"Mas você não viu quem era?" – Finn insistiu no interrogatório.
"Pela última vez, essa pessoa vestia uma máscara dessas de ladrão de residência. Só que não era um bandido... pelo menos eu acho que não" – Rachel estava angustiada com a sucessão de perguntas. Ela não foi à faculdade e havia avisado no trabalho que não poderia comparecer. Achou que passaria o dia na cama se recuperando depois da violência sofrida no dia anterior, que talvez o namorado simplesmente cuidasse dela. Não foi assim – "O que eu sei" – fez um gesto de frustração. Era irritante Finn querer saber mais sobre o salvador do que sobre o agressor – "Era que se não fosse por esse outro ladrão, que seja, eu teria sido brutalmente violentada e até morta. Fui ameaçada de morte, Finn! Por isso não me importa saber quem era ou o que ele fazia ali nas redondezas ou se era um assaltante. O sujeito me salvou e praticamente me deixou em casa."
"Você disse onde morava?" – ele perguntou em horror.
Veio a realização. Não. Ela não disse onde morava. O que isso significava? Que o ladrão a vigiava? Que era um conhecido? Quem?
"Não vê que você pode estar em perigo, Rach? Devemos chamar a polícia" – Kurt insistiu.
"Nada de polícia, ok? Se esse mascarado quisesse, teria me feito mal. Então não creio que ele represente perigo. Pelo menos não para mim."
"Certo... certo..." – Finn sentou na cama da namorada e procurou se acalmar – "E o cara que tentou... você sabe..." – estava sem jeito de dizer a palavra não exatamente por vergonha ou por infantilidade. Sentia raiva dele mesmo por não estar lá com a namorada. Omitir certas palavras ajudava a amenizar a culpa e a dor.
"Estava escuro. Ele usava boné, tinha cabelo ondulado, queixo quadrado, barba rala... era forte. Não consegui encará-lo para me lembrar precisamente das feições dele, Finn."
"Talvez não precise" – Kurt colocou a tela do computador na frente da vítima. Era o site do noticiário local. Começou a ler em voz alta uma vez que Rachel virou o rosto não conseguindo encarar a foto de arquivo do sujeito.
"Howard Battes, 33 anos, foi encontrado na madrugada de hoje algemado junto a um poste próximo ao hospital metropolitano. O metalúrgico tinha um cartaz de papelão pendurado no pescoço com os dizeres: 'sou um estuprador'. A polícia foi acionada para investigar o caso. Howard apresentava sinais de severa violência física e foi encaminhado à cirurgia para tratamento de fraturas diversas no rosto, nos dedos das mãos e no órgão sexual. O paciente se encontra na unidade de terapia intensiva, mas não corre risco de morte.
Em depoimento prestado à polícia ainda no hospital, uma testemunha disse que a vítima foi deixado no local por uma pessoa que tinha o rosto coberto por uma touca de tecido escuro. As câmeras de segurança de uma loja em frente ao hospital registraram o momento e a polícia já trabalha para identificar o suspeito. O incidente marca mais uma ação de justiceiros que atuam na cidade. No último mês, pelo menos três ocorrências atribuídas a tal mascarado foram registradas. Na última quarta-feira, o professor primário Gael James e o auxiliar de enfermagem Donald Smith foram achados algemados a um poste próximo ao departamento de polícia com provas de que eles participavam de uma rede de pedofilia.
Apesar da aprovação da população em relação às ações do grupo, o detetive Daniel Belford faz questão de ressaltar que a ação desta ou dessas pessoas é perigosa e igualmente criminosa. 'Se você foi testemunha de um crime ou precisa fazer uma denúncia, não hesite em procurar a polícia', o detetive apelou. 'Essa é a melhor forma que as pessoas têm em cumprir a cidadania e contribuir para manter a boa ordem em nossa cidade. A polícia nunca deixou de cumprir o papel que lhe é designado, e fazer justiça com as próprias mãos não contribui à ordem, mas ao caos e a anarquia', finalizou."
"Agora você sabe quem foi o agressor" – Kurt colocou o computador de lado assim que leu a notícia e levantou-se e cruzou os braços – "Mais do nunca deveria fazer a ocorrência ou esse sujeito poderá ser solto tão logo receber alta do hospital."
"Kurt" – Rachel fechou os olhos – "Agora não" – e procurou se aninhar nos braços do namorado – "Já me sinto péssima o suficiente."
"Ok" – Kurt ainda não concordava com a decisão da melhor amiga em manter o silêncio.
