— Você ficará bem aqui, durante a minha ausência? — perguntou James, vestindo seu paletó e ajustando a gravata rapidamente. Lily não pôde se conter e revirou os olhos.
— É claro que sim — disse de sua posição ao lado da mesa dele. Passara os vinte minutos anteriores verificando a grande pilha de papéis a um canto da mesa.
Nunca vira um amontoado tão desorganizado de mensagens telefônicas, relatórios, e-mails impressos e correspondências antes. A nova assistente de James precisava desesperadamente de um sistema melhor de classificação de documentos. Na verdade, James precisava urgentemente de uma melhor assistente.
Ela ergueu um punhado de mensagens anotadas em pequenos papéis de recado.
— E então, aonde você vai agora?
— A um almoço. — James ergueu sua pasta de couro do chão. — Não sei ao certo quanto tempo isto vai levar, mas estarei de volta em torno das três horas da tarde, a tempo para a video conferência.
Ele saiu, e Lily continuou reunindo os papéis com as mensagens, antes de organizá-las por horário de recebimento. Uma das mensagens mais recentes chamou-lhe a atenção:
Charlotte telefonou, confirmando o almoço. Ela encontrará você no Primavera, à uma da tarde.
Lily tornou a ler a mensagem. Não podia ser, disse a si mesma. Não devia ser a Charlotte de James. Não era possível. Trêmula, ela colocou duas mensagens mais recentes sobre aquela e deixou a pilha na mesa, perto do telefone. Não queria se deixar levar pela imaginação, mas sentia grande temor.
A única mulher a quem James já amara fora Charlotte. E se ela estivesse de volta na vida dele?
Não faça isso consigo mesma, pensou. Não torne isto algo que não é.
Mas suas mãos ainda tremiam quando passou a cuidar da tarefa seguinte.
Por que James teria um almoço de negócios com uma mulher no Primavera? Aquele tradicional restaurante era famoso por sua atmosfera íntima e romântica, um lugar que atraía apaixonados, não atarefados executivos.
E se James fora realmente almoçar com Charlotte por algum motivo, ele lhe contaria.
Não contaria?
James demorou a retornar ao escritório, só chegando às três e quinze. Ele jamais se atrasava para reuniões e videoconferências, em especial quando era alguma que envolvia o Banco Gringotes. Por volta de quinze para as três, como ele ainda não tivesse voltado, Lily começara a se preocupar com a videoconferência. Pensara em contatá-lo pelo celular, perguntar-lhe o que fazer, mas, ao final, apenas adiara a reunião com o banco em uma hora. E, para tanto, tivera que adiar uma outra videoconferência que já havia sido marcada para uma hora depois.
E foi o que informou a ele quando encontrou a voz. Reprimindo seu medo e ansiedade, agiu apenas como a eficiente assistente executiva que sempre fora.
— Eu adiei a sua videoconferência para às quatro horas. E a que haveria às quatro para as cinco.
James, porém, não a agradeceu, não disse nada. Limitou-se a estender a mão em busca dos novos recados e fechou-se em seu escritório, praticamente batendo a porta atrás de si.
Lily esforçou-se para conter uma onda de ressentimento. Não era justo ser tratada daquele modo. Ele lhe pedira que fosse até o escritório naquele dia, telefonara-lhe, desesperado por ajuda.
Dê-lhe algum tempo, disse a si mesma, lutando para se acalmar. James acabaria chamando-a e talvez lhe falasse sobre o que acontecera durante o almoço.
Mas não a chamou e, como não tivesse aberto a porta até quinze para as quatro, ela entrou em seu escritório, as emoções num turbilhão.
— Você está bem? — perguntou-lhe.
Ele nem sequer estava trabalhando. Estava sentado à mesa, mas olhava para a janela, não para seu computador.
— Estou bem — respondeu sem sequer se virar.
Era como nos velhos tempos, pensou Lily. Nos tempos em que ele nem sequer olhava em sua direção.
Mas as coisas haviam mudado. Eram pessoas diferentes agora. Ela o conhecia e sabia que não era um homem frio, indiferente.
— Alguma coisa aconteceu durante o almoço? — perguntou no tom mais gentil possível.
— Não.
— Mas quando você saiu daqui...
— Ouça, eu realmente não quero conversar a respeito. — Ele virou-se na cadeira, a expressão fechada, os olhos velados. — Sem ofensa, mas eu apenas gostaria de ficar sozinho agora.
Lily deixou o escritório e fechou a porta. Voltou à mesa que fora colocada ali naquele dia para seu uso e tentou se ocupar, mas não conseguia se concentrar. O que acontecera durante o almoço?
