Melanie passou a semana inteira reclamando com Stiles porque ele se recusou a leva-la na clínica no dia seguinte ao trabalho escolar.

- Pai, o Derek vai pensar o que de mim?

- Que você tem um pai que entende o que é um convite por educação e o que é um convite de verdade e não fica empurrando a filha nos outros.

- Isso não faz o menor sentido, sabia? – ela coloria um desenho das princesas da Disney, sentada numa cadeira alta, próxima a bancada da cozinha, enquanto Stiles preparava o almoço. Ouviu a porta se abrir e sorriu para o avô, envolvendo ele na conversa – Vovô, ainda bem que você chegou para me defender aqui.

- O que seu pai fez desta vez, Mel? – o xerife colocou o casaco e o chapéu no cabideiro atrás da porta e puxou um banco para perto da neta, fazendo carinho em seus cabelos.

- Ele não me levou na clínica do Tio Scott porque disse que o Derek me convidou por educação.

- Hummm. Eu não acho que Derek tenha lhe convidado por educação. – o xerife falou e a menina olhou o pai com uma expressão de triunfo – Mas acho que seu pai fez bem de não te levar lá tão rápido assim.

- Poxa, vô!

- Sabe, Melanie, lá é um lugar de trabalho. Você não vai toda hora até a delegacia me ver, né? E nem no escritório do seu pai, que é aqui em casa, você fica entrando toda hora, certo?

- Certo.

- Então, o mesmo respeito tem que ter com a clínica do seu tio. Mesmo que Derek tenha convidado. Se você quiser mesmo ver os cachorrinhos outra vez, hoje a noite quando seu tio chegar, você pergunta se amanhã pode dar uma passadinha por lá. Aposto que ele vai te levar com a maior boa vontade.

- A maior boa vontade depois do meio dia, né? Porque eles chegam e vão direto dormir e só levantam depois que o almoço está pronto. – ela observou, sem tirar os olhos do desenho.

Stiles riu e anunciou que a comida estava pronta. Macarrão com almondegas e suco de laranja, e pudim de caramelo de sobremesa. Nada muito sofisticado, mas era sexta-feira, dia de comer bobagem. A noite, pizza com refrigerante e Melanie poderia ficar acordada até as 22h.

O resto do dia seguiu normalmente, com o xerife deixando a neta na creche e Stiles se trancando por longas e cansativas cinco horas no escritório. Scott havia mandado mensagem mais cedo perguntando se naquela semana podiam trocar o boliche e ir direto para o Bad Wolf, o bar estilo pub que eles costumavam frequentar.

Melanie voltou da escola já negociando que só tomaria banho se ganhasse uma bacia de pipoca. Stiles colocou a menina na banheira, lavou os cabelos dela, secou e penteou e a fez vestir o pijama de flanela. O mês de outubro havia chegado e um vento frio começava a ficar mais intenso nos fins de tarde.

A campainha tocou meia hora antes do combinado com Scott e Stiles saiu do quarto para atender ainda sem vestir a camisa. Abriu a porta já pronto para chamar o melhor amigo de ansioso quando viu, atrás dele, o sorriso imenso de Derek Hale.

- Derek? – ele falou alto, a voz meio esganiçada, tentando achar alguma coisa para cobrir o torso nu.

- Oi pra você também, Stiles! – Scott falou entrando na casa, chamando Derek para acompanha-lo e gritando para dentro – Mel, cadê meu beijo?

A garota veio correndo, mas antes de pular no colo de Scott como sempre fazia, deu um gritinho feliz e se jogou nos braços do outro veterinário.

- Derek! Você veio mesmo!

- Ei, e eu? Estou sobrando aqui? – Scott perguntou, fazendo um bico enciumado.

Melanie saiu do colo de Derek e abraçou o tio, enchendo o rosto dele de beijos.

- Desculpa, Tio Scott. É que o Derek disse que ia vir aqui em casa hoje para desestressar o meu pai.

- Eu também vim ver se estava tudo bem com você e saber por que não voltou lá na clínica. – Derek explicou para ela.

- Viu pai? – ela agora encarava Stiles que já havia vestido a camiseta que estava sobre o encosto de uma cadeira na cozinha – Era pra eu ir de verdade, não era só de educação. Não liga, não, Derek. O meu pai tem umas manias estranhas.

- Tudo bem, você vai lá outro dia. A Princesa ainda fica mais uma semana com a gente. Olha aqui, trouxe isso para você.

Ele tirou um grande pote de sorvete de chocolate e entregou para a garota que pegou o "presente" e falou, categórica:

- Derek Hale, você sabe como fazer uma garota feliz.

E saiu saltitante, chamando o avô para pegar colheres para os dois.