Ele procurava se colocar no lugar dela e sabia que contar ao mundo, ou a um delegado, que sofreu uma violência dessa natureza não era algo simples. Kurt foi vítima de bullying na escola por ser abertamente homossexual, em especial por parte dos atletas de futebol americano, e decidiu manter o problema longe dos olhos dos pais e das autoridades dentro da escola por quase um ano letivo inteiro. Até que chegou a um ponto em que percebeu que Finn, Puck e Sam não iriam fazer as coisas melhorarem só por serem atletas e populares. O medo que sentia só agravava o tormento. Foi quando criou coragem e denunciou os agressores ao diretor da escola. Essa foi uma das motivações que fizeram Burt a criar a lei local anti-bullying no conselho municipal: o pai queria garantir voz e segurança às vítimas e punir os agressores. Kurt conhecia muito bem o medo e a vergonha que a melhor amiga sentia naquele momento. Por outro lado, sabia que o silêncio era pior nesse tipo de caso.
"Quer que eu ligue para Schue e diga que não iremos ao ensaio hoje?" – Finn procurou ajudar.
"Ele vai fazer perguntas que eu não quero responder."
"Você vai ao ensaio?"
"Não quero ver ninguém hoje... ninguém a não ser vocês. Diga... diga que eu adoeci, que vou aparecer semana que vem, mas vocês precisam ir. É o nosso teatro e nós juramos zelar por ele."
Rachel se referia ao pacto que os cinco originais fizeram depois da saída de Sam Evans: que enquanto eles estivessem na cidade, jamais deixariam de ajudar Schuester e Emma com o projeto. Os dois acenaram.
Kurt deixou a amiga com o irmão. Ela estaria em boas mãos, mas ele precisava ganhar a vida. Matou a faculdade para ficar com a amiga, mas não poderia fazer o mesmo com o trabalho. pegou o carro e dirigiu até a grande loja de departamento. Não era o emprego dos sonhos, mas pagava o aluguel e lhe permitia estudar na faculdade comunitária três vezes por semana. Subiu as escadas na entrada dos funcionários e foi até o armário no vestiário em que colocou a camisa polo azul com o logo da rede atacadista. Era um dos quatro fiscais da loja. Ele tinha de conferir se as prateleiras estavam bem arrumadas, se as sessões estavam limpas, reportar acidentes, resolver dúvidas de clientes. Como filho de um dos conselheiros municipais da cidade, poderia conseguir trabalho no escritório ou na empresa de alguém importante. No entanto, Kurt preferia pegar o que conseguia pelos próprios méritos. A rede de lojas de departamento tinha relação alguma com o condado, portanto, com o próprio pai.
"Precioso" – disse uma colega de trabalho assim que o viu pegar o rádio, principal instrumento de trabalho, e a planilha com as urgências do dia – "O que houve que chegou só agora?"
"Uma emergência, preciosa" – ele limitou-se a explicar – "Mas que já foi resolvida."
Kurt sorriu para a colega e revirou os olhos assim que ela virou as costas. As pessoas tinham atitudes em relação a ele que considerava idiotas. Por ser abertamente gay e por não conseguir evitar o lado afeminado, que lhe era natural, havia aqueles, especialmente as garotas, que se "desmunhecavam" na presença dele para passar a mensagem de que gostava dele ou de que aceitava ter um homossexual ao lado. Considerava que tudo aquilo era uma grandiosa merda, mas em nome da boa convivência, brincava com essa alteração de comportamento das colegas.
Começou a circular pelo departamento de roupas e perfumaria. Conversou rapidamente com meninas dos balcões e começou a trabalhar arrumando pequenas bagunças dos clientes pelo caminho. Respondeu perguntas comuns das pessoas que circulavam, acionou o pessoal da reposição de estoque duas vezes e deu atenção aos representantes das empresas que tinham produtos vendidos ali.
Nos momentos de tédio, Kurt gostava de observar a clientela e adivinhar fatos da vida delas e hábitos baseado no modo de se vestirem, postura, jeito de falar. Naquele dia, o tédio da rotina foi rompido quando viu um rosto conhecido. Santana estava acompanhada de outra garota, uma desconhecida. Andava com uma cesta de compras ainda vazia. A desconhecida parecia uma garota boba e afetada. Ao menos era muito bonita. Kurt imaginou o que faria alguém esperto e inteligente, além de sexy, querer tal companhia.
"Ei lady lips" – Santana cumprimentou o colega de teatro enquanto a companhia se distraia numa prateleira mais afastada.
"Oi! Surpresa te ver por aqui" – disse com ironia. Santana aparecia na loja de departamentos semana sim semana não em geral para comprar material de escritório, ou melhor, de faculdade. Às vezes adquiria peças de roupa porque ali era o lugar mais em conta fora a loja de usados e a de ponta de estoque.
