Capítulo 4 – Diário

V sabia que tinha que fazer alguma coisa, ele tinha que acha-la. Ele tentou manter-se fora dessa nova vida e deixar que o povo construísse um novo futuro, ele tentou manter-se fora da vida dela e deixar que ela construísse um futuro feliz sem ele por que ele não se importava de se esconder para sempre, desde que ela fosse feliz.

Tudo em vão, seis meses perdidos. Ele acompanhava os jornais de seu novo esconderijo, que em nada lembrava seu lar, lutando contra a vontade de voltar para casa e procura-la. Ele não queria interferir num mundo que não era mais dele.

Mas as noticias naqueles últimos seis meses apresentavam uma escalada que V não esperava. A explosão do Parlamento, as comemorações, o jogo político, a tomada dor poder pelo governo provisório, a perseguição de quem apoiava a revolução, o medo, os rebeldes e finalmente, o rosto de Evey na TV como uma inimiga da nação. Ele viu tudo isso e nesses últimos tempos não podia mais suportar ficar escondido. Sentia-se um covarde por isso.

Ela estava correndo perigo de vida e ele sabia o que aconteceria caso ela fosse pega, não seria mais o teatro de antes, seria real dessa vez e certamente ela seria morta. E a morte dela serviria de exemplo para mostrar o que acontecia com quem batia de frente com o governo.

V sentiu um aperto no peito ao pensar na possibilidade. Isso ele não iria permitir. Iria encontra-la o quanto antes, mas primeiro precisava voltar para sua casa. Assim, resolvido, V se colocou de pé, pegou sua capa e suas facas e andou rumo à porta, sabendo exatamente onde precisava ir, para sua Galeria.

Não foi difícil chegar na sua antiga casa, caminhando pelos telhados e becos escuros. E pela primeira vez nos últimos meses V se pôs a admirar sua cidade. Não saia muito do esconderijo, somente para buscar comida, que ele não precisava tanto assim. Não era mais um vigilante indo atrás de inimigos. Mas ainda sim amava de verdade aquele lugar. O ar frio no alto dos prédios, o céu que quase não mostrava as estrelas. V já havia visto Londres durante o dia mas acreditava era a noite conferia um toque especial à cidade.

Mesmo sendo uma jornada fácil até sua casa, ele teve que tomar certos cuidados, não que ele tivesse medo, mas porque não podia ser reconhecido. As ruas de Londres continuavam vigiadas e os cidadãos tinham que obedecer ao toque de recolher. As forças policias faziam patrulhas e câmeras espalhadas em vários locais monitoravam a vida de todos. Nada havia de fato mudado. Isso irritou V de forma profunda, tanto trabalho para nada. Fingiu estar morto por nada. Deixou a mulher que amava por nada.

A mulher que amava. Pensou em Evey enquanto caminhava até a entrada da antiga estação de metro e não pode evitar o sorriso sonhador. Lembrou-se de seus últimos momento juntos, dela implorando para ajuda-lo, dela dizendo que não queria que ele morresse. Da voz dela dentro de sua mente, o ajudando a escapar da morte.

Lembrou-se do beijo que trocaram. Os lábios dela tocando os lábios frios da mascara, e ainda sim não era a mascara que ela beijava, era ele. Ou pelo menos ele queria acreditar nisso. Por um momento pensou em abandonar tudo e desaparecer com ela, não seria difícil para ele, mas não podia deixar sua vingança de lado depois de tanto planejamento e se convenceu que aquilo possibilitaria uma vida nova para ela. Fora que, não podia esquecer, ele era um monstro por trás da mascara. Um ser deformado que nunca levaria uma vida normal como outros seres humanos.

Depois de passar pela a entrada da estação, V seguiu pelos intrincados túneis que conhecia tão bem. Mesmo no escuro, jamais se perderia ali, pois o mapa do local estava gravado em sua memória. Ele conhecia cada porta, cada passagem e cada esconderijo secreto daquele lugar. Ele havia morado ali por muitos anos e nunca ninguém o havia encontrado.

V rapidamente alcançou a pesada porta da Galeria. Parou por alguns instantes tentando ouvir alguma coisa do lado de dentro, até mesmo torcendo para que Evey estivesse escondida ali. Entrou devagar e com passos cuidadosos, tentando fazer o mínimo de ruído. Estava tudo escuro, mas isso não era um problema, V conhecia cada canto de sua Galeria e conseguia se mover facilmente mesmo na escuridão total.

