Capítulo 3 - V acorda da morte – Primeira parte

V abriu os olhos e teve que piscar várias vezes para tentar se situar. Estava deitado em algo duro, no chão talvez. Tentou se mexer, mas seu corpo parecia pesar uma tonelada, o peito doía. Um som esquisito ecoava no ambiente, algo rangendo. "Que estranho" V pensou. Olhou em volta e pela decoração do ambiente percebeu que estava na Galeria. Mas por qual razão ele estaria deitado no chão? Não era um hábito seu, disso tinha certeza, mas também não conseguia se lembrar de como havia ido para ali. Começou a sentir frio, e isso o fez estranhar mais ainda a situação em que se encontrava. Tentou lembrar-se de algo, fez esforço, mas sua mente estava em branco.

Pela sua visão periférica V viu alguém se aproximando com passos rápidos e antes que pudesse reagir, Evey apareceu e se debruçou sobre ele, ficando erguida pelos braços. Ela estava com um vestido preto, a boca tinha um tom avermelhado e as bochechas estavam coradas. Uma cascata de cabelos castanhos caia de sua cabeça, ela estava feliz e sorrindo, fazendo com que seus olhos cor de chocolate se estreitassem um pouco. V sentiu um vazio no estomago com a visão arrebatadora e seu coração começou a bater mais forte, fez um grande esforço para tocar o rosto de Evey. Não conseguiu erguer o braço.

"V? Está acordado?" Evey perguntou animada, o balançando pelo ombro. Uma onda de perfume atingiu V e por um momento ele esqueceu que estava deitado no chão ou o motivo de estar em tal posição. Tudo o que ele queria era que ela continuasse ali com ele.

"Seu sorriso é a coisa mais linda que eu já tive o prazer de ver mademoiselle" V respondeu sem pensar, encarando a mulher nos olhos. Estava aliviado que ela não podia ver além da máscara, senão tudo o que ela veria seria um homem apaixonado. Evey sorriu ainda mais e V quis beija-la. Como ela era bonita.

"Ora, não seja bobo, vamos você precisa se levantar" Evey falou revirando os olhos. Seu tom de voz era calmo, mas ainda sim V podia perceber a alegria que emanava dela. Ele imediatamente se sentiu feliz. Era completamente apaixonado por ela, mais do que poderia imaginar ou prever.

"Por que você está tão feliz?" A pergunta parecia estúpida para V. Ele queria que ela estivesse feliz na presença dele, mas ainda sim estava curioso.

Evey estreitou os olhos e sorriu tímida. "Você não gosta de me ver feliz?" Ela colocou a mão no rosto de V, na máscara, e deixou o braço ceder um pouco com o peso do corpo, agora estava com o nariz muito perto. V podia sentir a respiração dela e teve certeza que também podia sentir a pele dela apesar da barreira da máscara. Uma sensação quente e estranha invadiu seu peito, junto com uma pontada de dor.

V foi tirado de seu estupor quando continuou escutando o barulho de algo rangendo. De onde vinha aquele barulho? Tentou se mover novamente e não conseguiu, seu corpo não obedecia aos seus comandos. Parecia feito de concreto.

"Evey, você está escutando isso?"

Evey olhou em volta, confusa. "Isso o que?"

Então V percebeu que havia algo errado na cena. Ele não podia se mexer e Evey não estava escutando o mesmo que ele. Assim que se deu conta disso, ele também lembrou que Evey não poderia estar com cabelos tão longos. Aquilo também não era uma lembrança já que em nenhum momento eles ficaram em tal posição. Talvez estivesse sonhando.

"Evey, que dia é hoje? O que você está fazendo aqui?" Ele perguntou um pouco preocupado.

Ela continuava debruçada sobre ele, ainda mais perto agora e V pode sentir um cheiro distinto. Ferro? Ferrugem? Ficou mais preocupado e fez um grande esforço para se concentrar. Porque Evey tinha que ser tão desorientadora?

