— Véspera de Natal, claro. Tudo mundo não faz assim?

— Véspera de Natal? Você só pode estar brincando! Eu sempre desconfiei que havia algo de errado com você, James Potter. Quero na manhã de Natal.

— Não estou brincando, Lily. E eu agradeceria se você lembrasse que está falando com o amor de sua vida. Véspera de Natal. Será mais fácil.

— Nem pense nisso! Manhã de Natal! Já é tradicional.

— Tradicional? Bem, aí está uma palavra que aprendi a conhecer muito bem de uns tempos para cá.

James revirou os olhos, dando graças por ele e Lily estarem conversando apenas por telefone.

— Ouça, Lily, que tal fazermos um acordo? Abriremos um presente na véspera de Natal e deixaremos os outros para a manhã de Natal. Não será a minha ou a sua tradição, será a nossa. De acordo?

Houve uma pausa do outro lado da linha. Por fim, James ouviu o riso de Lily e sentiu-se mais relaxado.

— Está bem, estou de acordo — ele a ouviu dizer. — Agora vamos discutir sobre o jantar de Natal. O que você prefere: peru ou pernil?

— Bem, se eu disser que estou acostumado a comer pernil no Natal, estarei dando oportunidade a você de dizer que está acostumada a comer peru. Sendo assim, que tal uma salada de atum? Não estaremos transgredindo nenhuma de nossas tradições e nem precisaremos de faca para comer. Do jeito que está indo essa discussão, acho que será mais seguro dessa maneira.

— Muito engraçado, James. Vamos combinar outra coisa, então. Farei uma surpresa para você, ok?,Quando virá para casa? Seria muito bom se chegasse a tempo de me ajudar a decorar a árvore.

— Não saberei nada sobre meu vôo até o último instante — ele avisou, inclinando-se sobre a sacada.

Acenou para Alice Longbottom no momento em que ela entrava no prédio, carregando um pacote de compras. Alice retribuiu o cumprimento, antes de desaparecer na entrada do edifício.

— Só terei uma idéia de quando poderei partir na manhã da véspera de Natal, meu amor. Quando eu chegar, pegarei um táxi no aeroporto. Portanto, não precisa se preocupar em ir me buscar.

Lily suspirou, mas dessa vez parecia contente.

— Será nosso primeiro Natal juntos. Oh, James, mal posso esperar! Talvez neve, embora faça algum tempo que não temos Natal com neve.

— Se nevar, espero que isso não atrapalhe os vôos locais. Não estou disposto a passar a véspera de Natal preso em algum aeroporto no meio da rota.

James ouviu um barulho vindo da porta. Ao se virar, viu Sirius fazendo sinal de que queria usar o telefone.

— Lily, preciso desligar agora — disse em voz baixa. — Sirius quer telefonar para os pais e avisá-los de que só poderá voltar para casa depois do Ano Novo, quando eu voltar. Foi por isso que eu trouxe o telefone para a sacada. Estou me sentindo meio culpado. Não que eu vá trocar de lugar com ele. Acho que homens casados, como eu, também merecem uma folga de vez em quando. Agora diga o quanto me ama e prometo vê-la dentro de dois dias.

— Oh, James, você não tem jeito mesmo... — Lily riu.


A casa inteira estava tomada pelo clima de Natal, desde o enfeite da porta, que Lily comprara em uma loja local, até o pequeno pinheiro que ela deixara a um canto da sala, mas que ainda não fora decorado.

Sobre a mesa da sala de jantar, os doces confeitados e as frutas enchiam o ambiente de um clima apetitoso. Pequenas velas coloridas e enfeitadas haviam sido acesas em cada uma das janelas, irradiando uma agradável atmosfera de paz pela casa.

Um grande Papai Noel iluminado fora colocado na escada, do lado de fora da porta de entrada. Mantinha um sorriso e a mão erguida em saudação a cada um que passava pela rua.

Luzes vermelhas e verdes coloriam o alto da porta e as janelas na frente da casa. Um antigo presépio esculpido à mão e que pertencera à avó de Lily fora deixado a um canto da sala, em seu costumeiro lugar de honra.

