— Você brigou com James? Mas por quê? O que ele fez? Deixou a pasta de dente aberta? Quer dizer, vocês não estão casados tempo suficiente para ter uma briga séria.

Lily levou os dedos às têmporas, massageando-as devagar. Acabava de preparar um sanduíche de atum para si, embora não estivesse com a mínima fome, quando Lene batera à porta da cozinha e entrara.

Parecia contraditório, mas ao mesmo tempo em que estava grata pela companhia da amiga, Lily também se sentia deprimida. Pensava que algo deveria ter mudado, agora que era uma mulher casada. No entanto, tudo parecia como antes: estava sozinha, na casa que pertencera a sua mãe, com a colega de infância lhe fazendo companhia.

— Foi apenas uma pequena discussão — explicou quando Lene também sentou-se à mesa. — Além do mais, fizemos as pazes minutos depois.

Um sorriso insinuou-se em seus lábios ao recordar a maneira ardente como ela e James haviam se amado durante quase toda a noite.

— Puxa, aquilo é o que chamo de fazer as pazes... — disse como que para si mesma.

Lene inclinou-se para a frente, rindo.

— Detalhes, Lily. Quero detalhes.

— Lene! Não posso contar!

O sorriso de Lily sumiu quando ela se deu conta de que não deveria ter mencionado sequer a discussão que tivera com o marido. Algumas coisas eram íntimas demais para serem ditas até para as melhores amigas.

— Não estamos mais no colégio, Lene — Lily salientou, levando o prato com o sanduíche para a pia. — É que... Bem, esse é um assunto muito pessoal.

— Muito pessoal, é? Como naquela vez em que contei para onde fui com Amos Diggory depois da formatura? Ou talvez na outra em que veio chorar no meu ombro, quando Gideon Prewett trocou você por aquela líder de torcida, no primeiro ano da faculdade. Claro que aquelas histórias não foram nem um pouco pessoais...

— Está bem, Lene — Lily respondeu, reconhecendo a desilusão da amiga. — Claro que aqueles assuntos eram pessoais. Nossos maiores segredos, na época. Mas agora é diferente. James não é meu último namorado; ele é meu marido.

— Tem razão, Lily. É uma mulher casada agora. Você e James logo estarão de mudança para uma nova casa. Terão filhos e um outro estilo de vida. Não teremos mais nada em comum. Você me ligará uma vez ou outra e eu visitarei James Júnior sempre que puder, mas não será a mesma coisa.

— Ora, Lene, não acha que está exagerando um pouco? — Lily objetou. — Seremos sempre amigas. Você sabe disso.

Lene continuou falando, como se não a houvesse escutado:

— Puxa, começamos juntas no jardim de infância, debutamos juntas e nos formamos na mesma faculdade. E agora está tudo acabado.— Ela tomou um generoso gole de limonada e, por fim, sorriu: — Está com pena de mim, Lily? Minha representação merecia um Oscar, não acha? Deveria estar pelo menos comovida com o destino de sua pobre amiga de infância.

Lily relaxou e tirou um lenço do bolso, fingindo enxugar as lágrimas.

— Isso é suficiente, Lene? O que mais posso fazer por você? Quer um biscoito? Mas, falando sério, acha mesmo que a estou desprezando?

Lily notara um tom de veracidade no que a amiga dissera, embora ela fingisse estar brincando.

Lene balançou a cabeça que não, evitando encará-la ao responder:

—Não se sinta culpada, Lily. Você está casada agora e as coisas têm que ser diferentes. Se não fossem, algo estaria errado. Por isso, esqueça o que eu disse. Tudo está bem, de verdade.

Não estava tudo bem e Lily sabia disso. Estendeu o braço sobre a mesa, segurando a mão da amiga.

— Lene, desculpe-me por não estar dando muita atenção a você, ultimamente. É que ando ocupada com o planejamento das aulas. Meus professores costumavam dizer que o trabalho dos professores não termina quando os alunos vão embora para casa; agora vejo que tinham razão. Eu não tinha idéia de que teria de trazer tanto trabalho para casa. Tenho que dividir meu tempo entre cuidar da casa, planejar as aulas, conversar com James ao telefone e...

