Os dias que se seguiram após a noite na reserva foram de uma cumplicidade irritante entre Derek e Stiles e até mesmo Scott chegou a reclamar que o melhor amigo o havia trocado em definitivo.

- E aí o senhor Newman ligou porque a Toya está com berne. Eu já cansei de falar para ele que enquanto não tirar o celeiro do lado do chiqueiro e não limpar melhor o lugar, os animais continuarão doentes, mas ele não acredita em mim. – Scott comentava, enquanto repassava as anotações nas fichas de atendimento, sem olhar para o que Derek estava fazendo.

- Hum. – o outro veterinário apenas murmurou.

O tom de voz era de total falta de interesse. O que fez Scott largar as fichas e olhar para o sócio que tinha o caderno de cultura da Gazeta de Beacon Hills em mãos e olhava, atento, uma das páginas. Era estranho demais que Derek não se interessasse pelos "bernes do senhor Newman", como ele e Scott haviam batizado as ligações do fazendeiro. Eram constantes, a cada dois ou três meses. Ele nem se dava ao trabalho mais de atender as ligações. O senhor Newman não gostava dele e ele agradecia por isso. Sempre era Scott que tinha paciência para o velho homem.

Scott decidiu testar o sócio e comentou, displiscente:

- Ele disse que ela pegou pelo menos uns cinco atrás da orelha. Quer você lá hoje a tarde para remover os vermes, por volta das 18h. E disse que é para ficar pro jantar, pois Estelle vai fazer tripas de cordeiro.

- Certo. Parece perfeito!

- Derek! – Scott chamou, elevando a voz e conseguindo a atenção do sócio – Você ouviu uma palavra do que falei?

- O quê? – ele parecia aturdido.

- Eu disse que a Toya está com berne de novo.

- Normal, enquanto o velho ogro do Newman não mudar a porcaria do celeiro de perto daquele chiqueiro imundo, os cavalos vão continuar doentes.

- E ele quer que você vá lá remover e depois fique pra jantar tripas de cordeiro.

- Enlouqueceu, Scott?

- Eu não, você enlouqueceu! Falei isso tudo agora há pouco e você respondeu "perfeito". Ficou desatento o dia inteiro. Deu vacina no poodle da senhora Flinn que veio apenas tomar banho. Tá com um sorriso idiota faz dias e agora se perde nesse jornal aí e nem ouve o que falo. O que, afinal, está acontecendo com você e o que tem de tão interessante nesse jornal?

Derek sorriu, ligeiramente encabulado com as observações do amigo. Esticou o jornal e falou, coçando a nuca enquanto Scott pegava o pedaço de papel.

- É que vai ter sessão especial no cinema sexta-feira. Vão passar The Rock Horror Picture Show a meia noite.

- Ah legal! Vou avisar o Stiles, é o filme preferido dele e...

E ele finalmente entendeu, notando os ombros de Derek ficarem mais tensos à simples menção do nome do pai de Melanie.

- Espera! – ele pediu, colocando o jornal na mesa de trabalho e fechando os olhos com força – Tá rolando alguma coisa entre vocês? Estão se pegando, é?

- Não! – Derek respondeu depressa demais.

- Não? Não do tipo "não estamos mesmo nos pegando e não vamos nos pegar" ou um não do tipo "não estamos nos pegando porque ainda não tive a oportunidade"?

Derek Hale suspirou, dando-se por vencido. Sentou diante do sócio, cruzou as mãos sobre a mesa e olhou Scott com uma cara que lembrava muito bem um filhotinho abandonado.

- Eu não sei, Scott. De verdade. Tem horas que... Que eu acho que vai acontecer. Mas depois o Stiles recua e eu fico sem saber se devo ou não devo me aproximar.

- E o cinema é sua tentativa de levar ele pra um canto escuro e pegar na mão dele enquanto dividem um balde de pipoca?

- Falando assim eu fico parecendo um conquistador barato e patético. Mas não, é só que eu estou devendo um programa decente para Stiles depois do desastre que foi a última sexta na reserva.

Scott sorriu, compreensivo, mas seus olhos não escondiam uma nota de preocupação. E foi com essa mistura de sentimentos que ele falou:

- Ele vai adorar ver esse filme. Ele sempre adora ver esse filme. E não compre pipoca com manteiga. Faz mal pro estômago dele. Refrigerante é de limão, com gelo. 700ml. E um pacote de mentos de cereja. E o principal, Derek, cuide bem do coração dele. Stiles já passou coisa demais na vida. Se não quiser levá-lo a sério, não tente mais do que já tem. Ele não precisa ser usado ou magoado novamente.

Scott gostava de Derek, o achava responsável e divertido. Mas gostava mais de Stiles, e não queria ver o amigo quebrado como já o vira outras vezes. Era bom que Derek soubesse disso. Depois dos conselhos, Scott saiu da sala, deixando Derek absorto nas últimas palavras. Assimilando cada uma delas.

Na sexta-feira, Derek apareceu para buscar Stiles perto das dez da noite. Era cedo para irem ao cinema, mas ele tinha a esperança de encontrar Mel acordada. Conseguiu ainda um abraço apertado e um beijo de boa noite da garotinha que arrastava o coelho de pelúcia pela orelha e subia as escadas com o pijama de flanela, de mão dada com o pai. Dez minutos depois, Stiles descia as escadas e eles saíam de casa, rumo ao cinema, do outro lado da cidade.

- Não acredito que vou ver The Rock Horror hoje. Sabe há quanto tempo não vejo esse filme? – Stiles parecia empolgado.

