— Pensei que o clima estivesse mais quente por aqui — Lily comentou quando James arrumou o travesseiro sob seu tornozelo engessado. — Afinal, não estamos na "ensolarada Califórnia"?
James sorriu para ela.
— Estamos na ensolarada Califórnia, Lily, só que aqui não é Miami Beach. A costa da Califórnia tem um clima mais marítimo, com verões frios e invernos quentes. Todavia, ouvi comentários de que é estranho ainda não ter ocorrido uma geada.
— Eu não sabia que geava por aqui — Lily replicou. — Interessante. Foi muita gentileza sua ter feito minhas malas, querido. Caso contrário, agora eu estaria congelando, em vez de confortavelmente aquecida. Por acaso eu já lhe disse o quanto adorei meu novo suéter?
— Sim, já disse — James respondeu, sorrindo. — Mas pode dizer novamente, se quiser. Sinto-me orgulhoso de havê-lo escolhido para você. Não estou acostumado a comprar presentes de Natal para uma mulher. A última vez em que fiz isso, agora me lembro, foi quando comprei uma panela de pressão nova para minha mãe. A intenção não era nem um pouco romântica, claro. Tem certeza de que está confortável, Lily? Posso pegar outro travesseiro, se você quiser. Melhor, vou pegar uma almofada.
Lily sorriu para o marido quando ele foi pegar a almofada. James estava sendo maravilhoso desde que ela entrara na cozinha da casa de Godric Hollow, exibindo o tornozelo torcido.
Ele havia cuidado da decoração da árvore, da preparação do jantar... Fizera tudo sozinho, sem uma palavra de reclamação. Não dissera nem que ela não teria escorregado na neve se estivesse em São Francisco, já que não nevava na cidade, pelo menos não da maneira intensa como nevava na Pensilvânia.
E agora, três dias depois, os dois estavam no apartamento de James, onde ela ficaria até o final da licença de três semanas que tirara na escola. Sirius estava viajando a trabalho e só voltaria a tempo de ir para Houston, no Ano Novo. Portanto, os dois teriam o apartamento só para eles nos dias seguintes. O pé enfaixado representava apenas um pequeno impedimento para que o encontro se tornasse uma segunda lua-de-mel.
Como se não bastasse, James estava agindo como uma verdadeira babá, cuidando dela a todo instante. Lily não se sentia tão mimada desde que tivera uma forte gripe com quinze anos e sua mãe ficara todo o tempo por perto, arrumando seus travesseiros e lhe dando canja de galinha na boca.
Ao ouvir um latido distante, vindo da rua, lembrou de Almofadinhas. Ainda bem que Lene e Remus haviam se oferecido para cuidar dele.
— Aposto que estará todo mal-acostumado quando eu voltar para casa — riu consigo mesma.
— Quem estará mal-acostumado, Lily? — James apareceu, trazendo a almofada sob o braço. — Deve estar se referindo a mim. Pois fique sabendo que assim que esse seu tornozelo sarar e você voltar a ocupar o lugar de dona-de-casa, quero que lave e passe meu uniforme, e me alimente com uvas enquanto repouso minha cabeça em seu colo.
— Oh, é mesmo? — Lily arqueou uma sobrancelha. — Pois terminará com sua cabeça em uma bandeja de prata, se ousar me cobrar alguma coisa por estar sendo um marido dedicado. Está fazendo isso para a pessoa que mais ama no mundo, lembra? Todavia, acho que poderei lavar e passar seu uniforme, isto é, se me pedir com delicadeza... Não fique aí parado, marido, ponha logo essa almofada sob meu pé! — ordenou ela, esforçando-se para conter o riso.
Os dois se sentaram no chão da sacada. Lily acomodou a perna da melhor maneira que conseguiu. James abraçou os joelhos, sorrindo para ela.