— Eu entendo — Lene disse com sinceridade, afagando a mão de Lily antes de soltá-la. Torceu o nariz, numa careta de desgosto. — Eu lhe contei que minha mãe me manteve ocupada o feriado inteiro? Assim que ela ficou sabendo que você iria para São Francisco, e que nós duas não nos veríamos, preparou uma enorme lista de tarefas para mim.

Lily riu alto.

— Não admira que esteja furiosa comigo! — comentou. — Por que não combinamos fazer alguma coisa diferente? James não virá para casa nas próximas três semanas, portanto, teremos tempo suficiente para ficarmos um pouco mais juntas, como nos velhos tempos. O que quer fazer?

— Fala sério?

O sorriso de Lene foi tão grato que Lily não se conformou de não haver notado antes que sua amiga estava tão triste com o distanciamento entre as duas.

— Claro Lene — confirmou. E, como costumavam dizer desde a infância, acrescentou: — Juro pela minha casa de bonecas!


James pegou um táxi no aeroporto, sem querer estragar a surpresa. Por uma inacreditável sorte, tirara o fim de semana de folga e conseguira um lugar no último vôo para a Costa Leste. Chegara pouco depois das onze horas.

Imaginou que Lily ainda estivesse acordada, esperando seu costumeiro telefonema. Também devia estar furiosa, já que ele prometera ligar às oito.

Não ligara de propósito. Queria ver a expressão de surpresa no rosto bonito de Lily quando ele abrisse a porta e entrasse em casa.

Fazia mesmo apenas cinco dias que ele se despedira dela no aeroporto? Mais parecia cinco anos! Os dias até que passavam rápido, devido ao treinamento, mas as noites eram uma verdadeira provação.

Sirius mal ficava no apartamento. Encontrara um restaurante dançante na vizinhança e passara a frequentá-lo. Segundo ele, o lugar era ótimo não apenas pela comida, mas também pelos "encontros". Com mulheres, claro.

E que mal havia naquilo? Sirius era um homem solteiro. Não tinha ligação com nenhuma esposa que vivia do outro lado do país. Contudo, James desconfiava de que nem mesmo isso impediria Sirius de procurar outras diversões.

James relaxou contra o assento de couro do táxi, rindo consigo mesmo ao lembrar a única vez em que fora com Sirius e outros dois co-pilotos até o restaurante. Passara metade da noite elogiando Lily para uma outra funcionária da Lombard Airways. A mulher deve tê-lo achado um chato. Ficou sozinho a outra metade da noite, imaginando como um homem em sua condição fora parar em um lugar daqueles.

Talvez devesse entrar para um clube esportivo, para queimar seu excesso de energia. E frustração também. Entretanto, queria economizar o máximo possível. Ele e Lily haviam saído do clube que frequentavam, em Godric Hollow, justamente por esse motivo. Cada centavo que pudessem economizar seria importante para o futuro dos dois.

Até agora estavam indo muito bem. De fato, se conseguissem manter o atual orçamento, Lily poderia ir morar com ele no final do ano letivo, conseguindo ou não uma vaga de professora em São Francisco.

Não via a hora de poder abraçá-la, beijá-la e dizer o quanto aquele apartamento ficara vazio depois que ela partira na segunda-feira, deixando para trás lembranças que o acompanhavam dia e noite.

O táxi parou diante da casa, trazendo-o de volta à realidade. Pagou a corrida e pegou sua maleta, encaminhando-se para a porta. O jardim que Lily cuidava com tanto zelo, estava lindamente florido, como ele imaginou que estaria.

Subiu dois degraus de cada vez, pegando a chave no bolso. Tocou a campainha duas vezes antes de abrir a porta.

— Lily? — chamou quando ela não apareceu para ver quem era. — Lily? Onde está você?

Percorreu a vista pela sala, notando duas luminárias acesas, embora a tevê e o aparelho de som estivessem desligados. Franziu o cenho, confuso. Subiu até o andar de cima, ainda chamando por Lily.

Nem sinal dela. A casa estava vazia.

— Onde diabos...? — disse em voz alta, dirigindo-se à cozinha. Abriu a geladeira para se servir de um pouco de chá gelado.

Não havia uma lata sequer!

— E por que deveria haver? — perguntou a si mesmo, pegando uma lata de refrigerante.

Afinal, Lily não o esperava em casa nas próximas três semanas. Não ter chá gelado em casa era uma coisa, mas não encontrar Lily era outra bem diferente. Para onde ela teria ido, sabendo que ele iria ligar?