De repente, o interfone tocou.
— Lily, eu sei que você já adiou as videoconferências, mas preciso que as cancele. Tente marcá-las para amanhã. Obrigado. — O interfone foi desligado.
A nova assistente de James olhou para ela.
— Quer que eu faça isso, Srta. Evans?
Lily engoliu em seco, sabendo quanto já fora difícil adiar as reuniões uma vez.
— Não — respondeu, lutando contra sua frustração. — Deixe-me cuidar disso.
Apertou o botão do interfone.
— James, foi bastante difícil conseguir adiar as duas videoconferências.
— E daí?
— Daí que será ainda mais difícil tornar a agendá-las se você as cancelar outra vez.
— Como assim? Onde quer chegar?
Ela sentiu as faces afogueadas.
— Bem, onde quero chegar é que talvez você prefira não cancelá-las. Talvez queira fazê-las hoje para não ter de se preocupar com isso amanhã.
— Entendo. — Houve um momento de silêncio tenso.
Lily pôde sentir a nova assistente encarando-a.
Enfim, James limpou a garganta.
— Estou esquecendo de algo? Eu lhe dei uma promoção?
Ela sentiu um nó no estômago.
— Não.
— Você foi convidada para se tornar sócia da corretora?
Ele era um cretino. Onde estava o exemplar dela do livro? Devia haver uma foto de James em algum capítulo.
— Não, senhor.
— Então, por favor não me dê conselhos sobre como dirigir os negócios. — O interfone foi desligado.
A nova assistente encarava Lily com olhos arregalados.
— Ainda quer resolver isso, Srta. Evans?
Lily apanhou a bolsa.
— Não. Resolva você. Está se saindo bem.
Lily passou uma hora caminhando pelo Central Park antes de, enfim, voltar ao apartamento de James.
Não queria ir para lá, não queria vê-lo no momento, mas não tinha outro lugar para ir. Pela manhã, James providenciara para que uma empresa de mudança empacotasse as coisas no apartamento dela e guardasse tudo num depósito até que ele lhe encontrasse um lugar melhor.
Ela não quisera um apartamento novo. Não quisera que ele enviasse a empresa de mudança. Mas, como de costume, James vencera.
O Sr. Foley abriu-lhe a porta.
— O Sr. Potter tem telefonado a cada quinze minutos — disse-lhe. — Pediu para que você lhe telefonasse assim que chegasse para informá-lo que está a salvo.
— Estou a salvo — respondeu ela um tanto irritada.
O Sr. Foley estreitou os olhos ligeiramente, sua expressão imensamente bondosa.
— Não sei o que está se passando entre vocês, se me permite a leve intromissão, mas trabalho para o Sr. Potter há vários anos. Uma coisa que precisa saber é que, quando se trata do Sr. Potter, gestos dizem mais do que palavras.
Enquanto ela assimilava as palavras, o Sr. Foley limpou a garganta e, adquirindo seu profissionalismo de sempre, acrescentou:
— Bem, de qualquer modo, telefone-lhe. Ele está ansioso para que você entre em contato. Ah, e isso me faz lembrar de que o Sr. Potter também mencionou que sua mãe ligou. Parece que estão num hotel e o número de lá está anotado num bloco de papel no escritório dele.
No escritório de James, Lily acendeu a luminária da mesa e descobriu o bloco de papel com o nome de sua mãe, mas havia dois números anotados, não um.
Ela ligou para o primeiro.
— Lisa Evans, por favor.
A mulher do outro lado da linha hesitou.
— Lamento. Não há ninguém com esse nome aqui.
— Os Evans não estão hospedados aí?
— Aqui é uma residência particular. Não sei quem está querendo contatar.
— Desculpe. Foi engano — disse Lily, dando-se conta de que devia ser o segundo número a discar.
— Espere, não desligue! — A mulher respirou fundo. — Esse é o número de James, não é?
Lily ficou tensa. Aquilo não parecia certo e não queria saber mais.
— Não. Não é...
— Mas tenho identificador de chamadas no meu aparelho. Aqui diz James Potter no visor. Você está ligando do apartamento de James.
Lily não disse nada. Tinha o estômago em nós, a boca seca.
— É Lily?
Ela engoliu em seco.
— Com quem estou falando?
— Charlotte.
Charlotte. Aquela Charlotte. Lily sabia. Mas a mulher continuou falando:
— Sou uma velha amiga de James. Nós fomos...
— Namorados na faculdade. Sim, eu sei.
— Certo. — Charlotte riu um pouco, mas foi um som tenso. — Ouça, James esqueceu sua pasta de couro no restaurante depois do almoço. Diga-lhe que eu a levarei mais tarde.