"É o que acontece quando só existe uma única grande loja de departamento nas proximidades da universidade" – revirou os olhos.
"Interessante sua amiga" – Kurt comentou discretamente – "Parece ser uma companhia alegre demais para alguém tão ranzinza."
"Ah, por favor" – ela respondeu baixinho, mas com a usual postura auto-confiante – "Eu só estou tentando entrar nas calças dela."
Kurt não se surpreendeu. Santana também era abertamente gay. Mercedes comentava nos intervalos dos ensaios no quanto às vezes era difícil tê-la como companheira de quarto pela rapidez com que arrumava namoradas na universidade, ao passo que a diva negra tinha estilo de vida mais monogâmico e heterossexual. Longe do estereótipo, Santana andava bem arrumada, maquiada, com vestidos justos que valorizavam o corpo em forma. Os únicos acessórios masculinos vistos nela eram algumas das jaquetas que gostava de usar, mas ninguém diria que ela era gay por causa disso.
"Vai ao ensaio hoje?" – Santana acenou – "Posso te pedir um favor?" – o aceno dessa vez foi mais cauteloso – "É provável que Finn, Rachel e eu não vamos poder aparecer. Rachel está impossibilitada de sair da cama. Você poderia avisar ao Schuester?"
"Claro" – Santana franziu a testa – "Está tudo bem com Rachel?"
"Ela vai ficar bem" – Kurt desconversou – "Ela... eu não sei se deveria dizer isso... mas Rachel foi assaltada ontem depois do trabalho" – achou melhor omitir a outra parte da história. Não cabia a ele entrar em detalhes, sobretudo para Santana Lopez.
"Oh, deus" – a universitária estava legitimamente preocupada – "Machucaram ela?"
"Rachel foi agredida" – limitou-se a dizer.
"Isso é terrível, Kurt. Espero que ela fique bem depois dessa."
"Eu também" – suspirou – "É por isso que não vamos, entende? Por mais que Rachel insista para eu ensaiar, prefiro ficar com ela."
"É justo. Eu avisarei o pessoal. Fique tranqüilo."
"Ah, Santana? Será que você poderia dizer ao seu modo que visitas não são desejadas neste momento? Seria um grande favor."
"Tudo bem..." – a conversa dos dois foi interrompida com a aproximação da tal amiga.
"Boa sorte" – Kurt se despediu da colega e ganhou uma piscadela como resposta.
Balançou a cabeça e continuou da entediante rotina. Ao menos, em duas semanas, aconteceria o rodízio de funções e ele passaria o próximo mês no caixa. Suspirou. Talvez fosse mesmo hora de começar a arrumar outro tipo de trabalho.
Rachel ainda passaria o fim de semana em casa na tentativa de se recuperar de agressão. Mesmo sem ainda estar pronta, foi trabalhar na terça-feira quando o rosto desinchou e Finn garantiu que a levaria e buscaria. Voltou a estudar na quarta-feira junto com Kurt e no mesmo dia, às nove horas da noite em ponto, entrava porta adentro do teatro em companhia do namorado e do melhor amigo. Não estava totalmente pronta ou certa do retorno, mas uma coisa era certa: não deixaria que a sombra de Howard Battes estragasse a vida.
Beth foi a primeira a cumprimentá-la. Abraçou as pernas da pequena diva e perguntou como ela tinha machucado o rosto.
"Eu fui desastrada" – explicou à criança.
"Dói?"
"Não mais."
"Oras se a nossa pequena adorável não veio nos prestigiar" – Quinn abraçou a colega – "Está tudo bem?" – sussurrou no ouvido dela. Rachel limitou-se a acenar.
Entraram juntas no palco. Lá dentro, encontraram Matt, Puck, Tina, Mike e Brittany, além do diretor Schuester e de Emma. Como sempre, Santana, Mercedes e Artie foram os últimos a chegarem. Rachel relatou rapidamente o assalto, sem entrar em detalhes. Era melhor discursar para todos de uma vez do que lidar com olhares suspeitos fixados nos hematomas no rosto. Havia alguns outros pelo corpo que não havia a menor necessidade de mencionar. A descrição da violência, mesmo que amenizada, acabou por afetar o clima do grupo teatral, o que motivou uma pequena Jam puxada pela própria Rachel.
"Não chore ainda não/ que eu tenho um violão e nós vamos cantar/ Felicidade aqui pode passar e ouvir/ e se ela for de samba há de querer ficar."
Kurt pegou nas mãos da melhor amiga e começou a harmonizar.
"Seu padre toca o sino que é pra/ tudo mundo saber que a noite é criança/ que o samba é menino/ que a dor é tão velha que pode morrer/ olê, olê, olê, olá/ Tem samba de sobra, quem sabe sambar/ que entre na roda, que mostre o gingado/ mas muito cuidado, não vale chorar."
