Capitulo 1 - 15 de Novembro

"Tem certeza que vai ficar bem?" Finch perguntou cauteloso "Posso te levar em algum lugar".

Estavam no alto de um prédio, algum tempo depois da explosão do Parlamento. Fazia frio e ventava. O cheiro da fumaça dos fogos enchia o ar. Lá embaixo, nas ruas, o caos era total. Pessoas comemorando e gritando, o exercito sem reação. As sirenes dos carros de bombeiro tornando tudo ainda mais barulhento e tumultuado.

"Tudo bem Inspetor, não se preocupe, eu posso me cuidar. Depois entro em contato com você" Evey respondeu, olhando longe, perdida em pensamentos.

"Como quiser, e não precisa me chamar de inspetor, esse não é mais meu cargo. Pode me chamar de Eric" Finch falou, sem saber qual seria seu futuro cargo agora.

"Tudo bem Eric" Evey falou, olhando diretamente para ele agora. O olhar altivo, porém triste da mulher deixou Finch desconcertado.

"Foi um show e tanto não é mesmo?" Finch disse, se lembrando da explosão e do espetáculo de fogos.

"Foi sim, e graças a ele agora podemos ser livres" Evey respondeu, com um sorriso amargo, sem sentir nada em particular.

XXX

Evey olhou para o relógio. Já eram quase 4 da manhã do dia 15 de Novembro. Ela estava na sala da Shadow Gallery com os joelhos abraçados há tanto tempo que não conseguia se lembrar. Piscou algumas vezes. Sentia-se cansada e arrasada pelos eventos da noite. Não somente pela explosão do Parlamento, mas principalmente pela morte de V. Ele morreu nos braços dela quando tudo o que ela queria era que ele continuasse vivo. Ela entendia o propósito dele, entendia sua vingança e sua vontade, mas ainda sim era difícil aceitar esse destino tão trágico. Coloca-lo no trem e dizer adeus foi a coisa mais difícil que Evey já havia feito em toda sua vida.

Ela tentou fazer com que ele mudasse de ideia mesmo sabendo que seria quase impossível demovê-lo de sua vingança. Ainda sim ela tentou, quase implorou para que ele ficasse com ela. Não estava pronta para vê-lo morrer seja pelo o que quer que fosse. Deu-lhe um beijo numa ultima tentativa desesperada para fazê-lo entender e olhou desesperançosa quando ele entrou no túnel rumo a sua morte.

Depois da explosão e da queima de fogos, Evey desceu para a Galeria em busca de algum consolo, algo que aplacasse a tristeza em seu coração. Lidaria com as pessoas e com a revolução depois. Só queria ficar sozinha.

Indo de cômodo em cômodo da grande Galeria, passou a mão pelos inúmeros livros nas prateleiras, tantos títulos que levariam uma vida para serem lidos. Olhou os quadros nas paredes, a Jukebox com sua incrível coleção musical. Era tudo dela agora, cada objeto dentro daquela casa pertencia a ela, mas não se sentia dona daquilo.

Foi até a sala, sentou-se no sofá e abraçou os joelhos, esperou por horas que por um milagre V aparecesse pela porta com seu ar altivo e elegante, não aconteceu. Nunca mais aconteceria. Abaixou a cabeça entre os joelhos e deixou as lágrimas caírem de forma silenciosa.

Algum tempo depois levantou, andou sem pressa até a porta do quarto de V e encostou a testa na porta. Respirou fundo e moveu a mão na intenção de abrir a porta. Deteve a mão a alguns centímetros da maçaneta, nunca havia entrado ali antes e sentiu-se como uma invasora.

"Que bobagem" Pensou. Era tudo dela agora, inclusive aquele quarto. Girou a maçaneta devagar, empurrou a pesada porta de madeira e entrou.

O quarto estava mergulhado em trevas, Evey tateou pela parede até achar um interruptor, acendeu a luz e olhou ao redor, como se procurasse por alguém. Não havia ninguém ali para ser achado. Reparou que o ambiente era simples e muito bem organizado, com móveis de madeira escura e cheio de livros até o teto como era de se esperar. "Estilo V" Ela pensou com tristeza.