— Até aqui, ou no escritório? — perguntou Lily, odiando a opressão em seu peito, odiando o pânico. James amara apenas Charlotte, e ela estava decididamente de volta à vida dele.
— E faz diferença? — Charlotte tornou a rir, outro som frio que fez Lily sentir-se gelada por dentro e com muito medo.
Adiantou-se até seu quarto, o coração tão acelerado que o ar parecia lhe faltar.
Céus, era uma grande tola! Uma ingênua. Uma completa idiota. Não conseguia fazer nada certo, nada funcionar.
Odiava aquela terrível sensação claustrofóbica, o zumbido em sua cabeça, a adrenalina correndo em suas veias. Até o casamento, não havia tido um ataque de pânico em anos, e agora tivera dois em menos de dez dias.
Tudo por causa de James.
James, o solteiro mais cobiçado de Wall Street.
Tudo porque falhara com ele, não fora capaz de fazer as coisas da maneira certa, de fazer o relacionamento dar certo.
James quisera algo calmo, descomplicado. Ela lhe dera o caos emocional. Ele queria razão. Ela vivia de maneira ilógica.
Com um longo suspiro, reuniu os poucos pertences que deixara pelo quarto, colocando-os na mala e deixou-a perto da porta. Não podia partir antes de falar com James. Tinha de descobrir exatamente o que havia entre ambos. Ele a queria realmente a seu lado permanentemente, ou apenas precisava dela naquele momento? Não sabia.
Como era a noite de folga do Sr. Foley, James levou comida chinesa para casa de um restaurante local. Sentaram-se na sala de estar, de frente um para o outro, em lados opostos do sofá.
— Você saiu cedo — comentou ele e, ao contrário dela, não parecia estar tendo o menor problema com o apetite naquela noite.
Mal conseguindo tocar em nada, apesar de ser uma de suas comidas favoritas, Lily deixou seu prato na mesa de centro.
— Diga-me, você pensa alguma vez em Charlotte? Costuma se perguntar como seria se vocês ainda estivessem juntos?
— Estávamos falando sobre trabalho.
— Eu preferiria que falássemos sobre nós.
— Charlotte não tem nada a ver conosco.
Lily sabia que estava avançando por terreno perigoso, mas não podia evitar aquilo, nem ignorar. Tinha que entender, queria saber por que ele era capaz de amar Charlotte, mas não a ela.
— Apenas diga-me uma coisa... Quando você a pediu em casamento, o que estava sentindo?
James apertou os lábios, lutando contra sua crescente frustração. Como já pudera achar Lily fria, pouco emotiva? Como pudera achá-la razoável?
— Você não quer realmente fazer isto...
— Sim, eu quero.
— Ouça, não posso fazer jogos. Não posso inventar histórias. Também não quero magoá-la. Por que comparar Charlotte a você? É como comparar maçãs com laranjas.
Ela ergueu o queixo, os olhos verdes marejados.
— Eu sou a maçã, ou a laranja?
James nem sequer pôde esboçar um sorriso, a raiva se alastrando em seu íntimo.
— Você quer a verdade? Está bem. Aqui vai. Eu realmente amei Charlotte, amei-a muito. Foi minha primeira namorada de verdade, meu primeiro romance sério. Tudo com ela foi tempestuoso, passional, intenso. Pensei que iríamos passar o resto de nossas vidas juntos.
James respirou fundo e cerrou os dentes. Não podia acreditar que sequer estava dizendo aquilo em voz alta, que tocaria naquela dor profundamente particular. Rever Charlotte naquele dia fora ruim o bastante. Dera-se conta mais uma vez de como a conhecera pouco, do pouco que entendera de como a mente dela funcionava.
Ela nunca o amara, apenas a idéia que ele representara. Nunca o quisera, mas ao nome Potter e a sua poderosa influência. Ficara horrorizada com o fato de ele ter sido adotado aos quinze anos de idade.
Que tipo de pessoa é adotada na adolescência?, perguntara-se. Adotam-se recém-nascidos, bebês, crianças pequenas. Não se pode adotar um adolescente! Quem são seus pais, afinal? Que tipo de pessoa dá seu filho de quinze anos?
— Mas eu pensava que era amor, Lily — prosseguiu ele com frieza, toda a emoção presa dentro de si, reprimida num lugar que não podia tocar. — Mas não era amor. Era apenas sexo.
— Assim como nós. — Uma lágrima escorreu pelo rosto de Lily. Tratou de enxugá-la.