Olê, Olá, de Chico Buarque, soou consolador para Rachel e aos poucos foi tomando o grupo. Quinn, a que tinha receio de cantar por ter a voz mais fraca do grupo ao lado de Matt e Brittany. Mesmo assim, ela assumiu a segunda parte. Passou as mãos delicadamente no rosto ferido da amiga e cantou.
"Não chore ainda não/ que eu tenho uma razão para você não chorar/ amiga me perdoa se eu ínsito à toa/ mas a vida é boa para quem cantar."
Puck bateu a mão no peito e continuou.
"Meu pinho, toca forte que é pra todo mundo acordar/ não fale da vida/ não fale da morte/ tem dó da menina/ não deixa chorar/ olê, olê, olê, olá/ tem samba de sobra quem sabe sambar/ que entre na roda que mostre o gingado/ mas muito cuidado não vale chorar."
Finn pegou na mão da namorada e a beijou antes de cantar.
"Não chore ainda não/ que eu tenho a impressão que o samba vem aí/ Um samba tão intenso que as vezes eu penso que o próprio tempo vai parar para ouvir."
Mercedes, Santana e Artie completaram a música harmonizando suas vozes lindamente.
"Luar, espere um pouco que é pro meu samba poder chegar/ eu sei que o violão está fraco, está rouco/ mas a minha voz não cansou de chamar/ olê, olê, olê, olá"
Santana continuou sozinha.
"Tem samba de sobra ninguém quer sambar/ não há mais quem cante não há mais lugar/ o sol chegou antes do samba chegar/ quem passa nem liga já vai trabalhar/ e você minha amiga/ já pode chorar."
Após a jam, alguns desabafos e algumas lágrimas espontâneas em solidariedade e em desabafo. Levou meia hora até que eles pudessem voltar a se concentrar nos ensaios. Finn continuou sem acertar o tom de Tropicália, o que fez o diretor Schuester secretamente começar a considerar um substituto. Mas Puck não era tão melhor, Kurt não servia para o papel, Artie era cadeirante. Certo ranço racista o fazia resistir a idéia de colocar Mike no papel principal. Matt era um péssimo cantor, apesar de bom ator e dançarino.
Rachel tinha razão quando decidiu encarar as ruas e não deixar que o medo tomasse conta. O dia no trabalho foi horrível, mas o teatro a fez se sentir muito melhor. O grupo, os ensaios, as músicas, tudo servia como uma grande válvula de escape para ela. Tinha certeza que os outros consideravam o mesmo, caso contrário não se dedicariam tanto a algo por qual não recebiam um centavo sequer para fazer. Agradeceu pelo apoio, pela força adicional e foi embora na companhia do melhor amigo. Finn e Mike ficaram até um pouco mais tarde para ajudar a guardar os elementos de cena. Santana e Artie também estavam por ali discutindo coisas da peça com o diretor.
"Machucou as mãos?" – Finn observou o colega deficiente físico quando ele foi passar uma peça de cenário de isopor para ser guardada. A mão do colega apresentava alguns hematomas e um pequeno esfolamento, como se Artie tivesse socado um saco de areia sem usar proteção.
"Vida dura de cadeirante" – Artie disse.
Finn acenou.
"Vamos embora, mestre geek" – Santana gritou na porta de saída – "A não se que você queira dormir com os morcegos."
"Isso é fetiche para o Batman" – o cadeirante sorriu e acompanhou a amiga – "Vejo vocês na sexta" – acenou para os outros colegas.
"Até lá" – Finn acenou com a mão.
Depois de ele e o diretor trancaram o teatro, entrou na velha caminhonete e ligou o rádio. Mas ao contrário da namorada que buscava sempre músicas que a agradassem, Finn preferia ao noticiário. O locutor informava que Howard Battes recebeu alta do hospital e foi liberado pela polícia após prestar depoimento sobre o tal suposto justiceiro. O sangue de Finn ferveu. Inacreditável que a polícia deixasse um cretino daquele solto pelas ruas, pronto para tentar capturar outra vítima. Resistiu a urgência em descobrir o endereço do bastardo e terminar o serviço que o justiceiro encapuzado não fez: matar o desgraçado. Procurou se acalmar e se racional. Rachel precisava dele. Mas como era difícil não deixar-se envolver pelo sentimento de vingança e à tentação em fazer justiça com as próprias mãos. O mascarado não foi eficiente o bastante. Finn fechou os olhos e socou o volante. Então respirou fundo e ligou o carro com o pensamento salvador: Rachel precisava dele. Rachel precisava dele por inteiro.
