O dia dois de janeiro chegou junto com uma nevasca fora de hora e a visita de Derek a casa dos Stilinski teve que ser adiada. O veterinário mal destrancou a porta de casa e já ouviu o telefone tocando. Do outro lado da linha, Catherine Craver soava aflita. Dois membros de uma das matilhas que a fundação Hale's Pack tomava conta haviam se perdido do bando por causa da tempestade de neve.

E essa emergência custou não só a noite do dia 2 de janeiro a Derek, mas o restante das outras duas semanas também. Os gêmeos Craver, filhos de Catherine, eram da guarda florestal e ajudaram a rastrear e resgatar os dois lobos jovens. Quando foram encontrados, estavam presos na neve quase até o pescoço e com sinais de hipotermia.

Além de cuidar da saúde deles durante os quinze dias, tiveram que cuidar do perímetro onde o bando deles estava, pois estariam voltando para a matilha justamente no período de cio.

Derek e Stiles conversavam todos os dias ao telefone ou pela internet antes de dormirem. E naquele final de semana haviam combinado de ir com Scott ao show do Green Day. Programa que Derek teve que cancelar:

- Cara, desculpe, de verdade! – o veterinário falava pela décima vez aquela mesma sequencia de palavras.

- Se você pedir desculpas mais uma vez eu não vou te desculpar, Derek! – Stiles respondeu, com um sorriso aborrecido que ele só se permitiu dar porque sabia que Derek não o estava vendo. – Imprevistos acontecem. Entendo isso muito bem desde que a Mel nasceu.

- Tem certeza que não está com raiva de mim?

- Tenho, relaxa!

- Ok, então. Amanhã eu te ligo para saber como foi o show.

- Combinado!

No fim da tarde de sábado, Derek conseguiu um tempo para passar na casa dos Stilinski. Queria pegar Stiles ainda em casa, antes de sair para o show. Tocou a campainha e quando a porta se abriu, ele foi atacado por um abraço e um beijo melado, além de algumas lambidas, um jeito peculiar de Mel e Cake darem as boas vindas as visitas.

- Oi Mel. – ele ergueu a menina ao colo e deu um abraço apertado nela – Senti sua falta esses dias. E sua também, Cake. – ele se abaixou e coçou atrás da orelha do cachorrinho.

- Também senti saudade de você, Derek. Você anda ocupado demais, sabia? Vai acabar daquele jeito... como é a palavra? Ah é, estressado, igual meu pai.

- Olha, eu prometo que mais duas semanas e a gente tira uns dois dias para passear, pode ser?

- Dois dias inteiros?

- Dois dias inteiros.

- Só a gente? Passeando?

- Sim, e você pode até escolher onde quer ir.

- Uau! – os olhinhos dela brilhando – Eu posso levar meu pai com a gente?

- Hummm, deixa eu pensar. Seu pai está se comportando bem?

- Super bem! Você nem vai acreditar que hoje ele vai assistir a Maratona da Barbie comigo!

- Maratona da Barbie? – Derek franziu as sobrancelhas – Mas ele não ia sair com seu padrinho?

- Mudança de planos. – Stiles respondeu, encostado na porta da sala, observando a conversa da filha com o veterinário.

Derek sorriu para ele e se aproximou de um jeito como quem não sabe se abraça ou cumprimenta com um aperto de mão e no fim decidiu por nenhum dos dois, só ficou de frente para o pai de Melanie, ainda sorrindo.

- O que aconteceu? – indagou, realmente curioso, mas feliz de saber que ele não estaria na balada, onde aquele tal de Isaac certamente lhe cantaria.

- Ah, o Scott deu o seu ingresso pra Alisson e como segurar vela não faz parte dos meus dotes naturais, eu fui um cavalheiro e dei o meu ingresso pra Lydia.

- Trocar o Green Day pela Barbie. Tem certeza?

- Não vejo por esse lado. Troquei aturar Scott e Alisson se agarrando pela Mel e um pote de cookies de chocolate.

- É, essa troca eu também faria.