- Stiles, desculpa chegar assim na sua casa, mas o Scott disse que não tinha problema e...

- Claro que não tem problema. – Scott falou de novo e encarou Stiles – Ou tem?

- Não, nenhum. Eu só... Só não... Bom, só não estava pronto e achei que o Scott... Enfim, melhor pegar meu casaco e a gente ir. O Bad Wolf enche cedo.

Ele se despediu da filha com um beijo na testa e murmurou um "papai te ama", ao que ela respondeu com um aceno de cabeça e um beijinho de longe, com a boca lambuzada de sorvete. Disse ao pai que não chegaria tarde, apesar do xerife saber que isso nunca era verdade e saiu com Scott e Derek, no carro preto do mais velho deles.

Stiles sabia que Scott e Derek tinham se conhecido na faculdade, sendo que o melhor amigo havia sido calouro de Hale. Eles se deram bem na fraternidade e depois que Scott se formou com louvor, por incrível que pareça dado suas notas na época da high school, eles montaram a clínica. E estavam há um ano trabalhando juntos. Ele só não sabia que Scott e Derek saíam juntos. Na verdade ele jamais cogitou a hipótese de Derek Hale ter vida social, já que nunca o viu em nenhum dos lugares que costumava frequentar. E Beacon Hills não era exatamente a cidade com o maior numero de lugares descentes para se ir.

Como eles previram, o bar já estava quase lotado. Conseguiram alguns lugares junto ao balcão e pediram, cada um, uma cerveja. O barman trouxe os pedidos, um pote com amendoim e eles brindaram em silêncio.

Geralmente, Stiles e Scott conversavam sem parar. Algumas vezes eles nem sabiam exatamente sobre o que conversavam, tantos eram os assuntos. Mas na presença de Derek, Stiles parecia ficar tímido.

Só umas três rodadas de cerveja e dois shots de uísque depois que eles começaram a se soltar e conversar mais. Quando Derek foi ao banheiro, Scott aproveitou para se desculpar com Stiles:

- Cara, foi mal! Eu devia ter avisado que ele estava indo comigo. Mas é que ele terminou um namoro de muitos anos há poucas semanas, andava meio deprimido.

- Tudo bem, cara. Ele até que é legal.

- É sim. Pelo menos esta semana ele está mais sorridente. Acho que a visita da Mel fez bem para ele.

Stiles ia responder, mas Derek voltou e eles mudaram de assunto, conversando trivialidades. Até que o barman voltou com um drink violeta, o mais famoso da casa, batizado de Wolfsbane e entregou a Stiles junto com um bilhete.

Ele ficou totalmente embaraçado, leu o bilhete sem conseguir encarar nem Scott e nem Derek, que erguia a sobrancelha e procurava ao redor a mulher que havia mandado o recadinho.

- Ele de novo? – Scott perguntou, rindo.

Derek atentou para a palavra "ele" e virou o rosto, fingindo não prestar atenção na conversa. Mas notou o rosto de Stiles ruborizar enquanto afirmava com um gesto de cabeça.

- E o que ele disse desta vez?

- Quando vou aceitar pelo menos ouvir o que ele tem a dizer.

- Poxa, Stiles! Você não acha que está sendo muito cruel com ele? O Isaac é um cara legal, no fim das contas. O que ele teve com o Danny não foi tão importante assim.

- Verdade. O que a Alisson teve com o Matt também foi uma bobagem, né?

- Não apela. – Scott ficou sério, lembrando da crise que teve com a ex namorada, que o trocou por um fotógrafo com sérios problemas de comportamento.

- Desculpa. – ele balançou a cabeça, releu o bilhete e olhou a bebida sobre o balcão.

A alguns passos dele, Derek Hale não conseguia disfarçar seu embaraço com toda a situação e Stiles, notando aquilo, achou melhor sair de perto. Não devia ser exatamente o tipo de programa que Hale queria fazer: sair com o sócio e o melhor amigo aparentemente gay dele.

- Ok, Scott, vou falar com o Isaac. E você explica ao Derek que eu não sou uma bicha.

- Vai lá, Stiles! E não se preocupe com o Derek, tenho certeza que ele não se importa.

Stiles não viu a hora que Scott e Derek foram embora. Também não viu a hora que ele mesmo aceitou sair do bar com Isaac e acabaram na casa do rapaz, entre beijos, abraços e muito mais que isso. Stiles só viu que chegou em casa depois das 7 da manhã e que sua ressaca moral o impedia até de olhar no espelho.

Isaac era incrível. Inteligente, divertido, carinhoso. O sexo com ele era até difícil de descrever. E mesmo assim isso já não o satisfazia mais. Algumas vezes achava que estava doente, que dispensar uma pessoa como Isaac era loucura. Mas depois lembrava do caso que ele teve com Danny e, o que era pior, o motivo para esse caso acontecer.

