Capítulo 2 - Seis meses depois.

Gordon assistia ao noticiário na TV de sua sala quando viu um rosto conhecido. Olhou preocupado para uma foto não muito recente de uma antiga funcionária sua. Os cabelos castanhos ainda estavam longos, bem diferentes do curto atual, o rosto parecia bem mais jovem. Ele se mexeu na poltrona desconfortavelmente, tentando controlar a inquietação de ver a imagem da amiga que ele conhecia tão bem.

Evey, líder da revolução.

O repórter falava em tom sério e alarmado que ela era uma criminosa perigosa e procurada, acusada que crimes contra a nação. Entre os feitos da mulher constavam ser líder de um grupo rebelde, atacar prédios públicos, espalhar propaganda subversiva e disseminar o caos entre os cidadãos de Londres. E que isso não seria tolerado no novo governo. O repórter ainda pedia para que qualquer um que tivesse alguma informação que levasse a ela deveria entrar em contato com a polícia. Até mesmo uma recompensa era oferecida.

"Seria ótimo entrevistar alguém assim tão perigoso" Gordon falou para si mesmo sarcasticamente. Sentia saudades de sua antiga ocupação.

Gordon sabia bem em tudo o que Evey estava metida, e os motivos que a obrigavam fazer o que fazia. Ela estava levando em frente a revolução de V e lutando com as armas que tinha pela liberdade da nação. Ela não era uma inimiga e todos sabiam disso. Ela tinha um amplo apoio da população, mas ninguém tinha permissão de falar isso de forma aberta, sob a pena de ser considerado traidor. E todos sabiam o que acontecia com traidores.

Evey carregava em si a coragem que faltava ao resto das pessoas comuns. Gordon não as culpava. Afinal, viver em um regime totalitário por tanto tempo mudava a forma de como a realidade era encarada. Todos queriam fazer alguma coisa, mas o medo estava sempre presente, seja de perder a própria vida ou ver pessoas queridas perdendo a vida. Gordon conhecia bem esse medo. Ele o sentia constantemente.

Continuou olhando para a TV quando em seguida outra fotografia foi mostrada. Dessa vez de uma ficha policial onde um rapaz loiro encarava com olhar desafiador e feroz. O repórter falava o mesmo sobre ele, era um criminoso perigoso, de atitudes por vezes violentas. Segundo nome no comando dos rebeldes era responsável por roubos, explosões e todo tipo de desordem pública. Gordon também o conhecia. Não possuía nenhuma opinião particular sobre o rapaz, mas lembra-se de não ter gostado dele na primeira vez que se conheceram alguns meses antes. Mark era um dos amigos mais próximos de Evey e estava sempre com ela na luta pela revolução.

Do pouco que pode conhecer de Mark, Gordon podia dizer que ele era um rapaz quieto e de olhar desconfiado, falava pouco, respondendo perguntas com simples monossílabos. Na noite em que se conheceram Gordon reparou na sua atitude protetora acerca de Evey, algo quase devocional. O rapaz também andava armado, algo que não era tão estranho, dada a situação, mas que deixava Gordon apreensivo.

Mas o que deixou Gordon mais preocupado era o fato de que Evey demonstrava uma clara mudança de atitude nas semanas que se seguiram. Principalmente quando Mark estava por perto. Era como se ela se transformasse em outra pessoa, sua feição ficava mais impassível e dura, suas palavras mais afiadas e seu discurso mais cáustico. Desconfiava que o rapaz tivesse esse efeito sobre ela, já que ele mesmo possuía características parecidas.

Pensou que talvez Mark não fosse uma boa influencia para a amiga, mas também pensou que talvez fosse somente uma impressão. Era impossível dizer em meio ao stress. Pessoas mudavam por causa do stress não é? Evey precisava de apoio na luta, e ela o tinha. No momento era o suficiente.

Assim como todos, Gordon também pensou que com a explosão do Parlamento tudo seria diferente e que Londres entraria em uma era de liberdade e felicidade, deixando todo o horror de Norsefire para trás. Puro engano. Depois de algumas semanas e muitas articulações políticas o novo líder foi colocado no comando de um governo dito como provisório. Mas esse novo governo sequer deu chance a Evey ou ao que a nação desejava. Mantendo a linha ditatorial, em pouco tempo começou a perseguição de todos os que apoiavam a revolução, os chamados traidores da pátria. Sendo Evey o rosto dessa revolução, sua cabeça valia ouro no momento.

