Dia sem ensaio no teatro era um refresco a Finn Hudson. Significava que ele tinha a noite livre para fazer o que bem entendesse, ou quase. Por vezes Carole Hudson-Hummel ligava para o filho pedindo que ele comparecesse a uma recepção para prestigiar o padrasto. Apesar de tediosas, Finn gostava da boa comida e da bebida de graça. Festas de verdade só as promovidas pelo melhor amigo, Puckerman, que havia música alta e que ele gostava, havia as garotas (não que fosse trair Rachel, mas ele se sentia envaidecido ao ser desejado e ter o poder de recusar), e, principalmente, a banda. Puck tocava guitarra, ele tocava bateria e Dave tocava baixo. Power trio. Às vezes eles tocavam em outras festas. Às vezes nos dias de feira livre quando outros grupos da cidade, geralmente universitários, os convidam para integrar um pequeno festival. Sentia mais prazer em estar numa banda do que em cima de um palco de teatro. Mas claro que havia Rachel e Schuester e ele não gostava de decepcioná-los.
Lembra que conheceu os melhores amigos de uma vida ainda na escola. Puck e ele foram parceiros de time: jogavam futebol americano. Rachel e Kurt eram um ano mais novos e estavam sempre juntos com os amigos Tina e Sam Evans: os quatro eram freshmen na época, ao passo que Puck e Finn eram sophomore. O mundo deles era distinto até que Burt casou-se com Carole, forçando Finn e Kurt a conviverem sob o mesmo teto. Apesar do início difícil, ficaram amigos. Os amigos de Kurt rapidamente se tornaram os amigos de Finn, em especial Rachel Berry. No meio daquele ano letivo, Schuester espalhou cartazes na escola como um chamado para integrar um grupo de teatro musical amador, projeto desenvolvido por ele e Emma. Os quatro inseparáveis se matricularam, assim como Finn, que levou Puck e Dave consigo. Dave desistiu seis meses depois, mas os demais permaneceram sendo a base do grupo entre as entradas e saídas de outras pessoas.
Finn e Puck sabiam que o caminho dos dois não era acadêmico. Finn se sentia confortável na oficina e ajudando a treinar garotos. Puck abriu serviços de "marido de aluguel", em que ele e Dave faziam pequenos reparos em residências, como desentupir encanamento, montar móveis, ajustar eletrodomésticos, limpar piscinas, fazer pequenos serviços de jardinagem. Havia também o serviço sexual não-declarado e destinado apenas às esposas que os dois consideravam interessantes.
Rachel, Kurt, Tina e Sam se formaram no ano seguinte a Finn e Puck. Sam foi o único a sair da cidade, rompendo com o sólido grupo dos seis. Rachel e Kurt ainda estavam frustrados pela não-aceitação na academia de artes da metrópole, mas procuraram uma formação na faculdade comunitária em busca de uma oportunidade.
"No que está pensando?" – a namorada aproximou o corpo junto ao dele.
"Nada demais. Hoje tenho trabalho em dobro na oficina pela manhã e vou dar uma olhada no treino dos garotos no meio da tarde. É isso."
"Certo..." – ela conferiu o relógio da parede – "Estou atrasada para a minha aula" – deu um beijo no namorado antes de sair da cama.
Finn observou a namorada nua começar a vestir-se rapidamente ao lado da cama. Achava graça desses momentos. Rachel Berry era sempre assim: concentrada demais em qualquer atividade que fizesse. Treinava as canções que interpretava, fazia exercícios de voz com disciplina militar, selecionava o repertório da apresentação no restaurante, quando as garçonetes faziam um show de quinze minutos, estudava o papel na peça de teatro com afinco. Uma pena que não deu sorte para entrar nas escolas de arte que almejava. Pelo menos essa era a visão de Finn, porque Rachel viu as recusas e os argumentos insultantes de que faltava a ela naturalidade e talento para atuar apesar de ser uma boa cantora. Que integrar o programa de artes dramáticas exigiria dela um pacote mais completo.
Mas ela ainda tinha chances de integrar o programa de artes da universidade local. O teatro musical amador era uma alternativa para se conseguir currículo e o fato de ela estudar Discurso, Comunicação e Arte Teatral era um caminho alternativo para os objetivos que ela almejava. Rachel não tinha a oportunidade de estudar dança na faculdade comunitária, para isso, pedia ajuda ocasional de Mike na academia da cidade. Ela não podia pagar o curso regular mensalmente, mas tinha um acordo informal com o amigo em ter algumas aulas particulares quando os dois tinham agendas folgadas.