Isaac teve uma crise de ciúmes da relação de Stiles com a filha, porque a garota ficou doente no dia do aniversário dele e ele não aceitou a ideia de ver o pseudo-namorado passar a noite no hospital com a garotinha que, na época, tinha apenas três anos.

Não era isso que ele precisava. Isaac era quase perfeito, mas a sua imperfeição vinha da imaturidade. Da incapacidade de enxergar que Stiles não estava mais sozinho e que para ficar com ele, teria que ficar com Melanie também.

Tomou um banho quente e se jogou na cama, fechando bem as cortinas para impedir a claridade do dia de entrar e cobriu-se com o edredon sem nem ao menos vestir roupa alguma. Adormeceu profundamente e não viu a hora que seu pai saiu, levando Melanie para visitar Princesa Leia.

O fim de semana acabou sendo frio e preguiçoso. E o nome de Derek Hale não foi falado nenhuma vez, nem mesmo por Melanie, apesar da garota vez ou outra olhar para o xerife e abafar um risinho.

Na semana seguinte, Stiles não pôde sair porque Melanie estava com virose e ele passou a noite de sexta controlando a febre e dando remédio para o enjoo além de isotônicos para evitar a desidratação.

Ela se recuperou ainda no domingo, mas ficou em casa por mais dois dias por recomendação do pediatra para não correr risco de passar a doença para os outros colegas da creche.

Na quarta-feira pela manhã, o celular de Stiles tocou e pelo visor ele notou um numero desconhecido. Atendeu mesmo assim, pensando que talvez um de seus clientes tivesse trocado de número.

- Stiles? – a voz era familiar e agradável – É Derek Hale. Desculpe ligar esta hora, é muito cedo ainda né?

- Não, tudo bem! Eu acordo cedo, aproveito quando a Mel está dormindo para adiantar meu trabalho. Tudo bem com você? – ele agora havia se sentado na ponta da cadeira do computador, curioso com o motivo daquela ligação.

- Ah sim. Bom eu liguei mesmo só para saber notícias da Mel. Scott me disse que ela ficou doente e por isso você não saiu com a gente semana passada. Queria saber se ela melhorou.

- Melhorou! Obrigado pela preocupação. Ela melhorou sim. Foi apenas uma virose, nada grave, mas tem que acompanhar de perto para não ter desidratação. Já estou acostumado com isso.

- Você é um excelente pai! – ele comentou, o tom de voz sincero – Fico feliz que esteja tudo bem com ela. E já que ela melhorou, gostaria de pedir um favor a você.

- Favor?

- Sim, será que você me empresta sua filha amanhã a tarde por meia hora? Vou até a casa da Princesa Leia. Pensei que ela poderia gostar de ir. Você também está convidado, claro. E o xerife.

- O meu pai?

- Sim, no outro sábado ele trouxe a Mel na clínica e passamos a tarde juntos, primeiro cuidando dos filhotes e depois fomos lanchar no McDonalds. Eu achei que a Mel não devia comer batata frita, mas ela me garantiu que no fim de semana ela está livre de vegetais e vida saudável.

- Ela pode. Quem não pode é o meu pai. Por isso eles estavam com aquelas caras culpadas. – ele ria, lembrando das expressões nos rostos de seu pai e sua filha.

- Eu não sabia. Prometo que da próxima vez só deixo ele pedir a salada especial, ok?

- Da próxima vez eu vou conferir isso de perto.

- Melhor ainda. Assim eu ainda continuo com a minha fama de cara legal e você fica de pai/filho chato que controla a comida dos outros

Eles riram juntos e depois ficaram em silencio. Apenas a respiração de ambos sendo ouvida e Stiles notando, feliz, que seu reflexo no vidro da janela sorria.

- Bom, - a voz de Derek quebrou o silencio entre eles – Não quero mais tomar seu tempo. Apenas me diga, acha que está tudo bem levar a Mel para ver a Princesa?

- Claro! Por mim tudo bem, tenho certeza que por ela também.

- Fico feliz com isso. Gosto da companhia da Mel, ela trata os bichos com um carinho único. Eu passo na sua casa então amanhã as seis da tarde, pode ser?

- Pode sim. Ela chega da creche as cinco, toma banho e eu apronto tudo.

- Obrigado, Stiles! Até amanhã.

- Até amanhã.

Ele desligou e guardou o celular no bolso da calça. Fechou os olhos e suspirou. E quando percebeu que estava pensando no sorriso do veterinário, balançou a cabeça, dando dois tapinhas nas próprias bochechas e falando para si mesmo:

- Foco, Stiles! Ele é só um cara gentil e amigo da Mel.