Na penteadeira pousava uma das máscaras de V juntamente com algumas de suas facas mortais. Evey andou até o encontro da máscara sorridente e a pegou entre suas mãos trêmulas. O material era pesado e gelado, feito de ferro. Virou a máscara e olhou sua parte interna, passando os dedos nas ondulações e pensando no rosto real de V encostado ali. Virou a máscara novamente de frente para si e não pode evitar um sorriso amargurado olhando para aquele rosto que já era tão familiar para ela. Conhecia tão pouco sobre V, mas ainda sim era o suficiente para cativa-la de forma poderosa.

Andando pelo quarto Evey ainda conseguia sentir a presença dele, tão forte e penetrante como se alguma parte dele ainda estivesse ali. Seu espírito talvez.

Andou mais um pouco e chegou à porta do guarda roupa. Abriu com cuidado e admirou a coleção de roupas pretas e em tons de cinza. Tudo parecia seguir um rígido controle de organização e isso fez com que Evey sorrisse. V era realmente metódico com tudo, não seria diferente com suas roupas.

Fechou os olhos e passou as pontas dos dedos pelos tecidos macios, pegou uma das pesadas capas pretas e a enrolou no corpo sentindo a sensação em sua pele. Evey sempre imaginou as capas de V ásperas, daquele tipo de tecido que irrita a pele, mas não, a capa era tão macia quanto às outras roupas.

Ainda enrolada na capa que era grande demais para sua baixa estatura, deitou-se na cama e sentiu o cheiro do travesseiro, que não era de perfume, mas era agradável, era o cheiro dele. Evey abraçou forte o travesseiro como se isso a deixa-se mais perto dele e ficando em posição fetal, pela primeira vez colocou para fora toda sua dor, chorando quase sem conseguir respirar.

XXX

Evey acordou assustada e sentou-se na cama. Estava zonza.

"V?" Chamou, mas não houve resposta. Lembrou-se então que estava na vida real e ele estava morto.

Levantou-se e olhou-se no espelho, estava horrível. Tinha os olhos inchados de chorar e a cabeça latejava. Foi até o banheiro e acendeu a luz, sentiu a vista doer com a claridade. Jogou água no rosto, o secou e olhou-se no espelho acima da pia, pouco havia mudado. Suspirou resignada e foi até a sala.

Eram 08h30 da manhã. Londres deveria estar acordando para uma nova era agora e ela tinha que reunir forças para estar lá, não podia se esconder no subterrâneo para sempre. Os cidadãos tinham perguntas e precisavam de respostas. Precisavam de esperança. Mas da onde tirar essa força? Senti-se tão impotente e vulnerável agora.

Ligou a TV e zapeou pelos canais. Todos os noticiários da manhã mostravam a explosão do Parlamento, um dos edifícios mais célebres e conhecidos de Londres. A explosão foi tão poderosa que fez a torre do relógio ir completamente ao chão, não sobrando absolutamente nada. Nas ruas as pessoas comemorando até altas horas da madrugada, com máscaras de Guy Fawkes. O clima de alegria e êxtase era total.

A repórter afirmava que Londres nunca vira nada parecido em sua história, e deixava em aberto a dúvida, quais seriam as consequências da promessa cumprida do terrorista V? O governo ainda não havia dado uma declaração oficial e as notícias eram desencontradas. O Chanceler não estava em nenhum lugar onde pudesse ser achado. Outra questão era, onde estava Evey Hammond, que nesse momento todos já sabiam que estivera ao lado de V. Alguns comentaristas a chamavam de cúmplice, outros mais maldosos até mesmo insinuavam um relacionamento amoroso entre os dois.

"Quem dera" Pensou.

