Após o Natal, Derek viajou para Nova York para passar o Ano Novo com sua irmã e seu tio, Peter. Festas em família não eram o forte do veterinário desde a morte dos pais num incêndio há quase 10 anos. Seus pais e mais alguns amigos da família se reuniam para uma pequena confraternização da ONG de proteção ambiental que dirigiam quando o prédio, sede da Hale's Pack, pegou fogo. Todos sabiam que o incêndio havia sido criminoso, já que as saídas estavam todas trancadas por fora como a perícia descobriu, mas até então, nenhum culpado havia sido encontrado.
Derek preferia deixar a história quieta, afinal, nada do que fizesse iria trazer os pais de volta. Apenas mantinha a ONG funcionando, agora com o apoio do governo estadual que havia colaborado para a criação da reserva de Beacon Hills, onde cuidavam de animais selvagens recuperados de cativeiros e ajudavam a reabilitá-los para a vida selvagem.
Mas Laura ainda teimava em continuar com a investigação e Peter concordava com ela, de modo que a convivência entre os três era um tanto complicada. Ainda assim, uma vez por ano, sempre na passagem de ano que coincidia com o aniversário de sua irmã, Derek ia até Nova York passar uns dias com eles.
Scott, que havia tomado um bolo de Alisson no Natal, acabou aceitando viajar com ela para passarem o Reveillon em algum lugar isolado e paradisíaco. Stiles não entendia o que o amigo via naquela mulher para parecer um cachorrinho adestrado atendendo a todos os seus desejos.
O xerife ia passar a virada do ano de plantão na delegacia. Stiles tratou então de providenciar uma garrafa de champanhe sem álcool, alguns sanduíches de peru e molho de mostarda, nozes e uma torta de chocolate para que seu pai tivesse, junto com os outros dois policiais escalados para aquela noite, uma passagem de ano minimamente agradável.
Melissa, mãe de Scott, se ofereceu para ficar com Melanie, caso o mais novo dos Stilinski quisesse comemorar a virada em alguma festa. E Stiles tinha alguns convites, incluindo dezessete mensagens de Isaac insistindo para que passassem juntos a meia-noite.
Ele tratou de recusar a oferta de Melissa, bem como ignorou todos os convites que recebeu. Deu banho em Mel, colocou um pijama de flanela na filha, fez duas trancinhas em seus cabelos e fez ela calçar as pantufas de ursinho cor de rosa que havia ganhado do padrinho no Natal. Enquanto ela assistia Little Einsteins, o rapaz tomou seu banho, vestiu uma calça de moleton cinza claro, meias, chinelos de quarto e uma camisa de manga comprida branca.
Pegou os sanduíches que havia separado para ele e a filha, a caixa de leite, copos e os potes com torta de chocolate e levou para seu quarto, ligando a TV e chamando Mel para ficar com ele ali.
Antes de ter sua noite de paz, ainda teve que aguentar um telefonema irritado de Isaac, que insistia em saber por que Stiles não havia respondido as suas mensagens.
- Eu sequer prestei atenção ao celular, Isaac. Vou passar a virada com a Mel.
- Ah não, Stiles! Não pode estar falando sério.
- Estou, meu pai vai trabalhar hoje a noite e...
- E não é possível que em toda a cidade você não vai conseguir uma babá disponível? Vamos, eu te ajudo a procurar, e pago até hora extra para ela.
- Desculpe, Isaac. Realmente não vai dar.
- Stiles, você sabe bem que aquilo que a gente passa a meia noite fazendo é o que vai fazer o resto do ano, né? Vai mesmo querer passar o resto de seu ano dentro de casa cuidando da Mel?
Stiles não acreditou no que tinha acabado de ouvir. Como Isaac podia sequer cogitar a hipótese de Stiles se sentir insatisfeito em cuidar da própria filha?
- Isso é sério? – ele perguntou, a voz em falso tom de espanto e diante da confirmação do outro sobre a superstição, ele emendou – Então não posso simplesmente passar a virada cuidando da Mel. Tenho que ir lá fora e colocar o Cake, nosso cachorro para dentro. Aí vou passar o ano cuidando da Mel e dele. Obrigado pelo aviso, Isaac. Bom fim de ano para você.
E sem esperar qualquer resposta, desligou o telefone e foi preparar sua noite com a filha.
A garotinha chegou trazendo seu travesseiro em uma mão e o Twix, seu coelho de pelúcia amarelo, em outra. Pulou na cama grande do pai e se acomodou ao lado dele, nos enormes travesseiros fofos que ele colocou junto à cabeceira. E ficaram os dois ali comendo, conversando e assistindo reprises da Casa do Mickey Mouse.
Melanie dormiu pouco antes das 23 horas, aconchegada ao colo do pai e ele mudou para um canal de filmes que reprisava Esqueceram de Mim. Ficou rindo das idiotices do filme e não teria percebido que a tão esperada passagem de ano acontecia se não ouvisse os foguetes estourando ao longe, e se seu celular não tivesse tocado na mesinha de cabeceira.
Esticou o braço livre para pegar o aparelho, tomando cuidado para não acordar Melanie e não viu o número que estava ligando, já pensando em Isaac bêbado pronto para causar escândalo.
- Feliz ano novo! – a voz de Derek soou calma do outro lado da linha.
- Derek! – Stiles exclamou, animado, baixando a voz em seguida para não acordar Melanie em seu colo – Feliz ano novo para você também! Achei que a essa hora estaria na Times Square comemorando a virada.
- Ah não, minha irmã foi para lá com o noivo, meu tio saiu ontem e até agora não deu notícias. Eu preferi ficar em casa e ligar para você. Está curtindo seu ano novo onde?
