O pai de Melanie passou a semana inteira sem notícia do veterinário. Tentava não fazer disso grande coisa, mas até Cake notou que ele estava mais triste e toda hora vinha se enrolar em seus pés e colocar a pata em sua perna de um jeito carinhosamente estabanado.

Ele agora conversava pouco e ficava ainda mais em casa, sempre com a filha no colo. Menos quando ela perguntava sobre Derek. Aí ele não aguentava, dava uma desculpa qualquer sem, contudo, responder a pergunta, e saía para correr.

Corria muito, em direções que ele calculava não serem capazes de cruzar com o caminho do veterinário. Corria e pensava. O que tinha feito de errado? Eles tinham um relacionamento legal, não tinham? Conversavam muito, passeavam, riam. E o beijo? Céus, o beijo havia sido perfeito! Pelo menos para ele.

Entenderia se Derek não quisesse beijá-lo novamente. Entenderia se ele dissesse que tinha confundido as coisas e que deveriam ser apenas amigos. Entenderia se ele ficasse mais distante dele por um tempo.

Ele só não entendia o sumiço. Ele não admitia o sumiço e o que parecia se tratar de um grande descaso com Mel. Não podia esquecer a amizade entre o veterinário e sua filha e tudo o que sentia era uma decepção tão grande que seu peito parecia queimar.

Quando sua relação com Isaac foi pro espaço, ele não se importou tanto assim. Pelo menos Melanie não tinha sido atingida.

Naquela sexta-feira, em especial, uma semana após o beijo, após a noite que ele considerava a mais perfeita dos últimos cinco anos, após tudo ruir com uma arrancada do camaro, ele notou o olhar de seu pai. Aquele olhar carregado de significado, com as palavras que ele ouviu várias vezes quando saía com Isaac:

- Você vai descobrir, meu filho, que pode lidar muito bem com o seu coração partido. Mas quando o dela se partir também, aí não tem nada no mundo que vai impedi-lo de sofrer.

Era isso que ele sentia agora. Esse sofrimento não por si, mas por Mel, pelas expectativas que ela criou, pelo carinho sincero que ela nutriu pelo veterinário e que agora de nada pareciam servir.

Conversou com Scott várias vezes, mas se recusava a perguntar de Derek e o amigo também não citava o nome do sócio. Era óbvio que Scott sabia o que havia acontecido. Só isso para justificar o fato de Stiles desligar o telefone na sua cara quando ouviu a voz de Derek ao fundo, falando sobre qualquer assunto da clínica.

Voltou para casa ainda em silêncio, os pensamentos tumultuando sua cabeça e a vontade de chorar que sentia agora formava um bolo na garganta que ele custava a segurar. Correu para o banheiro, abriu o chuveiro quente e entrou, sem nem se dar ao trabalho de tirar a roupa.

Sentou embaixo do chuveiro quente e depois de alguns minutos já não sabia se o que escorria em seu rosto era apenas água ou lágrimas também.

Na clínica, Derek estava em pé, parado, observando a ninhada de labradores que havia sido deixada ali para ser vacinada e vendida. Observava sem dar atenção. Fazia o que precisava ser feito de modo automático, depois de tantos anos de dedicação profissional ao extremo, ele não precisava pensar muito para agir.

E era justamente o que ele queria: não pensar. Porque se deixasse o cérebro livre para pensar, acabaria pensando em Stiles e em tudo o que tinham vivido até ali. Não era muito se comparado a tudo o que passou ao lado de Jackson. Anos de relacionamento X meses de amizade. E no fim das contas, esses poucos meses pareciam bem mais intensos e cheios de significado do que o resto.

Ele só não sabia lidar com o tamanho do sentimento que tinha dentro de si. Porque tinha certeza do que queria, do que precisava. Essa semana longe de Stiles, de Mel, de Cake, das conversas sérias com o xerife, foi tão vazia que ele sentia como se ela nem sequer houvesse existido. Um buraco no tempo.

E ele também não sabia o que fazer. Como fazer as coisas acontecerem. Com Stiles ele não podia apenas viver um dia após o outro e ver no que ia dar.

Balançou a cabeça e se abaixou perto do cercado onde os cachorros estavam pegando um deles no colo.

- É igualzinho ao Cake esse aí. – Scott comentou, tirando Derek do torpor.

Mencionar Cake deu um choque de realidade nele, que automaticamente devolveu o animal para o cercado.

