosas sobre o travesseiro, os braços abertos para ele num doce convite ao amor...
— Hum-hum — ela confirmou. — Eu estava no banho quando o telefone tocou. Enrolei-me numa toalha e corri para cá. Você ligou mais cedo hoje.
James fechou os olhos. Quase podia ver Lily na cama, a pele macia recendendo o perfume do banho, o corpo envolto apenas por uma toalha, as pernas esguias estendidas diante do corpo... A imagem chegava a ser quase dolorosa para ele.
— James? Você ainda está aí?
Ele pestanejou, afastando a imagem da mente.
— Sim, droga, ainda estou aqui. E você aí.
— Oh, querido...
— Também sinto muito sua falta, meu amor — disse James. — Só Deus sabe o quanto. Mas só faz três semanas...
— Quatro dias, doze horas e vinte e cinco, não, vinte e seis minutos — Lily completou, ouvindo o sorriso de James do outro lado da linha. — E então, conseguiu encontrar um apartamento mais decente ou está destinado a passar o resto de suas noites confinado neste cubículo sobre o qual já me falou?
Chegara a hora de contar a verdade a ela, pensou James. Não queria deixá-la preocupada, mas sabia que precisava ser realista quanto à situação.
— Lily — começou devagar — Sirius também foi transferido pra São Francisco, encontrou um ótimo apartamento ontem. Só que o aluguel é muito caro para ele pagar sozinho.
— E nós poderíamos pagar, se estivéssemos no lugar dele?
— Não. Quer dizer, até poderíamos, mas teríamos que vender meu carro e não gastar nem um centavo extra nos próximos dois anos. E isso se você também conseguisse trabalhar aqui. Serei sincero, Lily, as coisas por aqui não estão fáceis. Verifiquei algumas escolas aqui por perto, mas nenhuma delas está contratando professores no momento.
— James, quanto ao apartamento...
Ele passou a mão pelos cabelos negros e a interrompeu:
— Lily, não será fácil dizer isso, mas acho que teremos que encarar os fatos de uma maneira realista.
— Que fatos? — a voz de Lily saiu apreensiva.
— Primeiro: você não conseguirá arrumar emprego aqui a tempo de dar aulas ainda nesse ano letivo. Segundo: ainda tem um bom emprego aí onde está. Terceiro: terei que arrumar um apartamento na próxima semana ou começar a procurar um confortável banco de jardim. Quarto: poderei viajar para Godric Hollow em fins de semana alternados, assim que esse mês de treinamento acabar. Quinto...
— Sim, diga.
James notou que ela estava chorando. Aquilo o deixou ainda mais aflito.
— Quinto: eu te amo, Lily — ele disse, por fim.
— Também te amo, meu amor — Lily respondeu com um soluço.
— Então entende o que estou tentando dizer?
— Sim. Não gosto da idéia, mas entendo. Quer que eu fique aqui, em Godric Hollow, sem você. É isso?
— Droga, não. Não quero que você fique em Godric Hollow enquanto estou em São Francisco, do outro lado do país. Contudo, essa é a única solução que me ocorre no momento. Será por pouco tempo, Lily, prometo. Somente até você conseguir um emprego por aqui.
— Acabarei ficando o resto do ano aqui em Godric Hollow. Quer realmente isso?
Se ele queria aquilo? James a amava muito, mas às vezes Lily fazia perguntas óbvias. Claro que ele não queria aquilo! O que ele desejava era esmurrar uma parede, gritar até ficar rouco ou então pegar o primeiro vôo para Godric Hollow e mandar aquela promoção para o inferno! Só que não podia fazer nada disso. Por isso, continuou em silêncio.
— Desculpe. Fiz uma pergunta idiota — ouviu Lily dizer algum tempo depois. — Reconheço que estou agindo feito criança, e isso não ajuda a melhorar a situação. Pretende dividir o apartamento com Sirius?
— Não se importa?
— Eu, eu acho que terei de aceitar a situação, não é, querido? Desde que você não vá na onda do Sirius, conheço o danado muito bem.
— Oh, sua bobinha... — James sorriu, aliviado por Lily haver aceito a situação. — Hei, Sra. Potter, por acaso eu já lhe disse hoje o quanto a amo?
James fechou os olhos, imaginando o sorriso de Lily naquele instante.
— Só uma vez — ela respondeu num tom mais íntimo. — Mas não me importarei nem um pouco se você repetir...
James não estava feliz com á situação, mas sentiu-se aliviado por eles haverem, conseguido pelo menos chegar num acordo.
— É mesmo? — disse a ela. — E o que gostaria de ouvir, mais especificamente? — provocou-a.
— Por que não me surpreende? — Lily riu, fazendo-o rir também.
Tudo estava bem, afinal. Ao menos era o que parecia.
Oi gente, obrigada Thaty, Ninha Souma e Tata Potter pelos comentários e também pelos elogios. É o Jay foi mesmo levado para longe, mas acreditem o amor é maior, beijos e até o próximo cap.