A Galeria parecia estar vazia, então com cautela V acendeu as luzes, olhando em volta. O seu coração se encheu de alegria em ver sua antiga casa. Tudo estava como antes, todos os móveis em seus devidos lugares, os quadros nas paredes, os livros. Mas algo estava errado. Andou até o piano a passou a mão enluvada sobre a superfície. Pó. Bastante pó.

Faziam seis meses de sua "morte". Será que Evey não visitava mais o local? V sentiu-se triste de repente, aquilo era dela agora, o presente dele para ela e ela escolheu não estar ali.

V continuou explorando a casa devagar e foi até seu quarto, acendeu a luz e correu os olhos pelo ambiente, tudo parecia igual. A cama estava arrumada, sem sinal que de alguém havia estado ali recentemente. Ainda mantendo alguma esperança no peito, V se dirigiu ao antigo quarto de Evey. Abriu a porta devagar e acendeu a luz. Novamente nada, somente vazio e silêncio e V sentiu-se ainda mais triste pela certeza de que ela não frequentava mais a Galeria.

Quando ia fechando a porta do quarto para sair V reparou no caderno com capa de couro escuro encima do criado mudo. Não havia titulo na capa, seria um livro nunca lido? Foi até o móvel e o pegou. Limpou o pó da capa e folheou as paginas devagar. Diferente dos outros livros na Galeria, nesse havia linhas e tudo era escrito a mão.

Não era muito difícil saber do que se tratava. Um diário. E como V não escrevia diários, provavelmente estava com o diário de Evey em suas mãos. Um caderno onde ela escrevia seus pensamentos.

V sabia que não era certo ler algo tão pessoal de outra pessoa, mas a tentação e a curiosidade falaram mais alto e ele prometeu a si mesmo que leria somente algumas passagens. Abrindo em uma página aleatória no inicio do caderno, V começou a ler.

"V é estranho e me assusta às vezes, não sei nada sobre ele e ele sempre parece estar me observando...".

"Perdi a noção do tempo nessa caverna! V some por algumas horas e eu fico sem ter o que fazer...".

"É estranho, como um terrorista que explodiu o Old Bailey é tão educado e parece não oferecer perigo? Será somente um papel?"...

"Não consigo acreditar que ele realmente matou aquele homem, a Voz de Londres, será que eu deveria ter medo? Ele é um assassino afinal. Não sei, preciso sair daqui...".

V revirou os olhos e fechou o diário irritado, que péssima impressão ele passava! Sim, ele era um terrorista e também um assassino, mas tudo tinha um propósito, V não fazia aquilo por pura diversão.

E ela chamou sua casa de caverna? V sentiu-se um pouco ofendido, a Galeria era tudo menos uma caverna.

Mas ele não podia tirar a razão dela. Evey fora arrancada de sua vida normal e monótona e estava presa no subterrâneo com uma figura que usava máscara o dia todo. Definitivamente isso não contava pontos a favor.

Abrindo as paginas novamente, achou uma passagem escrita em letras tremidas que fez seu estomago se contorcer.

"Saí da Galeria e da minha falsa prisão há dois dias, ainda não posso crer que aquilo não foi real". Sim, foi real. Tudo o que eu passei foi dolorosamente real.

A tortura física e psicológica, como ele teve coragem? Eu sinto tanto ódio que mal consigo respirar. Como ele conseguiu ser tão frio e egoísta a ponto de torturar outro ser humano? De ver alguém sofrer além do necessário e não impedir?

Eu pensei ter visto algo nele, algo bom. Agora não sei o que pensar. Seria ele humano? Ele disse que tudo foi para o meu bem, para me livrar do medo e eu entendo. Eu juro que entendo. O fato é que, eu não tenho mais medo agora, mas também não restou muita coisa para sentir, agradeço por certas coisas, mas temo nunca poder perdoa-lo".

V fechou os olhos e respirou fundo, a dor o invadiu. Lembrava-se bem de toda a tortura que ele a submeteu. Como uma memória viva que nunca saia de sua mente. Nem ele mesmo sabia como tinha ido até o final com aquilo. Cada grito, cada lagrima, cada dor dela era como ferro em brasa que marcavam a pele dele. Mas ela não desistia, não se entregava. Ele não teve opção a não ser continuar, tirar o medo de dentro dela. Ele a salvou não é mesmo? Ou ele era realmente um monstro egoísta e frio? Será que ela o havia perdoado quando voltou na galeria antes do dia 15?

