Lily esvaziou sua sacola de compras na cozinha de seu novo apartamento, que pertencia a um elegante prédio numa agradável rua arborizada.
Havia quase uma semana que estava de volta à cidade, depois de ter se ausentado por um mês. Passara sua primeira semana fora com os pais, depois mais uma com sua irmã, Petúnia, e, enfim, as últimas duas semanas viajando sozinha.
Dissera a si mesma que estava visitando todos os lugares históricos no litoral sudeste que sempre quisera ver, mas a verdade era que estivera evitando Nova York. Evitando o retorno. Evitando, acima de tudo, James.
Mas não podia se ausentar para sempre. Morava em Nova York. Sua vida era naquela cidade... mesmo que não fosse ao lado de James Potter.
Era difícil acreditar, pensou, enquanto arrumava as compras; que já fosse a última semana de agosto. Era uma tarde de sábado, e o verão estava quase terminando.
Era tempo de começar a procurar trabalho. Ela precisava de um emprego. Algo com que se ocupar.
Algo que a ajudasse a tirar James dos pensamentos.
Porque certamente não conseguira esquecê-lo.
Mas tinha de continuar tentando, era evidente, e um emprego ajudaria a preencher suas horas vazias.
Mal acabara de guardar as compras e ouviu a campainha. Espiou pelo olho mágico.
James.
Com o coração disparado, ela abriu a porta.
— Olá.
— Olá, Lily.
Céus, mas ele era incrivelmente bonito, os olhos castanho esverdeados mais intensos do que nunca. Usava um smoking, o traje elegante fazendo-o parecer ainda mais alto, os ombros mais largos. Forçou um sorriso, tentando vencer o nervosismo crescente que a tomava.
— Puxa, você está elegante! Aonde vai?
— A um baile beneficente.
— Pensei que você detestasse comparecer a esses eventos.
— E detesto, mas sou um dos patrocinadores. Este é o evento a que tenho de comparecer a cada ano.
— Bem, você está esplêndido. Se isso serve de consolo.
Ele fitou-a nos olhos.
— Não há consolo algum se eu tiver de ir sozinho.
Oh, ela gostaria imensamente de acompanhá-lo, pensou Lily. Mas como aquilo daria certo? Até onde iriam as coisas? Não poderia suportar um futuro onde sempre estivesse se perguntando a respeito, preocupada, incerta, apreensiva. Precisava ter certeza de como James se sentia.
— Onde será a festa?
— No Museu Met. — Ele estendeu a mão e tocou-lhe o rosto com gentileza. — Venha comigo esta noite.
Ela não respondeu, apenas sustentou-lhe o olhar.
— Só um momento. — Ele virou-se, voltando até o elevador. Retornou um instante depois, entregando-lhe uma caixa retangular amarrada com uma fita dourada. A grife impressa na tampa era de uma butique bastante cara e exclusiva. — Eu não queria que você dissesse que não iria porque não tinha nada para usar.
— James...
— Se vai dizer que não, eu queria ter certeza de que seria por minha causa apenas.
Lily desviou o olhar.
— Não posso ir. Não seria certo. — Não se continuasse sendo apenas a mais recente na lista de amantes de James Potter.
Queria mais.
Queria algo para sempre.
Tentou entregar-lhe o vestido de volta.
— Lamento.
Ele apertou os lábios.
— Você nem sequer se permitiu ver as possibilidades.
Lily piscou, os olhos ardendo.
— Não é que eu não veja as possibilidades, mas também vejo a realidade. Nós queremos coisas diferentes.
— Não tão diferentes quanto você possa pensar.
Ela não podia falar, não confiava em si mesma para dizer as palavras certas. Nunca era concisa, ou inteligente quando lidava com tanta emoção. Limitou-se a sacudir a cabeça e pressionar a caixa com firmeza de encontro às mãos dele.
Praguejando por entre os dentes, James atirou a caixa na sala de estar, onde deslizou pelo assoalho. Foi embora, então, sem dizer mais nada.
Lily afundou no sofá, cobrindo as mãos com o rosto em pura angústia. Estava angustiada porque sabia que fora um erro mandá-lo embora sem ela. Porque estava tomando decisões baseada no medo. Porque sabia que estava sendo uma grande covarde.
Assim como fora durante a maior parte de sua vida.
Não fora uma criança confiante. Seus ataques de pânico eram testemunha daquilo. Mas, em vez de ter vencido seu medo aos poucos, permitira que ele a dominasse.
Desistira de praticar esportes cedo, julgando-se desajeitada. Nunca tentara ser animadora de torcida, como as demais colegas de escola. Nunca participara das peças de teatro da escola.