Era véspera de Natal e tudo estava adorável, quase perfeito. A única coisa lamentável era que Lily não se encontrava em casa para desfrutar aquele ambiente agradável.

Graças a uma tempestade de neve que caíra repentinamente em Godric Hollow, uma hora antes de seus alunos serem dispensados para o feriado de Natal, ela estava agora alguns quilômetros longe de casa, sentada na sala de emergência do hospital da cidade.

No momento, Lily olhava para o tornozelo inchado, apoiado em uma cadeira à sua frente. Um saco com gelo fora amarrado ao seu pé. Um passo em falso provocara o acidente, quando ela se dirigia ao estacionamento com os braços cheios de presentes que recebera dos alunos.

Cheirou a manga de seu suéter e riu consigo mesma. Alguma das mães havia decidido que um perfume seria o presente ideal para a professora de seu filho. Lily gostara muito da essência, só não imaginara que acabaria tomando um verdadeiro "banho de perfume", já que o vidro se quebrara durante a queda.

Olhou através da porta dupla de vidro. Já estava escurecendo do lado de fora do hospital. Fez uma careta ao olhar para o relógio. Cinco horas!

Esperara durante mais de quatro horas para ser atendida. A sala de emergência estava repleta de pessoas em situação semelhante à dela. A maioria havia escorregado na neve e machucara alguma parte do corpo.

Lily pretendia deixar o hospital o quanto antes. James chegaria a qualquer instante e ficaria aflito se não a visse e encontrasse a casa toda apagada, exceto pelas luzes que enfeitavam a entrada.

Só que ela não podia sair agora. Seu carro ainda estava no estacionamento da escola, já que um dos outros professores se oferecera para levá-la ao hospital. Além disso, Lily não aguentava pôr o pé no chão. Já tentara fazer isso, mas a dor no tornozelo fora insuportável.

A porta da sala de atendimento se abriu de repente. Lily levantou a vista, expectante, só para se decepcionar quando a enfermeira chamou o nome de uma outra pessoa.

Viu quando uma garotinha com não mais de três anos entrou na sala de atendimento, levada pela mãe. O rosto da criança estava vermelho de febre e ela mantinha a cabeça apoiada no ombro da mulher.

— Bem, não posso me sentir irritada com uma coisa dessas — Lily murmurou consigo.

Encostou a cabeça contra a parede atrás de si, observando a fileira solitária de lâmpadas coloridas que alguém pendurara no teto.

Lembranças do Natal em que tivera de ficar de cama, sem poder brincar com seus brinquedos novos, vieram-lhe à mente. Desejou que a menininha que estava sendo atendida melhorasse logo.

Pensando melhor, agora ela se dava conta de que sempre tinha alguma "coisa" em datas importantes. Sarampo no aniversário de cinco anos, um olho roxo devido a uma bola de beisebol mal-arremessada um dia antes da formatura do ginásio, aquele vírus estomacal na véspera de Natal do ano em que sua mãe a deixara namorar...

— Lily? Lily! Você está bem? Oh, Deus, o que aconteceu? Minha mãe me deu seu recado assim que cheguei em casa. Saí correndo para cá no mesmo instante. A neve já se foi, tão rápida quanto surgiu. Tempo maluco... Demorei uma eternidade para encontrar uma vaga para estacionar! Até parece que todo mundo resolveu passar a tarde caindo pelas ruas! O que você quebrou? O tornozelo? Oh, Deus, justo hoje? O chefe de Remus também caiu no meio da rua, mas não quebrou nada. Não admira que os pássaros prefiram voar para o sul no inverno...

— Oi, Lene — Lily cumprimentou-a com calma. Lene afundou em uma cadeira ao lado da amiga. Tinha o rosto vermelho devido ao frio lá fora. — Obrigada por ter vindo — Lily agradeceu. — Sabe se James já chegou? Acho melhor ligar para casa, mas não quero que ele receba a notícia por telefone.

— Entendo. Minha mãe avisou-me para não dizer nada a ele, se o encontrasse. Porém, as luzes da sua casa continuavam apagadas. Quando eu saí, ele ainda não havia chegado. O vôo deve ter atrasado.