- Eu comprei uma câmera, sabia? Não quero nunca mais perder as expressões da Mel. A carinha dela quando viu o Cake a primeira vez... Nunca a vi tão emocionada assim. Acho que só quando for conhecer a Bela e a Fera no meio do ano. Stiles prometeu que a levaria para a Disney.

Derek ia saindo da sala, quando Scott o segurou:

- Pode parar de fugir, por favor? Não vai adiantar, Derek.

- Do que você está falando, Scott?

- De você, fazendo de conta que nenhum deles existe. Quando está estampado na sua testa a falta que eles fazem para você.

- Você me pediu que não machucasse o coração do Stiles, lembra? – a voz saiu mais agressiva do que precisava, mas Scott não se importou, sabia que a raiva não era para ele – É o que estou tentando fazer.

- E pelo visto está funcionando muito bem. Stiles agora não sai de casa para nada além de correr no parque e você também me parece muito feliz, com essa expressão de vaso de planta.

- O que você quer que eu faça, Scott? Que eu corra até lá e diga que eu sou um idiota, que gosto dele e que quero fazer as coisas do jeito certo? Porque é isso que ele merece, sabe? Não um cara idiota que não dá o valor que ele inteiro merece, como aquele babaca do bar fez.

- Ele inteiro?

- Sim, inteiro. Porque não dá pra separar o Stiles do pai e da Mel. E agora do Cake.

- É isso que você quer fazer? – Scott devolveu a pergunta, com um sorriso contido, quase sábio.

Derek abriu a boca para responder, mas foi interrompido com o som do telefone. Scott ergueu o dedo, pedindo um minuto, e quando atendeu, sua expressão passou de atento, para preocupado e em seguida para desorientado.

- Estou indo para aí!

Scott pegou as chaves do carro e já saía da clínica, quando Derek perguntou:

- O que aconteceu?

- A Mel. – ele respirou fundo – Caiu da escada. Vou para o hospital ficar com o Stiles.

A cor sumiu do rosto de Derek e só cinco minutos depois que Scott havia saído com o carro é que ele pareceu compreender a situação.

Melissa McCall forçava Stiles a beber um calmante no corredor do hospital de Beacon Hills no momento em que Scott chegou ao local.

- Se não beber isso agora, mocinho, vou proibir você de entrar para vê-la! – ela dizia autoritária, mas ainda o chamando com aquele tom de voz de quando ele e Scott ainda estavam no jardim de infância.

- Mãe! – Scott chamou – O que houve?

Ele se aproximou o bastante para abraçar o amigo e encarou a mãe esperando pela resposta.

- Melanie caiu da escada, teve uma concussão e abriu o pulso. Nada grave, Scott. Nossa menininha vai ficar ótima, mas precisa ficar em observação porque ficou cinco minutos inconsciente. Agora, por favor, vigie esse pai neurótico. Acho que o Stiles vai dar mais trabalho que a Mel. Ela está no quarto com o xerife.

Scott assentiu e conduziu Stiles para o quarto, já mais calmo e meio sonolento.

- Sou um pémisso pai, Scott. – ele falava, a língua enrolada.

- Você é o quê?

- Um pémisso, sabe? Ruim demais.

- Péssimo, Stiles! – Scott sorria, lembrando de como o amigo sempre enrolava a língua quando estava bêbado.

- Isso aí! Até você sabe disso!

- Não acho que você seja um péssimo pai, Stiles.

- Eu sou! Eu devia estar com ela, pra ela não cair. Mas em vez disso eu estava chorando embaixo do chuveiro porque levei um pé na bunda. Isso não é coisa que se faça.

- Stiles! Pode parar com essa idiotice. Você não levou um pé na bunda, você não é um péssimo pai. Você vai entrar nesse quarto agora e dormir. E depois que acordar mais calmo e mais lúcido, a gente vai conversar.

- Você está verde, Scott. Você não devia ficar verde. Verde não combina com você!

- Ótimo! – Scott murmurou enquanto arrastava Stiles para a cadeira no quarto em que Melanie estava e ia dar um beijo na sobrinha, explicando que o pai dela estava sedado.

Duas horas depois, Stiles abriu os olhos, ouvindo ainda ao longe o som da risada da filha. O melhor som do mundo na opinião dele. Quando conseguiu focar a visão, observou Mel conversando animada com a médica que a atendia e brincava, descontraída, com o estetoscópio. Vendo que ele tinha acordado, a menina gritou, feliz:

- Pai! Olhe, eu sou a Doutora Brinquedos! – e com a voz desafinada, ela cantarolou a música de abertura do desenho.