Na faculdade, não tivera encontros. Como poderia? Exceto para ir às salas de aula, nunca deixara seu dormitório.
Sua primeira entrevista de emprego fora arruinada e, daquele modo, em vez de ter tentado novamente, desistira da carreira que realmente desejara.
E agora estava desistindo do homem que queria.
Naquela noite, James aparecera a sua porta. Levara-lhe um vestido de gala. Convidara-a para acompanhá-lo a um baile. E, ainda assim, qual fora a sua reação? Tentara devolver o vestido e dissera não.
Dissera não porque tinha medo. Porque tinha verdadeiro pavor de amá-lo demais e de ele não amá-la o bastante e, no final, acabar bancando a tola.
Céus, quanto havia de insegurança naquilo? Importava-se mais com seu coração frágil do que em tentar fazer um relacionamento com James dar certo.
Era bem mais fácil manter-se no papel de vítima. Mais fácil ser uma sonhadora romântica do que uma mulher confiante, disposta a correr um risco.
Cresça, Lily. Pare de querer que tudo seja perfeito. Você já tem o conto de fada!
Ela se inclinou para a frente e apanhou a caixa da butique do chão. Abrindo-a em seu colo, encontrou um vestido longo de seda amarelo, da cor de bananas maduras. De alças finíssimas e saia reta, a parte de cima era rebordada com canutilhos dourados.
Ela piscou, lágrimas aflorando em seus olhos. O vestido parecia um daiquiri de banana numa praia banhada pelo sol.
Ele lhe dera uma lembrança do paraíso.
Era o vestido mais deslumbrante e mágico que já vira.
Tinha de ir ao baile. Tinha de mostrar-lhe que estava pronta para um relacionamento de verdade com ele. Um relacionamento baseado em amizade, sinceridade, admiração e confiança. Virtudes que pareciam monótonas no papel, mas extraordinárias na vida real.
Lily levou o vestido de gala até seu quarto e colocou-o de encontro a si, observando seu reflexo no espelho. Maravilhoso. Como James soubera que aquele era o vestido mais absolutamente perfeito para ela?
Porque a conhecia.
Porque seus gestos diziam mais do que palavras.
Lily pousou o vestido com cuidado sobre a cama e apertou os olhos para conter as lágrimas.
Gestos, não palavras.
Ele a pedira em casamento. Levara-a para St. Jermaine. Abraçara-a a cada noite. Zelara por sua segurança. Comprara-lhe um apartamento.
Estava lhe dizendo da melhor maneira que podia que ela era dele, que a queria, que precisava tê-la a seu lado.
E, pelos céus, aquilo não era o bastante?
Precisar e querer... aquilo era assim tão diferente de amar?
James fez o breve discurso que preparara, algumas palavras positivas sobre o sistema de lares adotivos e um rápido mas sincero agradecimento àqueles que tinham comparecido naquela noite e apoiavam o programa.
Ele, então, aceitou cumprimentos calorosos, apertando mãos estendidas, mas seu olhar nunca deixava a porta. Embora apoiasse as causas sociais, odiava aqueles eventos propriamente ditos, odiava toda a pompa e ostentação envolvida e a fachada que tinha de usar para manter todos felizes. As pessoas, sabia, preferiam o sucesso.
Valorizavam quem era bonito, rico, sofisticado. Não que se sentisse daquele modo por dentro. Céus, por trás daquela fachada, era um bilionário bastante solitário.
Estava quase terminado, disse a si mesmo, vendo um pouco de espaço perto da porta. Bastaria mais alguns apertos de mão, fingir que ia apanhar um drinque e sair em disparada até a limusine.
Estava quase perto da porta quando lançou um último olhar pelo salão do museu, seu olhar passando pelos smokings pretos e vestidos de gala escuros antes de avistar um lampejo de amarelo.
Amarelo. O seu amarelo.
Ela estava quase de costas para ele. Olhava na outra direção. Prendera os cabelos ruivos para trás parcialmente, cacheara o restante e algumas mechas finas emolduravam-lhe o rosto. Os bordados dourados do vestido brilhavam sob as luzes, mas ele logo reconheceu o amarelo, porque era o amarelo certo, era o amarelo do sol, do calor e da felicidade.
James estava embevecido, hipnotizado enquanto a contemplava. Sentiu a exuberância do verão, a doçura da ilha e a distância dos problemas urbanos. Sentiu novamente a alegria dos dias em que acabara de ser adotado pelos Potter e fora tomado por tamanha gratidão e esperança.
Esperança.
Enquanto observava, viu Lily estreitando os olhos para examinar o salão e mordendo o lábio inferior.