— Não sei por quê, mas de repente estou me sentindo um homem muito casado. Estou satisfeito que tenha vindo comigo para cá até que seu tornozelo fique bom. Acha que estará curada antes do jantar? Estou ficando meio enjoado de meu próprio tempero.
— Que tempero? — Lily riu. — As sobras de nosso jantar de Natal não foram feitas por você, meu caro. Seu único trabalho foi apertar os botões do forno microondas, para reaquecê-las. — Suspirou. — E cá estava eu, pensando no quanto meu marido se demonstrava dedicado! Quer dizer que três dias é seu limite máximo para os votos de apoiarmos um ao outro "nos bons e nos maus momentos"? Mas, para dizer a verdade, também já estou enjoada de comer presunto. Se eu fizer uma lista, acha que será capaz de ir até o mercado mais próximo? — provocou-o. — Posso estar com o tornozelo enfaixado, mas ainda sei assar uma galinha. E algumas batatas? Uma saladinha?
— Pare! Pare! Está me matando! — James protestou com gestos teatrais, como se estivesse passando fome nos últimos três dias. — Será que dá para preparar aquele prato que você faz com brócolis, couve-flor e alface? Sabe de uma coisa? Se comercializássemos essa receita, dentro de pouco tempo poderíamos nos aposentar e ir morar em nossa própria ilha, nas Bahamas.
— Oh, mas como você é exagerado, querido — Lily riu, pegando as muletas. James a ajudou a ficar de pé. — Farei a lista e enquanto você estiver fora, deitarei um pouco no sofá, preguiçosa que sou para terminar o último capítulo do meu livro.
— Pode deixar as compras comigo!
James deixou ela entrar na frente. Pegou papel e lápis e anotou tudo que Lily ditou. Cinco minutos depois, ela estava sozinha no sofá, procurando seu livro em meio às revistas sobre a mesinha.
Havia acabado de encontrá-lo quando ouviu uma chave girando na fechadura da porta. Ao se virar, viu Sirius entrar e deixar a mala no chão, antes de voltar a fechar a porta.
— Hmm, oi, Sirius — Lily cumprimentou-o. — Feliz Natal e seja bem-vindo. James disse que você só voltaria no Ano Novo. Aconteceu alguma coisa?
— Lily! — Sirius surpreendeu-se ao vê-la. — Não esperava encontrá-la aqui. — Ele atravessou a sala e sentou-se em uma cadeira ao lado do sofá. — O que aconteceu? James a raptou? Não, espere um pouco... James não a raptou. Ele a levou para dançar e pisou violentamente no seu pé. Deus, eu sabia que James faria qualquer coisa para ficar alguns dias com você, mas isso foi o cúmulo!
Lily riu alto, encostando-se contra o sofá.
— James não teve nada a ver com meu acidente, Sirius. Escorreguei na neve, na véspera de Natal. De fato, James tem sido maravilhoso comigo. Mas, Sirius, você não respondeu à minha pergunta, aconteceu alguma coisa? Você não deveria estar aqui, e parece cansado.
Sirius exalou um longo suspiro.
— Exausto, é a palavra correta. Estou acordado há vinte e cinco...— olhou o relógio de pulso —...vinte e seis horas agora. Eu havia acabado de entrar no hotel em Honolulu quando recebi um telefonema avisando-me de que meu pai sofrera um ataque cardíaco e fora operado às pressas. A Lombard me deu uma licença imediata. Estarei a caminho de Houston daqui a duas horas. Só passei aqui para pegar os presentes de Natal que comprei para a família.
Lily inclinou-se para a frente, pousando a mão sobre a dele.
— Sinto muito. Como está seu pai?
— Ótimo — Sirius sorriu. — Aquele velho ainda vai viver muito. Ele só deixou minha mãe me avisar quando estava suficientemente recuperado para falar comigo ao telefone. Ele saiu da UTI essa manhã. Terá que deixar de fumar, e não está nem um pouco satisfeito com isso.
Lily relaxou, embora ainda notasse as rugas de preocupação no rosto de Sirius.