Evey desligou a TV e lutando contra a tristeza foi até seu quarto. Pegou na mochila o diário que escrevia enquanto esteve na galeria com V. Não era muito de escrever seus pensamentos mas aquela era uma forma de distração nos dias em que passava lá embaixo. No começo ela e V não se falavam muito porque ela tinha medo dele e quando encontrou um caderno lhe pareceu uma boa ideia registrar sua nova e peculiar rotina ao lado de seu sequestrador. Ela escondia o diário no meio dos inúmeros livros do quarto então V nunca o encontrou. Quando saiu da Galeria levou-o consigo e continuou narrando sua vida sem ele por perto.

Quando ela pegou o diário, folheou algumas paginas e se preparou para escrever a última passagem daquilo que havia sido sua vida ao lado de V. Ele havia morrido agora, então era o fim da história, pelo menos o fim daquela história. Evey sentou-se na cama e encostou as costas na cabeceira, pegou uma caneta no criado mudo, pensou um pouco e começou a narrativa:

15 de novembro

Estou só na galeria. O mundo lá fora deve estar um caos, o sonho de liberdade enfim realizado. Mas por qual razão eu não me sinto feliz? Por que não estou lá fora comemorando e sorrindo como todos devem estar?

Bem, eu não tenho motivos para tal. Eu não sinto a felicidade que supostamente deveria sentir. Tudo pelo simples fato de que ele não está mais aqui comigo. Tudo o que eu sinto no momento é que eu trocaria essa maldita revolução por um dia a mais na presença dele. Sinto que se tivéssemos mais um dia tudo poderia ter sido diferente. Sinto que poderia convencê-lo a não entrar no túnel, sinto que veríamos a explosão juntos, de mãos dadas, e começaríamos uma nova vida, onde seriamos ambos livres. Sinto meu coração partido em dois, pois sei que isso nunca mais será possível. Sinto uma vontade incontrolável de chorar, de fugir, de morrer...

Ele se enganou quando disse que não havia um lugar nessa nova vida para ele. Seu lugar era ao meu lado. Vendo esse mundo novo surgir e vivendo as novas possibilidades que vamos ter. Ao meu lado.

Mas é tudo lembrança agora. Dos momentos e das conversas, até mesmo das discussões.

Não houve tempo suficiente para dizer o quanto eu o amava. O quanto eu queria que ele ficasse. V achava que era somente a personificação de uma ideia, mas eu não o via dessa forma, eu via muito além da máscara. Eu via o homem por trás dela. O homem que não merecia virar somente uma lembrança. O homem que eu amei.

Sim, o homem que eu amei. Que eu amo. Quem visse de fora com certeza acharia impossível afeiçoar-se por alguém como V. Todos o viam como um terrorista, um assassino perigoso. Eu também o vi assim até conhecer sua incrível personalidade, sua inteligência, seu senso de respeito e justiça. V me ensinou a viver sem medo e me ensinou a lutar até o fim por algo em que acreditamos.

E mais do que isso, eu aprendi a ama-lo mesmo com a barreira da máscara. Com todas as suas qualidades e principalmente seus defeitos. Ele não era nem certo nem errado para mim, ele só era a pessoa que dava sentido a tudo.

E não é disso que se trata o amor?

Evey pousou a caneta e limpou as lágrimas quentes do rosto. Algumas haviam caído no papel, mas isso não importava agora, nem toda história tinha o final feliz, na verdade, a maioria não tinha. Na sua vida pelo menos não. Havia passado por muitas provações e perdido toda sua família muito cedo e agora havia perdido também o homem que amava. Não tinha mais ninguém. O futuro que se estendia a sua frente era um breu total.

Ela fechou o diário, o colocou encima do criado mudo devagar e observou o teto por alguns minutos, as lembranças ainda tão vivas em sua mente. Pensou que não podia ter pena de si mesma, tinha que virar aquela página de sua vida e começar uma nova história, uma história onde o sonho de V se tornaria realidade. Respirou fundo e apesar do cansaço levantou-se, caminhou decidida até a porta do quarto, apagou a luz e saiu. Preferiu não levar o diário consigo, como se o objeto fizesse parte daquele lugar agora. Passou pela sala, deu uma última olhada triste em tudo e disposta a deixar o passado para trás, pegou a capa, a mochila, apagou a luz da Galeria e foi embora sem a pretensão de voltar.