— Bem, Deus a ouça. Com um pouco de sorte, poderei até chegar antes dele em casa e disfarçar esse tornozelo machucado. Quero surpreendê-lo com o que achei naquelas caixas que ele guardou no porão.

Lene olhou para o tornozelo inchado da amiga e balançou a cabeça.

— Não sei se conseguirá, Lily. Não será fácil esconder um tornozelo no estado em que o seu se encontra. James é muito esperto; notará que algo está errado assim que vir a fratura em sua perna.

Lily endireitou-se na cadeira, respirando fundo.

— Ninguém disse que haverá uma fratura na minha perna, Lene. Não seja tão pessimista, pelo amor de Deus. Devo ter torcido o tornozelo, só isso. Ainda estou esperando o resultado do raio X.

Lene meneou a cabeça, olhando para o tornozelo de Lily.

— Tenho quase certeza de que está quebrado — comentou num tom fatalista. — Olhe só como a pele está ficando azulada — apontou o pé de Lily. — Está quebrado, pode ter certeza.

— Ora, muito obrigada pelo incentivo, Dra. McKinnon. Seu diagnóstico foi realmente brilhante, para não dizer científico. Se houvesse chegado um pouco antes, teria poupado aqueles médicos idiotas do trabalho de tirar um raio X do meu tornozelo. Estou preocupada com Almofadinhas. Costumo já estar em casa a essa hora. O coitadinho deve estar faminto.

— Ora, Lily, aquele bicho poderia viver um mês de sua própria gordura. — Lene tirou as mãos dos bolsos do casaco e olhou em volta. — Sabe quanto tempo ainda terá de ficar? — perguntou à amiga. — Quero dizer, eles lhe deram um número ou algo assim?

Lily livrou-se de ter que responder quando a enfermeira apareceu à porta e anunciou:

— Lily Potter? O cirurgião ortopedista quer examiná-la.

— Cirurgião ortopedista? — Lene repetiu, olhando para Lily. — Eu não disse que estava quebrado? Esses cirurgiões não perdem tempo mesmo. Se fosse uma mera luxação, você estaria indo falar apenas com o médico de plantão.

Lily apoiou-se em Lene, encaminhando-se para a porta.

— Sabe de uma coisa, Lene? Você anda assistindo novelas demais com todos aqueles pseudomédicos e longas amnésias!

Lene ajudou-a a seguir em frente.

— Ok, talvez eu e você não conheçamos ninguém que já teve amnésia — disse Lene, sorrindo para a enfermeira. — Mas isso acontece. Acredite-me.

Lily cerrou os dentes quando o tornozelo começou a latejar.

— Não sei nada sobre amnésia, Lene. Contudo, por mais que eu deteste ter que dizer isso, acho que você tem razão em uma coisa: esse tornozelo só pode estar quebrado! Está doendo demais!


James desceu do táxi, sorrindo. O aspecto da casa estava muito aconchegante. A decoração assemelhava-se muito com a da casa de Lene, exceto por um detalhe: em vez de um Papai Noel, havia uma mulher de neve, em frente à casa da amiga de Lily.

Pagou o motorista e ficou parado um momento. Puxou o chapéu do uniforme um pouco para trás, olhando para um lado e outro da rua. Todas as casas haviam sido decoradas com motivos natalinos. A visão daquelas luzes e enfeites coloridos fez crescer dentro dele a sensação do espírito de Natal.

Sentia falta daquela imagem: uma rua toda iluminada, uma umidade característica no ar, resquícios de neve pelas calçadas...

Quando saíra de São Francisco, estava chovendo. Não nevando, mas chovendo. Nessa época do ano na Califórnia, às vezes chovia, fazia sol e frio, tudo num mesmo dia. Dessa forma, havia pelo menos algo a ser salientado em favor da Pensilvânia: a marcada mudança das quatro estações.

Pendurou a sacola de viagem no ombro, pegando a maleta com a outra mão. Sem esperar mais, galgou os degraus de entrada e abriu a porta com sua chave.

Teve tempo apenas de sentir um cheiro de pinheiro pelo ar, antes de o som de um leve rosnado chegar até seus ouvidos. Almofadinhas estava bem no meio da sala. Patas firmes sobre o tapete, dentes à mostra, pêlos das costas arrepiados e cauda levantada, em posição de ataque.