— Ligar... Claro! Por que não pensei nisso antes? — James estalou os dedos e foi até o telefone.

Apertou o botão que acionava a secretária eletrônica.

— Alô — ouviu a voz de Lily dizer —, não estou em casa no momento, mas se quiser deixar seu nome e recado, fale depois do sinal. Estarei de volta assim que possível. E James, se for você, saí com Lene, querido. Prometo ligar quando chegar em casa.

Saiu com Lene? James tomou um generoso gole de soda. Fez uma careta ao notar que pegara uma lata de soda diet. Detestava soda diet. E onde Lily e Lene, que era solteira, estariam numa sexta-feira a essa hora da noite? Olhou para o relógio: quase meia-noite!

— James, você não a está perdendo! — anunciou a si mesmo, afundando no sofá da sala.

"Lily não acha que está fazendo algo errado, assim como você não se sentiu culpado na noite em que saiu com Sirius", pensou consigo.

O pensamento o tranquilizou um pouco, mas ele se deu conta de que agora entendia como Lily se sentira no dia em que ficara sabendo que um de seus instrutores de vôo era uma jovem e bela mulher.

— Ciúme é uma faca de dois gumes, James — disse, pegando o controle remoto e ligando a tevê.

Esperaria, embora impaciente, que Lily voltasse para casa. Seu plano de fazer uma surpresa a ela não dera certo. Agora, lá estava ele com uma soda de gosto horrível à mão e um velho filme de faroeste como única companhia.

O mocinho estava prestes a se vingar dos bandidos, quando James ouviu Lily abrir a porta da cozinha. Olhou para o relógio, pela milésima vez nos últimos minutos. Quase uma e meia da manhã.

Ouviu quando ela deixou a chave sobre a mesa. Permaneceu em silêncio, sabendo que ela ouviria a tevê ligada. Sabia que não deveria fazer isso, já que Lily poderia pensar que havia um ladrão em casa. Entretanto, não estava com disposição para ficar de pé.

— Surpresa! — exclamou de onde estava.

— Quem está aí? — Lily perguntou com a voz um pouco trêmula.

— Sou eu — James respondeu com um suspiro. — Venha assistir o final do filme. O herói está prestes a montar no cavalo e sair cavalgando com um pôr-do-sol atrás de si.

— James?

Lily entrou apressada, posicionando-se entre ele e a tevê. Trajava o vestido azul, um dos preferidos de James.

— Por quê? O quê...? — Lily balbuciou.

A expressão confusa logo cedeu lugar a um sorriso radiante, quando James ficou de pé e a abraçou.

— Oh, querido, quando chegou em casa? Por que não...

James interrompeu-a com um beijo ardente, que a deixou sem fôlego. Depois mergulhou o rosto junto ao pescoço dela, sentindo o perfume que ele tanto adorava invadindo suas narinas.

— Queria fazer uma surpresa para você — murmurou junto ao ouvido dela, afastando-se em seguida para olhá-la. — Só que você não estava aqui para receber a surpresa. Cheguei por volta das onze e meia. Ouvi seu recado na secretária eletrônica. Então, você e Lene foram ao cinema?

Lene segurou o rosto de James entre as mãos, como que certificando-se de que ele estava mesmo ali.

— Fomos jantar, depois ao cinema e ainda a uma de nossas sorveterias preferidas nos tempos de faculdade. Foi uma noite positivamente ousada! — Lily exclamou, sentando-se com ele no sofá. — Oh, querido — deitou a cabeça no ombro dele —, gostaria de estar aqui para recebê-lo. Deixei a mensagem na secretária no caso de você ligar, mas agora está aqui comigo. É bom demais para ser verdade! Espere só quando eu contar a Lene que... — Lily interrompeu-se.

— O que foi, Lily?

Ela sentou direito, evitando encará-lo.

— É Lene, James. Tenho dado tão pouca atenção a ela ultimamente que prometi fazer o que ela quisesse para nos divertimos nesse fim de semana. Cinema esta noite, uma exposição de antigüidades amanhã à tarde e jantar e patinação no gelo à noite. E no domingo fui convocada para organizar uma das mesas na festa anual do doce, lá na escola.

James pôde notar pelo tom de Lily que ela falava sério, embora ele não visse onde estava o problema. As soluções pareciam fáceis.