Stiles esfregou o rosto com as mãos, levantou da poltrona e foi até a médica, que tratou de acalmá-lo.

- Sr. Stilinski, Mel está ótima. O pulso foi enfaixado e deve ficar assim por umas duas semanas. Mas fora isso ela está perfeita. Fizemos radiografias e outros exames e nenhuma alteração foi encontrada. Sua filha é uma menina linda e saudável.

Ele respirou, aliviado, e sorriu para a menina que tentava examinar o avô, auscultando o coração dele na bochecha.

- O senhor poderá leva-la para casa amanhã cedo. – a médica completou, com um sorriso sincero.

- Ótimo! Só não me chame de senhor. Senhor Stilinski é o meu pai e eu já me sinto velho o bastante sendo pai solteiro, pra ser chamado de senhor. – ele se permitiu brincar com a médica que agora parecia sorrir mais ainda.

Ela ia responder, mas Mel gritou mais alto ainda, interrompendo a conversa:

- DEREK! Você veio me ver!

Ela teria saltado da cama se o avô não a tivesse detido. Stiles virou na direção da porta e sentiu a garganta fechar. Derek estava ali, parado, flores cor de rosa na mão direita. Um sorriso terno para a menina, mas quando seus olhos pousaram na médica simpática e sorridente, ele podia ser facilmente comparado a um lobo raivoso.

- Oi, docinho! – ele foi até a cama, dando um beijo carinhoso na testa da menina – É claro que eu vim te ver. Mas se eu estiver atrapalhando – e ele olhou de Stiles para a médica – posso voltar mais tarde.

- Você nunca atrapalha, Derek! – Mel quem respondeu com aquele tom de quase adulta que ela usava ás vezes – Meu pai sempre diz que você nunca atrapalha.

O veterinário olhou para Stiles que ainda estava tenso ao vê-lo ali. Não sabia o que pensar daquela visita, mas assentiu com um gesto discreto de cabeça.

- Bom, Stiles, vou buscar o receituário da Mel. Ela vai precisar de alguns analgésicos para aguentar a dor no pulso nos primeiros dias. Com licença! – a médica saiu do quarto e se Mel não tivesse a mania de falar mais do que a Oprah, o silêncio ia imperar no ambiente.

Scott se aproximou de Derek, que estava sentado na cama junto com Mel e apertou o ombro do sócio, sussurrando em seu ouvido "não se esqueça do que você quer". Deu um beijo em Mel, um abraço em Stiles e foi embora.

O Xerife também saiu dali para buscar um pijama para a neta que passaria a noite no hospital e para alimentar Cake, que havia ficado sozinho na casa dos Stilinski.

- Derek, você ainda não me deu minhas flores! – Melanie chamou, apontando para o pequeno buquê que o veterinário segurava.

Ele riu, pela primeira vez naquela semana, aquele riso fácil que só tinha quando estava com os Stilinski.

- Verdade! Falta de cavalheirismo a minha. – ele disse, mas sem entregar as flores para a menina – É que essas flores eu não trouxe para visitar você. Eu trouxe para lhe pedir desculpas, Mel. Por ter sumido esses dias todos.

- Ah eu desculpo, Derek! Senti saudade de você. E o Cake também. E o meu pai então, ficou insuportável.

- Isso não vai acontecer mais, Mel. Eu prometo.

Stiles acompanhava a conversa, de cabeça baixa. Tentava, em vão, controlar as batidas de seu coração e dizia para si mesmo, em voz baixa, como um mantra, que nada daquilo significava alguma coisa para eles. Era apenas Derek sendo a pessoa admirável, incapaz de magoar os sentimentos de uma criança, que ele sempre pensou que fosse.

- E eu queria fazer alguma coisa para compensar. Tipo, aquele passeio que eu falei para você antes...

- Dois dias só para a gente?

- Acho que dois dias não vão dar. – ele falou, olhando inseguro para Stiles que agora encarava o veterinário com uma expressão desconfiada – A Disney é grande demais para se conhecer em dois dias.

Os olhos da menina pareciam saltar das órbitas e ela levou as duas mãozinhas à boca, chocada, espantada, surpresa. O sorriso que se formou a seguir, amoleceu o coração de Stiles que sorriu junto com ela.