"Que tipo de pergunta é essa? Eu moro aqui, esqueceu? Você me deu a Galeria" Evey respondeu em tom divertido e sem se abalar. "Hoje é manhã do dia 15 V! Você conseguiu, sua revolução deu certo! Agora levanta, temos que ir comemorar, as ruas estão cheias" E falando isso, Evey se levantou rapidamente e sumiu de vista.

O rangido continuava, o cheiro de ferro também.

V fechou os olhos, não entendia o que estava acontecendo. Se, era manhã do dia 15 de Novembro ele sequer deveria estar ali, ele deveria estar...

"V! V!" Evey o sacudia com força agora.

V olhou para ela e dessa vez o rosto da mulher estava cheio de aflição, as lágrimas se acumulavam em seus olhos e os cabelos estavam curtos. Raspados na verdade. Mas ainda sim estava maravilhosa aos olhos de V.

"Evey..." V tentou falar, mas as palavras não saiam mais, ele ainda não conseguia se mexer e Evey não chorava desesperada. Pânico começou a invadir V, todas as boas sensações se esvaindo. Por que ela estaria daquele jeito? Há um minuto ela estava feliz.

"Eu não quero que você morra" Ela disse finalmente e de repente as lembranças atingiram V como um raio. Tudo ficando claro agora em sua mente confusa. O túnel, os tiros, ele voltando para ela e caindo no chão da estação. Ele morrendo nos braços dela.

Sim! Ele estava morto! Ou ao menos muito próximo disso. O rangido continuava. Mas que barulho era aquele?

"Eu não quero que você morra" Evey disse novamente e a visão de V ficou turva.

"Evey, Evey..." V chamou, mas sua voz parecida não reproduzir nenhum som. O rosto da mulher cada vez mais apagado de sua memória.

"Evey!" V gritou dessa vez, acordando com um sobressalto, sem conseguir respirar apropriadamente. Tentou se mexer, conseguiu, mas dessa vez uma dor torturante começou no peito e tomou conta de todo seu corpo. A luz branca ferindo seus olhos como facas. Tossiu e sentiu o gosto de ferro em sua boca, sangue. O rangido mais alto e claro agora.

Ele sabia onde se encontrava, não era na Galeria. Estava no vagão de metro, meio morto e meio vivo, sonhando com Evey. Virou a cabeça para olhar em volta, sentiu uma pontada de dor, como uma marretada. Fechou os olhos. Quando os abriu novamente viu os explosivos que tomavam todo o vagão. Imaginou que aquela altura ele já deveria estar morto. Quantos tiros haviam cravado sua carne? Muitos, pelo que ele podia se lembrar. Por que não havia morrido então?

Sim! Evey. Ela não queria que ele morresse. Ela mesma havia tido isso. "Seria por essa razão que estava vivo então?" V se perguntou intrigado. Não importava. O fato era que ele estava vivo dentro de um trem que estava seguindo seu caminho rumo ao Parlamento, e em minutos explodiria em mil pedaços levando V junto caso ele não saísse dali logo.

Foi invadido por uma sensação repentina, instinto de sobrevivência. A vontade de ver Evey novamente. Falar com ela, sentir o perfume dela.

Erguer o corpo parecia tarefa impossível no momento devido à dor então V rolou para o lado, sem se dar conta da altura em que estava. Sentiu o corpo cair quase que em câmera lenta e bater com um baque surdo no chão. A dor atravessou cada poro de sua pele e ele gemeu. Lutou contra o forte enjoo que o invadiu. "Quem dera as palavras de Evey tivessem o poder de anestesiar também," V pensou.

Tentando ficar em pé V se colocou em posição de quatro apoios. Fitando o chão agora ele percebeu chocado, que uma poça vermelha escarlate se formava embaixo de si. Uma poça de sangue, seu sangue. Iria morrer de hemorragia se não fizesse algo rápido.