— E daí? — perguntou a ela. — Troque de lugar com algum dos outros professores. Vá à exposição de antigüidades, se quiser. Suponho que só funcionará amanhã. Já sou bem crescidinho e posso arrumar alguma coisa para fazer enquanto você estiver fora. Lene compreenderá se você cancelar o restante do passeio.

— Oh, claro que ela compreenderá — Lily respondeu com certa ironia. — Sabe de uma coisa? Acho que Lene tem razão. Uso-a como companhia quando estou sozinha, mas a solto como uma batata quente, assim que você aparece na cidade.

James coçou a cabeça, perguntando-se por que as mulheres sempre tinham de complicar as coisas.

— Acho que você não entendeu. Vamos conversar direito, Lily — disse, voltando a abraçá-la. — Já não acha suficientemente ruim estarmos casados desde junho e só nos termos visto algumas vezes? Agora teremos também que desculpar Lene por querer estar junto nos únicos momentos em que podemos nos ver?

Lily levantou a vista, encarando-o.

— A situação parece até meio maluca, se vista dessa maneira — admitiu. — Mas não se trata apenas de Lene. Eu e você podemos estar casados, mas nossas vidas estão tão separadas que quando temos chance de passar algum tempo juntos, simplesmente não tenho ânimo! Uma parte de mim sente que isso não é justo. Porém, não posso ficar o fim de semana inteiro dentro de casa, esperando que, por algum milagre, você apareça de repente. Creio que fui deixada com a escolha de ser injusta comigo mesma ou então com os outros. Sei que parece complicado, querido. Estou sendo clara?

— Muito, infelizmente. Confesso que isso me deixa apreensivo. Droga, Lily, estou começando a achar que errei em ter vindo para cá na minha folga — James resmungou, balançando a cabeça.

— James! Não é isso que estou querendo dizer! Não imagina o quanto estou feliz por você estar aqui. Pedirei a Margaret Simms que me substitua no domingo, eu a substituí durante uma semana quando ela ficou doente.

Lily pousou as mãos nos ombros dele. Inclinou-se para beijá-lo, pressionando o corpo convidativamente contra o dele. James a envolveu nos braços, retribuindo o beijo com paixão.

Estava prestes a pegá-la no colo e levá-la para o quarto quando Lily se afastou um pouco e disse:

— Sabe, querido, é como li naquele artigo de revista sobre o qual lhe falei na semana passada. Casais que não se vêem com freqüência, como nós, enfrentam um monte de problemas que outros não têm que encarar. Um deles, sobre o qual eu não havia pensado antes, é que eles tendem a se afastar dos amigos, já que dedicam os fins de semana apenas aos companheiros.

James levantou os cabelos dela e começou a beijar-lhe a nuca.

— E outro problema,é que quando estão juntos, um deles começa a falar sem parar, enquanto o outro deseja um outro meio mais importante de comunicação — ele completou.

Lily inclinou a cabeça para o lado, facilitando o acesso de James à perfumada curva de seu pescoço.

— Agora é você que está sendo infantil — reclamou ela, rindo quando ele mordiscou sua orelha.

James sabia que aquilo a deixava toda arrepiada. Sorriu, ao vê-la estremecer. Devagar, começou a abrir o zíper do vestido. Progresso. Sem dúvida, estava tendo progresso.

— Você disse infantil? Agora vejo que realmente precisamos nos encontrar com mais frequência, Sra. Potter. Não consegue distinguir a diferença de quando estou brincando e de quando estou tentando seduzir minha linda esposa? — Ficou de pé e a fez ficar também. — Sugiro uma imediata visita ao quarto, para uma aula palpável de comunicação não-verbal. O que acha da idéia?

— Parece fascinante, especialmente a parte palpável da aula — Lily sorriu de maneira sedutora, afastando-se dele.

Parou no primeiro degrau da escada e olhou para trás. Com uma piscadela, exibiu outro sorriso provocante e começou a galgar dois degraus de cada vez. Parou no alto da escada.

— Você não vem?— sorriu para James.

Ele hesitou apenas o suficiente para desligar a tevê. Sorriu para ela e subiu a escada com todo o vigor de um homem sedento de amor.


Oi Joana Patricia, a vida de quem vive assim não é nada fácil, tanto no intimo do relacionamento quanto na vida social, mas o lado bom é esses momentos igual ao fim do cap ;) Obrigada por comentar, beijinhos :*