Se James fosse um ladrão, por certo estaria correndo pela rua agora.

— Almofadinhas! Almofadinhas, sou eu!

Nem ousou se mexer ao dar-se conta de que o cachorro não o reconhecera. Fazia mesmo tanto tempo que ele não aparecia em casa?

— Calma, Almofadinhas. Sou eu, rapaz! — disse com mais gentileza quando o cachorro inclinou a cabeça de lado, observando-o através da penumbra. — Não reconhece mais a voz de seu dono?

No mesmo instante, o rosnado transformou-se em um ganido e, em seguida, num latido animado quando Almofadinhas correu para saudar o dono. Abanava a longa cauda, demonstrando sua alegria. Num impulso, pulou sobre James, apoiando as patas nos ombros dele para lamber-lhe o rosto.

— Assim é melhor — James riu, desvencilhando-se do abraço desajeitado de Almofadinhas. — Onde está Lily, rapaz? Ela já deveria ter corrido até aqui. Estou enganado, ou o único motivo de sua alegria em me ver é porque ela ainda não chegou em casa e você está morrendo de fome?

James foi até a cozinha e viu que suas suspeitas estavam corretas. Lily ainda não chegara e o prato de Almofadinhas estava vazio.

Após servir a comida e trocar a água dos recipientes, James pegou um refrigerante na geladeira, tendo o cuidado de verificar se não era soda diet. Sorriu ao ver a geladeira repleta de iguarias apetitosas, incluindo um grande presunto, que ele deduziu ser o prato principal do primeiro jantar "tradicional" dos Potter.

Voltou para a sala é ligou a secretária eletrônica, a fim de ouvir os recados. Não havia nenhuma mensagem de Lily, explicando o motivo de sua ausência, James deduziu que ela saíra para comprar algum presente de última hora, antes que as lojas fechassem.

Com um pedaço de rabanada entre os dentes, ele levou a bagagem para o quarto. Tomaria um banho e trocaria de roupa antes que Lily chegasse.

Desceu para a sala meia hora depois. Com os cabelos ainda molhados do banho, aproximou-se da árvore de Natal carregando as seis caixas de presente que trouxera de São Francisco.

— Ora, vejam só! — exclamou ao ver uma grande caixa com enfeites de Natal que ele nem lembrava que possuía.

Ajoelhou-se para colocar os presentes sob a árvore, resistindo bravamente à tentação de balançar ou testar o peso dos que já estavam lá. Em seguida, começou a examinar o conteúdo da caixa.

Cada enfeite evocava uma lembrança diferente de sua infância. Seus pais, os colegas e as noites de Natal que passavam juntos.

Foi para a cozinha, levando consigo um dos enfeites em forma de guarda-chuva. Não fazia muito tempo que estava lá quando ouviu Lily abrir a porta.

— Lily — começou a falar assim que ela entrou —, não imagina o quanto estou contente em ver esses velhos enfeites. Eu nem lembrava que ainda tinha aquela caixa... Lily! — ele arregalou os olhos. — O que diabos...?

— Bem vindo ao lar, querido — Lily forçou um sorriso quase apreensivo.

Lene apressou-se em pegar uma cadeira, mandando que ela sentasse. Lily aproximou-se com dificuldade da cadeira. Após se sentar, entregou as muletas a James, que as aceitou num gesto automático.

Lançou um olhar confuso para o tornozelo engessado de sua esposa.

— Veja o que ganhei de presente de Natal, meu amor — Lily anunciou, sorridente. — E nem foi preciso pedi-lo a Papai Noel!

James voltou-se para Lene, como que à procura de alguma explicação. Esta, no entanto, apenas sorriu sem graça, dando de ombros.

— Querem ter a gentileza de me explicar o que está acontecendo aqui? — ele ordenou, olhando de uma para a outra.


Huuum e agora gente, Lily vai ficar um bom tempo de repouso e como vai ser, James volta para Godric Hollow para cuidar dela, ou leva ela para morar com ele em São Francisco? Qual o palpite de vocês? Godric Hollow ou São Francisco? Neve ou Calor? Obrigada a Thaty, Nanda Soares e Joana Patricia pelos comentários, beijos meninas :*