— Quer vê-lo pessoalmente para ter certeza de que ele está bem, não é, Sirius? — indagou com um sorriso compreensivo. — Não o culpo por isso. Quer um sanduíche de presunto antes de partir? Não seria nenhum incômodo; o estoque que sobrou do nosso jantar de Natal daria para alimentar um exército!
— Lily, você me convenceu. Não admira que James esteja planejando abrir mão do cargo para voltar a ser engenheiro de vôo. No início pensei que ele estivesse maluco por querer desistir dessa oportunidade, mas agora entendo o que o levou a fazer isso. Eu mesmo não aguentaria ficar muito tempo longe de uma mulher como você.
Quinze minutos depois, ainda mantendo um sorriso de determinação no rosto, Lily se despediu de Sirius, que levava consigo dois sanduíches extras.
Ela não podia demonstrar a Sirius o quanto suas palavras a haviam afetado. Lily ficara com os nervos à flor da pele. Voltou para a cozinha, refreando a vontade de explodir em lágrimas. Precisava se controlar, pois James chegaria a qualquer momento. Não havia tempo para prantos, nem tampouco para imaginar uma maneira amena de abordar o assunto que a afligia.
Sua única atitude seria reagir, dizendo a primeira coisa que lhe viesse à mente assim que James entrasse no apartamento. Não demorou muito para isso acontecer. Alguns minutos depois, ele abriu a porta, carregando um grande embrulho de papel. Lily esperou até que ele colocasse a galinha e os outros frios na geladeira, antes de lhe dirigir a palavra.
— Está querendo desistir? — perguntou num tom acusador, detestando a frieza de sua voz. Apoiando-se nas muletas, foi para a sala, obrigando James a segui-la. — Sem ao menos me avisar? Ia desistir do cargo sem me dizer uma palavra sequer a respeito do fato, James?
Ele olhou para os lados, como que certificando-se de que entrara no apartamento certo. Foi então que viu a maleta que Sirius deixara sobre uma cadeira. Arqueou uma sobrancelha com ar desafiador.
— Aquele boca grande esteve aqui, não é? Onde está ele?
— Não culpe Sirius. Ele não sabia que estava me contanto algo que você preferia ocultar. Além disso, ele partiu para Houston. O pai dele sofreu uma cirurgia no coração, há três dias, mas já está bem. Agora responda à minha pergunta, James — Lily mandou, sentando-se no sofá.
Continuou segurando as muletas, no caso de sentir necessidade de acertar a cabeça do marido com alguma delas. James afundou numa cadeira próxima.
— Sirius está uma semana atrasado com essa notícia, Lily. Admito que andei pensando seriamente em desistir de tudo. Cheguei a comentar diferentes possibilidades com ele. Se eu desistisse da promoção, seria meu presente de Natal para você. Eu chegaria em casa com toda minha bagagem, mantendo a pose de um herói que largou tudo por amor à sua mulher. Só que não pude fazer isso.
Lily levou a mão trêmula aos lábios, sentindo os olhos se encherem de lágrimas.
— Não... não pôde? — indagou num fio de voz. — Por que, James?
Ele abriu as mãos num gesto impotente.
— Não sei. Não foi por falta de amor a você, Lily. Sabe disso, não é? Concluí que seria uma covardia de minha parte. Eu e você estabelecemos objetivos para nossas carreiras e nosso casamento. A falta que sinto de você quase me fez esquecer esses objetivos. — Sorriu para ela. — E pela sua reação, eu diria que tomei a decisão certa. Por um momento, cheguei a pensar que fosse me bater com uma dessas muletas.
Lily começou a rir.
— E quem disse que isso não me passou pela cabeça? Se não está lembrado, o professor Dumblendore prometeu me avisar assim que conseguisse uma transferência para mim. Talvez em breve eu venha trabalhar em Mill Valley. Bem, de qualquer maneira, terei de ficar até o casamento de Lene. Eu lhe disse que ela me escolheu para ser sua dama de honra?
