James já percorrera a rota São Francisco-Havaí diversas vezes, embora, como co-piloto, sua função fosse mais de observador. Todavia, segundo ele mesmo dissera a Lily: "Eu bem poderia ficar lá atrás, com os passageiros, assistindo um filme, mas logo, logo estarei ocupando a cadeira de piloto, Lily".
A cada vez que ele voltava para casa, Lily ia encontrá-lo no aeroporto, sempre com um sorriso e um beijo para recebê-lo. Depois disso, voltavam para casa e passavam dois gloriosos dias juntos. Chegavam até a passear de vez em quando, aproveitando cada minuto do tempo disponível.
Após o feriado do Dia do Trabalho, Lily começaria a trabalhar definitivamente como professora efetiva. Pela primeira vez, enfrentaria uma classe realmente sua. Ela estava ansiosa e nervosa ao mesmo tempo.
Quando James ligou, na quarta-feira à noite, e sugeriu que ela passasse o feriado prolongado com ele, em São Francisco, Lily teve que se esforçar para demonstrar entusiasmo.
— Eu? Em São Francisco? — repetiu com a voz um pouco trêmula. — Será... será ótimo, querido.
Ela fechou os olhos, lembrando a lista de tarefas de casa e os preparativos que fizera para o início das aulas.
— Sim, foi o que pensei — James respondeu. — Sirius disse que viajará para Houston hoje, para passar o feriado com a família. Teremos o apartamento só para nós.
— Só para nós? — Lily encostou-se na cadeira da cozinha, olhando para a cortina que planejara lavar no fim de semana.
— Lily? — a voz de James denotou apreensão. — Quer passar o feriado comigo, não quer? É que não ouvi nenhuma exclamação de entusiasmo de sua parte.
Lily inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos sobre a mesa.
— Claro que quero! — ela exclamou no mesmo instante, embora soubesse que mentia.
Tinha certeza de que São Francisco era um lugar lindo, e era justamente por isso que não queria ir até lá. Antes do casamento, os dois haviam concordado em morar em Godric Hollow. Não era justo que agora James quisesse mudar os planos.
— Então está tudo combinado — ele prosseguiu. — Você pega o avião na sexta à uma da tarde, faz uma conexão em O'Hare, Chicago, e pousa em São Francisco. Terá que pegar um vôo com alguma vaga sobrando, mas isso não será problema. Os vôos não ficam muito cheios nessa época do ano, mesmo nos feriados. Chegará em Godric Hollow por volta das dez e meia, na segunda-feira à noite. Terá tempo suficiente para uma boa noite de sono, antes de seu primeiro dia de aula.
Com o telefone sem fio junto à orelha, Lily começou a andar de um lado para outro da cozinha. Dez e meia? James estava ficando maluco! Ela teria sorte se conseguisse chegar antes da uma da manhã!
— Oh, quanta praticidade — comentou com disfarçada ironia. James não contara com atrasos e outros problemas que geralmente aconteciam durante os vôos. Contudo, ela não mencionaria isso, pelo menos não agora, quando ele parecia tão feliz. — Pelo visto você pensou em tudo antes mesmo de eu aceitar o convite.
— Bem, sim... Mais ou menos.
James respondeu num tom tão ressentido que Lily revirou os olhos, arrependida pela sua indelicadeza. James planejara uma surpresa e ela estava agindo como se tratasse de uma consulta no dentista.
— O que devo levar? — indagou, forçando um tom mais alegre.
— Apenas sua encantadora pessoa, meu amor — James respondeu, feliz. — E talvez algumas gotas daquele perfume que levei para você da última vez.
Lily sorriu, lembrando-se não apenas do perfume, mas também da maneira como James a "ajudara" a aplicá-lo no pescoço, atrás das orelhas, entre os seios...
— Está bem. Você me convenceu — disse ela. — Agora repita os horários dos vôos para que eu possa anotá-los.