- Eu te dou um cookie. Mas só um, para provar a receita secreta dos Stilinski.

Stiles seguiu para a cozinha, chamando Derek para acompanha-lo. Alcançou o pote com os biscoitos ainda mornos e estendeu para que o veterinário pegasse um. Derek provou e não conseguiu conter um gemido de aprovação e uma careta que Stiles considerou no mínimo obscena. Se ele soubesse, teria filmado aquilo para poder assistir sozinho a noite.

- Isso é... perfeito! – Derek falou, esticando a mão para pegar mais um, mas ganhou um tapa ligeiro e ardido.

- Eu disse só um. Para provar. Se quiser mais, vai ter que assistir um desenho da Barbie pelo menos.

Derek abriu a boca, chocado. Nunca imaginou que Stiles pudesse ser chantagista. Olhou o pote de biscoitos, o sorriso contido de Stiles, Mel de pijama enrolada num cobertor rosa no sofá grande da sala e o relógio, que ainda marcava 18h15min. Ele só tinha que estar na reserva as 20h30min. Suspirou, dando-se por vencido.

Barbie Escola de Moda era o desenho mais bizarro que ele já havia assistido. Um guarda-roupa mágico que transforma qualquer resto de tecido em um vestido brega cheio de laços e purpurina. E Mel adorava e dizia que queria um guarda-roupa daqueles quando crescesse.

Os cookies já tinham acabado, o xerife já havia se juntado a eles na sala e agora eles decidiam se pediam pizza ou frango frito, quando o celular de Derek tocou e ele saiu para atender. Ainda faltava, quinze minutos para seu turno começar e ele estranhou que Catherine estivesse ligando.

- Algum problema? – Stiles se aproximou da sala de estar, quando viu que ele havia desligado o telefone.

- Sim. Quer dizer, não é exatamente um problema, é que é noite de lua cheia. E as lobas estão no cio e tá a maior confusão lá na reserva. É a primeira vez que conseguimos acompanhar um cio natural deles. Todos os filhotes até agora foram concebidos em cativeiro.

- Isso é um bom sinal, não é?

- É sim, um ótimo sinal. Eles estão se reintegrando, voltando a ser selvagens. A Catherine me ligou porque sabe o quanto eu quero ver isso acontecendo.

- Ah, sim... Bom, vou buscar seu casaco.

- Quer ir comigo? – Derek perguntou de supetão, sem se dar conta do que fazia.

- O quê? – Stiles parou no meio do caminho.

- É, quer ir comigo até a reserva? Temos postos de observação e câmeras de vigilância e monitoramento espalhados em toda reserva. Vai ser interessante.

Uma reserva florestal, lua cheia, Derek Hale. O que Stiles precisava decidir mesmo? Ah é, se usaria o casaco preto ou o azul marinho.

Em menos de meia hora chegaram na reserva. Stiles ia comentar que Derek precisava se lembrar que tinha um camaro e não um jato, mas o clima de euforia na reserva era tão grande e logo todos os funcionários e voluntários se aproximaram dando as últimas informações que ele acabou deixando para outra oportunidade.

Derek mostrou a ele como tudo funcionava na reserva e o levou até a sala de monitoramento. Os lobos eram equipados com chips e sensores para serem rastreados e os pontos vermelhos que piscavam na tela indicavam a posição de cada um.

O grupo mais ativo do lugar montou uma estratégia de aproximação para evitar que o lobo escolhido pela fêmea como alfa fosse interrompido ou atacado. Se isso acontecesse, talvez tivessem que recorrer ao cativeiro novamente e não era o que queriam.

Stiles se ofereceu para ficar na cabana, mas Derek negou e disse que eles iriam juntos. Seria "emocionante" segundo as palavras do veterinário.

Na reserva, Derek se movimentava com tanta desenvoltura que parecia estar em seu habitat natural. Stiles se esforçava para acompanhar o passo e quando chegaram ao posto de observação designado a eles, estava suando, sem fôlego e com as costelas doendo.