— Sim, mas não entendo o que o casamento de Lene tem a ver com nossos planos — James asseverou. Olhava-a com atenção, mais interessado em Lily do que em algo que ela pudesse dizer a respeito da amiga. Sentando-se ao lado dela no sofá, disse: — Já mencionei o quanto gostei de seus cabelos assim? O comprimento curto deixa seu pescoço mais acessível às minhas carícias... — Com os lábios e a língua, ele acariciou a pele sensível junto à orelha de Lily. — Hmm, acho que acabei de descobrir um novo território...
Lily revirou os olhos, desaprovando a interrupção. Entregou-se por um momento às deliciosas sensações das carícias de James, antes de readquirir o tom sério da conversa.
— Lene e Remus... — começou ela, contendo o impulso de deixar a conversa para depois —...ofereceram-se para comprar nossa casa em Godric Hollow.
James parou de abrir os botões da blusa dela.
— Ahn? E onde ficaremos? Na rua? Consultou Almofadinhas a esse respeito? Não sei se nosso amigo irá gostar da notícia.
Lily aproximou-se mais, permitindo que James desabotoasse o último botão de sua blusa. Ele insinuou a mão para dentro do tecido, capturando o seio firme, sustentado pelo sutiã de renda.
— Seria muito bom para Lene — Lily comentou. — Ela não teria que se preocupar com a mãe, já que ela estaria morando na casa ao lado. Seria perfeito.
— Perfeito agora seria eu levá-la para o quarto... — James respondeu, beijando-lhe a pele alva acima do sutiã. — Mas continue, estou ouvindo. Essa nossa conversa está ficando cada vez mais interessante...
As carícias de James dificultavam a concentração de Lily, mas ela respirou fundo e tentou prosseguir
— O ano letivo terminará na segunda semana de junho, um mês depois do casamento. Porém, Lene e Remus disseram que não se importam em esperar até que eu possa sair da casa. Minha mãe disse que nos pagará adiantado uma porcentagem do valor que Lene e Remus pagarão pela casa, como um presente de casamento para ela.
Ao ouvir isso, James levantou a cabeça para fitá-la nos olhos.
— Está brincando? — disse, pousando as mãos sobre os ombros de Lily. — Não, não está. Lily sabe o que isso significa?
— Acho que sim — ela sorriu —, a menos que você se recuse a aceitar a proposta de minha mãe por querer que façamos tudo sozinhos.
Tal pensamento surgira na mente de Lily desde que ela conversara com a mãe. Olhou com atenção para o rosto de James, esperando sua reação.
Ele franziu o cenho, mordendo o lábio por um instante. Por fim, balançou a cabeça.
— Não consigo imaginar nenhuma razão para recusarmos a oferta de sua mãe. Afinal, será um presente não apenas para Lene, mas para nós também.
Lily suspirou, aliviada.
— E pensar que você quase desistiu da promoção. Oh, eu sinto tanto, James! Eu ia contar a novidade na véspera de Natal, mas o acidente e esse maldito pé engessado me deixaram meio atrapalhada.
— Esse maldito pé a trouxe para a Califórnia, meu amor — James salientou, levantando-a nos braços e encaminhando-se para o quarto. — E vamos tirar vantagem desse acidente, passando as próximas semanas à procura de um apartamento para onde possamos nos mudar em junho.
Lily deixou que ele a deitasse sobre a cama. Abriu os braços e sorriu, num convite silencioso, e irrecusável.
— Claro — murmurou pouco antes de os lábios de James encontrarem os seus. — Faremos o que você quiser, querido. Desde que seja com muito amor...
Hey California here we come. Califórnia venceu, mas não podemos esquecer que Godric Hollow foi onde Harry nasceu, me entedenderam? haha. Muito obrigada a Thaty e Joana Patricia pelos comments. beijos :*