"Preciso ainda passar lá em casa para pegar minha mochila" – Rachel terminou de calçar o sapato.
"Não vai nem tomar o café comigo?"
"Ficou tarde demais" – Rachel deu uma rápida passada no banheiro. Enxaguou a boca e passou um pente nos longos cabelos – "Bem que você podia me dar uma carona."
Finn deu um pinote na cama, vestiu a calça e colocou a blusa jogada no chão que estava meio amassada. Calçou rapidamente o tênis e em menos de cinco minutos estava fechando a porta da quitinete junto com a namorada.
"Preciso passar lá em casa" – Rachel disse urgente – "Minha mochila está lá."
Finn acenou e estampou o meio-sorriso no rosto, gesto que lhe era característico. Rachel e Kurt moravam em um pequeno apartamento de dois quartos. A pequena diva brigou com os pais protetores e decidiu sair de casa para viver sem a interferência e ajuda deles. Finn sentiu-se ofendido por ela ter preferido dividir o aluguel com o melhor amigo dela em vez de se estabelecer na quitinete com o namorado. Depois, com o passar do tempo, viu que Rachel estava certa: ele gostava demais de ter o próprio espaço. Do jeito que estava era perfeito aos dois.
Rachel desceu da caminhonete já com as chaves do apartamento em mãos. Subiu as escadas até o segundo andar de dois em dois degraus (tinha saúde e fôlego para isso). Correu até ao quarto, juntou rapidamente os livros. Deu uma olhada na casa: Kurt já tinha ido embora para a faculdade, mas esqueceu a janela da sala aberta. Sempre fazia isso. Ela aproveitou para trancar. Desceu as escadas apressadamente e entrou na caminhonete do namorado.
"Está mesmo atrasada" – Finn admirou-se.
"Infelizmente."
"Quer que eu te busque hoje?"
"Não precisa."
Rachel Berry sempre foi uma estudante determinada, perfeccionista. Tanto que o golpe por não ser aceita na universidade da metrópole foi grande demais. Custou um mês de depressão além de acentuar o desentendimento com os pais. Era Kurt quem melhor compartilhava a dor por também ter sido rejeitado. Rachel não diz com todas as palavras, mas ela sempre se sentiu mais segura em companhia do melhor amigo, apesar de amar profundamente o parceiro e até sonhar com uma família futura com ele.
Entrou na sala de aula e ignorou os olhares atravessados dos colegas. Há muito tempo que se acostumara a ser tripudiada pelos outros. Rachel não ligava mais. Ela sabia e tinha a certeza que era muito mais, que poderia ser muito mais. Como Kurt disse certa vez: os percalços serviam apenas para tornar a história de sucesso de ambos ainda mais bonita. Por que não acreditar em um destino melhor do que estudar de dia e servir mesas até as dez da noite? Até meia noite nos finais de semana quando havia a noite de apresentação das garçonetes.
Sentou-se à cadeira e fez as anotações usuais enquanto o professor discursava sobre teorias de comunicação que ela não necessariamente se interessava, mas que faziam parte da grade curricular do curso.
"É preciso ficar atento ao sentido das palavras em cada texto escrito ou oral" – disse o professor ao entregar uma folha de papel com pequenos trechos de textos – "Porque quer queira quer não, meus queridos, o sentido da linguagem e, por seguinte, da mensagem também é político e pode ser manipulado para promover a aceitação de uma determinada linha de pensamento. Nesse exercício há uma série de trechos de reportagens factuais que falam do mesmo tema, no caso, sobre a guerra do Iraque, mas quero que vocês identifiquem as sutilezas que fazem as idéias contidas aí serem distintas umas das outras. Quero que vocês identifiquem as mensagens críticas e as mensagens que apóiam as ações do governo."
Rachel odiava a aula. Odiava fazer tal análise. Odiava ter de fazer interpretações de texto. Não era a dela. Que a chamem de alienada. Ela não se importava. Estava ali por causa do curso de interpretação. O problema era que a grade curricular do curso que era um tanto quanto inflexível em relação ao de uma universidade, ela tinha de cumprir os créditos. Leu os textos, circulou algumas palavras chaves e escreveu algumas notas. Como sempre, fez um comentário ou dois com os colegas e depois se isolou. Ou melhor: foi isolada. No fim da manhã, atravessou o estacionamento e mais uma avenida. Era horário de almoço e ela costumava comer na lanchonete ao lado da livraria por ser mais em conta. Pagou por um suco de laranja e uma porção de salada de tomate, folhas, cenoura e azeitona servida numa embalagem de plástico. Depois comprou um pacotinho com dois cookies de "sobremesa" e entrou na livraria.