Estava a sua procura.
Com um aperto no peito, James soube sem sombra de dúvida que nunca se cansaria do verão. Nem do sol.
E jamais se cansaria de Lily.
Rapidamente, abriu caminho pela multidão, ergueu a mão num cumprimento enquanto alguém chamava seu nome, desviou de um repórter que entrevistava um dos outros patrocinadores do evento. Lily adiantava-se na direção oposta, rumando até uma outra saída do salão.
Ele a alcançou junto à passagem em arco, estendeu a mão e tocou-lhe o ombro.
— Lily.
Uma onda de calor percorreu-a, calor e prazer. Lily virou-se, o coração disparado.
— Não consegui encontrar você.
— Há quanto tempo está aqui?
— Há cerca de meia hora. Eu não conseguia encontrá-lo e, então, alguém disse que tinha visto você se esgueirando até a saída, que você estava fazendo uso da costumeira escapulida à la Potter.
— Eu estava.
— Quase não nos vimos... — ela se interrompeu, os olhos verdes carregados de emoção silenciosa. — Quase perdi tudo.
— Você não perdeu nada.
Havia tanta ternura na voz dele. Lily deu-se conta de que seus lábios tremiam enquanto tentava lidar com a intensidade de seus sentimentos.
— Lamento não ter vindo com você. Lamento ter tornado isto tudo tão difícil...
— Você está aqui agora. Isso é o bastante. E você está... — Ele abriu um sorriso cheio de admiração, orgulho em seus olhos. — Linda.
Lily corou.
— É o vestido. — Mas adorou o elogio. James a fazia sentir-se de maneira tão incrível. — Você ainda quer companhia esta noite?
Os olhos dele cintilaram.
— Mais do que nunca.
Lily despertou com o barulho do mar. Por um momento, olhou para o teto, sem saber onde estava.
Então, tornou a ouvir o agradável quebrar das ondas, e James estendeu o braço, correndo a mão por seu abdome antes de erguê-la para afagar seu seio.
— Senti falta disto. — Sua voz soou baixa e rouca. — Senti sua falta, doçura.
Lily abriu-lhe um sorriso. Ambos tinham ido para a cama na noite anterior com as portas-janelas abertas e agora o sol e a brisa fresca do oceano preenchiam o quarto. Tinham partido de Nova York na manhã de domingo para passarem alguns dias em St. Jermaine.
Lily adorou o toque sensual em seu seio, porém, mais do que tudo, adorava o brilho caloroso nos olhos de James. Gostava realmente dela. Muito. Sua afeição, sincera.
— Sentiu minha falta? — repetiu, contente.
— Bastante.
— Acho que, na linguagem de James, isso significa o mesmo que "eu te amo".
Ele curvou os lábios.
— E há alguma coisa errada com a "linguagem de James"?
Lily tornou a sorrir, o sorriso começando por dentro, em seu peito, onde seu coração estava radiante, onde a felicidade era feita.
— Não, absolutamente nada errado com ela. Diga tão pouco quanto desejar. Ficarei contente em preencher as lacunas.
Ele soltou um riso.
— Você é bastante espirituosa.
— Sou hilariante. Na minha próxima carreira, serei comediante.
— Você se lembrou.
— Eu me lembro de tudo.
James sorriu, os olhos se iluminando.
— Então, vejamos, quanto ao seu entendimento da linguagem James, se seu disser: eu adoro panquecas...
— Significa realmente que ninguém faz panquecas melhor do que Lily.
— E se eu disser: gosto de passar tempo com você?
— Isso se traduz por: "Não posso imaginar minha vida sem você".
O riso rouco de James preencheu o quarto e, inclinando-se, beijou-a nos lábios demoradamente.
— Eu amo você, Lily.
Ele dissera aquilo? Dissera as palavras?
Os olhos de Lily ficaram marejados e o aperto em seu peito foi tão intenso que o ar pareceu lhe faltar.
— Então, traduza essa para mim.
Ela não podia, a emoção causando-lhe um nó na garganta.
— Bem, espertinha. Eu lhe direi o que isso significa. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Entendeu?
Lily sentiu os lábios trêmulos, uma lágrima escorrendo pelo canto de seu olho. Não queria chorar. Aquele era o melhor momento de sua vida.
— Acho que sim. Mas talvez você queira dizer isso mais uma vez para ter certeza de que eu entendi completamente.
James deitou-se sobre ela, apoiando-se nos cotovelos e roçou-lhe a orelha com os lábios.
— Eu te amo, Lily Evans, e apenas a você. Quer, por favor, passar o resto de sua vida comigo?