- Você está falando sério? Eu e você na Disney? E meu pai? Ele vai com a gente né? Ele PRECISA conhecer o Pateta.

- Bom, isso vai depender se você vai aceitar meu outro pedido.

- Outro? O que você quer me pedir agora, Derek? – a voz dela ainda revelava a excitação com a ideia de viajar para a Disney.

Derek Hale então levantou da cama, alongou o pescoço, respirou fundo e se ajoelhou, ao lado da garota, entregando, finalmente, o buquê de flores para ela enquanto perguntava:

- Melanie Stilinski, a senhorita me aceita como namorado do seu pai?

- Rá! – ela gritou, ajoelhando na cama e olhando para o pai com a cara mais feliz do mundo – Eu te disse que ele te amava, pai! Eu não disse? Eu disse, Derek, que você amava o meu pai, mas ele não queria acreditar em mim. Viu, pai? Eu tinha razão! Ele te ama! E eu amo também! Amo vocês dois. E vou amar você namorando o meu pai! Pai, você quer namorar o Derek, né?

Agora eram dois pares de olhos ansiosos, voltados na direção de Stiles que não sabia o que responder. Os segundos seguintes passados em silêncio foram uma agonia para Derek. Stiles respirou fundo, encarou os dois e respondeu:

- Não posso responder isso agora.

Ele saiu do quarto e parou no corredor, as mãos tremendo e uma vontade de correr dali para qualquer lugar. Sentia seu coração descompassado e sabia que tudo o que queria ouvir tinha sido dito naquele quarto, mas ele não conseguia simplesmente sorrir e dizer que sim, queria namorar Derek Hale.

- Você não gosta de mim? – a voz do veterinário ao lado dele o fez erguer os olhos.

- Não foi isso o que eu disse.

Derek deu mais um passo a frente, ficando a menos de 10 centímetros de encostar seu corpo ao de Stiles.

- Tem razão, você não disse nada. Eu só não sei o que isso significa.

- Você deveria saber melhor que eu, afinal ficou uma semana inteira sem dizer nada também.

Pronto, a acusação saiu com toda a mágoa e tristeza que o rapaz carregava dentro de si todos aqueles dias. E só então Derek teve a noção exata do quanto havia sido um idiota.

- Eu não queria, sabe? Me afastar... Ficar longe, esses dias foi... meu mecanismo de defesa.

- E você estava se defendendo do quê exatamente? De mim? Porque olha, eu realmente tenho o físico de quem pode apanhar de um mosquito, então coloco medo em qualquer um. Ou então da Mel, aquela fofura toda dela pode dar alergia.

Derek não conseguiu evitar um sorriso. A vontade que sentia era de puxar Stiles para um abraço e não soltar mais. Mas apenas puxou o rosto dele para que o encarasse e respondeu:

- Estava me defendendo disso, dessa falta que eu sinto de você o tempo todo, mesmo quando você está do meu lado. Da vontade de ver a Mel todos os dias, de ver a carinha dela amassada quando ela acorda de manhã, com preguiça de ir para a escola. Da sensação de ser bem recebido quando chego na sua casa e seu pai me convida para o jantar e para assistir ao jogo de baseball. Estava me defendendo de querer ficar com você, com vocês todos, do jeito que eu sei que você merece. Eu só não entendi antes que eu estava me defendendo de querer ficar com você do jeito que eu também mereço e preciso. Entendeu?

- Você precisa de mim? Da Mel? E do meu pai também? – a voz dele era baixa.

- Sim, Stiles. Eu preciso. Disso tudo. Todos os dias.

- Não vai dar, Derek.

- Anh? Como assim? – a voz saiu estrangulada, como se ele tivesse recebido um soco no estomago.

- Você não mencionou o Cake. Acho que a Mel não vai admitir viver sem ele.

E agora era o pai da menina quem sorria para o veterinário e estendia a mão para segurar a dele, selando assim, de um jeito discreto o início do relacionamento dos dois.

Um mês depois, o xerife Stilinski olhava satisfeito uma foto enviada pelo correio. Melanie sobre os ombros de Derek, que estava de mão dada com Stiles, diante do Castelo da Cinderela, na Disney. Pegou uma caneta e anotou atrás "primeira viagem da família Sterek" e colocou num porta retrato sobre sua mesa na delegacia.