Quinn Fabray estava na ala dos livros de ficção com o cabelo preso numa trança, vestida no uniforme preto da loja, que incluía uma espécie de avental marrom claro. Rachel ficava admirada com a colega de teatro: mesmo num uniforme, Quinn não deixava de ser uma mulher interessante.
"Oi" – aproximou-se da colega, que não estava surpresa. Rachel a visitava algumas vez durante a semana, sempre após as aulas, desde quando Quinn entrou no grupo teatral.
"Ei!" – sorriu discretamente, para depois voltar à postura séria que lhe era característica. Rachel pensava que Quinn se movimentava como alguém da realeza, mesmo sendo pobre.
"Comprei para a Beth" – entregou o pacotinho de cookies. Quinn aceitou de bom grado e colocou o pacotinho dentro do bolso do avental.
"Obrigada. Depois eu mando a conta do dentista" – Rachel sorriu com a pequena provocação.
"Não há nada de errado em comer um pouquinho de doce" – disse sem se incomodar com o fato de Quinn estar atenta para o movimento de outros clientes na loja – "Não tivemos chances de conversar ontem nos ensaios."
"É" – Quinn estava em modo monossilábico. Sinal de que a presença de Rachel não era oportuna naquele instante. Não que Rachel fosse indesejada aos olhos de Quinn, uma vez que a menina era uma das poucas que ofereceu amizade sem trocas. Além disso, Beth gostava da diva. Era uma das poucas que tinha paciência com a garotinha de cinco anos quando Quinn levava a pequena aos ensaios porque não tinha como pagar pela babá.
"Ocupada?" – Rachel pareceu confusa, pois a amiga não atendia a ninguém ou mesmo havia clientes à vista.
"O gerente está de mau-humor hoje e ele sabe que nem sempre você entra aqui como cliente" – o gerente era um sujeito metódico que exigia sangue e suor até o último minuto do expediente. Aquele foi um dos poucos empregos de meio período com salário razoável que Quinn pôde arrumar. Ela saia às duas, corria até a escola de Beth, pegava a filha e se dedicava às atividades domésticas a partir de então. A não ser nas noites de ensaio.
"Oh!" – Rachel acenou – "Bom, eu só passei aqui mesmo para entregar a sobremesa. Diga a Beth que eu mandei um beijo."
"Obrigada."
Rachel saiu da livraria um pouco frustrada, mas ciente de que não deveria levar nada daquilo para o lado pessoal. Como de hábito, estudou na pequena biblioteca da faculdade quando sabia que não teria Kurt para levá-la de volta para casa naquele dia. Era mais econômico ficar por ali e estudar até a hora de pegar o ônibus para o trabalho do que voltar para casa.
Chegou ao trabalho meia hora antes de precisar bater o ponto e aproveitou o tempo para ouvir um pouco de música, uma das que interpretava no espetáculo.
"Atenção ao dobrar uma esquina/ Uma alegria, atenção menina/ Você vem, quantos anos você tem?/ Atenção, precisa ter olhos firmes/ Pra este sol, para esta escuridão/ Atenção, tudo é perigoso/ Tudo é divino, maravilhoso/ Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ não temos tempo de temer a morte."
Rachel sussurrava a letra, fechou os olhos e se concentrou nas palavras e procurou imaginar a cena em que a personagem dela sobe num balcão e discursa como uma líder. Divino, Maravilhoso era uma canção de Caetano Veloso que refletia os momentos escuros que se passavam durante a ditadura militar. Foi exatamente por causa dessa canção que os tropicalistas batizaram o curto programa de televisão de mesmo nome. Era um festival quase anárquico de imagens, mas que, infelizmente, pouco sobrou para contar a respeito. Se não fossem as fotos, pequenos registros e a memória de quem viveu e viu, o programa seria uma lenda urbana, dessas que as pessoas tinham certeza se basear em fatos reais, mas não teriam como comprovar a veracidade. Acontece que quando Caetano e Gil foram presos, o diretor Fernando Faro se desesperou e destruiu todas as fitas do programa para evitar que os militares o usassem como prova contra os cantores.