— Sim.
Ele lançou-lhe um olhar zombeteiro de surpresa.
— O quê? Sem discussão? Nenhuma pergunta sobre minha sinceridade, ou o tipo de papel que você irá desempenhar?
— Não. — Ela piscou, mais lágrimas rolando por seu rosto. — Sem discussão. Sem perguntas. E absolutamente sem dúvidas. Você me ama. Isso é o bastante para mim. É tudo o que eu preciso saber.
À tarde, depois do sexo incrível, da excelente comida servida por um jovial Sr. Foley e de mais sexo incrível, ambos tinham caminhado até a praia para tomar sol.
Lily estava deitada numa esteira, sorrindo na direção do céu. O paraíso. Encontrara o paraíso, mas descobrira algo sobre ele. Não era uma ilha, nem um conceito. Não era um lugar. Não era nem sequer estar com James.
O paraíso era simplesmente estar de bem consigo mesma. Não ter tanto medo de si mesma. De aceitar o bom e o ruim e aprender a aceitar os outros da mesma maneira.
— Há uma vaga no escritório — disse James de sua cadeira de praia, deixando o jornal de lado.
As águas turquesa acariciavam as areias brancas, as ondas suaves indo de encontro à pequena baía. Lily virou-se para obser vá-lo.
— Você quer que eu volte para o trabalho?
— Pensei que fosse o que você queria.
— Eu, de fato, sinto falta do escritório.
— Então, ligue para lá e marque uma entrevista.
— Você vai me fazer passar por uma entrevista?
— Acha que deve ter vantagens especiais só porque é a namorada do chefe?
Lily atirou-lhe a parte de cima do biquíni.
— Não sou sua namorada. Sou sua amante. Lembra-se?
James estreitou os olhos enquanto lhe observava a pele levemente dourada. Ela estava nua exceto pela parte de baixo do biquíni amarelo.
— Hum, estou me lembrando.
Ela sabia o rumo que a mente dele tomava, mas ficara intrigada com aquela conversa e queria mais informações primeiro.
— Fale-me sobre o emprego. Há quanto tempo a vaga está em aberto? Com quem eu iria trabalhar?
James entregou-lhe uma seção do jornal.
— Está aqui. Estivemos colocando o anúncio nos Classificados a semana inteira. Os currículos estão chegando às dezenas.
— Não estou vendo nenhum anúncio aqui para assistente administrativa.
— Você está na página errada. Verifique em negócios e mercado financeiro.
Aquilo era estranho, pensou Lily, mas folheou o jornal até a página indicada. Verificou os anúncios, pousando os olhos em um.
— É uma vaga para analista de mercado.
— A primeira que temos em aberto durante quase cinco anos. — Ele encontrou-lhe o olhar. — A primeira desde que você saiu no meio da entrevista na Investimentos Potter há quase cinco anos.
Por um longo momento, Lily não disse nada, o olhar fixo nas águas transparentes. Respirou fundo.
— Como você sabia que fiz uma entrevista para uma vaga de analista de mercado?
— Estava anotado na sua ficha de funcionária. Descobri isso quando o Sr. Osborne telefonou para verificar suas referências.
Ele soubera daquilo durante meses e, ainda assim, nunca mencionara nada até então.
— Por que não me falou que sabia?
— Eu estava esperando que você mesma me contasse. — James estendeu a mão e pegou-a com gentileza pelo braço, erguendo-a até sua cadeira.
Ela se sentia nervosa agora e colocou desajeitadamente a parte de cima do biquíni.
— Que lhe contasse o quê? Que entrei em pânico na sua sala de reuniões e banquei a tola?
— Você daria uma excelente analista de mercado. Quero que vá a uma entrevista.
Lily sentia os olhos marejados outra vez. Ajeitando o biquíni, piscou e olhou para grande casa na colina com seus vasos e jardineiras de flores exuberantes nos terraços e grandes coqueiros à volta.
— Achei que você não queria que eu trabalhasse em seu escritório. Pensei que não quisesse trabalhar comigo.
— Para uma garota tão inteligente, você entendeu tudo errado. Eu não queria que você trabalhasse para mim. Quero que você trabalhe comigo. Sei que é apenas uma pequena palavra de diferença, mas uma muito importante.
Olá gente! Parece tudo certo agora. Sem Compromisso entra em reta final, adoraria fazer o que vocês me pediram nos comentários, mas como o fim já está pronto, seria ruim modificá-lo, mas muito obrigada pelas opiniões, sugestões e elogios: Joana Patricia, LaahB, Dudis's akara, Mila Pink e Ninha Souma :*