E a perseguição era no mínimo, violenta. Muitos eram os relatos de pessoas tendo suas casas invadidas, seus pertences revirados e suas vidas investigadas. Qualquer traço de subversão ou apoio a revolução era motivo suficiente para prisões serem efetuadas. Propaganda era espalhada incentivando os cidadãos a denunciarem vizinhos e até mesmo parentes com atitudes suspeitas. Na TV, o Chanceler discursava quase que diariamente, deixando claro que tudo aquilo era preciso para defender os cidadãos de bem da ameaça rebelde.

Nessas horas Gordon tinha vontade de vomitar.

V podia ter matado muitos homens poderosos, mas não contava que outros abutres, ainda mais sedentos de poder surgiriam tão rapidamente. O novo líder era um deles. Usando de meios bastante duvidosos, ele subiu rapidamente ao poder não dando chance para que o povo decidisse o que fazer. Rejeitou radicalmente eleições abertas e decretou que qualquer pessoa envolvida na revolução seria presa e condenada por alta traição. E todos sabiam que estas condenações nada mais eram do que a morte.

"Ah V". Gordon respirou sem ânimo.

Devia muito ao misterioso mascarado. Por causa dele é que ainda estava vivo e podia levar uma vida relativamente normal ao lado de John, mesmo que ainda num relacionamento escondido como antes. Gordon nunca imaginou as terríveis consequências que seu programa de TV seria capaz de trazer para sua vida. Ofender Sutler certamente não foi a melhor das escolhas.

Quando os homens de Creedy invadiram sua casa naquela fatídica noite, foi V quem rapidamente atacou os policiais e o ajudou a fugir pelo jardim dos fundos, antes questionando onde estava Evey.

"Eu preciso encontra-la antes deles" O homem disse, a voz tensa e vibrando de preocupação.

Lembrou-se do que Evey havia falado sobre ele, o descrevendo como uma figura séria e enigmática, por vezes ameaçadora. Revelou que fora V que assassinara Lewis Prothero, ou a voz de Londres. Mas por alguma razão Gordon sabia que ela estaria melhor com ele do que com Creedy.

"Obrigado por ter cuidado dela Gordon" Foi tudo o que ele falou antes de sumir na escuridão.

Na mesma noite, depois de passar por outros jardins e ruas escuras, com os pés machucados chegou à casa de John quase aos prantos e lá se escondeu até que achassem o apartamento atual onde estavam, vivendo sob identidades falsas. Por sorte tinha ótimos contatos que os ajudaram nos tempos difíceis.

Depois da explosão do Parlamento, conseguiu encontrar com Evey e explicar tudo o que havia lhe acontecido e como V o havia salvado das garras da morte. Abraçaram-se e choraram juntos de alegria, passando a se verem com certa frequência. Muitas vezes jantaram juntos na casa de Gordon e John.

Até que a perseguição ficou mais forte e ela foi obrigada a se manter escondida. Gordon não sabia onde ela passava a maior parte do tempo já que ela preferia não contar e os encontros ficaram cada vez menos frequentes. Desconfiava que agora eles cessassem de vez já que o cerco aos rebeldes estava se fechando cada vez mais e Evey não gostava de arriscar a vida dos amigos.

Pensava em como era grande o fardo que a amiga tinha que carregar. Ela uma líder audaciosa e forte, mas via todos os dias pessoas serem presas e mortas sem poder fazer nada. Tinha que continuar lutando e tentando manter viva a esperança de liberdade, mesmo essa esperança sendo tão pequena.

"É uma pena isso. Nossa única chance de mudanças considerada uma ameaça à nação" John falou desanimado atrás de Gordon, colocando a mão em seu ombro. Gordon segurou a mão do companheiro de tantos anos.

"É sim. Só espero que Evey tenha forças e coragem para lutar. Só assim não precisaremos mais viver como criminosos, só assim esse país será livre" Disse, apertando ainda mais a mão de John.

"Ela vai ter, temos que ter fé" John falou, dando um beijo no alto da cabeça de Gordon.

Triste, ainda olhando para tela da TV, Gordon imaginou o que V pensaria se estivesse assistindo o jornal naquele exato momento. Vendo sua revolução ameaçada e Evey sendo perseguida, muito provavelmente correndo risco de vida.

O que Gordon não podia imaginar é que do outro lado da cidade, em um esconderijo subterrâneo escuro e sem muito conforto, um homem olhava para tela de uma pequena TV, decepcionado e irritado, com o coração acelerado vendo o rosto de uma Evey que ele havia conhecido há muito tempo atrás. A foto era do antigo crachá da estação de TV. Mas o que o repórter dizia era o que realmente deixava o homem ainda mais consumido de raiva. Evey...sua Evey, uma rebelde, criminosa, procurada...Por tentar continuar a revolução e libertar o país da nova tirania instaurada.