Ela estava enganada, pensou James, mas não tinha energia para argumentar. Aprendera anos antes que as pessoas não tinham o poder de tornar as outras pessoas felizes. A felicidade tinha de vir de dentro. A felicidade tinha de ser uma escolha pessoal.
— Temos ótimo sexo, mas também temos uma amizade verdadeira — disse, enfim, contente por ter visto Charlotte naquele dia e percebido que talvez a coisa que amara mais nela fora sua atitude.
Adorara sua dicção impecável de garota rica, seus cabelos loiros e perfeitos, seu nariz delicado erguido com desdém perante o resto do mundo. Adorara o fato de que aristocrática e bela Charlotte quisera a ele. Em retrospectiva, fora tão egoísta quanto ela. Amara a imagem que ela representara. Felizmente, Charlotte cancelara o casamento. Fizera a ambos o maior favor de todos.
James soltou um longo suspiro.
— Mesmo que o sexo fosse ruim, a amizade valeria a pena ser salva. Temos muito aqui. Temos muito a nosso favor. Seria tolice tomarmos decisões com base numa definição bastante estreita de amor.
Lily não sabia o que pensar. Era romântica. Pragmática. Ansiava por bombons, flores, violinos, e ele vivia na dura realidade, julgando todas aquelas coisas como meras bobagens. Ela adorava a maneira como James a tocava, mas odiava sua visão deturpada do amor. Como aquilo poderia dar certo? Como poderiam ter um futuro juntos?
E como ela poderia estar ao lado de James se não confiasse nele? Respirou fundo.
— Com quem você almoçou?
James fitou-a, os olhos castanho esverdeados se estreitando. O tenso silêncio se prolongou.
— Com Charlotte. — Uma nova pausa. — Mas você já sabia disso, não é mesmo?
Como ela não respondesse, ele soltou um suspiro.
— É por isso que não daria certo você continuar como minha assistente. Muitas coisas aconteceram hoje que não deveriam ter acontecido. Recebo uma porção de telefonemas. Vejo muitas pessoas. Tenho de tomar decisões rápidas e não deveria ter que ficar me explicando, ou defendendo a mim mesmo...
— Então, não o faça! — Lily finalmente compreendeu por que não podia continuar na Investimentos Potter. James tinha sua vida. Sempre tivera sua própria vida. Ela apenas nunca soubera a respeito antes.
— Não é uma questão de confiança, mas de energia e tempo. Você é uma excelente assistente executiva. A melhor que já tive...
— Já entendi. Obrigada. — Ele não precisava se repetir, pensou ela com amargura, não era estúpida.
Tinha de sair dali. Tinha de arranjar algum tempo para si mesma, colocar a cabeça de volta no lugar.
— Você disse que me daria três meses remunerados no pacote de desligamento. Bem, acho que vou aproveitar isso e não trabalhar por algum tempo. Talvez eu deixe a cidade, para ir visitar minha família.
James não disse nada por um momento. Ela esperara vê-lo meneando a cabeça, dando-lhe seu aval. Para sua surpresa, apenas a encarou, sua expressão grave.
— Por quanto tempo planeja se ausentar?
Ela quisera ouvi-lo dizendo "Não, não vá, fique aqui comigo", falando-lhe algo carregado de emoção, algo poderoso, que indicasse seus verdadeiros sentimentos. A expressão era uma coisa, mas palavras eram realmente necessárias agora.
Mas ele não disse mais nada, não tentou convencê-la a ficar.
Lily fitou-lhe os incríveis olhos castanho esverdeados, observou-lhe o rosto bonito. Sentiu o pior tipo de tristeza. Ansiava demais por ficar com ele, mas não sabia mais como fazer o relacionamento dar certo.
— Eu não sei. Apenas dependerá do que eu sentir vontade de fazer. Já arrumei minhas coisas. Partirei esta noite.
James fitou-a.
— Bem, então é melhor eu lhe dar isto agora.
Tirou do bolso um pequeno chaveiro com três chaves reluzentes.
— O seu novo apartamento. Comprei-o para você. Peguei as chaves com o corretor hoje, depois do meu almoço de meia hora com Charlotte. Demorei a voltar ao escritório porque a papelada levou mais tempo do que esperávamos para ficar pronta.
Estava pensando gente, mato ou não mato James? Parece que ele não se importa mais com Charlotte, mas isso é o bastante para impedir Lily de ir embora? Recomendo ler esse cap escutando uma musica bem melosa, aquelas de filme, vocês sabem não é? :) Muito obrigada a LaahB, Mila Pink, Joana Patricia, Thaty, Ninha Souma e Luana Mesquita pelos comentários :*