História fascinante, mas que tinha nada a ver com a realidade de Rachel. Ela morava numa cidade razoável que abrigava uma grande universidade e uma grande empresa de tecnologia. Não à toa que a universidade era conhecida por oferecer fortes cursos de engenharia e de matérias exatas. Mas o programa de artes era respeitável também. A população de quase 400 mil habitantes era considerável para que a cidade tivesse alguns problemas típicos de metrópoles. Ainda assim era um lugar tranqüilo, sem muitas ocorrências graves, mas ainda era preciso ter cuidado.
"Atenção ao dobrar uma esquina..." – cantarolava enquanto vestia o uniforme: um terninho meio folgado além de um avental com o nome do restaurante bordado.
Os cabelos tinham de estar amarrados e presos numa redinha. As unhas tinham de ser bem cortadas por determinação do dono do restaurante e por questão de higiene. Enquanto a clientela não chegava ou não era significativa, os funcionários arrumavam talheres, organizavam e até limpavam. O movimento começava a partir das quatro horas. Primeiro a procura de lanches e petiscos. Depois, pelo jantar. Não era dia de ensaio e por isso Rachel atendia as mesas até mais tarde para fazer o banco de horas que lhe permitia sair para o teatro musical amador.
A noite foi tranqüila. Conseguiu o esperado em gorjetas, não precisou engolir sapo de clientes mal-educados e estressados e nem teve vontade de cuspir na comida de algum grosso nojento que a paquerou de forma imprópria. Despediu-se dos colegas perto das onze da noite quando o restaurante estava fechando. Colocou novamente as próprias roupas, a mochila nas costas e saiu caminhando na calada da noite. Rachel nunca teve problemas em andar só pelas ruas da cidade. Finn não gostava: enxergava tarados em cada esquina. Kurt se preocupava, mas ela sempre foi objetiva até no caminhar.
"Atenção ao dobrar uma esquina..." – a música não saía da cabeça – "Atenção, ao pisar no asfalto, o mangue/ Atenção para o sangue sobre o chão/ Atenção, tudo é perigoso..."
Rachel deveria ter prestado atenção no que cantava. Ao passar num pequeno parque de iluminação falha, mesmo habituada com aquilo, cruzou com um homem de boné na calçada que a abordou com um canivete.
"Não grite" – ele disse baixinho – "Passa a mochila."
As pernas estavam trêmulas, o coração disparado. Ela mal tinha certeza se ao menos estava respirando. Morrendo de pavor, passou a mochila para o assaltante. O homem a encarou e pareceu mudar de idéia. Talvez tivesse percebido que ela era uma pobre como ele. Talvez fosse um sujeito mais malicioso e obscuro que se imaginava.
"Vem comigo" – ordenou e Rachel começou a chorar. Parecia incapaz de se mexer. Estava em choque. O homem parecia sem paciência. Agarrou o pulso da cantora e a conduziu para um lugar ainda mais escuro – "Se gritar, morre."
Rachel chorava ao imaginar o que estava prestes a acontecer. O assaltante a jogou contra uma árvore. Ela tentou lutar, mas ele era mais forte e ainda tinha uma lâmina que não hesitaria em usar. Na inútil luta, Rachel ainda derrubou o boné, mas estava tão nervosa que sequer conseguia prestar atenção no rosto do agressor. Levou um soco no rosto por ter gritado, outro na boca do estômago e rapidamente foi imobilizada no chão.
"Quieta" – ordenou sussurrando enquanto se colocava entre as pernas dela ao mesmo tempo que tentava a manter imobilizada. Rachel ganhou mais um soco no estômago. Um tapa no rosto – "Eu disse, quieta ou eu vou te matar depois de te foder todinha."
Ela sentiu-se enojada pelas mãos dele que roçava contra o sexo. Deu um pequeno grito chorado quando a calcinha lhe foi arrancada e um dedo a penetrou e começou a se movimentar dentro, como e quisesse abrir espaço. Fechou os olhos e esperou pelo pior. Àquela altura, somente desejava que ele fosse rápido. Que a penetrasse de uma vez, que a fizesse sangrar e terminasse logo com isso. O dedo se retirou. Ouviu o barulho do zíper descer, estava completamente dominada e à espera. Cerrou ainda mais os olhos e chorou em antecipação. Era questão de segundos até que ele concretizasse o estupro de forma rápida e violenta.