- Pensei que era seu filme favorito. Deve ter visto várias vezes.

- Ah sim, eu tenho em DVD!

- Em DVD? Poxa, Stiles, era para ser uma noite legal hoje. O Scott não me disse isso. Se eu soubesse que tem o filme, tinha escolhido outra coisa pra gente...

- Derek! A graça é ver no cinema! – Stiles ria da cara de decepção que o veterinário não conseguia esconder. E sem conseguir convencê-lo com palavras, levou a mão até o joelho dele, ao lado do seu e apertou com carinho, enquanto falava – Pode acreditar, vai. Há dois anos eu quis ir em Nova York na convenção de fãs para assistir o filme no Halloween, mas o Scott disse que isso seria tão nerd quanto a vez que me vesti de jedi na Comic Con.

Hale olhou discretamente a mão pousada com suavidade em sua perna e sorriu. Queria poder largar o volante e segurar aquela mão entre as suas e esquecer cinema, pipoca e o resto do mundo. Mas em vez disso, apenas comentou:

- Você de Jedi? Mesmo? A próxima Comic Con é quando mesmo? Vou querer conferir isso pessoalmente.

Stiles riu e eles continuaram a conversar até chegarem ao cinema. Do estacionamento até a entrada não dava mais que duzentos metros de distância, mas ainda assim eles andaram próximos o bastante para que seus ombros se esbarrassem vez ou outra. Mas não se afastavam, usando o frio que era típico do fim de janeiro como desculpa.

Dentro do cinema, tiraram os casacos e Derek fez os pedidos do jeito que Scott ensinou.

- Alguém fez lição de casa? – Stiles perguntou, vendo o pacote de mentos de cereja nas mãos do veterinário.

- Ah, como dizem, perguntar não ofende.

Eles foram para a sala de projeção e pelas próximas duas horas quase não conversaram. Poucas palavras apenas para comentar uma ou outra cena. Para oferecer pipoca, para pedir licença e ir ao banheiro.

Derek, mesmo na penumbra da sala iluminada apenas pela luz da grande tela, conseguia ver a expressão extasiada de Stiles, com as cenas preferidas. Via que ele se continha para não cantar as músicas junto com o elenco e algumas das falas eram ditas em voz alta, ás vezes antes mesmo de serem ditas no filme.

Na hora de deixarem o cinema, ainda conversando sobre a lista de filmes que deveriam ver juntos, notaram o chão molhado por uma chuva gelada que continuava a cair, cada vez mais forte.

- Eu vou correndo buscar o carro. Espere aqui! – Derek avisou e já se adiantava porta a fora, quando sentiu Stiles pegar sua mão e entrelaçar seus dedos.

- Deixa de bobagem, a gente corre junto até lá! – ele sorria igual criança e puxou o veterinário, que correu com ele, sem soltarem as mãos, sentindo os pés escorregarem em algumas partes da calçada.

Chegaram rápido ao estacionamento, mas Derek não queria entrar no carro. Não queria perder a sensação de ter a mão de Stiles com a sua.

- Não vai me dizer que perdeu a chave... – Stiles gracejou, vendo que o veterinário não se movia.

- Ah, sim. Quer dizer, não, não perdi. – ele soltou a mão sentindo o calor se esvair dos dedos, alcançou a chave no bolso interno do casaco e abriu a porta do carro para que Stiles entrasse. Deu a volta e se acomodou também, dando a partida.

Dirigiu calado a maior parte do tempo, apenas ouvindo o que o rapaz dizia e concordando, como se estivesse distraído.

Quando estacionaram diante da casa dos Stilinski, Stiles soltou o cinto de segurança e virou-se de frente para Derek, indagando:

- Tem alguém aí de mau humor?

- Não! – ele respondeu depressa.

- Bom, então você é do tipo criança que fica ranzinza quando está com sono? Porque num momento estava rindo, correndo na chuva e depois ficou com essa tromba toda.

- Desculpe. – ele começou, com um sorriso contido – Não é nada disso, é só que...

- O filme foi ruim? Eu entendo, nem todo mundo é fã daquele filme. Mas nem fui eu quem escolheu. A ideia foi sua e...

E ele não falou mais nada, porque Derek calou sua boca com um beijo forte, quente, intenso. Segurava seu pescoço com uma das mãos, enquanto a outra repousava firme na cintura do outro, como se para se certificar que ele não se esquivasse.

Stiles podia sentir o coração batendo com tanta força contra o peito que não estranharia se Derek pudesse ouvir também, era como se seus ossos estivessem sendo martelados com violência. A respiração queria faltar, mas ele não ia, de modo algum, interromper aquele beijo.

Derek não conseguia pensar. Não queria pensar. Não podia pensar. Sabia que se pensasse em alguma coisa, perderia a coragem de se declarar. Agarrava-se aquele beijo, devidamente correspondido, na tentativa de não ouvir as palavras que estavam gravadas em seu subconsciente.

Sentia as mãos de Stiles também apertando seu abdômen e quando percebeu que seus próprios dedos já haviam deslizado para baixo da blusa que o rapaz vestia, ele recuou. A voz de Scott agora gritava em sua mente: "Se não quiser levá-lo a sério, não tente mais do que já tem. Ele não precisa ser usado ou magoado novamente."

- Eu... preciso ir, Stiles! Está tarde.

O rapaz franziu a testa, concordou com a cabeça e desceu do carro. E pela primeira vez naquele tempo todo em que saíam juntos, Derek arrancou o carro sem esperar que Stiles entrasse em casa.