- Coloque o rosto dentro do casaco e respire. Suas costelas estão doendo porque o ar aqui fora está frio demais e o seu corpo está quente. – Derek sugeriu, a voz em tom de preocupação.

Stiles seguiu o conselho e ficou sentado no posto, ao lado de Derek que segurava um binóculo infra-vermelho. A luz da lua iluminava certeira a clareira logo a frente. A expectativa era que a fêmea seguisse para lá e o macho viesse atrás, o que de fato aconteceu uma hora e meia depois.

Stiles sentia a bunda dormente, o sono invadir seu corpo e uma vontade imensa de voltar para casa. Quando sentiu o braço de Derek apertar forte o seu ombro. Olhou para cima e o veterinário estava sorrindo, radiante.

- O que foi? – sussurrou.

- Eles conseguiram. – ele finalmente olhou para baixo – Estão acasalando. É lindo, Stiles. Depois de anos, o trabalho que os meus pais começaram, deu certo! Olha lá.

Derek esticou o binóculo para o rapaz, que levantou e não sabia o que fazer. O veterinário então se posicionou atrás dele, fez com que alinhasse seu corpo para a direção da clareira e olhasse o jovem casal de lobos acasalando.

Não tinha nada diferente de um casal de cachorros, mas ele não comentou isso. Cachorros não eram caçados e nem estavam ameaçados de extinção. Então talvez a beleza morasse naquilo ali.

Derek mexeu no celular, mandando uma mensagem para o resto do grupo, que logo respondeu e ele falou para Stiles:

- Podemos ir.

Ele seguiu na frente, já conhecendo o caminho de volta, explicando em voz baixa sobre os detalhes da vegetação, do solo, das atividades na reserva até ouvir um baque surdo e quando se virou, deu com Stiles de cara no chão.

- Você está bem? – voltou e se agachou ao lado do rapaz.

- Minha cabeça dói. E eu não sei, mas acho que to meio zonzo.

Derek direcionou a luz da lanterna para ele e se assustou. Havia um corte feio na testa de Stiles e o sangue escorria com força. Derek alcançou um lenço no bolso e pediu que Stiles segurasse para estancar o sangue até que chegassem à central da reserva.

Já no local, deixou Stiles sentado na cozinha e buscou o kit de primeiros socorros. Entregou dois comprimidos ao rapaz e esperou que ele tomasse antes de seguir com os procedimentos que não eram novidade para ele.

- Vai arder um pouco, ok? – ele falava cuidadoso, enquanto embebia uma gaze em algum líquido antisséptico.

Stiles segurou um gemido de dor quando sentiu o remédio queimar sua testa, mas uma lágrima teimosa ainda escorreu de seus olhos fechados.

Derek secou a gota com as costas da mão quente e firme e avisou a Stiles que faria a sutura. Era um veterinário, mas ali na reserva eles viviam fazendo curativos uns nos outros.

- Confia em mim, tá? Sou bom nessas coisas.

- Você é bom em muitas coisas. – Stiles se pegou murmurando sem querer. Talvez sob efeito do remédio para dor que havia ingerido.

Derek sorriu e continuou a tarefa. Pontos pequenos e próximos para diminuir as chances de ficar uma cicatriz disforme.

Depois ajudou Stiles a andar até o carro, a colocar o cinto de segurança e o levou em casa.

- Eu sei que essa noite não foi o que você esperava. Em vez de um show com uma das melhores bandas da atualidade, duas horas parado no frio para ver um lobo traçando uma loba e depois seis pontos na testa. Fico te devendo um programa descente.

- Acredite eu me diverti hoje.

- Não precisa mentir, Stiles. Foi um tédio para você.

- A parte dos lobos, sim, foi um tédio.

- E o que não foi chato então?

- Você. Você não foi chato. Valeu a pena, até os seis pontos na testa, para ver você feliz igual estava lá na reserva. Obrigado por isso.

O pai de Melanie sorriu, deu uma piscadinha para o veterinário e entrou em casa, trancando a porta atrás de si.