Ainda no chão agarrou-se em uma barra do vagão, respirou fundo e se lançou para cima num pulo só. Se era para sentir dor, que ela viesse de uma vez. Ela não só veio de forma violenta, como permaneceu. Novamente sua visão ficou turva.

"Concentre-se" Ele disse para si mesmo, balançando a cabeça.

Olhou em volta de forma metódica e pensou em uma forma de sair do vagão. Parar o trem era simplesmente impensável, ele não fora projetado para parar no meio do caminho e V também não abriria mão de sua vingança. Podia tentar abrir a porta, mas estava muito fraco, quase a ponto de desmaiar. Não havia saída pelo teto, e mesmo que houvesse ele não conseguiria se erguer devido à dor. Só lhe restava uma alternativa. Que poderia salvá-lo ao mata-lo de uma vez.

Ora, que ironia era sua vida. Durante anos planejou e trabalhou em prol de sua vingança e não se importava em morrer por isso, na verdade, esse era o plano. Mas ela tinha que dizer que queria que ele continuasse vivo não é? Agora ele estava ali, a adrenalina invadindo seu corpo, pronto para dar uma cotovelada no vidro da porta do vagão e escapar de seu destino. "Ah, as coisas que eu faço por você Evey".

Precisou de duas tentativas para o vidro estilhaçar por completo e abrir passagem para que V saltasse do trem. "Isso vai doer" Pensou, antes de se lançar para fora.

Por sorte o trem não estava tão rápido. Como imaginado, a queda foi extremamente dolorosa e quando atingiu o chão V desconfiou que tivesse quebrado algum osso. Também bateu com a cabeça nos trilhos e isso o deixou tonto, o latejar veio logo depois e se tornou insuportável. Rolou para o lado e esperou o trem se afastar completamente. Tinha dificuldade para respirar. Só queria dormir, estava cansado e com frio. Tossiu várias vezes, engasgou com o sangue.

"Eu só preciso descansar um pouco" Disse para si mesmo e por um momento fechou os olhos.

"Agora falta pouco V" Evey falou para ele na escuridão do túnel, a voz calma o tirando de seu descanso.

"Sim, é verdade, mas acho que você precisa sair daqui" V falou de olhos ainda fechados. Era perigoso para ela ficar ali.

"Você também, precisa se levantar e andar. Quer ajuda?" A voz na escuridão perguntou. V sorriu.

"A não ser que delírios ajudem em alguma coisa não. Acho que posso me virar sozinho" V falou, sabendo que aquela conversa não poderia ser real. Estava delirando por causa da dor ou pelo fato de estar mais perto da morte agora. Pelo menos com a ilusão de Evey ali ele não se sentiu sozinho e também não sentia tanto frio. Só de pensar nela seu corpo inteiro se aquecia.

"Você é tão teimoso. Bom, vou estar aqui caso precise" Alguns segundos se passaram. "Escute! Consegue ouvir?"

V estava à beira da inconsciência, mas fez um esforço para escutar. Música ecoava pelo ambiente e ele conhecia bem a melodia. Tudo o que ele havia planejado por tantos anos culminando naquele ultimo ato. Quase não sentia mais a dor agora, devido à emoção que o invadiu.

Logo em seguida veio a grande explosão e uma lufada de ar quente invadiu o túnel junto com um forte tremor. Pronto, estava feito! Sua vingança concluída com o Parlamento indo pelos ares. Imaginou o barulho ensurdecedor na superfície, visualizou o espetáculo dos fogos de artifício em diversos tons criando a letra de seu nome e iluminando os céus de Londres. Liberdade, enfim.

"É lindo não é mesmo?" V perguntou em seu delírio. Estava feliz e sorria. Tinha lágrimas nos olhos.

"É sim" Evey respondeu com a voz sonhadora. "Agora levanta, temos que sair daqui, juntos".