Mas o pior não veio. O peso do corpo do agressor sumiu. Olhou para o lado e viu o ladrão rolar pela grama baixa do parque e uma pessoa passar por cima dela em direção ao sujeito. Esse alguém batia forte com os próprios punhos contra a carne do outro, que tentava reagir, mas não conseguia. Bateu até ver sangue, até o outro perder a consciência. O golpe final foi chute entre as pernas. Rachel, completamente abalada e chocada, quis correr dali. Talvez fosse a próxima. Talvez o salvador pudesse se transformar em outro estuprador. Ela não conseguia pensar direito e nem se mexer.
O suposto salvador foi até ela. Usava uma máscara e Rachel começou a chorar pensando ser mesmo outro bandido que se aproveitaria. Mas em vez de um ataque, uma mão lhe foi ofertada. Demorou alguns bons segundos para Rachel assimilar o gesto gentil.
"O-obrigada" – ela disse num sussurro e se agarrou à mão que a ajudou a se levantar.
Não ouviu uma resposta, mas o salvador a ajudou a ficar em pé. Ele pegou a mochila dela no chão e passou o braço na cintura.
"Está ferida?" – ouviu a voz sair baixinha, quase num sussurro.
"Ele me bateu forte."
"Hospital?" – disse novamente baixinho, cauteloso. Como se não quisesse ter a voz reconhecida.
"Só quero ir para casa."
O mascarado vestiu a mochila de Rachel, a colocou no colo e começou a andar sem aparentar fazer esforço algum. Rachel se sentiu estranhamente segura nos braços do desconhecido a ponto de encostar a cabeça no ombro dele e fechar os olhos. Para a surpresa dela, o mascarado a deixou no beco ao lado do edifício em que morava. Rachel foi colocada gentilmente de pé e teve a mochila devolvida. O mascarado se afastou e correu sem cerimônia em direção ao muro do fim do beco, que foi escalado em pouquíssimo tempo. Rachel arrastou a mochila até a portaria e subiu as escadas deus sabe como. Assim que colocou os pés em casa, desabou novamente a chorar. A mente estava tão confusa que ela sequer parou para se questionar como o outro sabia exatamente onde morava.
"Rachel?" – Kurt saiu do quarto para a sala. Ao ver o estado da amiga, correu para ampará-la – "Meu deus, Rach, o que houve?"
Não houve explicações de imediato. Um ombro amigo era mais importante.
Horas depois do crime e do trauma, Rachel, já com uma xícara de chá em mãos e banho tomado, sentada em cima da própria cama, conseguiu contar as linhas gerais do que aconteceu.
"Você precisa ir à polícia, Rach."
"Vou dizer o quê? Minha mochila está aqui, todas as minhas coisas e o pior não aconteceu, apesar de eu ainda sentir as mãos dele em mim..." – fez uma pausa para controlar a ânsia de vômito. Ela não conseguia evitar o nojo da sensação que a lembrança provocava – "Eu não tenho o que dizer, o que registrar."
"Como não tem? Não estou acreditando no que ouço. Você está com um olho roxo, a cara amassada, um lábio cortado, há marcas no seu pescoço e ele te violou lá embaixo, mesmo que fosse só com os dedos. Você sabe o que é isso, Rach, e precisa registrar na polícia."
"Kurt, por favor, não!"
"Alguém precisa cuidar desse bandido para que ele não faça isso a mais ninguém."
"Alguém já cuidou."
"Um mascarado que pode ser um mero ladrão com alguma decência? Isso não é suficiente, nem certo. Depois, ninguém de bem passaria num parque com a cabeça coberta. Será que não parou para pensar nisso?"
"Não importa. Ladrão ou não, ele me salvou."
"Isso não muda o fato de ter sido violada."
"Por favor Kurt..." – Rachel começou a chorar novamente.
"Ao menos ligue para Finn."
"Não!" – outro gritinho – "Ele vai saber o que aconteceu, só que não agora. Não quero. Só quero um daqueles seus comprimidos para dormir e dormir" – limpou as lágrimas do próprio rosto.
"Esse cara que te salvou? O tal mascarado? Alguma idéia de quem seja?"
Rachel balançou a cabeça e abaixou os olhos.
"Seja quem for..." – disse baixinho – "Devo a minha vida."