O brilho do sol refletindo-se sobre o Pacífico formava uma imagem enternecedora aos olhos de qualquer observador, especialmente aos de Lily, em sua primeira visita à costa ocidental.
Quando ela e James pegaram a avenida que saía do aeroporto, ele notou que Lily estava impressionada. Sentiu-se feliz por pelo menos uma coisa estar saindo como planejado.
Lily chegara a São Francisco com duas horas de atraso, graças a um problema mecânico com o avião em O'Hare. Dissera estar com fome, cansada e um pouco enjoada, devido à turbulência
James fora buscá-la com o carro de Sirius. No trajeto de volta ao apartamento, pararam em um restaurante fast-food, para comer hambúrguer e batatas fritas.
O apartamento localizava-se em Mission District, próximo à praia. James não via a hora de poder abraçar Lily e levá-la para a cama que ocupara sozinho nos últimos meses. Entretanto, nas horas seguintes, descobriria que até mesmo os melhores planos nem sempre davam certo.
Assim que chegaram ao apartamento, depararam-se com Sirius, que, de alguma maneira, conseguira perder o vôo. Após Lily cumprimentar o amigo, James teve vontade de agir como um homem das cavernas e arrastá-la para a privacidade de seu quarto. Contudo, sabia que não podia fazer isso.
Por fim, os três ficaram conversando até chegar a hora de Sirius voltar para o aeroporto e pegar outro vôo. James e Lily o levaram até lá e na volta pararam na praia para observar o belíssimo pôr-do-sol.
— Está gostando daqui? — perguntou ele, abraçando-a enquanto caminhavam pela areia.
— É realmente um lugar muito bonito — Lily respondeu. Virou a cabeça devagar e olhou para Mission District. — Não é essa a área que foi mais atingida durante o último terremoto? Mission District e Oakland também.
— Sim — James confirmou, desejando que Lily não lembrasse aquele episódio em particular na história de São Francisco.
A cidade tinha algo que o encantava e que ele não sabia ao certo o que era. James começava a se sentir em casa vivendo ali. Queria que Lily se concentrasse na beleza do lugar, e não nas fatalidades que o haviam atingido.
— Contudo, o distrito se recuperou do terremoto e alguns tremores ocasionais não chegam a ser desencorajadores quando se leva em conta todos os benefícios proporcionados por São Francisco. A cidade é cheia de vida, cultura. Tudo aqui é tão...
— Bonito — Lily completou. Sorriu para ele, embora sem muito entusiasmo. — Concordo com você, querido. A cidade é bonita, seu apartamento é confortável. Aposto que me dirá que Mill Valley é ainda mais interessante, e que me levará para um passeio turístico amanhã. Estou certa?
James tomou a mão dela e a levou de volta para o carro. Deveria ter imaginado que Lily logo se daria conta do que ia em sua mente. Quando falava com ela, pelo telefone, não parava de elogiar São Francisco.
— Não estou conseguindo dissimular meu entusiasmo, não é, Lily? — perguntou abrindo a porta do carro para ela.
— De fato, não — Lily admitiu. Esperou ele entrar no carro para completar: — Mas posso entender seu entusiasmo. São Francisco é uma cidade realmente maravilhosa. É só que... que...
— Só que concordamos em morar em Godric Hollow assim que eu conseguisse um posto permanente e Godric Hollow também é linda — Ted completou. — Se bem que não neva em São Francisco — não pôde deixar de acrescentar ao ligar o carro.
— Eu gosto da neve — Lily respondeu no mesmo instante. — Sempre gostei de neve.
— E o granizo? E as chuvas geladas? — James indagou.
— Não me importo. E Godric Hollow não é nenhum deserto cultural, se quer saber. A cidade tem teatros, um museu de arte e muitas opções de lazer. Além disso, ela fica a pouca distância de Nova York e da Costa Jersey. O pôr-do-sol também é lindo no Oceano Atlântico, sabia?