- Em casa, vendo TV, embaixo da coberta, com a Mel no colo e o Cake deitado no pé da cama.
- Nossa, achei que ia ligar e você nem ia me atender, entretido em alguma festa.
- Ah já fiz muito isso.
- E cansou?
- Não exatamente, só acho que no momento a minha melhor companhia está aqui, babando no meu braço e a outra companhia legal acordou para morder o meu pé. Só para não ter confusão, quem tá mordendo meu pé é o Cake, ok? E não a Mel.
Derek riu do comentário e ouviu o barulho da TV ao fundo da ligação, procurando ligar o aparelho do quarto de hóspedes também.
- Tá assistindo o que aí?
- Esqueceram de mim.
- Clássico. Todo ano passa. Achei aqui. Nossa, eu amo essa cena das armadilhas na casa. Quando era mais novo tentei fazer isso no meu quarto. Minha irmã chegou a cair nas armadilhas, tropeçou e torceu o tornozelo. Fiquei dois meses de castigo.
- Poxa, eu também fiz essas armadilhas. Mas não fiquei de castigo, porque quem caiu nelas foi o Scott e ele teve que tomar dois pontos no queixo e não contou pra ninguém que o culpado foi eu. O Scott é um amigão, viu?
Eles ainda assistiram mais uns minutos de filme em silêncio até que Derek falou:
- Sabe qual outro filme que é clássico?
- Diga.
- Mary Poppins.
- Nossa, você foi longe agora. Mary Poppins é clássico desde a infância do meu pai.
- Verdade. Mas eu não tenho paciência para musicais. Acho que não sou um gay convencional. – ele brincou – Nada de musicais, limpeza de pele e coleção de discos da Cher.
- É, convencional não é uma palavra que te defina bem.
- Que palavra me definiria bem?
- Ah, não sei – ele pensou em bonito, sexy, gostoso mas não achou adequado dizer aquilo em voz alta – Imprevisível, eu acho que cai bem.
- Imprevisível? Eu? Sem chances. Até novela é mais imprevisível que eu.
- Você é imprevisível, sim! Você vem para o Natal e traz um cachorro para minha filha. Você pede para buscar ela na escola e a leva para passear e ainda arrasta meu pai junto. E o mais impossível de acreditar: você se diverte fazendo isso. Aí aparece você, com essa cara de bad boy, e se mostra o típico "cara de família". Isso é imprevisível.
- Se for assim você não fica atrás.
- Como assim? Eu sou um cara de família!
- Ah, mas um cara de família que passou a vida apaixonado pela Lydia, de repente aparece namorando a Erica, tem uma filha, vira pai solteiro mega responsável, e de repente eu descubro que é gay também? Vai dizer que tem alguma previsibilidade nisso?
- Ei, em primeiro lugar eu não sou gay. Lembra do que a Melanie te explicou? Eu gosto de meninos e meninas. – eles riram – E em segundo lugar, como sabe disso tudo a meu respeito? O Scott destrinchou minha desastrosa vida amorosa para você desde o jardim de infância?
- Claro que não. É só que eu já prestava atenção em você antes.
Silêncio. Não aquele silencio quando o assunto morre e uma pessoa espera que a outra reinicie a conversa. Silêncio de quem não sabe o que responder e de quem percebe que falou demais.
- Acho que já falei demais na sua cabeça por uma noite, né? – Derek começou a se despedir.
- Acho que você ainda vai ter que falar muito na minha cabeça. – Stiles interrompeu, antes que o veterinário terminasse de falar e desligasse o aparelho. Estava cansado de perceber indiretas e ler entrelinhas nas conversas com Derek e não fazer nada. Talvez, se criasse coragem de encarar a situação aquilo pudesse se definir, como a bela amizade que ele acreditava ser ou como um começo de relacionamento que ele desejava ter.
- Por que diz isso? – Hale perguntou, o tom de voz com um toque sutil de esperança.
- É que hoje me disseram que o que a gente faz a meia noite é o que vai fazer o resto do ano.
- Então, segundo essa superstição, você vai passar o ano em casa com a Mel e falando comigo ao celular?
- Basicamente.
- Não gostei.
- Não? – Stiles não compreendeu a mudança de atitude do outro.
- Não. Se eu soubesse disso, não tinha telefonado. Tinha ido pra sua casa, passar a virada do ano vendo TV com você, revezando o braço para a Mel babar e a meia para o Cake morder.
- Viu? Imprevisível! – Stiles respondeu, com um sorriso tão grande que sentiu as bochechas arderem. Pensou que se Mel visse sua expressão agora ia chama-lo de gato da Alice certamente.
- Bom, eu volto em dois dias. Nova York é um bom lugar, mas já to com saudade do Bad Wolf. O Scott vai estar na cidade para gente ir?
- Acho que sim, se a louca da Alisson não surtar com alguma bobagem, eles voltam amanhã.
- Ótimo! Depois eu ligo então pra gente combinar. E ligo também para dar feliz ano novo para a Mel. Boa noite, Stiles!
- Boa noite, Derek.
Em Nova York, Derek tirava os sapatos, a calça jeans e se jogava na cama de samba canção e camiseta, se embrulhando com o edredon e sorrindo para o teto no quarto escuro, agora com a TV desligada.
Enquanto em Beacon Hills, Stiles ajeitava a filha no lado esquerdo da cama de casal, colocava Cake no chão, sobre uma almofada quentinha e ficava zapeando pela TV, sem contudo prestar atenção em nada. Em sua mente, a voz de Derek ecoava dizendo "eu já prestava atenção em você antes".