V continuou por mais algumas passagens do diário, coisas do dia-a-dia, como ela estava reconstruindo sua vida, reflexões sobre a vida e até sobre ele mesmo. Até que chegou na ultima passagem do diário, que datava de seis meses antes.

15 de novembro

Estou só na galeria. O mundo lá fora deve estar um caos, o sonho de liberdade enfim realizado. Mas por qual razão eu não me sinto feliz? Por que não estou lá fora comemorando e sorrindo como todos devem estar?

Bem, eu não tenho motivos para tal. Eu não sinto a felicidade que supostamente deveria sentir. Tudo pelo simples fato de que ele não está mais aqui comigo. Tudo o que eu sinto no momento é que eu trocaria essa maldita revolução por um dia a mais na presença dele. Sinto que se tivéssemos mais um dia tudo poderia ter sido diferente. Sinto que poderia convencê-lo a não entrar no túnel, sinto que veríamos a explosão juntos, de mãos dadas, e começaríamos uma nova vida, onde seriamos ambos livres. Sinto meu coração partido em dois, pois sei que isso nunca mais será possível. Sinto uma vontade incontrolável de chorar, de fugir, de morrer...

Ele se enganou quando disse que não havia um lugar nessa nova vida para ele. Seu lugar era ao meu lado. Vendo esse mundo novo surgir e vivendo as novas possibilidades que vamos ter. Ao meu lado.

Mas é tudo lembrança agora. Dos momentos e das conversas, até mesmo das discussões.

Não houve tempo suficiente para dizer o quanto eu o amava. O quanto eu queria que ele ficasse. V achava que era somente a personificação de uma ideia, mas eu não o via dessa forma, eu via muito além da mascara. Eu via o homem por trás dela. O homem que não merecia virar somente uma lembrança. O homem que eu amei.

Sim, o homem que eu amei. Que eu amo. Quem visse de fora com certeza acharia impossível afeiçoar-se por alguém como V. Todos o viam como um terrorista, um assassino perigoso. Eu também o vi assim até conhecer sua incrível personalidade, sua inteligência, seu senso de respeito e justiça. V me ensinou a viver sem medo e me ensinou a lutar até o fim por algo em que acreditamos.

E mais do que isso, eu aprendi a ama-lo mesmo com a barreira da máscara. Com todas as suas qualidades e principalmente seus defeitos. Ele não era nem certo nem errado para mim, ele só era a pessoa que dava sentido a tudo.

E não é disso que se trata o amor?

De repente V sentiu-se sufocado pela mascara, as mãos estavam tremendo enquanto segurava o diário aberto nas ultimas palavras de Evey, as pernas estavam fracas e ele precisou se sentar. A página estava manchada, de lágrimas provavelmente, e V sentiu toda a dor que a morte dele provocou nela. Sentiu ainda mais dor quando leu a admissão que ela o amava também, que queria ficar com ele. Ela queria ficar com o monstro que a fez sofrer e isso fez V sentir uma culpa que há tempos não sentia. Uma culpa que o deixava nauseado.

Ah Evey. V a imaginou sozinha na Galeria naquela noite, triste e sofrendo, escrevendo aquelas linhas no diário. Imaginou suas lágrimas caindo no papel, a falta de esperança por perder alguém amado. A cena foi como uma punhalada no peito de V. Pior que todos os tiros que ele havia tomado.

Ele fechou o diário devagar, o devolvendo para o criado mudo. Foi até o espelho do quarto, tirou a mascara de olhos fechados e respirou fundo algumas vezes. Abriu os olhos e se encarou por alguns momentos. V não gostava de olhar o próprio replexo no espelho, isso somente o fazia lembrar-se de quem ele era de verdade, não do personagem que ele havia criado. Sem a proteção da máscara, ele era somente um homem sem passado. Uma criatura que não era nem humana e nem não humana. Um ser sem rosto, pois aquele não era o rosto dele. Ele não era capaz de lembrar-se qual era seu rosto real.

O que ele havia feito? Como a encararia agora? Que reação ela teria ao vê-lo vivo?

V não sabia as respostas, mas tinha que encontra-las em algum lugar. Tinha que encontrar Evey e falar a verdade, e esperar pelas consequências.