Quando entraram no apartamento, James deixou as chaves do carro sobre a mesa e se aproximou de Lily, que observava a rua lá embaixo, através da ampla janela de vidro. Estava visivelmente tensa.
Desde o início, o casamento não havia sido fácil, com ambos tendo que enfrentar mudanças inesperadas. James levou a mão à nuca dela, massageando-a devagar.
— Estou enganado ou estamos tendo nossa primeira discussão, Sra. Potter? — murmurou, deixando que sua respiração atingisse a orelha dela.
Lily virou-se e o abraçou pela cintura, levantando o rosto para que ele pudesse ver o brilho das lágrimas em seus olhos.
— Espero que não, James — disse, encostando o rosto contra o peito dele. — Desculpe. Sei que estou sendo incompreensiva, mas pensei que havíamos concordado em morar, em Godric Hollow. Quer dizer, aquela cidade significa muito para mim. Ela tem...
— Tradição, e você adora isso — James terminou por ela, começando a conduzi-la ao quarto. — Estamos casados há apenas alguns meses, Lily, mas isso é uma coisa que já aprendi a seu respeito. Dorme sempre do lado direito da cama, a cadeira de balanço que pertenceu a seu pai tem que ficar sempre do lado esquerdo da sala e o mundo simplesmente acabaria amanhã se você não escovasse os dentes após cada refeição.
Lily o beliscou na cintura antes de se afastar e sentar na cama, lugar onde James quisera vê-la desde que ela chegara do aeroporto.
— Você me faz parecer muito previsível, James. Estou surpresa que não tenha mencionado que prefiro fazer faxina na casa sempre às quartas-feiras, bem no meio da semana.
Ele tirou o casaco e se sentou ao lado dela.
— Oh, esqueci esse detalhe — disse. — Mas talvez tenha sido de propósito. Faxina. É alguma palavra estrangeira?
Lily riu.
— Só para pessoas como você, querido, que não acreditam em criaturas que saem dos buracos e cantos da casa para roer nossas roupas e carregar coisas da cozinha.
James começou a abrir os botões da blusa dela.
— Oh, então talvez isso explique por que eu e Sirius passamos a maior parte da noite tentando limpar esse apartamento para receber sua visita. Estava horrível!
— Às vezes você é mesmo um pouco desleixado — Lily riu, passando a mão pelos cabelos dele. — Mas até agora achei que estava tudo em ordem. Se bem que ainda não visitei a cozinha...
— Não abra nenhum recipiente que encontrar na geladeira, Lily. A não ser que goste de viver perigosamente — James brincou.
Deslizou a mão pela pele alva acima do sutiã de renda que Lily estava usando. Em seguida encostou os lábios contra a base de seu pescoço.
— Por falar nisso — ele continuou —, não viu o cavalo morto na sala? Ou será que a bagunça o camuflou?
Ela riu, embora estivesse concentrada nas carícias de James. A certa altura, ele segurou o rosto dela entre as mãos, mergulhando nas profundezas daqueles belos olhos verdes.
— Não tem idéia do quanto ansiei para vê-la assim, Lily — disse com a voz meio rouca de amor e desejo. — Aqui comigo... Na minha cama... Em meus braços... É assim que pessoas casadas devem viver.
As lágrimas voltaram a inundar os olhos de Lily e um sorriso triste insinuou-se em seus lábios.
— Eu sei, querido — disse, puxando-o para baixo, de modo que seus lábios quase se tocassem. — Acredite-me, eu sei.
— Eu te amo, Lily. Mais do que pode imaginar.
— Também sei disso... — Lily encostou seu corpo no dele com mais intimidade. — Agora, que tal pararmos de falar um pouco?
James sorriu. Quando finalmente voltaram a falar, um longo tempo já havia se passado.
Oi gente! Qual é, sem um pouco de confusão não tem graça (: Muito obrigada Joana Patricia, Ninha Souma e Tata Potter pelos comentários. Beijos meninas e até mais.
